O legado da Copa: o que será dos 12 estádios usados no Mundial

Lucas Borges, para o ESPN.com.br

A Copa do Mundo acabou, os jogadores das 32 nações que disputaram o torneio voltaram para casa, assim como a maioria dos turistas. Ficaram os 12 estádios-sede do Mundial construídos a custo altíssimo, todos eles com alguma ajuda pública.

Como serão pagas a partir de agora essas mega arenas, como elas serão usadas e quem vai usá-las? Descubra qual será o legado desse investimento bilionário. 

Beira-Rio

Gabriel Heusi/Portal da Copa
Beira-Rio, Porto Alegre
Beira-Rio, Porto Alegre

Um dos três estádios privados da Copa do Mundo, o Beira-Rio, a casa do Internacional, foi reformado para a Copa do Mundo, segundo o clube, por pouco mais de R$ 330 milhões, com financiamento federal de R$ 275,1 milhões via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O Inter desembolsou R$ 26 milhões decorrentes da venda do terreno do antigo Estádio dos Eucaliptos, e o restante do investimento veio da Brio, empresa criada pelo clube em parceria com a empreiteira Andrade Gutierrez, responsável também pelas obras.

Em contrapartida, o Inter cedeu à Brio o direito de explorar por 20 anos as receitas dos 7 mil lugares de camarotes e áreas VIPs, área comercial para publicidade, placas de publicidade - exceto aquelas em volta do gramado -, parte das vagas de estacionamento, venda do marketing esportivo do estádio, exploração de shows e eventos. O Inter permanece com os direitos sobre bilheteria e com 2,1 mil vagas do atual estacionamento.

Ainda foram gastos mais R$ 24 milhões para estruturas provisórias exigidas pela Fifa para a Copa do Mundo, os quais, segundo o Inter, foram pagos através de um compromisso com o governo do estado depois de o clube oferecer como contra partida a exploração de áreas de publicidade para empresas privadas. O estado também ofereceu incentivos fiscais. Nada das estruturas temporárias permanecerá no Beira-Rio.

O Inter não tem, portanto, débitos referentes à reforma do campo a quitar nos próximos anos.

O estádio, que teve capacidade de 50 mil lugares durante a Copa do Mundo, volta a comportar 56 mil espectadores depois do Mundial com a liberação de espaços exigidos pela Fifa. O clube estuda se vai retirar as cadeiras das arquibancadas atrás dos gols, setor onde costumam ficar as torcidas organizadas.

Arena da Baixada

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Arena da Baixada, Curitiba
Arena da Baixada, Curitiba

A Arena da Baixada é outro dos estádios privados construídos para o Mundial. De posse do Atlético-PR, o campo foi reformado - informações do governo do estado -, por R$ 330 milhões, mesmo custo da remodelagem do Beira-Rio.

A 'engenharia financeira' que possibilitou a modernização do palco é complexa: governo do Paraná, prefeitura de Curitiba e Atlético colocaram R$ 61 milhões cada no negócio, afirma Mário Celso Cunha, secretario estadual da Copa do Mundo. Reginaldo Cordeiro, secretario municipal da Copa, declara que a prefeitura desembolsou apenas R$ 14 milhões.

Foram arrecadados R$ 131,1 milhões em empréstimos com o BNDES por meio da Fomento, empresa do estado paranaense. O Atlético tem três anos de carência e 15 anos a partir de então para pagar o financiamento.

O projeto foi questionado pelo Tribunal de Contas da União. A Fomento não teria cobrado juros do Atlético.

O Atlético deu como garantias para o empréstimo o seu Centro de Treinamentos além de títulos de potencial construtivo. O clube se vangloria de ter tocado a obra, que teve atrasos e foi ameaçada pela Fifa de ficar fora do Mundial, em autogestão, sem a necessidade de contratação de uma empreiteira.


Arena Corinthians

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Arena Corinthians, São Paulo
Arena Corinthians, São Paulo

É o terceiro estádio particular da Copa. Seu custo era inicialmente de R$ 820 milhões, mas já chegou a 1,2 bilhão devido a juros e gastos extras, como R$ 70 milhões para estruturas temporárias exigidas como palco da abertura do Mundial, 12 milhões para retiradas de dutos da Petrobras que estavam enterrados no terreno em Itaquera, Zona Leste de São Paulo e R$ 20 milhões para construção de um museu do Corinthians, a ser erguido.

Um acidente vitimando dois operários no final de 2013 atrasou os trabalhos - o estádio só deve ficar completamente pronto em 2015. Outro trabalhador faleceu no local em 2014.

Corinthians e Odebrecht, empreiteira que tocou a obra e é parceira do clube na administração do estádio, contavam com R$ 400 milhões do BNDES e R$ 420 milhões em títulos da prefeitura municipal para o projeto. Como houve atraso na liberação dos dois recursos, a Odebrecht foi obrigada a investir dinheiro próprio e a solicitar novos empréstimos para que o estádio ficasse pronto.

O clube tem 15 anos para pagar o BNDES e a empreiteira e fará isso através de um fundo criado com a própria Odebretch para onde irão todas as receitas com o estádio. Sobrando algum valor, 50% é do clube. O Corinthians ainda não conseguiu vender os direitos do nome da arena, missão à qual o ex-presidente corintiano Andrés Sanchez tem se prestado - espera-se R$ 400 milhões com essa negociação. Tampouco se iniciaram até aqui a venda de espaços comerciais e camarotes, outra fonte de renda importante.

A administração do campo é toda do Corinthians, mas o clube pode perder a gestão caso não consiga pagar as dívidas. Estima-se que a administração da nova casa alvinegra custe R$ 100 milhões anuais e que ela gere R$ 200 milhões por ano em receita.

As arquibancadas provisórias que durante o Mundial aumentaram a capacidade de público de 48 mil lugares para 68 mil lugares serão retiradas.

Maracanã

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Maracanã, Rio de Janeiro
Maracanã, Rio de Janeiro

A terceira reforma do Maracanã nos últimos 14 anos foi a mais cara de todas. Depois de gastar R$ 253 milhões com o estádio antes do Mundial de Clubes de 2000 e R$ 428 milhões sete anos depois, para o Pan-Americano de 2007, o governo do estado do Rio de Janeiro dispendeu R$ 1,1 bilhão para deixar pronta a casa da final da Copa do Mundo, 40% a mais do que o previsto.

Recursos do BNDES correspondem a 57% do investimento total e o restante saiu do Tesouro Estadual do Rio de Janeiro. O Maracanã foi concedido até 2048 a um consórcio formado por Odebrecht, pela IMX, do empresário Eike Batista, e pela norte-americana AEG.

Pelo acordo, o conglomerado deve pagar R$ 5 milhões anuais e investir R$ 600 milhões no entorno do complexo do estádio. A parceria esteve a ponto de ruir depois que o governo impediu a demolição do parque aquático Julio Delamare e do estádio de atletismo Célio de Barros, que seriam reconstruídos pelo Consórcio.

Botafogo, Flamengo e Fluminense já assinaram contrato para utilizarem o Maracanã nos próximos anos, cada um com suas especificidades e com duração diferentes.

Mineirão

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Mineirão, Belo Horizonte
Mineirão, Belo Horizonte

Foram necessários R$ 695 milhões para que o Mineirão se transformasse em um dos estádios que seriam utilizados durante o Mundial, R$ 400 milhões a partir de financiamento do BNDES e o restante dos bolsos da Minas Arena, consórcio formado pelas empresas Construcap, Egesa e HAP Engenharia que administrará o campo pelos próximos 24 anos.

Gera polêmica o fato de o governo do estado garantir à Minas Arena um lucro mínimo durante o período de concessão privada. Segundo reportagem da 'Revista Época', R$ 66 milhões já foram transferidos pelo estado e mais R$ 20 milhões devem ser pagos nos próximos meses.

O Ministério Público de Minas Gerais questionou o contrato e cogitou-se a abertura da CPI do Mineirão.

Dos dois maiores clubes do estado, o Atlético-MG não aceitou os termos impostos para utilizar o estádio e apenas o Cruzeiro o adotou como casa. O time celeste assinou contrato para mandar seus jogos como mandante ali até 2038, dividindo receitas com estacionamentos, bares, restaurantes e lanchonetes.

Arena Pantanal

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Arena Pantanal, Cuiabá
Arena Pantanal, Cuiabá

A Arena Pantanal vive um impasse ao final da Copa do Mundo. A exemplo de outros estádios construídos para o Mundial, como a Arena da Amazônia e o Mané Garrincha, o campo foi construído em uma cidade que não conta com times nas principais divisões do futebol nacional, na capital Cuiabá.

A equipe de maior destaque do Mato Grosso no momento é o Luverdense, que disputa a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e é de Lucas do Rio Verde, a 350km da capital.
O Cuiabá Esporte Clube, time emergente fundado em 2001, está na Série C

Duas partidas da Copa do Brasil, Mixto x Santos e Cuiabá x Internacional e uma da Série B, Luverdense x Vasco, foram disputadas no estádio antes do Mundial e um outro jogo da Segundona está marcado para 15 de julho, Vasco x Santa Cruz.

O governo estuda conceder o palco à iniciativa privada.

Foram gastos R$ 620 milhões, de acordo com o governo estadual, para a construção da Arena Pantanal, R$ 342 milhões em empréstimo do BNDES e R$ 280 milhões do próprio governo. Bem acima dos R$ 342 milhões inicialmente previstos.

Mané Garrincha

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Mané Garrincha, Brasília
Mané Garrincha, Brasília 

O estádio mais caro da Copa sofre do mesmo problema que a Arena Pantanal: não há times do Distrito Federal nem mesmo na terceira divisão nacional.

O governo estadual fala em R$ 1,4 bilhão gastos pela da Terracap, empresa pública com autonomia administrativa e financeira, na reconstrução do Mané Garrincha, mas o Tribunal de Contas do Distrito Federal diz ter identificado sobrepreço em compras e pagamentos por serviços não executados, entre outras irregularidades e garante que o valor final se aproxima dos R$ 2 bilhões.

Inicialmente, previa-se investimentos de R$ 696 milhões.

Para impedir que o estádio vire um ‘elefante branco', o governo estadual conta para o período pós-Copa, no segundo semestre do ano, com a realização de jogos de futebol e shows no local. Os eventos estão em processo de agendamento e só após confirmação poderão ser divulgados.

Além disso, Brasília foi confirmada como sub-sede das Olimpíadas de 2016, e o Mané Garrincha vai receber partidas de futebol feminino e masculino e, em 2019, receberá a Universíade, segundo maior evento esportivo universitário do mundo.

O modelo de gestão do estádio após a Copa do Mundo está em fase de estudos técnicos na Terracap.

Nas obras do Mané Garrincha ocorreu a primeira das oito mortes registradas nas obras dos estádios para a Copa.

Arena Pernambuco

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Arena Pernambuco, Recife
Arena Pernambuco, Recife

São nebulosas as informações sobre o dinheiro investido na construção da Arena Pernambuco, estádio erguido distante do Centro de Recife, em São Lourenço da Mata, Região Metropolitana da capital.

O governo pernambucano alega ter recebido empréstimos de R$ 276,7 milhões do BNDES e de 217,9 milhões do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) para bancar a obra, mas segundo o Portal da Transparência do governo federal, R$ 922 milhões foram cedidos pelos bancos em questão.

O estado se compromete a garantir o lucro do consórcio responsável pela administração do estádio até 2043, a Arena Pernambuco Negócios e Investimentos, Parceria Público Privada (PPP) da Odebrecht com o governo de Pernambuco.

O Náutico assinou contrato para disputar suas partidas no campo pelos próximos 30 anos, recebeu 1,5 milhão mais verba para modernização do CT Wilson Campos, poderá comercializar parte das propriedades da arena, mas não terá direito a 20% de suas bilheterias, nem poderá utilizar o local em datas que não forem de jogo.

Santa Cruz e Sport são obrigados a fazer no mínimo duas partidas por ano na arena.

O consórcio pretende arrecadar fundos com shows, feiras, convenções e outros espetáculos. Já foram recebidos R$ 100 milhões com a venda dos direitos do nome do estádio para a cervejaria Itaipava.

Ao construir o estádio em São Lourenço da Mata, o governo planeja desenvolver a região oeste do Recife. Estão previstas para os próximos 15 anos as construções na região de 4.500 unidades habitacionais, parques, centro de convenções, shopping center, campus universitário, torres de escritórios e prédios públicos.

Fonte Nova

Francisco De Laurentiis/ESPN.com.br
Fonte Nova, Salvador
Fonte Nova, Salvador

À primeira vista, o valor da reforma da Fonte Nova parece baixo se comparado ao dos outros estádios da Copa do Mundo, R$ 690 milhões, R$ 400 milhões do BNDES e o restante bancado pelas empreiteiras OAS e Odebrecht. Mas a casa de Salvador no Mundial vai custar muito mais aos cofres públicos depois de encerrado o torneio.

O governo da Bahia terá de arcar com uma despesa de R$107,320 milhões anuais pelos próximos 15 anos segundo o contrato de parceria público privada para a administração da arena com OAS e Odebrecht, totalizando mais R$ 1,6 bilhão.

A concessão também envolve a exploração econômica dos bens móveis e imóveis que integram a Fonte Nova pelos próximos 34 anos.

O Bahia firmou acordo para usar o campo para disputar seus jogos ali até o final de 2017 com garantia de que receberá pelo menos R$ 9 milhões anuais em bilheteria.

A Fonte Nova também conseguiu, a exemplo da Arena Pernambuco, vender os direitos do nome do estádio à cervejaria Itaipava por R$ 100 milhões.

Castelão

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Castelão, Fortaleza
Castelão, Fortaleza

O modelo da concessão do Castelão é similar ao da Fonte Nova. A reforma do estádio custou até menos do que o previsto, 518,6 milhões, R$ 351,5 milhões do BNDES e R$ 194,4 milhões do governo cearense.

Além disso, está previsto que o estado pague prestações mensais de R$ 407 mil por oito anos ao parceiro responsável pela administração do campo, o que equivale a mais R$ 39,07 milhões, bem menos do que ainda deve ser pago pelo governo baiano.

O estado cearense tem direito à receita de até 60 partidas de futebol realizadas no Castelão e a metade dos lucros obtidos com eventos além do futebol.

Inicialmente, o estádio foi concedido a um consórcio formado majoritariamente pela Galvão Engenharia S.A, que neste ano abriu mão do contrato. A administração passou para a BWA eventos.

Até então, o Ceará Esporte Clube tinha um acordo de exclusividade para jogar no Castelão até 2019 recebendo R$ 130 mil mensais, mais uma parcela única de R$ 1,5 milhão. A BWA, contudo, ameaça romper o vínculo. Um novo vínculo com o rival Fortaleza poderia ser feito.

Arena Amazônia

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Arena da Amazônia, Manaus
Arena Amazônia, Manaus

A Unidade Gestora do Projeto Copa, UGP, órgão criado pelo governo de Amazonas para gerenciar os projetos da Copa do Mundo e a Fundação Vila Olímpica, instituição responsável pela administração da Arena Amazônia, também estatal, divergem sobre os custos da nova Arena da Amazônia.

A UGP afirma que a obra custou 594 milhões a serem pagos em 20 anos. Já a Fundação declara que R$ 669,5 milhões foram investidos no projeto com prazo de reembolso de 30 anos. A verba veio do BNDES, R$ 400 milhões e o restante, do governo estadual.

Amazonas também tem a missão de não deixar a Arena da Amazônia virar um 'elefante branco'. Como em Cuiabá e Brasília, em Manaus não há equipe no primeiro escalão do futebol brasileiro. Nem mesmo na terceira divisão do campeonato nacional.

O estádio deverá ser entregue à iniciativa privada.

O governo estadual contratou a empresa britânica Ernst Young para realizar uma consultoria que apontará opções viáveis de utilização do estádio. A previsão é de que o estudo conclusivo seja entregue no mês de agosto próximo. Apesar da consultoria ainda não ter sido concluída, foi divulgada uma prévia que apontou duas alternativas para a gestão da Arena da Amazônia: operação por empresa terceirizada e concessão onerosa por duas décadas.

Enquanto isso não ocorre, a Fundação Vila Olímpica organiza um calendário de eventos solicitados por empresas locais, como shows musicais, eventos futebolísticos e religiosos.
Durante as obras da Arena da Amazônia faleceram três trabalhadores.

Arena das Dunas

ESPN.com.br
Arena das Dunas, Natal
Arena das Dunas, Natal

Mais um estádio em que a verdadeira conta chega para os contribuintes depois da Copa. A Arena das Dunas foi orçada em cerca de R$ 400 milhões, R$ 395 milhões em empréstimo do BNDES contraído pela OAS, empreiteira responsável pela construção e pela administração do campo em parceria publico privada por 20 anos e o restante em recursos do estado do Rio Grande do Norte e da própria empreiteira.

O governo deve pagar prestações mensais de R$ 10 milhões à OAS por 11 anos. A partir de então, serão três anos depositando R$ 2,7 milhões mensais à parceira. E por fim, mais três anos com pagamento de R$ 90 mil por mês.

No fim, seriam pagos R$ 1,4 bilhão, valor que pode cair dependendo dos lucros do estádio, que são divididos pela parceria.

Segundo reportagem do ESPN.com.br, o governo potiguar ainda não terminou de pagar as estruturas temporárias que foram usadas na Arena das Dunas durante a Copa do Mundo. O total do serviço passa de R$ 26 milhões, mas até agora, apenas metade desse valor foi depositado, já com atraso, para a empresa que fez as obras - a escolha se deu por meio de
uma licitação.

Com a demora no pagamento, a companhia pensa em paralisar a desmontagem se novos acertos não forem realizados. O próximo jogo no estádio, marcado para o dia 15 de julho, entre América-RN e Bragantino, válido pela 11ª rodada da Série B.

ABC e América receberam R$ 2 milhões cada para usarem o estádio por cinco anos a partir do fim da Copa do Mundo.

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