Ex-palmeirense mentor de Gigghia montou o Uruguai, mas perdeu o Maracanazo: conheça Emerich Hirschl

Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
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Emerich Hirschl (primeiro de pé, à esq.): seis de seus comandados eram titulares no Maracanazzo
Emerich Hirschl (primeiro de pé, à esq.): fora do Maracanazo

Juan Lopez entrou para a história como o técnico do Uruguai no título da Copa de 1950 no Brasil. Mas se dependesse do plano arquitetado pelo Peñarol, outro nome estaria no comando da Celeste no bi mundial: Emerich Hirschl. Ele foi o responsável por promover o então desconhecido Alcides Ghiggia para a equipe principal dos carboneros menos de um ano antes do Maracanazo.

Mas não foi o escolhido para a função. Os motivos que levaram o húngaro a não disputar o Mundial ficaram 64 anos escondidos do público e foram revelados no livro "Maracanã, a história secreta", do jornalista Atílio Garrido.

Por ironia do destino, Emerich começou a carreira justamente na cidade de São Paulo, onde, nesta quinta-feira, Uruguai e Inglaterra se enfrentam na Arena Corinthians, pela segunda rodada do grupo D da Copa do Mundo (jogo com transmissão ao vivo dos canais ESPN, do WatchESPN e acompanhamento em tempo real do ESPN.com.br). Hirschl foi auxiliar e técnico do Palmeiras no fim da década de 30 antes de alçar voo como um dos mais respeitados treinadores da América do Sul.

Tudo começou, no entanto, com um encontro inusitado em Paris.

O convite de Matarazzo

Hirschl estava na capital francesa para tentar renovar sua permissão para voltar aos EUA, onde encerrou a carreira como jogador profissional no time judaico Hakoah All Star, de Nova York. Um encontro com o Conde Matarazzo, o homem mais rico do Brasil na época, mudou o destino do húngaro. O então presidente de honra do Palestra Itália o convidou para trabalhar no clube paulistano em 1929.

Ele aceitou e ficou como auxiliar de Eugenio Medgyesy "Marinetti". Segundo o jornalista e historiador Fernando Gallupo, Hirschl comandou o time em apenas dois jogos: na vitória por 2 a 1 diante da Portuguesa e na derrota para o Corinthians por 4 a 1, no último jogo do Paulista de 1929 - a equipe terminou na terceira colocação.

Após sair do país, a carreira começou a deslanchar quando partiu para a Argentina, sendo o primeiro treinador estrangeiro no país. Ele comandou, entre outros, o Gymnasia y Esgrima e ganhou o apelido de "El Mago". Com a equipe de La Plata, fez boas campanhas e foi para o River Plate, onde faturou o bicampeonato argentino em 36 e 37, no grande time antes da "Máquina" da década de 40.

Parado pelo "Rolo Compressor" em Porto Alegre

Com a fama de ser um dos melhores técnicos do continente, foi contratado pelo Cruzeiro de Rio Grande do Sul em 1945, onde ficou um ano e meio. O time conseguia rivalizar com Inter e Grêmio sob o patrocínio de Ernesto Di Prímio Beck. Chegaram os jogadores argentinos Flamini e Lombardini, que conseguiram levar o clube ao vice-campeonato gaúcho e ao título da Taça Porto Alegre de 47.

A conquista foi impedida pelo Internacional, no time que ficou conhecido como "Rolo Compressor". Um ano e meio no comando foi suficiente para Hirschl ser considerado um dos maiores treinadores da história do Leão. Depois, teve uma rápida volta ao Gimnasia até chegar ao Uruguai.

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Ghiggia, em foto de março deste ano: revelado por Hirschl
Ghiggia, em foto de março deste ano: revelado por Hirschl

Comandante da "Esquadrilha da Morte"

Hirschl desembarcou em Montevidéu em 1949 para trabalhar no Peñarol em uma década dominada pelo Nacional - o time tinha vencido seis dos oito nacionais, já que em 1948 o campeonato não ocorreu por causa de uma greve dos jogadores.

Em 1949, porém, o Aurinegro conseguiu quebrar a hegemonia dos Albos de maneira invicta com o time que seria a base da seleção do uruguai. O ataque era conhecido como "Esquadrilha da Morte" era formada por Alcides Ghiggia, Juan Eduardo Hohberg, Oscar Míguez, Juan Alberto Schiaffino e Ernesto Vidal. Nada mais natural que o idealizador deste time comandasse a Celeste Olímpica.

A especulação era justa. Já no ano da Copa no Brasil, a seleção uruguaia passava por uma crise nos bastidores. A equipe não se encontrava em campo. E nem fora dele: três comandantes tinham passado pelo Uruguai no ano da Copa.

Uma guerra nos bastidores, então, se iniciou entre Peñarol e Nacional. Os dois times que dominavam o futebol local começaram uma batalha de nervos para ter o técnico preferido no comando da seleção. Hirschl tinha apoio dos seus comandados, que formavam a base da equipe. Enrique Fernández, ligado historicamente ao Nacional, era o técnico do time uruguaio.

Os carboneros chegaram a boicotar a Celeste e seus dirigentes foram acusados de pedirem para seus jogadores fazerem corpo-mole. Coincidência ou não, o Uruguai foi derrotado por 2 a 1 pelo Brasil de Pelotas em um amistoso em pleno centenário. Dois dias depois, o Peñarol massacrou o mesmo time gaúcho por 7 a 1. Com isso, Fernandez foi demitido. A bola da vez era Hirschl.

Porém, os rivais não iam deixar barato. Quando ele seria nomeado para o cargo, os Albos chegam com a bomba: não aceitavam o húngaro por razões de caráter. O diretor do Nacional, Wilson Ferreira, foi até Buenos Aires e voltou com a denúncia de que Hirschl foi banido da Argentina por fazer parte de um esquema de suborno de jogadores para salvar o Banfield do rebaixamento no Campeonato Argentino.

"Boletim nº878. Resolução do Tribunal de Penas de 13 de janeiro de 1944. O ex-Treinador Emerico Hirchl reconhece em sua declaração por tentativa de suborno ao goleiro Sebastián Gualco do Ferro Carril por $2.000 pesos." Na resolução, ele foi "Expulso por amoralidade desportiva e inabilitado para dentro das dependências da AFA e clubes afiliados". Anos depois, todos os envolvidos no caso, incluindo dirigentes e jornalistas, foram anistiados, mas a mancha ficou.

A briga continuou por meses. O capitão Obdúlio Varela chegou a ameaçar que os jogadores do Peñarol não iriam mais à seleção se o húngaro não fosse o comandante. Uma reunião de emergência em abril definiu que os atletas permaneceriam na seleção.

Nesse cenário de caos, o Uruguai foi disputar as eliminatórias sem treinador. Chegando ao Rio de Janeiro, descobriu que o Peru tinha desistido de participar de última hora. Com isso, a Celeste e o Paraguai se classificaram automaticamente.

Nessa batalha, o Peñarol acabou derrotado. Na tentativa de acalmar o clima político, a AUF escolheu Juan Lopez, do pequeno Central Español e que tinha vencido o Sul-Americano de 47 com a Celeste, como técnico.

O Peñarol aceitou, mesmo com o gosto amargo e a certeza de que não se responsabilizaria pelo iminente fracasso em solo brasileiro. Por ironia do destino, os carboneros entraram para a história como o time que cedeu 9 jogadores que ajudaram a calar o Maracanã em um dos maiores feitos do futebol.

E Emerich Hirschl, o homem que transformou o Peñarol em um time campeão, que revelou Ghiggia para o mundo, ficou fora da maior de todas as festas uruguaias.

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