Lado B da Copa: Muro de Berlim ainda separa o futebol na Alemanha

André Donke, Guilherme Nagamine e Jean Pereira Santos, do ESPN.com.br
Era 17 de novembro de 2010. O empate sem gols com a Suécia, em Gotemburgo, pode ter servido apenas para o técnico Joachim Low testar novos nomes na seleção alemã visando a Eurocopa de 2012 e a Copa do Mundo de 2014. Porém, um significado histórico também estava por trás deste jogo.

Precisamente aos 32 minutos do segundo tempo, o quarto árbitro levantou a placa não apenas para anunciar duas substituições. Na verdade, ele indicaria um momento único para o povo alemão: a entrada de Mario Gotze e André Schurrle no gramado, os primeiros jogadores a defender os tricampeões mundiais nascidos após a reunificação do país, em 1989.

O fato ocorreu poucos dias após o aniversário de 21 anos da queda do Muro de Berlim e um mês depois da data que marcou 20 anos desde que Alemanha Oriental e Ocidental deixaram de existir para voltarem a ser uma só nação.

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LADO B DA COPA
Desde a reunificação da Alemanha, o futebol na parte oriental do país continua distante em relação à ocidental

Desde 3 de outubro de 1990, quando oficialmente a Alemanha voltou a ser apenas um país, muitas coisas mudaram. No entanto, o futebol foi uma das áreas que mais ficou estagnada.

Enquanto as empresas se espalharam pelo leste germânico logo que o muro caiu e as diferenças políticas praticamente deixaram de existir, no esporte mais popular do planeta, a parte oriental seguiu frágil.

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Durante sua existência, a Alemanha Oriental nunca foi à Eurocopa e só se classificou para a Copa de 1974, na qual acabou eliminada na segunda fase, após ter avançado na primeira posição da chave que tinha a Alemanha Ocidental.

Depois de 1990, a situação do futebol no lado leste germânico seguiu longe de ganhar destaque. Afinal, nenhum time desta parte integra a elite do Campeonato Alemão, e apenas três (Erzgebirge Aue, Union Berlin e RB Leipzig) irão disputar a segunda divisão. De quebra, Energie Cottbus (lanterna) e Dynamo Dresden (vice-lanterna) foram rebaixados ao terceiro escalão.

Um bom exemplo da diferença entre os dois territórios do país no futebol envolve o Union Berlin, que fica do lado leste da capital e o máximo que conseguiu desde a reunificação  foi um sexto lugar na segunda divisão. Enquanto isso, o time mais popular da cidade, o Hertha, é presença constante na elite e já disputou Uefa Champions League e Europa League neste período.

Na seleção, dos 30 jogadores pré-convocados para o Mundial no Brasil, 26 nasceram na região ocidental. Apenas dois atletas - Marcel Schmelzer e Toni Kroos - que integram a relação são naturais do que foi a Alemanha comunista, o mesmo número em relação aos que nasceram na Polônia. Além disso, dessa lista, 28 jogadores foram revelados para o futebol profissional por clubes da Alemanha Ocidental e os outros dois na Inglaterra.

"Para os países comunistas, o foco esportivo sempre foram as Olimpíadas, onde eles encontravam a manifestação do poder. Houve uma transferência de recursos da Ocidental para a Oriental como processo de integração. Só que os clubes não tiveram o mesmo acesso aos recursos financeiros", explicou em entrevista ao ESPN.com.br o professor do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) Marcus Vinícius de Freitas.

E é isso o que mostram os resultados. Nos cinco Jogos Olímpicos que disputou (1968, 1972, 1976, 1980 e 1988), a Alemanha Oriental terminou em três oportunidades no segundo lugar, uma em terceiro e outra em quinto, sendo que, em todas, ficou à frente da Alemanha Ocidental.

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Angela Merkel cresceu na Alemanha Oriental
Angela Merkel cresceu em uma cidade da ex-Alemanha Oriental


Se nos gramados o muro ainda existe, em outros campos, ele vai sendo destruído tijolo a tijolo. Na política, por exemplo, Angela Merkel, que nasceu em Hamburgo, mas cresceu em Templin, na Alemanha Oriental, ocupa o cargo mais alto - chanceler - desde 2005, o que mostra um relacionamento muito mais aberto e equilibrado entre as duas partes.

Além disso, o relatório sobre o estado da unidade alemã, que é divulgado uma vez por ano, apontou que em 2013 se registrou a melhor situação econômica do leste desde a reunificação. Apesar da melhora, ainda falta muito. A taxa de desemprego na região é o dobro em relação à ocidental, e os salários, em média, se equivalem a 80% aos da outra parte do país.

"O processo de reconstrução da Oriental começou em 1990, enquanto na Ocidental começou em 1949. Mas a rapidez com que foi feita a reforma política da Oriental é muito mais rápida do que aconteceu na Ocidental entre 1949 e 1990", disse em entrevista ao ESPN.com.br o professor titular de História e membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Estevão Chaves de Rezende Martins.

Grande esperança da Alemanha Oriental no futebol vem de um time capitalista
Para que veja o mesmo crescimento econômico dentro das quatro linhas, a parte oriental do país tem como grande esperança um clube que possui uma filosofia extremamente oposta aos princípios do comunismo.

Sem clubes na elite desde o rebaixamento do Cottbus na tempoarada 2008-2009, o leste alemão tem como força emergente o RB Leipzig, time que mostra sua essência capitalista já no nome. A sigla RB refere-se a RasenBallsport - esporte de bola na grama, em alemão. Uma forma de usar no nome as iniciais de Red Bull, empresa à qual o clube pertence. Na Alemanha, companhias não podem ser donas majoritárias de uma equipe de futebol e nem colocar seu nomes.

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O RB Leipzig, na verdade, é o SSV Markranstad, que fez uma parceria com a empresa de bebidas em 2009 e perdeu quase toda sua identidade, dando um caráter totalmente comercial ao clube. Desde então, a equipe saltou da quinta divisão para chegar à segunda neste ano e dar sequência ao plano de chegar à elite e se tornar um dos grandes da Bundesliga em uma década.

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RB Leipzig subiu para a segunda divisão nesta temporada
RB Leipzig subiu para a segunda divisão nesta temporada


O time manda seus jogos na Red Bull Arena, que é o antigo Zentralstadium, única arena no leste do país a ser uma das sedes da Copa de 2006. O FS Leipzig chegou a usar a casa, mas, sem recursos financeiros para seguir lá, retornou para seu antigo e menor estádio.

Na luta para chegar à primeira divisão, o RB Leipzig enfrentará dois rivais da parte leste do país, o Union Berlin e o Erzgebirge Aue. O segundo tem uma ligação com o comunismo, exatamente o oposto do Leipzig.

Isso porque se chamou Wismut Karl-Marx Stadt durante um período, no qual foi campeão da Alemanha Oriental três vezes (1956, 1957 e 1959). Além disso, um dos escudos da equipe ao longo da história tinha o símbolo comunista de um machado e uma enxada.

Muro de Berlim e a separação da Alemanha
O fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e o início da Guerra Fria na sequência tiveram reflexos diretos na na Alemanha. Derrotado no primeiro conflito, o país viu o fim do governo nazista e teve sua capital dividida pelos vencedores. Berlim se repartiu em quatro parcelas: uma para russos, uma para franceses, uma para norte-americanos e uma para alemães.


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Nos anos seguintes, a instabilidade entre capitalismo (encabeçado por Estados Unidos) e socialismo (liderado pela Rússia) se agravou, e o conflito ficava cada vez mais evidente com medidas como o Plano Marshall - que ajudava países capitalistas que sofreram com a guerra - e o bloqueio soviético a Berlim Ocidental.

Centro da Guerra Fria, Berlim viu o ápice deste confronto ideológico em 13 de agosto de 1961 quando amanheceu com um muro sendo esboçado. Aquela parede com 37 quilômetros se estabeleceu em meses e separou a capital germânica por 29 anos.

Somente com a queda do bloco socialista e o fim da Guerra Fria encaminhado é que o muro seria derrubado, em 9 de novembro de 1989, acabando com a separação forçada da Alemanha. A unificação, oficialmente, ocorreria em 3 de outubro de 1990.

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Muitas coisas mudaram na Alemanha após queda do Muro de Berlim; no futebol, não
Muitas coisas mudaram na Alemanha após a queda do Muro de Berlim; já o futebol, não


Confira onde nasceram e por quais clubes foram revelados os 30 jogadores da seleção alemã pré-convocados para a Copa do Mundo:

GOLEIROS
Manuel Neuer (Nasceu em: Gelsenkirchen - ocidental) - Revalado: Schalke 04
Ron-Robert Zieler (Nasceu em: Colônia - ocidental) - Revelado: Manchester United
Roman Weidenfeller (Nasceu em: Diez - ocidental) - Revelado: Kaiserslautern

DEFENSORES
Philipp Lahm (Nasceu em: Munique - ocidental) - Revelado: Bayern de Munique
Per Mertesacker (Nasceu em: Hannover - ocidental) - Revelado: Hannover 96
Jerome Boateng (Nasceu em: Berlim - ocidental) - Revelado: Hertha Berlin
Mats Hummels (Nasceu em: Bergisch Gladbach - ocidental) - Revelado: Bayern de Munique
Beneditk Howedes (Nasceu em: Haltern - ocidental) - Revelado: Schalke 04
Marcel Schmelzer (Nasceu em: Magdeburg - oriental) - Revelado: Borussia Dortmund
Shkodran Mustafi (Nasceu em: Bad Hersfled - ocidental) - Revelado: Everton
Erik Durm - (Nasceu em: Pirmasens - ocidental) - Revelado: Mainz 05
Matthias Ginter (Nasceu em: Freiburg im Breisgau - ocidental) - Revelado: Freiburg

MEIO-CAMPISTAS
Bastian Schweinsteiger (Nasceu em: Kolbermoor - ocidental) - Revelado: Bayern de Munique
Mesut Ozil (Nasceu em: Glesenkirchen - ocidental) - Revelado: Schalke 04
Thomas Muller (Nasceu em: Weilheim - ocidental) - Revelado: Bayern de Munique
Sami Khedira (Nasceu em: Stuttgart - ocidental) - Revelado: Stuttgart
Toni Kroos (Nasceu em: Greifswald - oriental) - Revelado: Bayern de Munique
André Schurrle (Nasceu em: Ludwigshafen - ocidental) - Revelado: Mainz 05
Mario Gotze (Nasceu em: Memmingen - ocidental) - Revelado: Borussia Dortmund
Marco Reus (Nasceu em: Dortmund - ocidental) - Revelado: Rot Weiss Ahlen
Julian Draxler (Nasceu em: Gladbeck - ocidental) - Revelado: Schalke 04
Cristoph Kramer (Nasceu em: Solingen - ocidental) - Revelado: Bayer Leverkusen
Kevin Grosskreutz (Nasceu em: Dortmund - ocidental) - Revelado: Rot Weiss Ahlen

ATACANTES
Lukas Podolski (Nasceu em: Polônia) - Revelado: Colônia
Miroslav Klose (Nasceu em: Polônia) - Revelado: SG Blaubach-Diedelkopf
Kevin Volland (Nasceu em: Marktoberdorf - ocidental) - Revelado: 1860 Munique

A seção Lado B da Copa tem como objetivo contar histórias ligadas ao Mundial que ultrapassam os limites do campo e da bola e terá 18 edições (esta é a 16ª), sempre com uma novidade a cada terça-feira até 10 de junho, a dois dias da abertura da Copa.

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