Simeone, exclusivo: segredos do Atlético, sonho argentino e vontade de trabalhar no Brasil

Juan Pablo Sorín e Thiago Arantes, de Madri, para o ESPN.com.br
EXCLUSIVO: Simeone abre o jogo e conta para Sorín possibilidades de escalação na final da Champions
Diego Simeone é o treinador da temporada no futebol europeu. Com sua filosofia de encarar cada jogo de uma vez - o já famoso "partido a partido" -, ele levou o Atlético de Madri ao título do Campeonato Espanhol depois de 18 anos. Mais do que isso, colocou a equipe na decisão da Champions League.

A campanha, que já é histórica antes mesmo da final de sábado, em Lisboa, é repleta de episódios, nuances e detalhes que a tornam ainda mais especial. Simeone falou sobre alguns deles aos canais ESPN, em uma conversa com o amigo e ex-companheiro de seleção, Juan Pablo Sorín.

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Além do Atlético, "Cholo" também comentou sobre a carreira do filho - campeão argentino pelo River Plate -, disse que se prepara para um dia assumir a seleção de seu país e surpreendeu ao revelar que pensa "há alguns anos" na hipótese de treinar um clube brasileiro. 

Leia, abaixo, a entrevista completa:

ESPN.com.br - Faz muito tempo que a gente não se encontra, muita coisa mudou, mas é um prazer e uma alegria ver você vencer...

Diego Simeone - Verdade, agora estamos em posições diferentes... Acho que era mais bonito quando jogávamos, agora estamos em outra situação. Mas estou muito contente com esse momento da equipe, esse é um grupo muito nobre, muito trabalhador, muito humilde, que sabe suas virtudes e trata de superar seus defeitos, que lê muito bem como jogar as partidas. E que pôde demonstrar em uma liga tão complicada como a espanhola. Conseguirmos nos meter no meio de equipes com o poderio de Real Madrid e Barcelona, com essa estratégia de pensar jogo a jogo nos afastamos da responsabilidade, das pressões e jogando as partidas que tínhamos de jogar.

Para Simeone, mais do que jogadores com talentos, é preciso ter homens no elenco

ESPN.com.br - Quando você sentiu, dentro do vestiário, que esse time tinha esse fogo sagrado dos campeões? Porque às vezes há que se criá-lo, que tocar em determinados pontos...

Simeone - Acho que fomos construindo isso pouco a pouco. Eles foram lidando bem com a gente, os líderes do grupo foram surgindo e hoje estão aí. Na primeira temporada ganhamos a Europa Leagu e ficamos em quinto (na Liga Espanhola). Na segunda ganhamos a Supercopa Europeia, a Copa do Rei e ficamos em terceiro. Agora começamos a temporada perdendo a Supercopa Espanhola para o Barcelona - não perdendo, porque fomos derrotados no gol fora de casa - e depois com a vitória na Liga. É um crescimento muito bonito, feito aos poucos - e que é mais forte por isso -, e depois do jogo contra o Athletic Bilbao, vi que havia algo distinto. Porque ganhar em Valencia não é fácil, ganhar em Sevilla, em Bétis, no Bernabéu... Empatar com o Barcelona na última com o Barcelona na última rodada, de visitante, com tudo contra, ou com muitas situações que tínhamos que resolver. Isso nos mostrou que no futebol, além de precisar do talento, é necessário ter homens, e essa equipe os tem.

ESPN.com.br - Você tem um vestiário fiel à sua personalidade, e há alguns detalhes que observamos durante todas as partidas , durante todo o campeonato. Se pudesse fazer uma homenagem a alguma coisa, seria à bola parada?

Simeone - (risos) Sim! Veja bem: eu acho que uma equipe que não tem poderio econômico e que não pode contar com muitíssimo talento - como podem o Bayern de Munique, a Juventus, o Real Madrid, o Barcelona e o Manchester City - temos que aproveitar a estratégia, que é um ponto importante para resolver as partidas. Não há um time normal, exceto esses melhores do mundo, que não necessite disso. E se você trabalha bem a bola parada, passa a ter muitas chances, porque há jogos que se resolvem, o que começam a se resolver, a partir disso. Não é o único caminho, mas com a bola parada se começa a ter mais possibilidades, e se tem alguém que finaliza bem, o caminho começa a ser melhor.

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ESPN.com.br - E a bola parada já te deu títulos, desde o início da carreira como treinador, como também no sábado, o da Copa do Rei...

Simeone - Foi assim com o Estudiantes [no Apertura Argentino de 2006], com um gol de falta de Sosa; foi contra o Arsenal [de Sarandí, na mesma competição]. Há muito trabalho por trás disso...

ESPN.com.br - E além disso a bola parada te deu muito como jogador também, não?

Simeone - Sim, com certeza! É um pouco um reflexo do que eu era como jogador: para mim quando via um escanteio, era a única situação em que poderia fazer um gol. Outro dia mostrava aos meus filhos alguns gols que fiz, e eles perguntaram "papai, mas você só fazia gols de cabeça?"(risos). Mas, bem... a bola parada é uma oportunidade e muitas vezes é a forma de ganhar os jogos.

Após muita festa, Atlético de Madri se reapresenta e já trabalha duro para final da Champions

ESPN.com.br - A poucos dias de sua maior decisão como treinador, e de poder ganhar um título que te faltou como jogador, você fica sem um jogador tão importante. O que o técnico pensa nessas horas? Mantém o estilo ou tenta mudar alguma coisa?

Simeone - Já tenho alguma ideia do que fazer, poderemos ter alternativas diferentes. O mais similar ao Diego Costa, pela velocidade e não pela agressividade, é o Adrián; pela agressividade eu diria que é o Raúl [García], e aí poderíamos jogar com cinco no meio e apenas o Villa na frente. Mas vamos ver... Costa é um cara diferente, vamos ver como ele evolui, tenho certeza que, na cabeça dele, ele ainda não está fora do jogo. Mas um jogo como esse pede jogadores que estejam a 90 ou 100 por cento - não permite em campo um jogador a 60 por cento

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ESPN.com.br - O primeiro tempo contra o Barcelona terminou de um jeito, com o Atlético tentando uma reação; mas os primeiros 10 minutos do segundo tempo foram outros, com o Atlético impressionante. O Barcelona não respirou, veio o empate com uma bola parada... Foi uma demonstração de poder dentro do campo rival?

Simeone - Quando acabou o primeiro tempo, minha leitura do jogo era: começamos bem e fomos assim até os 15 minutos, quando Costa se machucou em um belo contra-ataque; aí a equipe sentiu. Depois, quando se lesionou o Arda [Turan] a equipe também sentiu, e naquele momento o Barcelona deu um passo adiante e começou a criar chances, enquanto nós não atacávamos. Aí veio o golaço do Alexis. E a partir dos 40 minutos, eu pelo menos voltei a sentir que levávamos perigo nas bolas paradas, nos cruzamentos... Passei a sentir um cheiro de gol a cada vez que entrávamos na área deles. Acabou o primeiro tempo e eu disse que estava melhor do que eles, convencido de que, se fizéssemos um gol, a partida acabaria. E que, se fossemos atrás deste gol, poderíamos encontrá-lo. E assim aconteceu.

Alex Livesey/Getty Images
Diego Simeone foi celebrado pelos jogadores do Atlético de Madri após o título espanhol
Simeone foi celebrado pelos jogadores após o título espanhol

ESPN.com.br - O Atlético de Madri manda uma mensagem ao ser campeão espanhol: a mensagem de que a luta, a solidariedade, a união podem levar a algum lugar. Você se sente orgulhoso disso?

Simeone - Sim, eu sempre comentei que com trabalho e confiança no que se faz, tudo se pode. Mas ao mesmo tempo, é também mostrar que se pode ganhar de maneiras diferentes. No futebol há várias maneiras de ganhar. E os treinadores que vão atrás de apenas uma ideia, se esquecem do mais importante, que são os jogadores. Então, se eu tenho uma ideia de jogar de uma determinada maneira e tenho um elenco que não se encaixa nesse jeito de jogar, por suas características, então estou indo contra o jogo. O importante são os jogadores. Nós ganhamos mostrando que, no futebol, há formas diferentes. Nos últimos dez anos, o Barcelona foi uma luz para todos que gostam de futebol, pela forma com que jogou em todas as competições; o Real Madrid sempre foi competitivo com sua característica... E nós mostramos um pouco de tudo, uma mistura da história do Atlético, um time de contra-ataques, que joga bem, que tem boa bola parada, combativo, agressivo, intenso, que defende bem... E acho que isso nos deu a chance de chegarmos onde estamos.

ESPN.com.br - Mudando de assunto para a Copa do Mundo: como vê a seleção da Argentina?

Simeone - Acho que a Argentina tem uma oportunidade muito bonita, que tem um bom caminho para ir encontrando o que Alejando [Sabella] acha que a equipe precisa encontrar. Estou convencido de que esses garotos ganharam de tudo fora do país e têm uma chance praticamente única de responder da melhor maneira na seleção. Tomara que possam se encontrar, e estou convencido - pelo que dizem e pelo que se vê - que o grupo está bem, e isso é muito importante, e agora têm de transformar essas palavras em feitos. Isso é o mais difícil e é o que sempre tentamos fazer como jogadores: mostrar em campo que estamos bem.

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ESPN.com.br - É um sonho para você dirigir a seleção argentina?

Simeone - Eu sempre digo, e sempre disse: é um sonho. Mas não é o momento. Primeiro porque agora quem está lá é o Alejandro e segundo porque hoje me sinto muito mais como um treinador de campo. Eu observo treinadores como Del Bosque, Aragonés e outros técnicos que tiveram experiência e tranquilidade para só então chegarem à seleção, que é um lugar diferente de um clube. Pela paixão, pelo sentimento e por tudo que já passei na seleção, eu gostaria de dirigi-la amanhã. Mas sei que não é meu momento. Hoje estou bem trabalhando no dia a dia, e tomara que, quando for um pouco mais velho, tenha essa oportunidade de chegar com a tranquilidade e a experiência que o cargo pede.

Reprodução
Ex-jogador, Simeone é ídolo da torcida colchonera
Ex-jogador do Atlético, Simeone é ídolo da torcida colchonera

ESPN.com.br - O fim de semana foi de dois títulos para a família, já que seu filho [Giovanni, que joga no River Plate] foi campeão pela primeira vez como profissional. Qual é a sensação de vê-lo vencer?

Simeone - Fico alegre por ele estar vivendo essa experiência de campeão. Sempre falo para ele que é importante comemorar e aproveitar, mas sobretudo entender o papel que ele exerce na equipe naquele momento. Ele está crescendo, tem participado dos jogos... Eu disse a ele: "comemore como se tivesse jogado todas as partidas", porque ganhar não é fácil, estar em um grupo vencedor não é fácil, e ele aos 18 anos teve a chance de acompanhar um grupo que trabalhou muitíssimo, que sofreu nos últimos anos, e que foi campeão com justiça e merecimento.

ESPN.com.br - No Brasil, te respeitam e admiram pelo trabalho como técnico e pelo que você jogava. Como você vê a seleção brasileira e o futebol brasileiro?

Simeone - O Brasil tem uma equipe perigosa, com muitas opções sobretudo na parte defensiva, e com um poder de jogadores de meio-campo que poucas vezes teve. Um time que, se jogar como jogou na Copa das Confederações, com aquela intensidade, agressividade e jogo de equipe, obviamente será perigosíssima na Copa. E vou te contar uma coisa: faz anos que tenho pensado na situação de ser técnico no Brasil. Algum dia eu gostaria trabalhar lá: vejo o talento que eles têm, o futebol que têm, jogadores que jogam em estádios lotados... Então, te digo sem dúvidas: um dia eu gostaria de ser treinador no Brasil.

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