Lado B da Copa: Drogba, o craque que mudou um país com um discurso de 76 segundos

Guilherme Nagamine, André Donke e Jean Pereira Santos, do ESPN.com.br

Apenas 76 segundos. Pense bem: o que você consegue fazer em exatos um minuto e 16 segundos? Pois bem, foi neste curto espaço de tempo e em um vestiário simples no principal estádio na cidade de Omdurman, no Sudão, que Didier Drogba fez o mais importante discurso da história recente da Costa do Marfim.

Era 8 de outubro de 2005, e os Elefantes, apelido da seleção, havia acabado de derrotar a equipe sudanesa por 3 a 1, o que garantiu o país pela primeira vez em uma Copa do Mundo - a de 2006, na Alemanha. Uma verdadeira conquista em meio ao caos da guerra civil que já durava três anos na nação do oeste africano.

Pois Drogba, filmado por um canal de TV marfinense, com um microfone na mão e com todos os companheiros de seleção ao redor, precisou de 129 palavras. Dentre elas, e de joelhos, o atacante usou três vezes "perdoem" para provocar um cessar-fogo entre forças rebeldes e governistas que lutavam pelo controle político da nação [entenda o conflito mais abaixo].

ESPN.com.br
LADO B DA COPA
Em 76 segundos, Drogba mudou o destino da Costa do Marfim

Quase nove anos depois, a Costa do Marfim vive em paz! Muito graças ao discurso do atualmente jogador do Galatasaray, da Turquia, amparado pelos parceiros de seleção, que se estabeleceu como uma das grandes forças do futebol africano.

Prestes a disputar seu terceiro Mundial seguido, a chamada "geração de ouro" marfinense aplacou dor e sofrimento dos cidadãos ao interromper um conflito. Mas falta se satisfazer em campo: mesmo com atletas renomados, entre os melhores do mundo até e jogando nos principais campeonatos europeus, o elenco ainda se ressente por não ter conquistado nenhum título.

LEIA MAIS
Lado B da Copa 1: Fifa não reconhece país e divide irmãos fugitivos de guerra
Lado B da Copa 2: O 'nanico' sem pátria que virou exemplo na França e derrubou Ibra
Lado B da Copa 3: Como o serviço militar assombra o futebol sul-coreano
Lado B da Copa 4: A superlegião de brasileiros que jogará a Copa pelos rivais

Seja na arquibancada ou no vestiário, o ambiente do país e da equipe nacional passa todo pela energia de Drogba. Afinal, ele, aos 36 anos, é considerado um super-herói na Costa do Marfim.

O pacificador do oeste africano
Drogba tinha 28 anos quando fez o discurso decisivo para diminuir a tensão no país. À época, começava sua segunda temporada no Chelsea, clube no qual o sucesso com a bola o ajudou a catapultar sua imagem de "salvador" em progressão geométrica. Não bastasse fazer gols e ajudar no conflito interno, o atacante também passou a ser conhecido pelas ações de caridade no país.

Getty Images
Drogba é um ídolo pelo que faz também além dos gramados
Drogba é ídolo pelo que faz também fora dos gramados


"Ele nasceu na Costa do Marfim, em Abidjan [capital], mas foi para a França com cinco anos. Teve toda sua base lá. E não tinha nenhum compromisso com a Costa do Marfim. Mesmo assim, veio ajudar", disse o cônsul honorário do país africano em São Paulo, Tibe-Bi Gole Blaise, ao ESPN.com.br.

A ajuda citada vem de várias formas. Não foi apenas se encontrar com autoridades políticas e pedir pela paz. Drogba desenvolveu sua própria fundação, arranjou verba para a construção de hospitais, fez doações milionárias para outros institutos, promoveu campanhas contra a pobreza e sobre a conscientização da paz.

Em 2007, seu papel na Costa do Marfim foi tão reconhecido que ele virou embaixador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Também ajudou empresários do país - sua última empreitada foi virar sócio em uma companhia que produz ouro.

"Como companheiro, era fantástico. Não só dentro de campo como fora dele. Quando alguém precisava de ajuda, ele ia lá e ajudava. Isso sempre foi parte dele. O futebol move milhões de pessoas. É um esporte que une todos. Nada melhor que o futebol para ajudar. Como jogador, ele atinge a todos", disse ao ESPN.com.br o ex-lateral da seleção portuguesa Paulo Ferreira, que conviveu com Drogba no Chelsea entre 2004 e 2012.

E como atinge. Dois exemplos mostram o peso do centroavante para os marfinenses. Em 2010, foi eleito pela revista americana "Time" como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo; três anos depois, a história de como ajudou a promover a paz à sua nação virou documentário da série "Rebeldes do Futebol", apresentada pelo polêmico ex-jogador francês Eric Cantona e transmitida pela TV Al-Jazeera.

LEIA MAIS
Lado B da Copa 5: Artilheiro da Copa não tem dinheiro para ir ao Brasil ver o Mundial
Lado B da Copa 6: Na Bélgica, separatismo político só não racha a seleção
Lado B da Copa 7: Em tempos de homofobia na bola, Alemanha é o arco-íris do futebol
Lado B da Copa 8: Dzeko, o diamante bósnio que sobreviveu ao inferno*

O trabalho mostra que o sentimento dos cidadãos marfinenses para com Drogba é de gratidão. É abraçado, beijado, aplaudido. É chamado de pacificador. Pessoas choram de alegria por vê-lo de perto. E todos torcem por seu sucesso. Quando ele atuava no Chelsea, o país parava para ver os jogos do clube; após ele sair de lá, a audiência do mesmo caiu. A torcida, no fim, sempre foi para o centroavante.
Getty Images
Drgoba é idolatrado pelo povo de seu país
Drgoba é idolatrado pelo povo de seu país

"O melhor dele é a humildade. Ele dá a mão às pessoas. Uma pessoa dessas, que desce da rampa para se colocar no mesmo nível dos outros... No meu conceito, o melhor dele é isso, entender que é um astro, uma celebridade, uma referência do país, e ele desce do altar e se coloca no nível mais baixo possível. Ele mexe com as pessoas comuns", define Blaise.

Mexe com o cônsul também. Durante a conversa com o ESPN.com.br em seu escritório, no centro da cidade de São Paulo, Blaise - que disse frequentar, por acaso, a mesma igreja que o astro em Abidjan - utilizou cinco vezes a expressão "ele é bom" para definir Drogba. Ainda o chamou de "menino de ouro", "bênção de Deus" e "aquilo que a Costa do Marfim precisava".

Getty Images
Drgoba e Paulo Ferreira colecionaram títulos no Chelsea em oito anos juntos
Drgoba e Paulo Ferreira (à direita) colecionaram títulos no Chelsea em oito anos juntos

A geração de ouro que não levanta taças
Salvador do país, Drogba divide a responsabilidade quando a história é levar o nome da Costa do Marfim para dentro de um estádio de futebol. Por mais que o time tenha aquela que é vista como a melhor geração de sua história, os resultados ainda não apareceram como o esperado - algo admitido pelos próprios jogadores.

De 2006 a 2014, foram duas Copas do Mundo e cinco Copas Africanas de Nações. Nos torneios continentais, as decepções se somaram: nenhum título, apesar do elenco estrelado.

As duas melhores participações foram em 2006 e em 2012, quando a equipe acabou como vice-campeã. Na primeira decisão, o algoz foi Egito, que venceu nos pênaltis por 4 a 2; na segunda, a adversária foi a surpreendente Zâmbia, que venceu a final, também nas penalidades, por 8 a 7.

Getty Images
Liderada por Drogba, 'geração de ouro' da Costa do Marfim ainda não foi campeã dentro de campo
Liderada por Drogba, 'geração de ouro' ainda não foi campeã


Em 2008, o time ficou na quarta colocação, após cair na semifinal para o Egito por 4 a 1 e na disputa do terceiro lugar para Gana, por 4 a 2. Em 2010 e 2013, a eliminação aconteceu nas quartas de final, para Argélia e Nigéria, respectivamente.

Nas Copas do Mundo, o sorteio, é verdade, não ajudou em ambas as vezes. Em 2006, na Alemanha, a seleção marfinense ficou em terceiro lugar em uma chave com Argentina, Holanda e Sérvia e Montenegro; há quatro anos, na África do Sul, teve um rival mais acessível, a Coreia do Norte, mas ficou atrás de Brasil e Portugal na chave e novamente foi eliminada na primeira fase.

Para 2014, nove atletas que estavam nos Mundiais de 2006 e 2010 têm chances de figurarem nos estádios brasileiros: o goleiro Boubacar Barry, 34 anos (Loreken-BEL); o zagueiro Kolo Touré, 33 (Liverpool-ING); o lateral direito Emmanuel Eboué, 30 (Galatasaray-TUR); o lateral esquerdo Artur Boka, 31 (Stuttgart-ALE); os meio-campistas Didier Zokora, 33 (sem clube), Romaric, 30 (Bastia-FRA), Kader Keita, 32 (Honvéd-HUN), e Yaya Touré, 30 (Manchester City-ING). O último representante é Didier Drogba.

O atacante do Galatasaray irá liderar o time na Copa. O grupo em que a seleção foi sorteada, o C, desta vez não tem nenhum peso-pesado, mas é considerado um dos mais equilibrados, com Colômbia, Grécia e Japão.

"A classificação ao Mundial brasileiro seria sensacional para esta geração. E, se isso acontecer, certamente vamos mirar mais alto do que um terceiro lugar no grupo", afirmou Drogba em entrevista à Fifa em 2012.

Para quem mirou e acertou a paz em 76 segundos em um país no meio de uma guerra civil, o que é superar a primeira fase de uma Copa do Mundo?

Entenda o conflito que Drogba ajudou a acabar
Localizado no oeste africano e com cerca de 21 milhões de habitantes, a Costa do Marfim passou por momentos de tensão entre 2002 e 2007. A guerra civil que ocorreu foi consequência de tensões étnicas crescentes que afetaram até mesmo a política do país.

A nação é dividida em duas partes, as regiões norte e sul. A primeira tem como bioma predominante a savana, enquanto a segunda abriga a maior parte das florestas e, portanto, a maior parte das terras produtivas da nação. Por si só, essa divisão do ambiente já criou a situação do sul ser mais rico que o norte.

LEIA MAIS
Lado B da Copa 9: O goleador hondurenho filho da 'cidade da morte'
Lado B da Copa 10: Austrália, os novos apaixonados por futebol que vão invadir o Brasil
Lado B da Copa 11: Falcao resgata o futebol na Colômbia, mas quase foi parar no beisebol
Lado B da Copa 12: Modric, o refugiado de guerra que virou o jogo na Croácia e no Real

O segundo ponto que ajudou no estouro da guerra foi a composição de diferentes origens: cerca de 60 etnias diferentes convivem no país, e os imigrantes e seus descendentes são muitos, principalmente na parte norte - a mais pobre - principalmente de Mali e Burkina Faso, vizinhos africanos que são mais pobres.

Getty Images
Lado B da Copa Costa do Marfim Guerra Civil Soldados em Tanque
Soldados em ação durante a guerra civil na Costa do Marfim

Em 1993, com a morte do então presidente Félix Houphouet-Boigny,que governava o país desde 1960, a Costa do Marfim teria de passar pela primeira vez por eleições democráticas, marcadas para 1995. Mas houve polêmica após o veto à participação de candidatos que não tinham os pais nascidos em solo marfinense. A ação alijou da disputa Alassane Ouattara - que tinha feito parte do governo de Houphouet-Boigny -, filho de pai de Burkina Faso e, portanto, um representante do norte do país.

Em 2000, Ouattara tentaria novamente disputar a presidência, mas uma nova constituição vetava a participação de candidatos que não tivessem pais nascidos na Costa do Marfim. Este foi o estopim para que em setembro de 2002 tropas originadas no norte do país atacassem e tentassem tomar o poder de várias cidades, inclusive da capital, Abidjan - esta, sem sucesso.

No fim, Abidjan, no sul, ficou como a capital governista. Bouaké, no norte, virou a capital da região. O conflito deixou milhares de mortos e teve o primeiro sinal de paz e cessar-fogo quando Drogba, ao lado de seus companheiros, fez o discurso pelo fim da guerra após a classificação da Costa do Marfim para a Copa de 2006.

Em 2007, o centroavante entrou novamente em ação ao pedir para que uma partida válida pelas eliminatórias para a Copa Africana de Nações de 2008 fosse sediada na capital rebelde. Diante de 25 mil pessoas, a Costa do Marfim venceu Madagascar por 5 a 0 e garantiu a vaga.

Pela primeira vez desde 2002, autoridades do governo pisavam em Bouaké. O jogo foi considerado o ato para selar a paz - no começo daquele mesmo ano, o então presidente Laurent Gbagbo tinha nomeado Guillaume Soro, líder dos rebeldes, como primeiro-ministro da nação.

Em 2010, a nação passou por momentos de tensão novamente, quando Laurent Gbagbo se recusou a aceitar a derrota nas eleições presidenciais para Alassane Ouattara. Gbagbo foi preso mais tarde. Ouattara, hoje, é o presidente.

Segundo o cônsul Tibe-Bi Gole Blaise, o conflito teve origem pessoal e étnica. "O pessoal do norte se sentia lesado, pouco representado e lutou por seu espaço. O conflito sujou a imagem da Costa do Marfim. Era um dos raríssimos países onde nunca ninguém tinha pego em armas. Os jogadores tiveram importância capital. Hoje, graças a Deus, a Costa do Marfim está em paz."

Leia o discurso da paz feito por Drogba

"Homens e mulheres do norte, do sul, do leste e do oeste, provamos hoje que todas as pessoas da Costa do Marfim podem co-existir e jogar juntas com um objetivo em comum: se classificar para a Copa do Mundo.

Prometemos a vocês que essa celebração irá unir todas as pessoas.

Hoje, nós pedimos, de joelhos: Perdoem. Perdoem. Perdoem.

O único país na África com tantas riquezas não deve acabar em uma guerra. Por favor, abaixem suas armas. Promovam as eleições. Tudo ficará melhor.

Queremos nos divertir, então parem de disparar suas armas. Queremos jogar futebol, então parem de disparar suas armas.

Tem fogo, mas os Malians, os Bete, os Dioula... Não queremos isso de novo. Não somos xenófobos, somos gentis. Não queremos este fogo, não queremos isto de novo."

A seção Lado B da Copa tem como objetivo contar histórias ligadas ao Mundial que ultrapassam os limites do campo e da bola e terá 18 edições (esta é a 13ª), sempre com uma novidade a cada terça-feira até 10 de junho, a dois dias da abertura da Copa.

Comentários

Lado B da Copa: Drogba, o craque que mudou um país com um discurso de 76 segundos

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.