A fome do novo Maracanã: lucros dos clubes pela metade, despesas em dobro

Pedro Henrique Torre, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
Tiago Leme/ESPN
Torcedores de Fluminense e Vasco encheram atrás dos gols, mas parte central do Maracanã ficou quase vazia
O novo Maracanã em sua reabertura aos clubes, em 2013, para Fluminense x Vasco: setor central vazio

O Maracanã voltou, modernizado, ao custo de quase R$ 1,2 bilhão, e será palco da final da Copa do Mundo de 2014. Mas a fome do novo estádio por cifras não parou na obra. Se comparado ao antigo, ele está com mais apetite do que nunca pelas bilheterias dos jogos e, com isso, fez o faturamento dos clubes cariocas cair quase pela metade. É o custo do novo Maracanã.

Na segunda-feira, tão logo foi divulgado o borderô do primeiro jogo da final do Carioca entre Vasco e Flamengo, um dado chamou a atenção: da renda de R$ 1.324.300,00, os finalistas levaram, juntos, quase R$ 383 mil. Em miúdos, 28,9% do total. As despesas, quase R$ 928 mil, atingiram um percentual assombroso de 70%.

Os números se tornam alarmantes se comparados ao desempenho financeiro do antigo Maracanã. Antes de 2014, o último Campeonato Carioca disputado no estádio foi o de 2010. Na decisão da Taça Rio entre Botafogo e Flamengo, com 50.303 pagantes e ingressos entre R$ 30 e R$ 150, os clubes abocanharam R$ 1.037.756,00 da renda de R$ 1.677.585,00. Ou 61%, mais do que o dobro do primeiro jogo da final deste ano.

As despesas, na decisão vencida pelo Botafogo, somaram R$ 602.169,00, ou 35,9%. Praticamente a metade do percentual da final de 2014. Na decisão da Taça Guanabara de 2010, entre Vasco e Botafogo, o mesmo panorama, mais rentável aos clubes proporcionalmente: renda de pouco mais de R$ 2 milhões, com clubes faturando 59,4% do total e as despesas atingindo 38,3%.

Nas edições do Carioca de 2008 e 2009, ambas com finais entre Flamengo e Botafogo, os parâmetros são os mesmos, ainda que com públicos bem superiores aos atuais, entre 70 e 80 mil pessoas. Arrecadações dos clubes em torno de 60% e despesas na faixa de 30%. A diferença entre o novo e o velho Maracanãs continua latente em uma leitura mais detalhada.

Mais moderno, o estádio atual, controlado pelo Consórcio Maracanã S.A., tem valores altos nos custos. No borderô da final de domingo, há três despesas bem semelhantes: o chamado "custo operacional" chega a R$ 262 mil e o "aluguel de estádio", a R$ 255 mil. Já a "despesa operacional" atinge R$ 20 mil.

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O velho Maracanã, em foto de junho de 2010, antes da reforma
O velho Maracanã: custos mais convidativos aos clubes

Em 2010, o Maracanã era administrado pela Superintendência de Desportos do Rio de Janeiro (Suderj), que abocanhou R$ 61 mil de quase R$ 1,7 milhão de renda da final da Taça Rio. A despesa operacional, conforme consta no borderô, tinha o valor de R$ 10 mil. O aluguel do estádio, zero.

Já a confecção de ingressos vai pelo caminho contrário. R$ 167 mil em 2010 e R$ 57 mil em 2014. A despesa denominada "delegado e ouvidoria", no entanto, dobrou em quatro anos: no Carioca de 2010, custava R$ 1.300. Hoje, R$ 2.600. A taxa de bombeiros pulou de R$ 51 em 2010 para cerca de R$ 2.500 em 2014. Um percentual que continua idêntico é a taxa da Federação de Futebol do Rio (Ferj): 10% da renda bruta de todos os jogos, seja em 2008 ou em 2014.

Acordos distintos, dificuldades iguais

Em 2013, tão logo o Consórcio assumiu a administração do Maracanã os clubes assinaram contratos distintos. Fluminense e Botafogo optaram por acordos longos, de 35 anos, em que ficam protegidos de prejuízo, com o Consórcio assumindo despesas, mas também estão restritos aos lucros dos assentos atrás do gol, um total de 43 mil lugares.

Já o Flamengo fez um primeiro acordo de 50% de divisão de tudo, despesas e lucro, com o Consórcio. Em seguida, assinou novo termo, válido até 2016, em que estipulou alguns custos: quanto mais torcida, mais lucro, que poderia chegar a 74% da renda. O custo operacional máximo a ser dividido é de R$ 300 mil e o custo por torcedor é de R$ 10.

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O Vasco, por sua vez, fez acordos avulsos, mas se assustou em 2013, quando, depois mandar um jogo contra o Goiás no estádio, teve de pagar ao consórcio R$ 300 mil de uma renda de R$ 539 mil. Mesmo com acordos distintos entre si, o Maracanã não tem perdoado os clubes cariocas. De volta ao presente, basta observar os dois jogos entre Vasco e Fluminense, pela semifinal do Carioca deste ano.

Na primeira partida, de mando vascaíno, com 9.976 pagantes, a renda chegou a R$ 413.520,00. Deste total, apenas R$ 29.202, ou míseros 7%, chegaram aos cofres dos clubes. As despesas totalizaram R$ 383.257,00, o equivalente a incríveis 92,6% do total. No segundo jogo, mando tricolor, os clubes levaram 36,4% do total. As despesas chegaram a 37,6% e o Consórcio levou 23,7% dos quase R$ 664 mil. Enquanto isso, os preços dos ingressos disparam nas bilheterias. O público reclama. Os clubes têm dificuldades. Mas o novo Maracanã tem fome. Muita fome.

Confira os números do Maracanã desde as finais de Carioca de 2008:

Ano       Jogo               Pagantes      Renda     Arrecadação clubes    Despesas

2014    Vasco x Fla      20.844         1.324.300    R$ 382.587 (28,9%)   R$ 927.836 (70%)

2014    Vasco x Flu      9.976           413.520       R$ 29.202  (7%)       R$ R$ 383.257 (92,6%)

2014    Flu x Vasco        15.925       663.990       R$ 241.900 (36,4%)   R$ 249.958 (37,6%)

2010    Fla x Botafogo    50.503      1.677.565    R$ 1.031.756 (61%)  R$ 602.169 (35,9%) 

2010   Vasco x Botafogo 66.957     2.078.890    R$ 1.236.780 (59,4%) R$ 797.252 (38,3%)

2009    Fla x Botafogo     78.393     1.989.415    R$ 1.298.992 (65,2%) R$ 643.307 (32.3%)

2009    Botafogo x Fla    58.711      1.462.853   R$ 920.138 (62,9%)    R$ 509.341 (34,8%)

2008    Botafogo x Fla    78.716       1.715.135   R$ 1.108.352 (64,6%) R$ 566.582 (33%)

2008    Fla x Botafogo    63.413       1.333.455   R$ 834.762 (62,6%)     R$ 468.415 (35,1%)

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