Em cinco anos, gasto da CBV com marketing cresce mais de 2000%; receita, só 145%

Lúcio de Castro, especial para o ESPN.com.br

É como aquela brincadeira de "Onde está Wally". Ou esconde-esconde. As despesas de marketing e produção da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) tiveram um aumento de 2.241% entre 2008 e 2012. Enquanto o aumento das receitas de patrocínio ficou bem abaixo disso, com 145% de crescimento. No entanto, encontrar a justificativa para isso no balanço financeiro da entidade é tarefa bem difícil. Reunidos em João Pessoa hoje em assembleia, os dirigentes aprovam as contas do exercício de 2013.

Se repetirem as palavras proferidas em março de 2013, na reunião que aprovou as contas de 2011/12, a "insigne assembleia" vai referendar o parecer do conselho fiscal da CBV "e propor sua integral aprovação, com voto de louvor". A exaltação a peça contábil se deu "após minucioso exame dos documentos econômicos, financeiros e patrimoniais encaminhados pela diretoria da entidade", onde se constatou "a perfeita ordem e correção dos mesmos, bem como a exatidão dos lançamentos contábeis". Um documento que "engrandece o trabalho apresentado pelos responsáveis por sua execução". O visto dos auditores independentes também se deu "sem ressalvas".

Em meio ao turbilhão de revelações feitas pela série de reportagens "Dossiê Vôlei", sobre a existência de pagamento de comissões em contratos assinados diretamente com o Banco do Brasil (BB) por serviços de agenciamentos, intermediação e "assessoria na negociação de contratos de patrocínio da CBV", a duas empresas ligadas a dirigentes da confederação, uma delas em nome do homem de confiança do presidente da CBV e da FIVB, Ary Graça, a assembleia vai se debruçar sobre o balanço fiscal de 2013. (Os contratos são de cinco anos, tendo começado um em 2011 e outro em 2012 dez milhões de reais cada, totalizando vinte milhões em comissões. Em 2013, como informado em reportagens da série, os contratos teriam tido pagamentos "congelados" pela CBV).

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No dia da aprovação do ano das demonstrações financeiras da entidade máxima do vôlei brasileiro, vale conhecer um pouco alguns detalhes do último balanço aprovado. Na análise mais detida sobre o certificado de 2011/2012, sancionado "com voto de louvor" e unanimidade, chama atenção o aumento significativo de gastos em alguns itens, desproporcional a porcentagem de crescimento das receitas dos mesmos.

Um dos itens apresentados no balanço 2011/12 cujo crescimento dos gastos da CBV mais chama atenção, assim como a justificativa, se dá justamente em assuntos que passam por "assessoria na negociação de contratos de patrocínio da CBV". No item 19, "despesas com marketing e produção" aparecem com gasto de R$ 6.199.754,00 em 2012, enquanto em 2011 o gasto era de R$ 2.090.315,00. O item recebe justificativa dentro do próprio balanço, onde se informa que "o valor de R$ 6.199.754,00 registrado no exercício de 2012 como despesas com marketing e produção, refere-se substancialmente aos serviços contratados para a construção do formato comercial, cotização e precificação das propriedades de marketing, títulos, direitos, elaboração do plano comercial de marketing, planejamento, apresentação e assessoria na negociação dos contratos de patrocínio da CBV".

Reprodução/Arte ESPN
A diferença, e a explicação, nos valores gastos com marketing nos balanços da CBV em 2012 e 2011
A diferença, e a explicação, nos valores gastos com marketing nos balanços da CBV em 2012 e 2011

São as "despesas com marketing e produção" que empurram o aumento dos gastos do item 19 do balanço, as "outras despesas administrativas" em 75% em apenas um ano, saltando dos R$ 10.464.941,00 em 2011 para R$ 18.326.285,00.

A reportagem perguntou a CBV sobre a razão e explicação para aumento substancial no que diz respeito a "despesa com marketing e produção", que aponta variação significativa entre os anos de 2011 e 2012, no item 19 do balanço, "Outras despesas administrativas". Através de sua assessoria de imprensa, a entidade limitou-se a dizer que "divulgou nota em que informa que está contratando empresa de auditoria para analisar os contratos de serviços terceirizados que são objeto de denúncias. É exatamente essa auditoria, como diz a nota, que irá ditar os caminhos que serão tomados pela atual gestão. Portanto, explicações e detalhamentos mais precisos sobre o tema abaixo e outros só poderão ser divulgados após o trabalho dessa empresa", afirma a resposta enviada pela CBV.

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Os balanços anteriores também eram analisados por auditores independentes, que os aprovaram "sem ressalvas".

Diante de tamanha desproporção entre o aumento dos gastos com marketing e produção entre 2008 e 2012 - que chegam a 2241% - e o incremento nas receitas de patrocínio - que ficaram com 145% de aumento -, fica a constatação de que a empresa que, em 2003, recebeu o certificado ISO 9000:2000, "concedido por sua excelência em Gestão Esportiva", e que repete constantemente ser "a primeira entidade de administração esportiva do mundo a receber tal reconhecimento", em diversos itens descumpria um dos mandamentos da boa gestão: manter o crescimento dos gastos proporcional a entrada de receitas.

Comparação da evolução das despesas de marketing/produção com receitas de patrocínio:

Ano Patrocínios (+145%) Marketing e produção (+2241%)
2008 R$ 31.687.070,00 R$ 264.744,00
2009 R$ 44.993.831,00 R$ 323.402,00
2010 R$ 44.968.235,00 R$ 737.049,00
2011 R$ 50.398.190,00 R$ 2.090.315,00
2012 R$ 77.554.131,00 R$ 6.199.754,00

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