Há 50 anos, Cassius Clay conquistava seu 1º título mundial e dava início à lenda Muhammad Ali

Ricardo Zanei, do ESPN.com.br*

Foi em um 25 de fevereiro de 1964 que Cassius Clay assombrou o mundo. O nocaute técnico sobre o então campeão Sonny Liston garantiria àquele garoto atrevido seu primeiro título mundial dos pesos pesados. Nos dias seguintes, Clay deixaria de existir, dando lugar a uma verdadeira lenda do esporte mundial: Muhammad Ali. Dias depois da conquista, o moleque com ar dos mais petulantes mudava de nome e se eternizava na história do esporte.

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Cassius Clay posa para fotos com o cinturão dos pesados após derrotar Liston
Cassius Clay posa para fotos com o cinturão dos pesados

A história cinematográfica teve início muito antes. Da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1960, em Roma, a uma das lutas mais emblemáticas da história do boxe, quatro anos depois, Clay conquistou 19 vitórias, sendo 15 por nocaute, e nenhuma derrota. A trajetória meteórica daquele moleque de 22 anos, rápido, forte e de uma língua mais do que afiada, o credenciava a desafiar ao favorito Liston, 31 anos, 35 vitórias, 24 por nocaute e 1 derrota.

O palco foi o Convention Hall, em Miami Beach, na Flórida. A vitória de Liston chegou a ser tratada por muitos como uma verdadeira barbada. Afinal, eram 28 vitórias seguidas. Nas duas últimas vezes que entrara no ringue, havia derrotado Floyd Patterson: a primeira para conquistar o título, a segunda para defender o cinturão, com um nocaute arrasador no primeiro round. Assim, muitos, inclusive especialistas, apontavam nova vitória, mais uma vez nos primeiros assaltos.

Por outro lado, mesmo com um retrospecto positivo e um ouro olímpico no currículo, Clay era apontado como o grande azarão da noite. Nas casas de apostas, uma vitória sua sobre o campeão pagava impressionantes 7 para 1.

Há 50 anos, o boxe era um esporte de multidões, uma "nobre arte" que parava cidades, países, ainda mais quando o assunto era o cinturão dos pesados. Por isso, tudo que era dito ganhava proporções gigantescas. Pensando em toda a situação - zebra, desafiante, 9 anos mais jovem -, Clay aproveitou esse "amplificador" como poucos e fez com que a luta começasse muito antes de soar o gongo para o primeiro round.

Boxe à parte, Clay tinha enorme habilidade em atingir seus oponentes verbalmente, talvez o melhor e mais eficiente da história nesse quesito. Contra Liston, o "trash talk" começou bem antes da luta e continuou nas entrevistas depois do combate. Durante as entrevistas pré-disputa, ele provocou, referindo-se ao rival como "O Grande Urso Feio" ("The Big Ugly Bear"), um trocadilho com o apelido dele, "Grande Urso" ("Big Bear"). Isso não era nada do que estava por vir.

  • ANTES DA LUTA
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Brincadeira com fundo de verdade? Clay e Liston se divertem na entrevista coletiva antes do combate
Brincadeira com fundo de verdade? Clay e Liston se divertem na entrevista coletiva antes do combate
A tensão tomou conta do ar. A frequência cardíaca de Clay passou de 54 para 120, de acordo com seu médico, tamanha era a sua ferocidade. Foi na pesagem que o garoto proferiu uma frase que se eternizou no mundo do esporte. Perguntado como iria se aproximar de Liston, ele disse: "Voe como uma borboleta, ferroe como uma abelha" ("Float like a butterfly, sting like a bee"), hoje estampada em milhares de camisetas espalhadas pelo planeta.

Sobre a sua estratégia:

  • "Vou voar como uma borboleta, ferroar como uma abelha."


  • "Você não pode acertar o que os seus olhos não podem ver"

  • Sobre Liston:

  • "Depois que eu derrotá-lo, vou doá-lo para o zoológico."


  • "Se Sonny Liston me derrotar, eu beijarei seus pés, rastejarei de joelhos para fora do ringue, direi que ele é o maior e pegarei o primeiro voo para fora do país."


  • "Alguém vai morrer no ringue esta noite."


    • A LUTA


    Para rebater as palavras certeiras daquele que ainda era apenas um "garoto petulante", Liston tentou ser agressivo desde o início, mas a estratégia falhou graças a uma lesão no ombro logo no primeiro round. Essa foi a versão do então dono do cinturão. A história foi confirmada por Alexander Robbins, médico da Comissão de Boxe de Miami Beach. Ao examiná-lo ao fim do combate, constatou que ele tinha rompido o tendão de seu ombro esquerdo.

    Clay não sabia disso, claro, mas aproveitou ao encontrar fragilidades no adversário. Maior - 1,90 m contra 1,85 -, mais leve - 97,5 kg a 99,7 kg - e bem mais veloz, o desafiante abusou de sua rapidez e de jabs certeiros para se manter no centro do ringue e castigar o campeão nas cordas. No terceiro round, ele abriu um corte abaixo do olho esquerdo de Liston, mas o staff do campeão conseguiu tratá-lo e evitou a desistência.

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    Clay comemora com seu staff a conquista de seu primeiro título mundial dos pesados
    Clay festeja com seu staff a conquista de seu 1º título dos pesados

    O roteiro de cinema entra em ação nos rounds seguintes. Mesmo com o corte profundo, Liston passou a dominar as ações no quarto e quinto assaltos. Clay não conseguia, literalmente, enxergar seu oponente, possivelmente por ter entrado em contato com as substâncias usadas para tratar o corte de Liston. Clay via apenas vultos à sua frente, mas seu técnico, o lendário Angelo Dundee, gritava para que ele se mexesse.

    Dundee tinha razão. Entre o quinto e o sexto rounds, a visão de Clay voltou ao normal, e ele voltou a acertar Liston como nunca, agravando o corte abaixo do olho. Ao fim do sexto round, o campeão se arrastou para o seu córner, enquanto Clay começou a dançar no ringue, o que se tornaria uma assinatura de sua carreira, chamada de "Ali Shuffle".

    As papeletas dos juízes apontavam empate ao fim de seis rounds. A pontuação nos "scorecards" marcava 58 a 56 para Clay, 58 a 56 para Liston e 57 a 57. Mas Liston, sem forças e com dores insuportáveis, não conseguiu voltar para a luta. Nocaute técnico. Clay era campeão mundial dos pesados. Ou melhor, Cassius X, como anunciou que gostaria de ser chamado. Ou, ainda, Muhammad Ali, nome que adotaria dias depois da conquista. Clay e Ali, dois nomes, uma única lenda.

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    Liston derrotado em seu córner: Clay é campeão dos pesados pela primeira vez
    Liston derrotado em seu córner: Clay é campeão dos pesados pela primeira vez
    • FRASES DEPOIS DA VITÓRIA
    • "Comam as suas palavras!",

    • para os jornalistas que duvidavam que ele venceria Liston


    • "Sou o maior, sou o rei do mundo",

    • frase que originaria o apelido eterno de Ali, "The Greatest", "O Maior"
    • A REVANCHE
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    O segundo capítulo da rivalidade: na revanche, Ali derruba Liston, e cena é eternizada pelas câmeras fotográficas
    Ali derruba Liston, e cena é eternizada pelas câmeras fotográficas

    O segundo encontro entre os dois aconteceu em 25 de maio de 1965, em Lewiston, Maine. Ali venceria novamente, dessa vez por nocaute no primeiro round.

    Ao derrubar Liston, Ali não foi para o seu córner. Ao contrário, permaneceu em pé ao lado do ex-campeão, gritando com uma veemência assustadora: "Levante-se e lute", emendando ainda um palavrão.

    Liston até se levantou, mas, sem condições de continuar, não lutou. Nova vitória, nova lenda, mais história: a cena de Ali em pé, urrando, e Liston no chão, indefeso, se tornou um ícone do mundo esportivo.

    • UMA LUTA, DOIS DESTINOS
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    As marcas da batalha no derrotado Liston: corte abaixo do olho e ombro lesionado
    As marcas da batalha no derrotado Liston na 1ª luta com Clay

    Ali virou sinônimo de boxe e, hoje, 50 anos depois, ainda é venerado como um dos melhores, se não o melhor, de todos os tempos. Já a carreira de Liston declinou, especialmente depois da segunda derrota para Ali. Ele lutaria até 1970, encerrando a carreira com 50 vitórias (39 nocautes) e 4 derrotas, e morreria no fim daquele ano.

    A autopsia indicou traços de morfina e codeína, substância que indicaria uso de heroína, mas o estado avançado de decomposição do corpo - ele foi encontrado sete dias depois da data estimada da morte - foram tratados como inconclusivos. Oficialmente, as causas foram congestão pulmonar e insuficiência cardíaca.

    *Com ESPN Stats and Information
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