Morte em campo, cadeia, pelado na praça e 25 times em 13 países: as histórias do 'Forrest Gump' da bola

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br
Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel posa com guepardo na África
Lutz com guepardo na África, onde trabalhou como técnico, jogador e diretor na Namíbia - tudo ao mesmo tempo

No famoso filme que ganhou o Oscar em 1994, Forrest Gump é um cidadão que se envolveu em tantas situações fantásticas ao longo da vida que, ao relatá-las, sempre parece estar inventando. Conversar com o alemão Lutz Pfannenstiel provoca a mesma sensação. O ex-goleiro é o único atleta em toda a história a ter jogado em times de todos os "continentes" da Fifa: Uefa (Europa), AFC (Ásia), Concacaf (América do Norte e Caribe), Conmebol (América do Sul) e OFC (Oceania). Ao todo, passou por 25 equipes em 13 países, incluindo o Brasil. E, em suas muitas viagens pelo mundo, viveu aventuras das quais até Deus duvida.

Naquela que é talvez a mais absurda delas, o ex-arqueiro foi declarado morto em campo. Aconteceu na Inglaterra, quando jogava pelo Bradford Park Avenue. Uma pancada no peito paralisou coração e pulmão do atleta, que caiu desacordado, sem pulso. "Fui reanimado três vezes após ser declarado três vezes morto. Quando a enfermeira me contou que o jogo havia sido cancelado, eu fiquei muito bravo, porque estávamos ganhando!", relembra, aos risos, em entrevista ao ESPN.com.br.

Prisão, 'morte' e Brasil: Veja entrevista com único jogador a atuar por clubes das 6 confederações

O "quase falecimento", aliás, aconteceu pouco depois de Lutz "renascer" para a vida. Quando estava jogando no Geylang United, de Cingapura, ficou preso por 100 dias, acusado de manipulação de resultados. Tratado "como um animal" na cadeia, chegou até a ser ameaçado com pena de morte. O alemão, porém, foi inocentado pela Corte Internacional. "Fui trancado na prisão por algo que não fiz, usado como bode expiatório por políticos. Foi uma situação muito triste", relembra.

LEIA MAIS
Praia, sol e paixões: a história do bancário que disputou Copa do Mundo pela Nova Zelândia

Entre outros muitos causos, como a recusa de uma proposta do Bayern de Munique para ir jogar na Malásia e as pegadinhas da Crazy Gang, time dos anos 1980 que contava com os maiores bad boys da história do futebol inglês, Pfannenstiel conta com gosto sobre sua passagem pelo Brasil, onde jogou no Atlético de Ibirama-SC, ao lado de Leandro Damião: "A gente almoçava junto todo dia. Eu dava carona para o treino, porque ele não tinha carro. É um cara muito bom e um grande amigo", recorda.

E por falar no Brasil, o alemão, que já trabalhou como comentarista de futebol da BBC e auxiliar técnico da seleção de Cuba depois de sua aposentadoria como jogador, quer mesmo é viver no país da Copa de 2014: "Um dos meus grandes objetivos é trabalhar como diretor esportivo ou treinador em uma time da Série A do Brasileiro", ressalta. Interessou? É só entrar em contato pelo Twitter: @1_LPfannenstiel.

Confira a entrevista de Lutz Pfannenstiel:

ESPN.com.br: Você se intitulou como o "Goleiro Global". Como chegou a esse título?
Lutz: Eu joguei por 25 times em 13 países de seis continentes, o que me torna o único jogador a ter atuado nos seis continentes da Fifa. Por que fiz isso? Eu tinha uma vida normal na Alemanha, jogava pelos juniores da (seleção da) Alemanha e do Bayern de Munique, tinha tudo pronto para ter uma carreira normal por um time da Bundesliga, mas havia um problema comigo: eu era uma pessoa muito impaciente. Queria ser o goleiro número um com 17, 18 anos, não conseguia conviver com o pensamento de ser um goleiro reserva. Times da Alemanha me ofereciam contratos, mas eu estava decidido a ser o goleiro titular e decidi por uma mudança total de rumo: fui para a Ásia, para a Malásia, que não é exatamente famosa pelo futebol. Depois voltei para a Europa, onde joguei na Premier League inglesa, pelo Wimbledon. Quando estava lá, o time começou a me emprestar para diversas equipes, que foi quando minha carreira como um "trota-mundos" começou.

Arquivo Pessoal
Passaporte Lutz Pfannenstiel
Passaporte de Lutz é cheio de carimbos

Mas como você foi da Alemanha direto para a Malásia?
Lutz: Eu tinha ofertas do Bayern de Munique e do Nuremberg, fiquei muito próximo de assinar o contrato, mas para ser goleiro reserva a atuar no time número dois, quando eu tinha de 18 para 19 anos. E havia um agente nesta época que trabalhava bastante com o futebol da Malásia, ele viu que eu estava infeliz e me disse: "Se você quer ser jogador profissional, titular e jogar para 30 ou 40 mil pessoas, por que não vem jogar na Malásia?". Eu sou um cara muito espontâneo. Na hora, falei: "OK, vamos nessa!". Foi assim que fui parar lá. Mas não joguei muito tempo, fiquei só por seis meses, que era metade da temporada. Joguei muito bem e consegui uma vaga no futebol inglês.

E como teve coragem de rejeitar uma proposta do Bayern?
Lutz: Você tem que ser realista... Eu nunca fui um goleiro que aceitasse ficar no banco, esperando. Eu tinha que ser um líder, um cara que ficasse no campo o maior tempo possível. Sempre fiquei muito frustrado em ficar no banco. Chegar jovem ao Bayern de Munique e virar goleiro número um é praticamente impossível. Você tem que sentar e esperar sua chance. Mas eu nunca fui feito disso.

É verdade que você chegou a ser preso por manipulação de resultados quando jogava em Cingapura?
Lutz: É uma história triste, que mudou completamente minha vida e minha personalidade. Eu fui trancado na prisão por algo que não fiz, fui usado como bode expiatório pelos políticos. Foi uma situação muito triste. Eu tinha 27 anos, estava no auge da minha carreira de goleiro, com muitos anos ainda pela frente, e fui parar em uma das piores cadeias do mundo, sem nada para comer e dormindo no chão, sendo tratado como um criminoso, levando socos na cara todo dia, tudo por algo que não fiz. Fui acusado de, por mais engraçado que pareça, ganhar os jogos. Como disse o juiz, eu estava jogando "bem demais". Era um monte de bobagem, é claro. Como é possível você ser acusado de jogar bem demais e vencer seus jogos? Mas na Ásia o futebol é sujo, tem muita manipulação de resultados, corrupção, é algo que existe, obviamente, mas existe muito mais para os atletas locais do que para estrangeiros. Mas para os políticos, foi uma ótima chance de chamar a atenção. Naquela época, eu era muito popular por lá, tinha meu próprio show de TV, os melhores momentos da Premier League, era modelo e estava jogando bem no campeonato local, ainda fomos campeões da Copa... Então ter um estrangeiro acusado no meio de tudo isso trouxe muita atenção ao caso, e eu paguei o pato. Achei que minha carreira tinha acabado... Foi só um muito trabalho, muita fé, a leitura da Bíblia, que eu consegui sair daquilo e ainda jogar por muitos e muitos anos.

Getty
Lutz Pfannenstiel no Geylang United, de Cingapura
Lutz no Geylang United: acabou preso na Ásia
E essa história de que você já morreu em campo?
Lutz: Foi muito difícil voltar a jogar depois da situação chocante em Cingapura. Eu precisava de um tempo para voltar ao jogo, mas estava sendo bem difícil, porque minha cabeça não estava boa. Em Cingapura, falava-se até em pena de morte, é muito complicado ficar na prisão lá. Depois de jogar na Nova Zelândia, onde correu tudo bem, voltei para a Inglaterra e precisava de alguns jogos para voltar à velha forma, então fui jogar por um time pequeno em Bradford [Bradford Park Avenue]. Era Boxing Day [rodada de Natal], quando todo mundo está nos estádios de futebol, nosso estádio estava cheio, e tudo aparentemente ia normal: fui sair em uma bola, estava frio e chovendo, eu sai deslizando e o atacante, um cara chamado Clayton Donaldson, muito rápido, também tentou ir na bola, e acabou caindo com o joelho bem no meu esterno [osso humano localizado na parte anterior do tórax]. Aí tive uma lesão muito comum a boxeadores, no qual os nervos da parte superior do corpo paralisam e você perde pulsação e batimentos cardíacos... E eu morri! Minha sorte foi que o médico viu muito rápido o que tinha acontecido, que alguma coisa estava muito errada, e fez respiração boca a boca. Fui reanimado três vezes após ser declarado três vezes morto. Para você ver como a lesão foi grave, uma partida de futebol na Inglaterra nunca é cancelada, o mundo tem que acabar para eles cancelarem um jogo de futebol. Mas nesse dia eles acabaram parando o jogo, porque os jogadores estavam chorando vendo aquela cena. Por sorte, não me lembro muito disso, e acordei no hospital quatro horas depois, após sair do coma. Eu só lembrava de ver o Clayton (Donaldson) indo para a bola... Quando a enfermeira me contou que o jogo havia sido cancelado, eu fiquei muito bravo, porque estávamos ganhando [por 2 a 1]! Nem pensei na minha saúde. E por mais engraçado que pareça, voltei a jogar apenas oito dias depois, no mesmo estádio. Pensando nisso depois de tantos anos, eu vejo como fui irresponsável, principalmente com minha família, minha filha, minha esposa, foi muito errado. É que na Alemanha a gente costuma saltar de esqui, e, se alguém se machuca, dizemos: "Tente voltar para a rampa o mais cedo que puder". Foi a mesma coisa que eu fiz. Quando entrei em campo, tentando voltar a jogar o mais rápido possível, achei que fosse conseguir esquecer aquilo, achava que se eu demorasse muito ia ficar hesitante quando uma bola viesse na minha direção. Mas voltei a jogar oito dias depois e estou vivo até hoje.
Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel
Pfannenstiel em ação nos seus tempos de "goleiro global"

E o que você lembra da vida após a morte?
Lutz: Não fui nada ruim (risos). A única coisa que lembro foi de não ver cores. Eu vi apenas preto, branco, prata e cinza. Parecia um caleidoscópio, quando você olha dentro e vê diamantes. Foi exatamente isso que eu vi, essas cores em formato de diamante. Não ouvi vozes, só via as cores ao longe, e toda vez que eu chegava perto, eu voltava para o começo. Não sei te dizer o quanto isso durou, mas era uma atmosfera muito relaxante... E tenho que dizer: quando penso nisso, se eu soubesse que, aos 45 ou 50, fosse morrer de câncer, por exemplo, eu preferia ter morrido aquele dia no campo de futebol, porque estava fazendo o que eu amava fazer.

Na Inglaterra, você jogou no time do Wimbledon que ficou conhecido como Crazy Gang, que tinha o hoje ator Vinnie Jones como líder. Como foi a experiência?
Lutz: Dava pra fazer um documentário de 45 minutos só sobre isso! A Crazy Gang não era um time de futebol comum. Jogávamos na Premier League, os salários eram bem mais baixos do que o dos outros times, mas o espírito e o coração desse time eram inacreditáveis. Era basicamente mais luta do que jogo no campo, só chutão, carrinho, a bola estava sempre no alto. Eles nem me deixavam sair jogando rasteiro, era sempre pra dar um chutão pro alto. E os personagens desse time, como Mick Harford, Vinnie Jones, Jason Newell, eram caras durões, sabiam o que fazer, todo mundo se ajudava em campo. O ambiente daquele vestiário era uma coisa única, acho que nunca haverá um time como aquele.

E o Vinnie Jones já queria ser ator desde aquela época?
Lutz: Não, definitivamente não queria ser ator. Quando eu estava lá, ele estava no auge de sua carreira como futebolista. As pessoas acham que ele não era um bom jogador, que era um "assassino", mas ele era um ótimo jogador e uma ótima pessoa. Era um cara para quem os outros olhavam quando precisavam de motivação. E tem uma coisa sobre ele que muitas pessoas não sabem, porque o veem como o "valentão inglês", que sempre faz papel de criminoso nos filmes: ele é um cara muito dócil, com um grande coração, que fazia as coisas sempre pensando na esposa, que estava doente, e nas crianças. Quando você o conhece, vê que é uma ótima pessoa. Mas também dá para dizer que eu sempre fiquei feliz de ele jogar no meu time (risos).

Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel na BBC
Lutz Pfannenstiel já trabalhou como comentarista da BBC

A Crazy Gang era famosa pelas pegadinhas. Aprontaram alguma com você?
Lutz: Eles sempre aprontavam coisas terríveis uns com os outros, e o negócio de ficar pelado era normal eles fazerem com os recém-chegados. Todo mundo saiu para uma corrida em um lugar legal, um parque, com várias moças passeando com seus cachorros, crianças voltando da escola, e eles deram um comando para arrancarem todas as minhas roupas. Aí me deixaram na grama e saíram correndo. Tive que correr cinco quilômetros assim [coloca as mãos na frente dos genitais]. Quando cheguei no vestiário, ninguém deu nem bola, era uma coisa normal para eles.

Jogando em 25 times de 13 países, deu tempo para casar, ter filhos?
Lutz: Eu sempre viajei muito, mas minha esposa veio atrás de mim em cinco continentes, minha filha estudou em escolas de quatro continentes... É uma vida comum. Claro que é difícil para a família ter que se mudar a cada seis meses, um ano... Uma nova casa, uma nova escola, um novo carro, tudo novo... Mas acho que foi bom para toda a família, porque viajando você aprende muito sobre culturas diferentes, pessoas diferentes, você se torna um camaleão, porque precisa se adaptar todo dia a uma nova situação. Isso o faz crescer como pessoa e tomar conhecimento de que existem coisas diferentes na vida do que apenas a Alemanha. As pessoas precisam entender que, em qualquer lugar do mundo, dá para viver de maneira muito boa, só é preciso se ajustar às pessoas em volta e não ter aquela ideia de que o seu jeito é sempre o jeito certo de fazer as coisas, só relaxe e aproveite!

Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel é apresentado pelo Atlético de Ibirama
Lutz é apresentado pelo Atlético de Ibirama-SC

Você também jogou no Brasil. Gostou?
Lutz: Foi muito bom! Na verdade, dá para dizer que foi o lugar que mais gostei de jogar. Quando eu vim para o Brasil, era para eu ter assinado por outro time, pois recebi quatro propostas concretas, a maior parte de times do Campeonato Carioca, cheguei até a acertar contrato com o América-RJ, mas a situação financeira deles estava ruim, acho que está assim até hoje, então joguei algumas partidas por eles e depois recebi essa oferta de Santa Catarina [do Atlético de Ibirama], que era muito boa pelo lado do marketing. Era uma boa transferência, pois há uma grande colônia alemã lá, e quando eu cheguei para meu primeiro treinamento havia mais gente no estádio do que a própria população de Ibirama, pois vieram de toda Santa Catarina. Quando joguei pela primeira vez aconteceu a mesma coisa. Aprendi muito no Brasil. É interessante para os brasileiros que, na Europa, sempre se acreditou que o Brasil tinha grandes jogadores de linha e goleiros ruins. Quando eu vim para cá, aprendi que isso não era verdade: o Brasil tem ótimos goleiros e ótimos treinadores de goleiros. Eu tirei muitas lições do treinamento de goleiros feito no Brasil para os treinos que faço agora no Hoffenhein, na seleção alemã, nos programas da Fifa... Abriu demais a minha cabeça. Foi algo fantástico, os brasileiros têm grandes corações, eu sempre me sentia bem vindo aonde quer que eu fosse. Sempre que volto ao Brasil, parece que estou voltando para casa. Tenho muitos amigos aqui, é como uma família para mim.

Você se lembra de jogar como o Leandro Damião? Ele era conhecido como Leandrão...
Lutz: É claro! Naquela época, ele era um jovem garoto, muito talentoso, rápido, forte, bom no jogo aéreo. Mas tenho que ser honesto: naquela época, ele era apenas uma "criança", é claro que eu via que ele tinha algo de especial, mas nunca poderia prever que, dois anos depois, ele estaria jogando pela seleção (brasileira). Ele mudou-se para Porto Alegre [para o Internacional] e tudo saiu muito bem para ele. Quando me lembro [do Atlético Ibirama], lembro-me dele sentado perto de mim no vestiário, a gente almoçava junto todo dia, eu dava carona para o treino, porque ele não tinha carro naquele tempo. É um cara muito bom e um grande amigo.

Curiosamente, você passou por vários times que tiveram problemas financeiros...
Lutz: Bastante! Teve uma situação muito ruim no Calgary Mustangs, do Canadá, que pediu falência enquanto eu estava lá. Meu time na Albânia, o Vllaznia Shkodër, também passou por um péssimo momento financeiro, assim como um time da Noruega. Passei por muitos times que estavam com problemas financeiros quando eu estava jogando neles... Talvez o culpado fosse eu, vai saber (risos)...

Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel em ação pelo Global United
Lutz em ação pelo Global United, seu time beneficente

Qual foi o pior estádio que jogou?
Lutz: Meu Deus, eu joguei em tantos estádios ruins (risos)... Joguei em muitos estádios bons, mas também em alguns estádios malucos, como no Irã, com umas 120 mil pessoas dentro e parece que vão te esmagar. Na Albânia, joguei em um que não dava nem para se trocar no vestiário, de tanto lixo que tinha, coisas assim. Para mim, o estádio é mais o que você sente quando está no campo. Muitas vezes, um estádio antigo, feio, tem muito mais poder do que um recém-construído. Eu devo ter jogado em uns 500, 550 estádios por todo o mundo. Alguns deles nem deviam ser chamados de estádios, mas de buracos. Mas era sempre divertido! Quando me lembro disso, e vejo os estádios em que jogamos hoje com o meu time beneficente, com o Hoffenheim na Bundesliga, penso que os estádios feios e sujos também têm seu charme.

E quais foram os torcedores mais malucos que encontrou por aí?
Lutz: Os mais doidos eram os da Albânia. Quando a gente perdia, jogavam pedras. Ao invés de atirarem rojões para o alto, atiravam no meu pé. Mas quando a gente ganhava, éramos presenteados com cabras, frutas... Os caras são muito emotivos, a cultura lá às vezes é um pouco agressiva até. Já os (fãs) mais estranhos eram os dos Estados Unidos, porque eles iam para o jogo de futebol comer um hambúrguer, fazer um piquenique, ficam conversando com a esposa, os filhos, e não assistem ao jogo. Também sempre tive uma relação muito especial com os torcedores na África, porque não há brigas nos estádios africanos, eles só cantam e dançam. É uma atmosfera muito especial, na qual o ritmo acaba entrando no campo e te deixa feliz. No Brasil, há duas faces. Às vezes, há uma atmosfera fantástica, mas, em outras, você vê o lado ruim, quando os torcedores ficam se chutando e destruindo as coisas. Não acho que esse tipo de coisa deva ocorrer em um estádio, pois quando você vai para o campo, muitas vezes vai com a família, as crianças, e só quer assistir ao jogo e se divertir. Se quer ir para dar porrada na cara do seu amigo, então acho melhor você virar um lutador de rua ou boxeador, e não ir para um jogo de futebol.

E depois que você parou de jogar, ainda teve mais algumas aventuras?
Lutz: Minha meta sempre foi jogar até os 40. Eu tenho 40 agora e ainda acho que tenho condições de jogar, mas, depois que eu joguei no Brasil, alcancei o recorde mundial, por ter jogado nos seis continentes. Recebi muita atenção da mídia do mundo todo. Em Ibirama, recebi visitas de equipes de reportagens de TVs da Rússia, Alemanha, Inglaterra, muitos lugares, e eles queriam falar comigo. Eu queria ter jogado mais um ano no Brasil, mas acabei voltado para a Alemanha, porque havia muita atenção em cima de mim, e eu queria um pouco de paz... Sabe como é, eu morri em campo, passei um tempo na cadeia, e mais coisas do tipo (risos)... Pensei em voltar para a Noruega, tive ofertas de times brasileiros, mas que não tinham situação financeira tão boa, então voltei para a Noruega. De lá, recebi uma oferta da África, da Namíbia, um lugar de que gosto muito, e pensei: "Lá é o lugar ideal para começar uma carreira como treinador". Virei diretor esportivo, goleiro e treinador... Basicamente, eu era tudo nesse time [Ramblers FC]! Alguns meses depois, virei auxiliar-técnico da seleção da Namíbia, também gostei muito. Veio a Copa do Mundo [na África do Sul] e eu fui contratado por canais de TV para ser o expert em futebol africano. Foi aí que vi que tinha muitas coisas para fazer, além do futebol, nas quais eu poderia usar minha experiência internacional. Por isso, decidi parar de jogar futebol aos 37, 38 anos... Depois disso, consegui esse trabalho espetacular [olheiro] no Hoffenheim, na qual posso continuar trabalhando em um projeto da Federação Alemã de Futebol, no qual dou aulas para treinadores de goleiros ao redor do mundo. Também farei um programa no Brasil no ano que vem, levando a seleção da Alemanha às favelas em cinco cidades, mostrando a professores e treinadores de futebol como ligar com jovens atletas. É algo que gosto muito de fazer. Claro que meu trabalho principal é no Hoffenheim, mas também tenho uma instituição de caridade, a Global United, que conta com vários ex-jogadores brasileiros, como Paulo Sérgio, Paulo Rink, Aldair, que jogaram jogos beneficentes pela minha instituição. Fico muito feliz com isso.

Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel treina goleiro da seleção da Namíbia
Lutz virou treinador de goleiros da seleção da Namíbia

Você trabalhou até mesmo em Cuba, não foi?
Lutz: Eu ainda era jogador quando fui para lá, durante um break de seis meses após minha temporada no Brasil, e consegui esse trabalho de auxiliar-técnico em Cuba. Acabei não passando muito tempo em Cuba, porque estávamos disputando as eliminatórias para a Copa do Mundo, os outros técnicos eram alemães e a estrutura lá era muito ruim, tanto para jogar quanto para comer. Conseguimos, através de um patrocinador, levar os jogadores por três meses para a Áustria, onde havia ótima estrutura, e lá preparamos os garotos para as eliminatórias do Mundial. Infelizmente, perdemos para o grande inimigo de Cuba, os Estados Unidos, e fomos todos demitidos, é claro (risos)...

Qual o lugar que você mais gostou de morar? E o que menos gostou?
Lutz: É uma luta muito dura (pelo melhor) entre Brasil e Canadá... Vancouver, na Columbia Britânica, é uma cidade fantástica, uma das melhores do Canadá e do mundo, gostei muito. Mas quando eu olho o panorama, quando converso com a minha esposa, lembramo-nos de como passamos bem nossos dias no Brasil, porque aqui tudo é muito bom... Tem muitas frutas, sol, praias, tem tudo, além dos brasileiros serem muito amigáveis. Se você é um jogador de futebol, fica mais fácil, porque os brasileiros "vivem" futebol, é mais que só um jogo, é uma religião. Por isso, quando você é jogador de futebol, Brasil é o lugar para estar e o lugar pelo qual você se apaixona. Eu sou uma pessoa que leva tudo numa boa, mas só desgostei de um lugar até hoje: Cingapura [onde ficou preso]. Precisei de muita energia e luta para passar por lá, ainda mais sabendo que não fiz nada de errado. Anos depois, a Corte Internacional revisou meu caso e obviamente eu fui inocentado, então não tenho ficha criminal, mas fiquei muito tempo na cadeia e fui tratado como um animal. Por isso não sou um grande fã de Cingapura. Mas assim é a vida...

Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel e Dante
Lutz e o zagueiro Dante, do Bayern e da seleção brasileira

Aprendeu a falar quantas línguas durante esses anos todos?
Lutz: Não muitas, porque na maior parte da carreira joguei em países que falavam inglês: Nova Zelândia, Estados Unidos, Canadá, na Noruega também dá para sobreviver em inglês. Falo alemão, é claro, e inglês até melhor que alemão, pois fiquei vivendo fora por muito tempo. Aprendi um pouco de português, mas só os básicos, para uso no campo de futebol. Até dá para pedir comida, mas não para manter uma conversa. Vamos dizer que não morrerei se você me soltar na rua... Eu entendo um pouco de russo, porque minha mulher é descendente, e também consigo me comunicar em línguas escandinavas, como sueco e norueguês. Não sou um "monstro" das línguas, mas o futebol tem sua própria linguagem.

E como funciona seu trabalho de olheiro no Hoffenheim?
Lutz: As pessoas têm uma imagem completamente errada do que é o trabalho de olheiro, porque acham que você fica lá assistindo ao jogo e escrevendo "o número 8 é bom, o número 6 é ruim, o número 3 é rápido e o 9 é lento", mas não é nada disso. Ser olheiro nos dias de hoje é ter uma rede de pessoas espalhadas ao redor do mundo. Por exemplo, se estou observando um jogador brasileiro, preciso saber que tipo de amigos ele tem, que família ele tem, se ele anda com más companhias, se ele bebe, se vai para a balada, se pensa mais em mulher do que em futebol, todas essas coisas. Muitos atletas podem jogar futebol, mas o que está fora do campo é muito importante. E, claro, quando importamos um jogador da África ou da América do Sul, temos que ver se ele estará apto a se adaptar ao estilo alemão, ao tempo, à comida. São todas coisas que você precisa considerar, e esse tipo de análise pertence a essa rede de olheiros. Não se trata só de ver um jogo e dizer quem é bom e quem é ruim. O que está em volta significa muito mais. Estou observando alguns jogadores no Brasil, mas não posso falar quem.

Arquivo Pessoal
Lutz Pfannenstiel em seus tempos de Nova Zelândia
Lutz Pfannenstiel em ação nos tempos de Nova Zelândia

Falando no Brasil, você tem planos de viver na Amazônia por uns tempos, certo?
Lutz: Eu vou! No ano passado, eu morei em um iglu por 5 dias, nos Alpes da Alemanha. Estava muito frio, eu não conseguia sair de dentro. Havia webcams filmando tudo para uma rede de TV, e eu queria mostrar para o público que, se você quer alcançar algo na vida, deve sofrer um pouco. Sobre morar nos troncos das árvores com os índios por algumas semanas não vai ser nada mal, também. Só estou ocupado agora com os preparativos para a Copa do Mundo, mas, mais cedo ou mais tarde, você vai me achar na Amazônia, pode até me visitar lá!

Você já começou a pensar em ficar morando para sempre em algum lugar ou ainda pretende viajar bastante?
Lutz: Ninguém nunca vai conseguir me fazer parar quieto (risos)! (Viajar) está no meu sangue, eu acho que tem algo errado geneticamente comigo, porque eu nasci assim. Viajar pertence à minha vida. Claro que quando eu ficar mais velho vou querer ficar um pouco mais na calmaria, mas eu ainda preciso de ação, de coisas especiais. Se não fosse assim, não seria eu.

Veja os times pelos quais Lutz passou em cada continente:

Europa
Bad Kötzting (Alemanha), Wacker Burghausen (Alemanha), ASV Cham (Alemanha), Wimbledon (Inglaterra), Nottingham Forest (Inglaterra), Huddersfield Town (Inglaterra), Bradford Park Avenue (Inglaterra), Sint-Truidense (Bélgica), Hamrun Spartans (Malta), Tampereen Pallo-Veikot (Finlândia), PK Isalmi (Finlândia), Haka Valkeakoski (Finlândia), Baerum SK (Noruega), Fløy (Noruega), Manglerud Star (Noruega), FK Vllaznia Shkodër (Albânia) e Bentonit FC (Armênia)

América do Norte
Calgary Mustangs (Canadá) e Vancouver Whitecaps (Canadá)

América do Sul
Atlético Ibirama (Brasil)

África
Orlando Pirates (África do Sul) e Ramblers (Namíbia)

Ásia
Penang FA (Malásia), Sembawang Rangers (Cingapura) e Geylang United (Cingapura)

Oceania
Dunedin Technical (Nova Zelândia) e Otago United (Nova Zelândia)

*Colaborou André Linares, do Watch ESPN

Comentários

Morte em campo, cadeia, pelado na praça e 25 times em 13 países: as histórias do 'Forrest Gump' da bola

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.