'Playboy', Kalil construiu hegemonia no vôlei com Atlético-MG durante a década de 80

Antônio Strini e Marcus Alves, de Assunção (Paraguai), para o ESPN.com.br
Arquivo pessoal/Pelé
O Galo foi tetracampeão mineiro de vôlei sob o comando de Kalil
O Galo foi tetracampeão mineiro de vôlei sob o comando de Kalil

"Naquela época, na renovação dos contratos, as luvas eram pagas com um carro zero, um Voyage", relembra o ex-atacante Pelé ao ESPN.com.br.

O responsável pelas negociações não tinha mais do que 25 anos, havia largado a faculdade de engenharia e recebido de seu pai, então presidente do Atlético-MG, a tarefa de comandar o voleibol do clube. Foi assim que Alexandre Kalil, antes de sonhar com a conquista inédita da Libertadores a partir desta quarta-feira, armou um time de estrelas e construiu uma hegemonia nas quadras mineiras.

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Entre 1980 e 1983, foram sete títulos - quatro campeonatos estaduais e outros três metropolitanos. No Brasileiro, não se saiu mal também, ficando atrás apenas das equipes que formavam a base da seleção brasileira na época, Bradesco e Pirelli.

Prazer, Alexandre Kalil, um dos cartolas mais polêmicos do país, idolatrado pela torcida e que, ao mesmo tempo em que tenta levá-la a voos inimagináveis algum tempo atrás, mantém ainda hoje lições aprendidas entre um ginásio e outro nos anos 80.

O "playboy" dava os seus primeiros passos como dirigente.

Arquivo pessoal/Pelé
O atual presidente atleticano foi indicado por seu pai ao cargo
O atual presidente atleticano foi indicado por seu pai ao cargo

 

"Me recordo que o pai dele montou o time para dar uma função para ele trabalhar, entre aspas, era novinho, playboy, mas fez um excelente trabalho como diretor", afirma Pelé, hoje vereador em Belo Horizonte. "Ele fazia de tudo, era o responsável por cuidar dos contratos dos jogadores, da tabela, definição de técnicos", completa.

"Até pela idade, o Kalil era muito mais companheiro do que diretor", prossegue o ex-levantador Helder.

Nos quatro anos em que esteve à frente do vôlei do Atlético-MG, o atual mandatário alvinegro não pensava duas vezes para trocar de treinador. Em sua primeira temporada, apostou por Décio Viotti. Na seguinte, recorreu a Ênio Figueiredo. E por fim, em suas duas últimas, confiou em Radamés Lattari.

Um detalhe: em seu elenco, ele contava com um dos personagens mais vitoriosos da história do voleibol, José Roberto Guimarães, então levantador. E não só.

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Naquele time, Zé Roberto era reserva. A escalação tinha Pelé, Helder, Badalhoca, Zé Eduardo e Fernandão entre os titulares. Foi através da formação desse time que Kalil, inclusive, criou o ‘seu Cruzeiro' nas quadras, o Minas Tênis Clube.

Quando assumiu a presidência do Atlético-MG, em 1980, o pai do dirigente, Elias Kalil, fez uma reunião na sede do time, convocou alguns jogadores do Minas e realizou uma proposta financeira a todos eles. "O vôlei estava começando a despontar nacionalmente e ele tinha a intenção de montar uma equipe. Para determinados atletas, apresentou oferta individualmente, para outros, não, e como o Minas não se posicionou em nenhum dos casos, vários deles migraram para o Atlético-MG", recorda Helder.

Arquivo pessoal/Pelé
O atacante Pelé foi um dos atletas trazidos por Kalil do Minas
O atacante Pelé foi um dos atletas trazidos por Kalil do Minas

No comando daquele grupo, "Seu Elias", uma figura adorada por todos, escalou o seu filho Alexandre e também o diretor esportivo Carlos Moreira, mais experiente.

"O Kalil foi um dos principais responsáveis pelo crescimento do vôlei mineiro. O Minas, como tradicional formador de jogadores, acabou sendo forçado a partir dali a lançar outros nomes e isso gerou uma rivalidade", afirma Pelé. "Ele não ia só na boa. Nunca faltava em jogos e viagens. Gostávamos muito dele, participava de tudo, ficou amigo. Se um atleta se machucava, ele carregava no próprio carro até a Vila Olímpica (centro de treinamento do futebol) para fazer tratamento", prossegue.

Com 20 e poucos anos, o Kalil das quadras já deixava transparecer também o seu estilo brigador. As frases de efeito ainda não ecoavam com a mesma força, mas a característica de ‘se revoltar contra tudo que acredita ser errado', como ele mesmo defende, se fazia presente.

"Nós tivemos um episódio em 1981, antes de um jogo contra o Bradesco, no Maracanãzinho, que deixou isso bem claro. Estávamos hospedados num hotel em São Conrado, um dos melhores do Rio, e eu e meu irmão, também jogador, fomos assaltados no 22º andar do próprio hotel à mão armada", conta Helder.

"Foi uma situação muito forte e ele brigou bastante pela gente, exigiu uma série de condições e, como o pessoal não se posicionava, mudamos de hotel. Ele era uma pessoa que sempre tomava atitude, de opinião forte e que, mesmo jovem, não fugia de sua responsabilidade", completa.

Entre 1983 e 1984, o Minas conseguiu o patrocínio da Fiat e recuperou praticamente todos os atletas que havia perdido no início da década. Kalil ainda tentou segurá-los, pagava salários em dólar e oferecia como luvas um modelo zero do carro Voyage. Não teve como e seu pai, Elias Kalil, foi obrigado a encerrar o time.

A reportagem do ESPN.com.br entrou em contato com o Atlético-MG para solicitar informações sobre a modalidade no clube, mas foi informada de que, "com a sua extinção, tudo foi perdido". O presidente Alexandre Kalil também não retornou o pedido de entrevista até a publicação da matéria.

Relembre a participação de Alexandre Kalil no Bola da Vez dos canais ESPN
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