Privilégios, salários e paraísos fiscais: os contratos de Senna e Piquet na Lotus

Thiago Arantes, do ESPN.com.br
Getty
Piquet e Senna com Alain Prost no pódio do GP de Detroit, em 1987
Piquet e Senna com Alain Prost no pódio do GP de Detroit, em 1987


Ayrton Senna e Nelson Piquet têm mais em comum do que os três títulos mundiais que os fazem os brasileiros mais vencedores da Fórmula 1. Inimigos declarados durante quase uma década, eles dividiam características semelhantes, o que fica evidente nos contratos com a Lotus, equipe em que Senna correu entre 1985 e 1987, sendo substituído por Piquet, que lá ficou em 1988 e 1989.

Os documentos foram disponibilizados pela Universidade da Califórnia, em um compêndio chamado Legacy Tobacco Documents Library, que reúne contratos, memorandos e até reportagens relacionadas a empresas tabagistas - uma delas, a RJ Reynolds, que patrocinava a escuderia inglesa. No Brasil, os documentos foram publicados em primeira mão no Brasil pelo jornalista Fabio Seixas.

Os contratos de Senna e Piquet assinados em 1987 têm pontos curiosos em comum: os privilégios com relação ao segundo piloto, o japonês Satoru Nakajima, as empresas registradas em paraísos fiscais que pagavam aos brasileiros e salários altos, dos mais polpudos da época. 

Privilégios - O status de primeiro piloto da equipe também era garantido por contrato a Ayrton Senna e a Nelson Piquet. O companheiro de ambos na Lotus foi Satoru Nakajima, japonês que estava na escuderia como contrapartida ao fornecimento de motores da Honda. 

No contrato de Piquet, a primeira cláusula cita nominalmente o japonês. "O statis de Nelson Piquet será o de primeiro piloto do Team Lotus, e o segundo piloto será Satoru Nakajima (que já assinou um código de conduta sobre isso)".

Em um dos apêndices do contrato de Piquet, a Lotus coloca o código de conduta de Nakajima. Um dos trechos diz que "espera-se que o carro Número 1 [do primeiro piloto] chegue à frente do carro Número 2."

O acordo de Senna com a Lotus tinha cláusula semelhante, mas era menos explícito. "Nas temporadas 1987 e 1988, o status será de primeiro piloto, e ao piloto [Senna] será dada a correspondente prioridade (se aplicável) na alocação de equipamentos durante 1987 e 1988".

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Trecho do contrato que mostra os privilégios de Nelson Piquet na Lotus
Trecho do contrato que mostra os privilégios de Nelson Piquet na Lotus

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Contrato de Ayrton Senna com a Lotus mostra privilégios de primeiro piloto
Contrato de Ayrton Senna com a Lotus mostra privilégios de primeiro piloto

Paraísos fiscais - O contrato de Ayrton Senna com a equipe, assinado em 30 de janeiro de 1987, previa duas temporadas de vínculo, mas com a possibilidade de rescisão após um ano em caso de aviso prévio. O termo é acordado entre o Team Lotus International Limited e a Ayrton Senna da Silva Promotions Limited, empresa de Senna com sede em Nassau, nas Bahamas, conhecido paraíso fiscal. 

 

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Acordo de Senna com a Lotus mostra empresa em Nassau, Bahamas
Acordo de Senna com a Lotus mostra empresa em Nassau, Bahamas

O acordo de Nelson Piquet com a equipe, assinado em 11 de setembro também de 1987 - justamente para substituir Senna, que se transferiu para a McLaren - também mostra um paraíso fiscal. O piloto, que na época da assinatura brigava pelo terceiro título mundial, era representado para fins legais pela empresa Race Ace Management Corporation, com endereço em Curaçao, nas Antilhas Holandesas.

O fato de Piquet e Senna terem recebido por empresas em Bahamas e Antilhas Holandesas tem uma explicação: a intenção de fugir dos impostos na Inglaterra, país de origem da Lotus, em que as taxas eram muito mais altas do que nos chamados paraísos fiscais.

Não por acaso, a Lotus fala no contrato que Ayrton Senna terá de se mudar da Inglaterra, onde morou durante as temporadas que antecederam sua chegada à Fórmula 1, bem como nas três primeiras temporadas na categoria. Em 1987, Senna mudou-se para Mônaco, outro país com carga tributária mais benevolente que a Inglaterra e reduto de praticamente todos os pilotos da categoria.

Procurado pelo ESPN.com.br na noite de quarta-feira, Nelson Piquet não respondeu à pergunta sobre a empresa em um paraíso fiscal. Mas, via SMS, replicou a questão com rispidez. "Imbecil, eu era recidente (sic) em Mônaco e não pagava nada de imposto!!!", escreveu o tricampeão.

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Contrato de Nelson Piquet com a Lotus mostra empresa em Curcaçao, nas Antilhas Holandesas
Contrato de Nelson Piquet com a Lotus mostra empresa em Curcaçao, nas Antilhas Holandesas


Remuneração -
Os contratos, disponibilizados no site em sua íntegra, mostram detalhes pouco acessíveis ao público comum, já que esse tipo de documento costuma ser sigiloso. Entre eles, o salário de Ayrton Senna em 1987, de US$ 1,5 milhão anual, com um bônus adicional de US$ 250 mil por um eventual título, mais US$ 4 mil para cada ponto conquistado.

O contrato de Piquet, assinado no mesmo ano, prevê a mesma remuneração fixa, paga em quatro parcelas e com bônus semelhante por pontos; o prêmio pelo título, contudo, é menor: US$ 150 mil. Só que outro documento, um memorando enviado pela Lotus ao piloto e à RJ Reynolds, mostra que a patrocinadora incrementaria os ganhos do brasileiro, que faturou ao todo US$ 3,5 milhões em 1988 e US$ 5,5 milhões na temporada seguinte.

 

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Salário de Ayrton Senna em 1987 era de US$ 1,5 milhão segundo os documentos
Salário de Ayrton Senna em 1987 era de US$ 1,5 milhão segundo os documentos

 

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Salário do primeiro ano de Piquet, em um pré-contrato com a Lotus
Salário do primeiro ano de Piquet, em um pré-contrato com a Lotus

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Salário de Piquet em 1989: com todos os benefícios e bônus, US$ 5 milhões
Salário de Piquet em 1989: com todos os benefícios e bônus, US$ 5 milhões

LEIA O CONTRATO DE SENNA AQUI
LEIA O CONTRATO DE PIQUET AQUI
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