Futebol feminino do Brasil, 30 anos: grande só no tamanho do campo

Guilherme Nagamine, do ESPN.com.br
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Futebol feminino não avançou apesar de ter Marta, eleita cinco vezes a melhor do mundo
Futebol feminino não avançou apesar de ter Marta, eleita cinco vezes a melhor do mundo
Há 30 anos, no dia 11 de abril de 1983, o extinto Conselho Nacional de Desportos regulamentava o futebol feminino e autorizava a prática do esporte em todos os municípios do Brasil. Três décadas após a decisão – publicada no Diário Oficial da União sob a nomenclatura de ‘deliberação CND 01/83’ -, a bola chutada pelas meninas segue enfrentando percalços para rolar de maneira adequada no país.

Reportagem Especial - 30 anos de futebol feminino e pouco a se comemorar

No documento, o órgão delibera pontos que hoje soariam como bizarros e óbvios: não podem existir times mistos, a partida terá dois tempos de 35 minutos e o intervalo precisa ter duração entre 15 e 20 minutos. 

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Trinta anos depois, a regras do futebol feminino são iguais às do masculino – exceção feita à calibragem da bola, um pouco diferente. Mas se o regulamento e o material de jogo são praticamente os mesmos, as condições de estrutura e torneios ainda não – bem longe disso, na verdade.
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Documento da CND que regulamentou a prática de futebol feminino no Brasil
Documento da CND que regulamentou a prática de futebol feminino

A nação que conta com Marta, atleta eleita cinco vezes a melhor jogadora de futebol do mundo, ainda não conseguiu produzir um torneio nacional rentável para os clubes. Os torneios estaduais, tão criticados no meio masculino do futebol, sequer existem em todos os estados entre as mulheres. Os melhores clubes do país só sobrevivem graças a parcerias com prefeituras.

As atletas ainda sofrem. São poucas as equipes que conseguem oferecer um contrato às jogadoras. Atrasos são constantes em alguns times e existem meninas motivadas apenas pela paixão de jogar - não recebem salários. A estrutura, muitas vezes, deixa a desejar: há time semifinalista da Copa do Brasil que não dispõe de um campo oficial decente para treinar. 

Um quadro preocupante, digno de um esporte quase fantasma no país que sempre se denominou como a nação do futebol. Mas que tem em algumas de suas principais figuras um otimismo em relação ao futuro.

“Não somos um esporte fantasma. A modalidade está crescendo no país. Está em busca de um resultado positivo, satisfatório, que dê oportunidade para mais meninas”, definiu Márcio de Oliveira, técnico da seleção feminina principal, ao ESPN.com.br.

A falta de apoio: insensibilidade das empresas ou dos clubes?
Oliveira, além do trabalho na seleção, também é técnico do São José-SP, umas das melhores equipes do país. E como a maioria das equipes femininas, o time tem uma parceria com a prefeitura local. E, ao contrário da grande maioria das outras agremiações, o clube conta com um patrocinador privado forte que possibilita bons salários para as atletas. 
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Bagé dá carrinho em jogadora da Austrália em jogo da seleção
Bagé dá carrinho em jogadora da Austrália em jogo da seleção

Apesar da situação periclitante da maioria dos clubes, Márcio não acha que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tenha muita culpa no quadro. Para ele, os clubes precisam se esforçar mais para atrair novos mecenas e conseguir o tão desejado apoio.

“Acho que a questão não é a CBF, que é um carro-chefe que pode nos apoiar. Nós, aqui nos clubes, precisamos correr mais pelo nosso ‘pãozinho’ de cada dia. Precisamos nos sensibilizar mais e achar os investidores que estejam interessados”, analisa ele. 

A sensibilidade tocada pelo treinador, porém, é justamente o que falta às empresas, na opinião da zagueira Bagé. A atleta da seleção brasileira vê um ‘medo’ das companhias, que sempre justificam a falta de retorno como o principal motivo para não investir nas equipes femininas.

“O São José foi campeão da Libertadores e a empresa patrocinadora teve um retorno muito grande. E uma maneira de apoiar o futebol feminino é via lei de incentivo fiscal. As empresas, ao invés de repassarem para o governo, podem repassar as taxas para as equipes pela lei. É uma maneira direta das empresas agirem”, afirma ela.

SP: polo econômico é também o centro do futebol feminino
Coincidência ou não, o estado de São Paulo, que concentra o maior polo econômico do Brasil, é o que parece possuir as empresas mais sensíveis em relação ao futebol feminino. Não apenas pelas equipes, mas também por ter um Estadual longo na modalidade – caso raro no esporte nacional para as mulheres. 
Rafael Ribeiro/CBF
Técnico Márcio de Oliveira (de boné) durante treino da seleção feminina
Técnico Márcio de Oliveira (de boné) durante treino da seleção

“São Paulo sempre foi o principal centro do futebol feminino e continua sendo. Muitas meninas vêm jogar aqui depois, já que o torneio é mais longo (vai de abril a outubro). No Rio de Janeiro, por exemplo, existem menos equipes e o torneio é menor (vai de julho a outubro)”, diz Formiga, uma das mais experientes jogadoras do futebol brasileiro. 

O estado concentra dois dos quatro times semifinalistas da Copa do Brasil, São José e Centro Olímpico. Apesar do término do projeto do Juventus, outros clubes são lembrados pelos bons projetos. São os casos de São Caetano e São Bernardo, Ribeirão Preto e Araraquara. 

“Sou gaúcha e sempre quis jogar em São Paulo. Hoje tenho que agradecer a Deus pela estrutura que o São José tem, o planejamento. Muitas meninas querem jogar em São Paulo, mas não há espaço para todas elas”, lamenta Bagé. 

Os outros semifinalistas da Copa nacional feminina, São Francisco-BA e Vitória-PE, podem ser considerados os demais ‘oásis’ da modalidade no Brasil. Mas mesmo estes times de maior projeção nacional – e que também foram os semifinalistas da Copa do Brasil do último ano – não estão livre de passarem por ‘perrengues’.

O Centro Olímpico, sustentado pela prefeitura de São Paulo, deu calote nas jogadoras: os salários atrasaram por três meses. O São Francisco-BA também sofre para treinar: de acordo com relato do treinador da equipe, Mário Augusto, há tempos o time não tem um campo decente para a realização das atividades táticas e técnicas. 

As atletas brasileiras, então, sempre esperam por uma proposta do exterior que possam ‘salvá-las’. Não apenas na Europa e nos Estados Unidos, mas em centros que também crescem no futebol feminino, como Coreia do Sul e Rússia. No exterior, há acesso a uma boa estrutura e o risco de levar ‘calote’, ter contrato apenas verbal ou de curta duração ou jogar apenas movida pela paixão é praticamente zero.

“A diferença é muito grande. A estrutura, organização, é fenomenal e a valorização é muito boa. Tudo o que você trata com eles no contrato é cumprido até o último dia. Nos Estados Unidos eles fazem ainda um bom trabalho de marketing para atrair as pessoas para o estádio e incentivam a prática e a ida às arenas nas escolas”, relata Formiga, que teve experiências na Suécia e nos Estados Unidos. 
Divulgação
Reunião na CBF sobre a estrutura do futebol feminino
Reunião na CBF sobre a estrutura do futebol feminino

Falta de torneios e até de gestão atrapalham renovação
A concentração da maioria de boas equipes em São Paulo cria um problema: não há espaço para todas as jogadoras no Estadual paulista. A solução é encontrar outros torneios no Brasil para disputar. Desse recurso, um novo problema surge: como o treinador da seleção conseguirá trabalhar e garantir que nunca falte ‘mão de obra’ qualificada na equipe nacional?

De acordo com Márcio de Oliveira, a Copa do Brasil feminina é a principal referência para analisar jogadoras de várias partes do Brasil. Mas para tornar o trabalho mais eficiente, o treinador, ao lado de Adilson dos Santos, técnico da seleção sub-20, e de Emily Lima, responsável pela sub-17 e a recém-criada equipe sub-15, terão de visitar os estados e realizar avaliações.

“Fizemos uma reunião recentemente na CBF sobre isso. Organizamos o calendário das quatro seleções e também um calendário próprio de visitas nos estados, para descobrir nossos valores. O tempo de avaliação é curto, mas a ideia é fazer várias avaliações no mesmo grupo para que a menina tente mostrar algo a mais. Isso é o início apenas, não é o ideal. O ideal mesmo é observar nas competições”, explica o treinador. 

Oliveira ainda acredita que as federações poderiam ter pessoas destinadas exclusivamente para olhar o futebol feminino. Segundo ele, São Paulo tem isso com o Coronel Isidro Suita, que é responsável pelo departamento de competições da entidade. A ideia também tem apoio das jogadoras. “Você tendo uma pessoa por trás e a atleta só se preocupando em jogar ajudaria e muito”, diz Formiga. 

Físico e psicológico: o que falta para a seleção dar um salto
Nos últimos anos, apesar das dificuldades enfrentadas, a seleção feminina de futebol realizou boas campanhas nos principais torneios. A equipe foi prata nos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Pequim-2008 e foi até as quartas de final nos Jogos de Londres, em 2012. Na Copa do Mundo, duas quartas de final (2003 e 2011) e um vice (2007). Hoje, segundo o ranking da Fifa, é a quarta melhor seleção do mundo.
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Bagé dá carrinho em jogadora da Austrália em jogo da seleção
Bagé dá carrinho em jogadora da Austrália em jogo da seleção

Mas o que falta para dar finalmente o salto e conquistar um grande título. Na cabeça das jogadoras, mais concentração e um melhor psicológico. Na cabeça da comissão técnica, a preparação física. Unanimidade no pensamento? Apenas na hora de descrever a principal qualidade da atleta brasileira: a técnica.

Em março, a equipe brasileira fez dois amistosos contra a França, que foi quarta colocada nos Jogos de Londres e quarta também na Copa do Mundo de 2011. As duas partidas terminaram empatadas: 2 a 2 e 1 a 1. 

Após os jogos, a comissão técnica da seleção apontou a preparação física como algo a melhorar nas jogadoras. Um intercâmbio de informações começou a ser feito, assim como visitas estão sendo planejadas para tratar especificamente do assunto. 

Da parte das jogadoras, a concentração pesa muito. “Precisamos ser mais obedientes. Lá fora, elas (jogadoras de outras seleções) começam e terminam o jogo do mesmo jeito. São muito focadas e nós nos desligamos muito rápido. Nesse tempo que a gente acabou levando os gols. Falta essa concentração”, afirma Bagé, capitã da seleção nos dois amistosos contra a França. 

Concentração, porém, que as meninas garantem não deixar de lado no dia a dia, no que dizem ser uma batalha diária para jogar bola. E o apoio dos torcedores também é fundamental no processo. “Não precisamos ser tão criticadas. Mas isso existe também no futebol masculino. Precisamos de energia positiva. Estamos um pouco no escuro ainda...”, define Formiga.

No breu ou não, o certo é que o futebol feminino brasileiro, aos 30 anos, só é grande mesmo no tamanho dos campos.
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Futebol feminino do Brasil, 30 anos: grande só no tamanho do campo

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