Pela primeira vez na Venezuela sem Chávez, César Farías tenta manter sua revolução

Thiago Cara, do ESPN.com.br
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César Farías: o líder da 'revolução vinho tinto' na seleção da Venezuela
César Farías: o líder da 'revolução vinho tinto' na seleção da Venezuela
César Farías tinha apenas nove anos quando Hugo Chávez fundou o Movimento Bolivariano Revolucionário-200 (MBR-200) e deu o primeiro passo para transformar seu sonho em realidade na Venezuela. Em 1982, aquele garoto nascido na pequena cidade de Guiria nem imaginava que cruzaria sua história com a do ex-presidente venezuelano para também liderar uma revolução.

Sem a mesma vocação política de Chávez, no entanto, César Farías escolheu a bola para ser seu instrumento de mudança. Assumiu a seleção que era conhecida como saco de pancadas do continente e, após cinco anos, vive o sonho real de levar a Venezuela pela primeira vez a uma Copa do Mundo – desafio que passa pela Colômbia, nesta terça (às 21h, de Brasília), nas eliminatórias.

Com 12 pontos ganhos, em 10 jogos, a Venezuela aparece atualmente na quinta colocação da classificatória, assegurando vaga na repescagem para o Mundial. Já a rival Colômbia é vice-líder, com 19 pontos. Diante do poderio do time de Falcao García, o time comandado por César Farías terá que lidar ainda, pela primeira vez em solo venezuelano, com o luto pela morte de Hugo Chávez.
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Hugo Chávez apresenta a espada de Simón Bolívar a César Farías
Chávez apresenta a espada de Simón Bolívar a Farías

O contexto

A relação entre Farías e Chávez era ‘excelente’, segundo o próprio treinador. Fã de beisebol, esporte mais popular na Venezuela, o presidente fez questão de prestar atenção no futebol durante seu mandato. “Sempre nos transmitiu muita energia. As lembranças, esportivas, são lindas. É isso que queremos transmitir ao povo venezuelano”, disse o técnico, após a morte do compatriota, no último dia 5 de março.

Além do carinho pessoal, Farías agradece a Chávez pela situação em que encontrou a seleção venezuelana. Em 2007, o presidente abriu as portas do país para a realização da Copa América, investindo mais de 900 milhões de dólares em infraestrutura, na construção de três estádios novos e reforma de outros três. Em campo, os anfitriões voltaram a se classificar para a segunda fase do torneio após 40 anos.

Naquela ocasião, a Venezuela era comandada por Richard Páez, que completava em 2007 seu sexto ano a frente da seleção. Pode-se dizer que foi com ‘O Doutor’, como é conhecido o ex-técnico pelos venezuelanos, que a equipe vinho tinto deu seu primeiro passo rumo à ‘revolução’. No entanto, após um início ruim nas eliminatórias de 2010, a mudança passou a ser chefiada por um novo líder.

O futebol

Farías deu seus primeiros passos no mundo do futebol em 1993, com apenas 20 anos, fundando o Nueva Cádiz Fútbol Club, onde estrearia como treinador e conquistaria seu primeiro título. No comando das categorias de base do clube recém-nascido, o técnico descobriu Juan Arango, um dos jogadores que mais vestiu a camisa da Venezuela, e o ex-são paulino Rondón.

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César Farías, apenas 40 anos e a missão de levar a Venezuela à sua primeira Copa do Mundo
Com apenas 40 anos, a missão do 1º Mundilal da Venezuela 
Após o título da segunda divisão, porém, problemas financeiros obrigam o Nueva Cádiz a se transferir para Maracaibo e mudar de nome para Zulianos. Na nova casa, Farías também conseguiria o acesso, em 2002. Na primeira divisão, o treinador comandou ainda Deportivo Táchira, Mineros de Guayana e Deportivo Anzoátegui. Não conseguiu nenhum título, mas sempre manteve seus times na briga.

A falta de uma faixa de campeão, no entanto, lhe fez falta quando foi anunciado para substituir Richard Páez na seleção, em 2008. Farías se viu cercado de desconfiança por cerca de seis meses, quando escreveu, pela primeira vez, seu nome na história da 'Vinho Tinto'. No dia seis de junho, o treinador comandou a Venezuela em sua primeira vitória contra o Brasil, em 38 anos de confronto.

Um ano mais tarde, Farías conseguiu seu segundo grande feito. Comandando a equipe sub-20 no Sul-americano, o técnico conseguiu classificar a Venezuela para o Mundial da categoria - até hoje, a única Copa do Mundo organizada pela Fifa que o país já conseguiu estar presente. Completando a lista de ‘conquistas’, o treinador obteve a melhor colocação da seleção em uma Copa América: quarto lugar, em 2011.

A (r)evolução

No ranking da Fifa, a Venezuela aparece atualmente na 43ª colocação, 16 posições acima do 59º lugar em que aparecia quando Farías assumiu o time e muito melhor do que o 129º posto, o pior da história da seleção. Apesar da evolução e dos feitos expressivos, o comandante da Vinho Tinto promete não se dar por satisfeito até levar seu país para a Copa do Mundo – dessa vez a principal.

“Somos 30 milhões de ‘vinotintos’, não é uma cor de uma política ou de outra. Nós somos um sentimento de todo o país. É um vírus que se impregnou, que identifica um povo. A cada vez que conseguimos um resultado importante, é bom para a sociedade. Há um país inteiro que chora e sofre conosco. É uma responsabilidade que temos. Queremos ir à Copa e estamos dispostos a lutar contra o mundo para conseguir”.

Ao menos no discurso, Farías mostra que, mesmo sem a mesma vocação política, aprendeu com Chávez. E agora, sem o ex-presidente, tenta ser o revolucionário a transformar o sonho venezuelano, no futebol, em realidade.
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Arango, revelado por Farías, comemora; sonho venezuelano por Mundial de 2014 é real
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