Rogério Micale, sem meias-palavras: conheça o 'cara' por trás do sucesso da base do Atlético-MG

José Renato Ambrósio, com redação do ESPN.com.br
Multi-campeão na base, técnico do Atlético-MG Sub-20 quer mais atenção para jovens atletas
"Meu nome é Mario Rogério Reis Micale, nome grande, me chamam de Rogério Micale, sou treinador de base há mais de 10 anos, tenho 3 títulos estaduais em três estados diferentes: Paraná, Santa Catarina, e Minas. Fui campeão da Copa São Paulo pelo Figueirense, bicampeão pelo Atlético-MG e uma final de campeonato sub-20 que perdemos para o Grêmio, e três títulos internacionais, na Holanda".

É assim que o técnico finalista da Copa do Brasil Sub-20 junto com o Atlético-MG apresenta seu currículo para aqueles que não sabem por que ele é considerado ‘o cara’ na categoria de base do futebol brasileiro. No entanto, depois de um bate-papo, Rogério Micale deixa claro que recebe essa alcunha não somente pelo trabalho que apresenta dentro das quatro linhas.

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Com a fala tranquila, digna de um bom professor, o técnico abre o jogo sobre o que pensa da situação do futebol de base. Micale é duro ao falar sobre o processo de transição de muitos jovens para o profissional, que acaba fazendo com que grandes valores se percam pelo caminho, e pede maior valorização do trabalho que é feito junto aos futuros jogadores brasileiros.
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Micale é o técnico da campanha do finalista Atlético-MG na Copa do Brasil Sub-20
Rogério Micale é o técnico da campanha do finalista Atlético-MG na Copa do Brasil Sub-20
Zé Renato (ZR): Como é a vida de um treinador de base, nesse último degrau antes do profissional, o sub-20? É uma profissãos instável ou estável?

Rogério Micale (RM) - Depende o clube que você trabalha, o local, os profissionais que te gerenciam, o presidente que muitas vezes comanda a equipe. Estável em alguns lugares, mas a maioria dos lugares é instável. Infelizmente na base, no futebol brasileiro, nós dependemos do resultado. Não podemos dizer de forma contrária, não é uma verdade. Hoje é pregado no Brasil que o principal é a formação, mas a gente vê que em alguns clubes não acontece dessa forma, se não vier o resultado você está fora, não vai fazer parte desse processo, né? Então, considero na maioria dos clubes, uma profissão instável, ainda. Depende muito do resultado.

ZR: Sobre formação de jogadores, quem já passou por você? Que você se orgulha de dizer que ajudou a formar?

RM - A gente nunca traz a formação para uma só pessoa ou categoria, é um processo, e você pode contribuir em determinado momento dentro daquele processo. Vejo alguns jogadores em destaque nacional, o Henrique, que hoje está no Santos. Bernard, recentemente; o Renan Ribeiro, esses em evidência no futebol brasileiro. Fora do Brasil, alguns jogadores passaram comigo no Figueirense, como o zagueiro do Borussia Dortmund, Felipe Santana. O lateral-esquerdo, que foi da seleção brasileira, André Santos. Alguns jogadores, mas nem me lembro de todos os nomes.

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Revelação do Brasileiro, Bernard foi um dos comandados de Micale
Bernard foi um dos comandados de Micale no Atlético-MG
ZR: Com mais de dez anos de experiência nessa área, você consegue traçar um raio-x da base do futebol brasileiro? Em que ponto estamos?

RM - Olha, acho que estamos em uma transição, passando por um processo dos profissionais que estão ingressando no futebol de base melhor preparados, com metodologias modernas, avançadas de treinamentos, que nos dão uma certeza de que estamos começando a entrar num caminho certo, num processo de modernização de futebol brasileiro. Mas é coisa de médio e longo prazo, porque na base esse processo precisa avançar, chegar nos profissionais. Temos o futebol brasileiro ainda muito individualistas.Tenho que falar isso, nós temos o futebol brasileiro como uma forma individualista de se trabalhar, se jogar.

A gente precisa coletivizar mais o nosso futebol. Essa metodologia está sendo implantada, a gente vê cada vez mais nas categorias de base, os jogos de base têm sido cada vez mais difíceis, a gente vê alguma coisa no profissional, alguns trabalhando dessa forma, mas a gente precisa avançar.

Se contrapuseram ao nosso futebol, depois de alguns títulos mundiais que tivemos. Sempre tivemos talentos natos, como Ronaldo, Ronaldinho, Pelé, e acho que o futebol mundial despertou para isso. Começaram a criar métodos de coletividade para se jogar futebol, e nós ficamos muito no tempo em relação à essa metodologia, dos jogadores nossos resolverem só pelo talento. Resolve? Resolve, mas precisamos agregar algo a mais: filosofia de jogo, metodologia de trabalho. Algumas seleções fizeram isso e ficamos para trás. 

Estamos evoluindo, está sendo introduzido em alguns clubes, daqui a pouco na seleção de base, e acredito que pode chegar ao nosso futebol profissional. Tenho uma expectativa que vamos melhorar, não vai ser já, não vejo isso no futebol brasileiro, nos clubes ainda, mas acredito que é um processo que se iniciou, e é irreversível. Não podemos abrir mão da nossa cultura, do que temos de melhor, que é o talento, mas temos que agregar a esse talento um futebol mais coletivo, de entendimento. Precisamos entender mais o futebol, principalmente os jogadores, aqueles que atuam.
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'A gente precisa coletivizar mais o nosso futebol'
Rogério Micale: 'A gente precisa coletivizar mais o nosso futebol'

ZR: O que acontece com um jogador que aprende isso na base e tem que deixar de lado quando sobe?

RM - Ele se perde. Porque você prepara o jogador para determinadas situações que o futebol atual exige, que é o pensar, o entender, o compreender, e muitas vezes, em alguns momentos, não é a totalidade, mas o futebol mundial requer volantes que joguem, e você vê no futebo de cima que alguns treinadores preferem o volante de marcação, mais aquele de contenção. Não é que não seja bom, não que não funcione, funciona, mas a gente está caminhando para uma evolução. E você começa a captar jogadores com esse perfil e muitas vezes o futebol profissional exige uma coisa diferente, e aí vai existir uma divergência de visão, de opinião, de forma de jogo, filosofia. E como o futebol profissional é o carro-chefe de todo clube, vai existir um conflito de ideias, ou seja, você forma para uma coisa e geralmente a utilização não é feita da forma a qual você formou.

Muitas vezes acaba que a opinião do treinador principal é que você não está formando jogador com o perfil que ele quer. A gente tem que ter um meio termo para se adequar a essa realidade. É um processo lento, aqui no Atlético Mineiro a gente tem a vantagem de ter um treinador com uma visão mais ampla, boa de jogar de futebol, equipe ofensiva, e a gente consegue atrelar isso. Mas não é sempre que acontece nos outros clubes. Então a gente tem que estar muito antenado para não estar trabalhando isolado, estar trabalhando pra você mesmo, com o que você acredita, mas não é o que o mercado brasileiro quer. Então você fica na contramão. A gente tem que estar antenado para não passar por uma fase que não consegue colocar jogadores no profissional. Muitas vezes não é por falta de qualidade, é justamente por não atender a visão daquele profissional que, no momento, está trabalhando no seu clube.

É lógico que quando se tem uma filosofia de trabalho, filosofia do clube, ela contrapõe ao profissional que está momentaneamente trabalhando naquele clube, ela é maior, tem que ser maior. Então é outra coisa que o futebol brasileiro precisa caminhar. Seus clubes precisam identificar qual é a filosofia de trabalho, o que ele quer, como instituição. Não pra quem está no momento, porque aí fica mais fácil para os profissionais da base, que são formadores, trabalharem para dar um resultado final, que são jogadores dentro do perfil que o clube quer. Não do que o profissional do momento quer solicitar. 

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Rogério Micale vê o futebol brasileiro no caminho certo, mas com muito para caminhar
"Estamos no caminho certo, mas há muito para caminhar"
Qual a filosofia do Atlético-MG? É Essa. A do clube X? Y. No Sul, jogador tem que ser copeiro. No Rio, tem que ser técnico. Mas é isso que se passa na base, ou cada um trabalha como quer? Na Europa, temos um exemplo que não vou nem citar, porque já é banal, mas a filosofia do clube é essa. Contrata profissionais com esse perfil. Se não for esse perfil, não serve. Precisamos disso no futebol brasileiro e colocar em prática. Não podemos ficar a mercê do vento.

Todas as diferenças que o atleta pode encontrar e experiências com a diversidade de trabalho é importante na formação, você iniciar num sistema no pré-mirim até os juniores, eu não acredito. Hoje isso é muito falado no futebol brasileiro como sendo uma forma boa de trabalho. Ao contrário, eu não acredito nisso. Você tem que fazer o menino passar por várias experiências nesse processo de maturação, de amadurecimento, pra quando chegar no profissional não estranhar nada. A base trabalha no 4-3-3 a vida toda, ai chega outro que joga no 3-5-2, e ele (jovem) nunca jogou assim, e não vai se enquadrar. Se perde. Acredito em um sistema padronizado, mas tem que ter ramificações para que o menino crie consciência, independente do perfil do treinador profissional.

ZR: O que um treinador moderno se diferencia do 'convencional'? Qual o preparo?

RM -
Nossos jogadores atuais não estão preparados para esse choque de metodologia. Eçes foram muito preparados num trabalho mais simplista, que é muito pregado no Brasil, só a fundamentação aprimorada do atleta. É muito divulgado que se o cara tem um bom domínio, finaliza bem, se prende a isso na formação, deixando de lado muitos trabalhos que fazem o atleta pensar, refletir dentro de campo. E quando você chega no profissional e pega alguém com um novo perfil, que quer implantar esse choque, esse atleta não recebe bem isso. Porque isso requer uma demanda maior de tempo, vai chegar no comentário: "nunca fiz isso e ganhei muita coisa na minha vida, pra quê vou trabalhar nisso? Isso é invenção, esse treinador é professor Pardal, quer inventar coisas". Nosso atleta ainda não está preparado. Já vi muitos profissionais caírem no futebol brasileiro porque quiseram introduzir uma metodologia mais avançada, e os profissionais boicotaram esse treinador. Isso existe no futebol.

Isso é demorado, tem que começar na base. Acredito que aí sim o futebol brasileiro vai traçar um novo rumo, vai criar novo perfil de profissionais à frente das equipes, e, consequentemente, isso vai refletir na seleção brasileira. Falaram em trazer o Pep Guardiola para a seleção brasileira. Ele não ia andar no nosso futebol, seria tachado como um desses "professores", por mais que ele ganhou tudo que ganhou no Barcelona, a gente não está preparado para essa nova metodologia, esse novo perfil de atleta. Ia ter grandes dificuldades.

ZR: Quem é um treinador que você admira, que serve como referência?

RM -
Eu gosto muito, vou ser humilde, não vou falar no Guardiola, no Mourinho, mas gosto muito de um treinador que trabalhei, um rapaz que já foi tachado de "Professor Pardal", mas que vi muito potencial, que é o Adilson Batista.
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Professor Pardal?
Profº Pardal?  'O Adilson é um cara que não para no tempo'

ZR: E é um ex-jogador, que cresceu com a metodologia do instinto em campo...

RM -
O Adilson é um cara que não para no tempo. Teve alguns tropeços na carreira, mas busca aprimoramento, um conhecimento novo, mesmo nesse tempo parado ouvi falar que ele está agregando conhecimento. O Adilson é um cara que em um curto tempo vai voltar a figurar. Teve uma passagem boa no Cruzeiro, quando ficou três anos, então é tempo também...

Admiro também o Cuca, o Vanderlei (Luxemburgo), treinadores que passaram por aqui e têm um domínio muito bom de grupo, cada tem tem alguma coisa para agregar.

ZR: Qual a preocupação com a formação pessoal dos jogadores? Afinal, mais do que jogadores são jovens que estão trocando a infância e a adolescência por um trabalho. Existe isso?

RM - No futebol não cabe mais o talento nato, sem o mínimo de condição social, cultural, de saber conviver com o ambiente que o futebol proporciona. A gente vê muitos talentos que se perdem, porque não foram preparados num sentido mais amplo, não só como atleta, mas como homem. E quando o sucesso vem, a grande fase vem, ou a má fase, o cara não tem uma estrutura emocional e até familiar, acho muito importante para dar um suporte, senão esse cara se perde no caminho. Acho que hoje no Atlético temos exemplos muito claros que deram certo, como o Bernard. Estrutura familiar bem definida, caráter, visão ampla do momento que está vivendo. Não deixa se deslumbrar.

E nós temos também aqueles que não tem a estrutura familiar, tem um talento muito grande, qualificado, mas que no primeiro gol que faça, primeiro carro que compre, jornal que ele saia, ele não consegue lidar com isso, e a tendência é noite, balada, o futebol fica em segundo plano. Ele caminha para tudo que o futebol proporciona, como o glamour, e relega o futebol, a profissão dele em segundo. E acaba no meio do caminho se perdendo, frustrando, não dando certo.

Hoje, não basta apenas formar o atleta, jogador de qualidade, mas um atleta com perfil bem forjado. Se tiver uma estrutura familiar que dê suporte, melhor ainda. Mas que estude, tenha boa formação, saiba se posicionar, até para entender, ter a leitura de jogo. Não só trabalhar instintivamente quando entra em campo. Saber o que acontece em sua volta.
Reprodução TV
Paulinho é candidato a ser mais um destaque revelado por Micale
Paulinho é candidato a ser mais um talento revelado por Micale

ZR: Em uma frase, o que o futebol de base precisa? No que pode melhorar?

RM -
Eu queria que o futebol de base fosse mais... Tivesse mais atenção. Essa atenção... As pessoas ainda não acordaram para a necessidade do fortalecimento do nascedouro. É o mesmo que você pegar uma fonte de água limpa, que no futuro vai te servir para uma multidão, você pega um caminhão de lixo e joga nela. É grosseiro, mas é isso. Não cuidar com carinho, para manter a perfeição na essência, para que não se esgote nunca. É daqui que saiu no Neymar, daqui que saiu o Kaká, o Pelé, é daqui que sai o que é de bom no futebol brasileiro, e isso é deixado em segundo plano. Caminhamos, mas ainda não é o necessário. São poucos os clubes que dão o reconhecimento para quem faz a base. Muitos treinadores de base querem o profissional, mas não porque não gostam daqui, mas é muita diferença entre a remuneração de um e outro, por exemplo. O Atlético-MG foge desse perfil, aqui a base é bem valorizada. O futebol brasileiro precisa acordar para isso.
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