As minhas Copas: 1998

José Inácio Werneck, colunista do ESPN.com.br, de Bristol, nos EUA
Volta meia torno a repisar em minha imaginação a cena que se passava no vestiário do Brasil no dia daquela fatídica decisão em Saint-Denis. Eu estivera durante toda a Copa na França, colaborando com o jornalista Hugh McIlvanney do The Sunday Times, mas, sem conseguir comprar uma entrada para minha mulher comparecer ao jogo do Brasil, peguei o carro, atravessei o Canal da Mancha pelo túnel submarino, e fui assistir ao jogo, pela televisáo, no apartamento vazio daquele meu amigo em Richmond, nas cercanias de Londres.

Chegamos, vamos ao segundo andar e, surpresa, Ronaldo não ia jogar. Tivera um mal misterioso na concentração. Fora levado às pressas para o hospital. Edmundo tomaria seu lugar.

Ora, aquela era justamente a Copa (pensei com meus botões) em que Romário fora dispensado e recambiado para o Brasil, na véspera do prazo de inscrição dos times, por causa de uma distensão. Mas, acreditem se quiserem, de volta ao Brasil, Romário estava jogando pelo Flamengo, livre da distensão.

Não teria sido melhor tê-lo na França, naquele dia, pronto para entrar em campo, em vez de Edmundo?

Mas, esperem, minhas surpresas não haviam acabado. Os times estavam prestes a surgir e agora anunciava-se que Ronaldo ia jogar.

É aí que eu fico construindo e reconstruindo em minha cabeça a cena no vestiário. Ronaldo chega, acompanhado pelo médico Lídio Toledo, que anuncia que ele não pode jogar. Na frente de todo mundo, Ronaldo desautoriza o médico: “Estou bem e vou jogar”. Zagallo que, como técnico, tem a última palavra, por razões que só ele pode explicar oferece uma perfeita interpretação daquela imagem tão vívida da imaginação popular: enfia o galho dentro.

Foi uma pena para todos nós, mas sobretudo para aquele velho, escolado e arguto Lobo (como diz seu nome) de outras batalhas. Se o Brasil ganha aquele título, Zagallo teria em seu currículo um histórico praticamente impossível de ser igualado por qualquer outra pessoa: bicampeão mundial como jogador, bicampeão mundial como técnico, campeão mundial como assistente técnico, quarto colocado como técnico.

Eu que, certa ocasião, tivera a oportunidade de desmentir, no ar, um comentarista escocês que afirmara ter sido Beckenbauer o único homem campeão do mundo como jogador e como técnico, gostaria muito de poder proclamar mais este feito, apesar de nem sempre em minha vida ter concordado com Zagallo. (Acho que, em vez de brigar para ser Vice-Presidente da CBF, Zagallo deveria estar no Comitê Organizador da Copa de 2014, como Presidente de Honra.)

Aquela foi certamente uma ocasião em que Zagallo acabou vítima de uma decisão sua. Nem tanto a decisão de deixar Ronaldo entrar sem condição, mas da decisão anterior, de mandar Romário de volta para o Brasil.

Sentado diante daquela televisão, no apartamento vazio de meu amigo, nos simpáticos arredores de Londres, fui literalmente acometido de um frio na espinha ao ver os jogadores franceses, empolgados e abraçados, entoando a plenos pulmões a contagiante Marselhesa, antes do jogo, enquanto os brasileiros, de mãos dadas, davam uma pálida e desanimada versão de nosso buliçoso “Uvirudu”. (Didi, Copa de 1958.)

Senti, com a mais plena das convicções, que o Brasil já estava derrotado.

(Esta série foi iniciada com a Copa de 1950)

Assistam também a meus comentários ao vivo aqui mesmo neste site da ESPN Brasil.
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