A fogueira do Barcelona

José Inácio Werneck, colunista do ESPN.com.br, de Bristol, nos EUA
Antes da partida foi dito que o Chelsea teria que ser mais do que perfeito para resistir ao Barcelona no Camp Nou e chegar à final da Liga dos Campeões. O Barcelona estava mordido por duas derrotas seguidas e não deixaria escapar a oportunidade de uma redenção.

Há uma história entre estes dois times e eu me lembro bem quando Ricardo Carvalho fez falta em Victor Valdés em 2005, em Stamford Bridge, para que John Terry pudesse fazer o gol que eliminou o Barcelona. Foi uma partida em que Ronaldinho Gaúcho, então em plena forma, fez um incrível gol, chutando de bico, de fora da área. Mas de nada adiantou.

Claro, todos se lembram de 2009, daquela tumultuada segunda partida da semi-final em que Andrés Iniesta garantiu a classificação do Barcelona no fim, numa noite em que o mais notório personagem foi o juiz norueguês Tom Henning Ovrebo. Ou daquele dia em que o juiz sueco Anders Frisk foi obrigado a encerrar a carreira depois que José Mourinho, então no Chelsea, o acusou de ter conversado com Frank Rijkaard, na ocasião técnico do Barcelona, no vestiário. Os filhos de Frisk foram ameaçados de morte.

Mas agora o Chelsea não precisou ser perfeito para eliminar o Barcelona. O time se viu sabotado por seu próprio capitão, John Terry, expulso dois minutos depois do Barcelona ter feito o primeiro gol. Foi um ato de insensatez de John Terry e sua explicação de que atingiu Alexis Sanchez sem querer soa como desculpa esfarrapada. É mais fácil acreditar que Terry julgou que poderia machucar o adversário sem ser visto pelo juiz. O problema é que o auxiliar estava lá para notar e cumpriu o seu papel.

Este não foi, por sinal, o primeiro ato de irresponsabilidade na carreira de John Terry, quer como capitão do Chelsea quer como capitão da Seleção Inglesa.

Ao fim e ao cabo, uma atuação épica dos jogadores do Chelsea, superando até a do Inter de Milão, também com dez homens, também na segunda partida de uma semi-final com o Barcelona, depois da expulsão (aquela sim, a meu ver injusta) de Thiago Motta.

A crônica desta semi-final é quase inacreditável, mas o futebol muitas vezes é inverossímil. O Chelsea está longe, muito longe dos líderes no Campeonato Inglês, passou por um motim dos jogadores, teve seu técnico André Villas Boas demitido, também vinha aos trancos e barrancos na Liga dos Campeões e, de repente, simplesmente elimina o Barcelona – time que, nesta terça-feira, mais uma vez, teve uma grande superioridade no quesito de posse de bola.

Acreditem, se quiserem, nesta impressionante estatística: contando esta noite, o Barcelona enfileira 244 jogos em que teve mais posse de bola do que o adversário.

E, entretanto, no espaço de menos de quatro dias, o Barcelona perde seus títulos no Campeonato Espanhol e na Champions League, em seu festejado Camp Nou, diante de sua torcida.

Será o fim do modelo de Pep Guardiola, o modelo do passa-passa-passa-passa-passa?

São agora oito jogos contra o Chelsea em que Lionel Messi jamais marcou um gol, nem de pênalti. Sob o comando de Pep Guardiola, o Barcelona jamais derrotou o Chelsea.

Mas antes de denegrir Messi e Guardiola, cabe celebrar o técnico suíço-italiano Roberto Di Matteo. Ele assumiu um time em crise e lhe deu alma nova, sem jamais perder o senso da realidade, nem mostrar falsa modéstia, pois declarou que, em sua opinião, o favoritismo para a segunda partida estava dividido, fifty-fifty, entre Barcelona e Chelsea.

Disse mais: teremos que marcar um gol, pois é impossível que o Barcelona não faça gol no Camp Nou.

O que ninguém poderia prever é que o Chelsea, com dez homens, faria dois gols, ambos nos acréscimos do primeiro e do segundo tempo. O segundo por um homem, Fernando Torres, que fora contratado a peso de ouro para ser artilheiro, mas vinha negando fogo.

Agora ele causou um incêndio onde o Barcelona arde.

(Assistam também a meus comentários em vídeo aqui mesmo neste site da ESPN Brasil.)
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