As minhas Copas: 1990

José Inácio Werneck, colunista do ESPN.com.br, de Bristol, nos EUA
Em princípios de 1992, pouco depois de começar a trabalhar para a ESPN International, nos Estados Unidos, surpreendi um locutor chileno dizendo para um grupo de americanos muito atentos que os jogadores brasileiros eram famosos por simular contusões, cavando pênaltis e outras faltas contra os adversários.

Deu azar, claro, pois pude declarar que tinha sido testemunha ocular da partida em 1989, no Maracanã, em que Roberto “Condor” Rojas, instruído pelo técnico, com a cumplicidade do médico e até de dirigentes da Federação, simulara ter sido atingido pela fogueteira Rosenery.

O resultado é que o Chile foi não apenas eliminado da Copa do Mundo de 1990 como proibido de participar da seguinte, em 1994, nos Estados Unidos. Eu chegara ao Rio na véspera, depois de um mês na Europa, e tenho viva na lembrança a imagem de Rojas saindo de maca, com as mão na cabeça, enquanto alguns de seus companheiros de time faziam gestos obscenos para o público. O Brasil ganhava naquela momento por 1 a 0, gol de Careca, e a FIFA considerou o jogo finalizado com o placard simbólico de 2 a 0.

Se aquela Copa foi frustrante para os chilenos, também o foi para os brasileiros, que viram nossa Seleção, escalada com três zagueiros, dos quais um líbero (Mauro Galvão) e dois alas (Jorginho e Branco), naufragar na segunda fase diante de uma medíocre seleção argentina.

Sebastião Lazaroni, um técnico influenciado pelo dirigente vascaíno Eurico Miranda na convocação de alguns jogadores, foi um dos nomes controvertidos daquela Copa e depois fracassaria também como técnico da Fiorentina, na Itália.

Mas creio que tudo poderia ter sido bem diferente se Romário, que fazia gols de tudo quanto é jeito pelo PSV Eindhoven, não tivesse agravada uma fratura de tornozelo numa fatídica viagem de puro marketing à Itália, não muito tempo antes da Copa, na companhia do próprio Lazaroni.

Em minha opinião, pelo que mostrava no PSV Eindhoven, aquela teria sido a grande Copa de Romário, melhor até do que a de 1994, mas ele pôde ser utilizado em apenas parte do jogo contra a Escócia, na primeira fase.

Sem atuar bem, o Brasil conseguiu três vitórias na primeira fase e, na segunda, pegou a Argentina. O jogo seria em Turim, no Stadio delle Alpi, a nossa sede, pois a seleção da Argentina tivera uma péssima primeira fase, perdendo na abertura para Camarões, derrotando a União Soviética num jogo em que foi favorecida pela arbitragem e apenas empatando com a Romênia.

Eu estava em Turim como colunista do Jornal dos Sports, visitava diariamente a concentração brasileira em Asti e sentia que o ambiente não era bom.

Algumas cenas ficaram gravadas em minha retina naquela Copa. Uma foi a tentativa de drible de Higuita, o louco goleiro colombiano, no camaronês Roger Milla, aquele de idade indefinível, num lance em que Higuita, como era seu hábito, estava bem longe da área. Milla tomou-lhe a bola, partiu livre e marcou o gol da vitória de Camarões: 2 a 1, na prorrogação.

Outra foi a encenação de Maradona, ao fim do primeiro tempo, contra o Brasil, quando Alemão, que era seu companheiro no Napoli, desarmou-o perto de nossa área. O juiz nem marcou falta, mas Maradona rolou pelo gramado por uns dois minutos, como se tivesse sido atropelado por um trem. Até então o Brasil dominava o jogo, acertara uma bola na trave e outra no travessão, e tivera um gol fácil perdido por Careca logo no início.

Um golpe psicológico do “dono” do Napoli, onde Alemão era um mero coadjuvante? O fato é que, no segundo tempo, em um lance pouco além da linha central, Alemão meramente cercou Maradona, cheio de cerimônias, e o argentino lançou Caniggia para o gol que nos mandou de volta para casa.

Quando digo nos mandou de volta, aí me incluo. Eu já havia decidido, antes da Copa, que me mudaria para os Estados Unidos. Depois da derrota, num jantar com Luís Augusto Veloso, que chefiava o Jornal dos Sports e depois seria presidente do Flamengo, expus minhas razões e embarquei para o Rio no dia seguinte.

Fiz bem, pois aquela foi uma das piores Copas de todos os tempos. Na final, num jogo horroroso, a Alemanha Ocidental derrotou a Argentina por 1 a 0, graças a um pênalti duvidoso. Caniggia não jogou, por estar suspenso, e Maradona, embora em campo, nada fez.

Em fins de agosto, me mudei para os Estados Unidos, com a família.

(Assistam também a meus comentários em vídeo aqui mesmo neste site da ESPN Brasil.)
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