O esporte é um meio de vida

José Inácio Werneck, colunista do ESPN.com.br, de Bristol, nos EUA
Um morto e um hospitalizado em estado gravíssimo em uma briga de torcedores antes de um jogo entre Palmeiras e Corinthians. Seria um erro pensar que o problema é só brasileiro. A Argentina está aí mesmo com seus “barras bravas”. Na Inglaterra as brigas entre torcidas remontam a fins do século XIX e se tornaram mais sérias, no século XX, nos anos 60 e 70. Já na década de 20 houve a morte de um torcedor uruguaio em confronto com rivais argentinos depois da decisão de um Campeonato Sul-Americano.

No momento em que escrevo uma pessoa agoniza com traumatismo craniano e é incrível o desperdício de uma vida como a da primeira vítima, um jovem de 21 anos, estudante de engenharia.

Pelo que leio na imprensa brasileira, os torcedores se enfrentaram armados de paus, facas, barras de ferro, pedras, revólveres, aos de gritos de “é pra matar, é pra matar”.

Na Inglaterra, quando o hooliganismo atingiu tal ponto que exigiu debates na Câmara dos Comuns, foram tomadas providências, que abrangeram desde a construção de estádios exclusivamente para espectadores sentados, com lugares marcados, até policiamento especializado na contenção de “riots” (desordens) e trabalho educativo junto a torcidas e seus times.

Além de penalidades para os clubes e, no caso dos torcedores, processos judiciais, com proibição de frequentar estádios, multas e sentenças de prisão.

Hoje o problema do hooliganismo no futebol na Inglaterra está praticamente contido.

Daqui de longe, não tenho a pretensão de saber mais do que se passa no Brasil do que quem mora aí. O futebol é um esporte tribal. Nisto está seu grande apelo, mas também a semente da violência irracional que o aflige.

É o homem se comportando como selvagem enlouquecido pelo ódio. Por que? Por que o torcedor adversário tem uma camisa diferente? Porque esta camisa diferente, em vez de vesti-lo, despe-o de sua condição humana?

O futebol nasceu na Idade Média, quando turbas de vilarejos próximos se encontravam nos urzais para chutar uma bexiga de porco ou, às vezes, a caveira de um inimigo.

Ao longo dos séculos, a natureza humana pouco ou nada mudou.

Recentemente morreu nos Estados Unidos um sociólogo que apresentou uma interesssante teoria: a da síndrome da vidraça quebrada.

Dizia ele que se em uma vizinhança alguém quebra uma vidraça e ninguém toma uma providência, cedo outras vidraças serão quebradas, o descaso vai passar a caracterizar o bairro, a criminalidade vai se instalar.

A sociedade precisa mostrar que se incomoda, que não está disposta a aturar o comportamento reles, as atitudes abjetas, os procedimentos torpes. É ao se mostrar intolerante com as pequenas transgressões que se evitam as grandes.

Suas ideias foram postas em prática na cidade de Nova York com o resultado de que nela os delitos vem caindo de ano para ano.

No Brasil imitamos quase tudo o que de ruim vemos nos Estados Unidos, como os programas idiotas de televisão.

Mas a idiotice das torcidas organizadas precisa ser combatida. A dois anos da Copa do Mundo, as autoridades e a sociedade não podem mais aceitar o clima das vidraças quebradas, as cabeças partidas, as tragédias descabidas.

Pode ser que assim se restabeleça o entendimento de que o esporte deve ser um meio de vida, não de morte.

(Assistam também a meus comentários em vídeo aqui mesmo neste site da ESPN Brasil.)
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