Há quatro anos, morria Roberto Dias, símbolo do São Paulo na década de 1960

Fábio Matos, da redação do ESPN.com.br*
No dia 26 de setembro de 2007, há exatamente quatro anos, o futebol brasileiro perdia um de seus mais dignos representantes. Aos 64 anos, Roberto Dias Branco, ex-zagueiro e ex-volante do São Paulo e da seleção brasileira, falecia por conta de uma parada cardiorrespiratória sofrida nas dependências do próprio estádio do Morumbi – onde trabalhou desde 1989 na escolinha de futebol para os filhos dos sócios do clube.

O ex-craque teve de ficar internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas, em São Paulo, mas não resistiu e morreu por volta das 19h30 daquela quarta-feira. Na mesma noite, o time paulista recebeu o Boca Juniors, pela Copa Sul-Americana (vitória são-paulina por 1 a 0, que classificou a equipe para as quartas-de-final do torneio), e os jogadores entraram em campo com uma faixa preta em sinal de luto pela morte do ídolo.

Ícone de toda uma geração de são-paulinos, Roberto Dias é apontado, por muitos, como um dos maiores zagueiros da história do clube paulista e principal ídolo do período de “vacas magras” dos anos 1960. Enquanto o São Paulo concentrava esforços na construção do estádio Cícero Pompeu de Toledo, a equipe sofria com a escassez de craques e a superioridade de rivais como o Santos e o Palmeiras.

De estilo clássico, Roberto Dias era o único grande nome do São Paulo nos anos 1960: ídolo tricolor

De estilo clássico, Roberto Dias era o único grande nome do São Paulo nos anos 1960: ídolo tricolor
Crédito da imagem: Acervo Gazeta Press
Dias era o único grande nome do time do Morumbi. “Ele é, para mim, o maior jogador da história do São Paulo entre todos aqueles que pude acompanhar”, afirmou Marco Aurélio Cunha, então ainda superintendente de futebol do clube, em entrevista concedida a este repórter em 2006. “É claro que há um passado que não acompanhei, é claro que falam de Canhoteiro, Bauer, Rui, Noronha, mas para a minha geração, Dias é o representante maior. Ele era, para nós, naquela época, o que o Rogério Ceni é hoje para as novas gerações.”

Nos 13 anos em que vestiu a camisa do São Paulo, entre 1960 e 1973, Dias atuou como zagueiro e médio-volante. Pelos números oficiais do clube, ele fez 450 partidas pelo Tricolor, com 69 gols marcados. Entretanto, segundo o Almanaque do São Paulo (Editora Abril, 2005), escrito pelo jornalista Alexandre da Costa e que disponibiliza fichas técnicas de 4.353 jogos da equipe desde a fundação do clube até junho de 2005, Roberto Dias vestiu a camisa tricolor 523 vezes, com 76 gols. Sendo assim, o ex-zagueiro é o quinto atleta que mais atuou pelo São Paulo em número de jogos (atrás de Rogério Ceni, Waldir Peres, José Poy e De Sordi), e o terceiro em tempo de permanência (perdendo apenas para Rogério Ceni e Teixeirinha).

Trajetória

Roberto Dias Branco nasceu no dia 7 de janeiro de 1943, no bairro do Canindé, Zona Norte de São Paulo. Filho do ex-jogador Oswaldinho (que teve passagens pelo Juventus e pelo antigo Comercial, da capital), Dias era muito ligado à mãe, Leny, e aos irmãos, Cláudio, Maria Helena e Olga. Sua infância foi muito pobre – morava com a família em um cortiço, no número 578 da Rua Canindé.

Desde garoto, mais conhecido pelos amigos como “Bebé”, o futuro ídolo são-paulino jogava futebol no campo da Força Pública – a antiga Polícia Militar de São Paulo. Foi lá que chamou a atenção de Vadico, ex-jogador do time amador do Tricolor e que também morava no Canindé. Foi apresentado, já no São Paulo, a Remo Januzzi e Caxambu, ídolos do time nos anos 1940 e que, à época, estavam na comissão técnica da equipe principal.

A primeira partida do jovem craque pelo clube aconteceu no dia 5 de maio de 1960, no Pacaembu, na derrota por 2 a 0 para a Portuguesa. No mesmo ano, o talento precoce do jogador fez com que Dias fosse convocado para a seleção brasileira que disputou a Olimpíada de Roma, na Itália, quando atuou no meio de campo ao lado de um futuro companheiro de São Paulo, Gérson. Dias marcou dois gols, na vitória por 5 a 0 sobre a China, mas o Brasil foi eliminado pela anfitriã Itália, por 3 a 1.

Na volta ao Brasil, o jogador firmou-se, definitivamente, como grande símbolo do São Paulo dos anos 1960. Mesmo sem títulos, ele marcou época: era presença constante nas convocações da seleção brasileira, tinha qualidade técnica acima da média para um jogador de defesa e cobrava faltas e pênaltis com precisão. Chegou a ser apontado, pelo próprio Pelé, como o maior marcador que o Rei do Futebol já teve na carreira. “Era muito difícil jogar contra ele, porque era inteligente e sabia marcar sem faltas. Sempre que jogava contra ele eu não gostava, porque sabia que teria dificuldades”, confessou Pelé ao jornal O Estado de S.Paulo em reportagem publicada no dia 17 de julho de 2005.

Em 1966, Roberto Dias foi um dos 47 convocados pelo técnico Vicente Feola para o período de treinamentos do Brasil visando à Copa da Inglaterra – mas acabou ficando de fora da lista definitiva de 22 atletas que foram ao Mundial. Esta foi a maior frustração de sua carreira: não ter disputado uma Copa do Mundo. Ao todo, Dias disputou 25 partidas pela seleção brasileira principal entre 1963 e 1968, marcou um gol (na vitória por 5 a 1 sobre a Inglaterra, em 30 de maio de 1964) e teve 13 vitórias, oito empates e quatro derrotas.

Dias comemora um de seus gols com a camisa do São Paulo: zagueiro-artilheiro e cobrador de faltas

Dias comemora um de seus gols com a camisa do São Paulo: zagueiro-artilheiro e cobrador de faltas
Crédito da imagem: Acervo Gazeta Press
Títulos e saúde frágil

Assim que o São Paulo terminou a construção do Morumbi, o clube se reforçou com jogadores de ponta como Gérson e Pedro Rocha. E os títulos vieram: Roberto Dias, enfim, faturou os Campeonatos Paulistas de 1970 e 1971, mas praticamente não participou desta última conquista por conta de um grave problema de saúde.

No dia 29 de novembro de 1970, o craque sentiu-se mal durante o clássico contra o Santos (vitória alvinegra por 3 a 2) e foi substituído. Pouco depois de chegar à sua casa, voltou a sentir fortes dores no peito e no braço e, aos 27 anos, sofreu o primeiro infarto de sua vida. Segundo o doutor Giuseppe Dioguardi, médico que acompanhou o caso de Dias desde a primeira internação no início da década 1970, o ex-jogador tinha uma doença denominada aterosclerose – que leva à formação de placas, compostas especialmente por lipídios e tecido fibroso, na parede dos vasos sanguíneos. Essas placas causam, progressivamente, a diminuição do diâmetro dos vasos ou, em alguns casos, sua obstrução total.

Tratado pela equipe médica do Instituto Dante Pazzaneze de Cardiologia, Roberto Dias ficou afastado dos gramados por exatos 373 dias, até o retorno definitivo, em 7 de dezembro de 1971, no empate por 1 a 1 com o América-RJ, no Morumbi, pelo Campeonato Brasileiro. O ex-zagueiro ainda continuaria vestindo a camisa do São Paulo até o dia 29 de julho de 1973, quando se despediu do clube após um empate sem gols com o Santos. Dias teve problemas de relacionamento com o ex-técnico da equipe, Telê Santana, demitido em maio daquele ano (em sua primeira passagem pelo time paulista). Após 13 anos de São Paulo, o ex-craque passou a não ser mais relacionado para os jogos e também deixou o Morumbi, magoado com o clube.

Roberto Dias também atuou pelos modestos CEUB (DF), ainda em 1973; pelo Jalisco de Guadalajara (México), entre 1974 e 1977, a convite do brasileiro Mauro Ramos de Oliveira, ex-jogador do São Paulo e da seleção brasileira e então treinador do time mexicano; pelo Dom Bosco (MT), em 1978; e pelo Nacional (SP), também em 1978, quando encerrou a carreira, aos 35 anos.

A partir de então, o ex-craque passou a viver um período turbulento de muitas dificuldades de saúde e de ordem pessoal. Após perder o filho Rogério, com apenas três meses de vida, por complicações pulmonares, em 1971, e a mãe, dona Leny, então com 49 anos, devido a uma infecção nos rins, Roberto Dias ainda teve de enfrentar a morte da filha recém-nascida Fernanda, em 1974. O casamento com a esposa Rosita também chegou ao fim, após 12 anos de união, em 1979, e Dias entrou em depressão e passou a sofrer com o alcoolismo. Ele ainda sofreria um segundo infarto e um AVC (acidente vascular cerebral) no mesmo ano.

Em 1989, por intermédio do amigo Gabriel Ribeiro Nogueira, médico cirurgião e grande admirador de Dias, o ex-craque se reaproximou do clube do Morumbi. Passou a trabalhar como professor da escolinha de futebol para os filhos dos sócios do São Paulo e lá ficou por 18 anos, até sua morte.

Em depoimento a este jornalista em 2006, Roberto Dias demonstrava sua gratidão pelo clube que aprendeu a amar. “Depois de voltar a trabalhar no São Paulo, senti uma capacidade de contribuir, de ser útil, o carinho das crianças… Estou vivendo outra vida e pretendo continuar no São Paulo. Vamos ver até quando eles vão me aguentar, né?”, brincou. “Se eles me aguentarem, vou estar bem velhinho e trabalhando lá.”

*Fábio Matos é jornalista e autor do livro "Dias - A Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960", biografia de Roberto Dias publicada pela Pontes Editores em 2007.
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