50 maiores atletas brasileiros de todos os tempos

redação da revista ESPN
Matéria originalmente publicada na edição de novembro da revista ESPN

2- Garrincha

Garrincha, com suas duas pernas tortas para o mesmo lado, era um desafio para a geometria. Difícil acreditar que pudesse parar em pé, quanto mais jogar futebol. E se o futebol for analisado como um esporte coletivo, talvez fosse impossível mesmo Mané jogar.



Mas Garrincha jogava outro tipo de futebol. Foi o maior driblador de todos os tempos. Impossível marcá-lo. Impossível evitar os cruzamentos certeiros. Garrincha, na verdade, subverteu toda tentativa de se entender o futebol além de sua função lúdica, além de sua capacidade de deixar algumas pessoas tristes e outras alegres, dependendo do resultado. Até isso ele subverteu. Muito torcedor que viu seu time perder para o Botafogo voltou feliz para casa. Só de vê-lo jogar.

O apelido veio de uma irmã, que fez uma relação desconhecida com um passarinho da região de Pau Grande, cidade onde moravam. Ele começou a jogar no E. C. Pau Grande e foi levado por Arati, lateral-direito do Botafogo, a fazer um período de testes no clube. O período foi de uma tarde. Garrincha, no time reserva, deu muito trabalho a Nilton Santos, que já era o grande lateral-esquerdo do Brasil, e assinou seu primeiro contrato. Defendeu o Botafogo de 1953 a 1965. Jogou 645 partidas e marcou 215 gols. Ganhou três campeonatos cariocas (1957, 61 e 62) e dois Rio-São Paulo (1962 e 64). Era a grande força do Botafogo na disputa com o Santos, de Pelé, pelo título de melhor time brasileiro.

Separados, eram imprescindíveis a seus times. Juntos, foram invencíveis na Seleção. A primeira equipe a saber que um novo período estava começando no futebol foi a União Soviética de 1958. Era o terceiro jogo do Brasil na Copa e ambos se entenderam muito bem. A vitória por 2 a 0 abriu caminho para o primeiro título mundial. E pensar que Garrincha quase não foi ao Mundial. Sua vaga só foi garantida quando Julinho, grande destaque da Copa de 54 e ídolo na Fiorentina, recusou a convocação por considerá-la um desrespeito aos pontas que atuavam no Brasil.

Em 1962, com Pelé afastado por uma distensão muscular, Garrincha foi muito mais do que já era. Driblou, driblou, mas também marcou. Fez gol de cabeça, de falta, foi um dos artilheiros. “De que planeta vem Garrincha?”, perguntou em sua capa El Mercurio, principal jornal chileno.

O fim começou em 1966. Mesmo assim, fez um gol em seu terceiro Mundial. A bebida o derrubou. Depois do Corinthians, passou a jogar em times cada vez menores. Quem ia aos campos ver a Alegria do Povo via um homem triste. Foi assim que a morte o levou, antes dos 50 anos. O futebol brasileiro perdeu seu Carlitos: ingênuo, alegre e sofrido.

3- Adhemar Ferreira da Silva

Adhemar Ferreira da Silva descobriu apenas na pista do Estádio Olímpico de Tóquio que sofria de um problema respiratório. Sem a mesma capacidade pulmonar das duas Olimpíadas anteriores, foi impossível brigar pelo ouro. Eliminado, a caminho do vestiário, percebeu uma movimentação nas arquibancadas. O público levantou e começou a bater palmas. Em poucos segundos, o estádio inteiro estava em pé aplaudindo a despedida do maior atleta olímpico brasileiro de todos os tempos.

Adhemar chegou a Tóquio como bicampeão do salto triplo. Seu reinado havia começado nos Jogos de Helsinque, em 1952. Em quatro horas de prova, deu seis saltos e estipulou o novo recorde mundial: 16,22 metros. Quatro anos mais tarde, em Melbourne, duelou com o islandês Vilhjálmur Einarsson até registrar os insuperáveis 16,36 metros que lhe deram o segundo ouro – e o transformaram no primeiro herói esportivo do Brasil.

Antes de Adhemar, o País ostentava apenas um título olímpico, de Guilherme Paraense, em 1920. Somente quando o triplista já somava dois ouros nos Jogos o Brasil conquistou seu primeiro título mundial no futebol e no basquete. E ainda levou mais quase cinco décadas para nosso esporte ter outro bicampeão.

“O Adhemar era ainda mais extraordinário, por ter feito tudo sozinho. Não era jogador de futebol, era de um esporte em que imperava o cada um por si. Venceu graças a persistência e talento”, diz Maurício Cardoso, autor do livro Os Arquivos das Olimpíadas.

Persistente, talentoso e apaixonado pelo esporte. Na volta de Helsinque, recusou uma casa oferecida pelo jornal A Gazeta Esportiva. Caso aceitasse, romperia a premissa básica do amadorismo e não mais poderia disputar os Jogos Olímpicos. Preferiu seguir apostando em sua técnica única de salto.

Para compensar a pouca velocidade de corrida e não ficar preso na pista de terra, ele contava com uma impulsão acima do comum. “O salto era mais alto por causa das características da pista, o que prejudicava um pouco na distância”, explica Nelson Prudêncio, sucessor de Adhemar Ferreira da Silva, ganhador de uma prata e um ouro olímpico e pesquisador da mecânica do salto do bicampeão como parte da sua tese de doutorado.

A história de Adhemar no atletismo começou no fim dos anos 40, na pista do Canindé, então estádio de seu clube, o São Paulo. Ele decidiu praticar a modalidade por achar a palavra “atleta” bonita e escolheu o salto triplo após ver o capitão da equipe do São Paulo, Ewaldo Gomes da Silva, treinar a prova. Curioso, pediu uma explicação, fez um teste e, logo de cara, pulou quase 13 metros.

Curiosidade e vontade de aprender que trilharam sua trajetória fora do esporte. Formou-se em Artes, Educação Física, Direito e Relações Públicas. Falava fluentemente sete idiomas: inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, português e finlandês. No teatro, encenou Orfeu da Conceição. No cinema, fez Orfeu do Carnaval. Bagagem que o levou à Nigéria, onde foi adido cultural brasileiro entre 1964 e 67.

Só não conseguiu vencer a cruel monocultura esportiva brasileira. Quando morreu, em 2001, aos 73 anos, enfrentava a triste rotina de ser lembrado apenas de quatro em quatro anos. Um tratamento que ajuda a explicar por que o Brasil produziu poucos atletas do nível de Adhemar.

4- Guga

É como se na manhã de 8 de junho de 1997, no complexo de Roland Garros, trajando azul e amarelo, Gustavo Kuerten tivesse atravessado um portal. E, com ele, o tênis brasileiro. O catarinense bateu o espanhol Sergi Brugera por 3 sets a 0 e sua vida nunca mais foi a mesma. Depois de passar por grandes nomes da época, como Jonas Bjorkman, Yevgueni Kafelnikov e Thomas Muster, ele se tornava o primeiro tenista a alcançar e vencer sua primeira final de um torneio de alto nível direto em um Grand Slam.

Foi uma surpresa até para quem o seguia de perto. “Naquele ano eu estava treinando o [Jaime] Oncins e o [Roberto] Jábali, dois dos quatro tenistas brasileiros do circuito. Acompanhava o Guga de perto desde que ele tinha 13 anos porque eu era técnico de juvenis”, lembra Osvaldo Maraucci, hoje comentarista dos canais ESPN. “Sabíamos que ele era um cara para estar no top 100, até mesmo capaz de alcançar o top 20 e se manter lá, mas jamais poderíamos imaginar que iria chegar e de cara ganhar Roland Garros.”

Foi o feito improvável que deu início à Gugamania. Crianças por todo o Brasil passaram a se vestir como o tenista, comprar seus tênis chamativos, copiar seu corte de cabelo e colocar uma raquete ao lado da bola de futebol entre os brinquedos. Até mesmo nos lugares mais inóspitos, sertanejos, onde a probabilidade de se montar uma quadra de tênis era nula, o esporte foi apresentado a uma geração. “Ele era um jogador diferenciado na questão mental e emocional, muito forte. Mas sem dúvida foi seu carisma que deu vida a toda essa idolatria, a essa grande popularidade”, acredita Paulo Cleto, que dirigiu a equipe nacional da Copa Davis por longos 17 anos.

Era só o começo. O título em Paris foi seguido por um período de baixa, com duas temporadas de poucas vitórias, todas no saibro. A partir de 2000, Guga deslanchou. Conquistou o bi no Aberto da França e venceu outros quatro torneios (incluindo Indianápolis, em quadra dura). Terminou o ano no ápice: tornou-se o líder do ranking mundial ao vencer a Master Cup de Lisboa, batendo Pete Sampras e Andre Agassi. O brasileiro é o único tenista da história a derrotar em um mesmo torneio os dois mitos do tênis. Se ainda precisava de algo, foi eleito pelo público o jogador mais carismático do circuito ATP.

Em 2001, venceu mais seis torneios (incluindo o tri em Roland Garros), mas terminou em segundo lugar no ranking. A partir daí, problemas no quadril passaram a minar seu jogo. Acabou se aposentando em 2008, com 20 títulos individuais e oito em duplas. Conquistas que não o colocam como o maior campeão do tênis brasileiro, feito de Maria Esther Bueno, mas fazem dele o grande nome do País na Era Aberta.

5- Ronaldo

Ronaldo não gosta de assistir a futebol pela TV. Acha tudo muito chato, pouco emocionante. Prefere estar lá, dentro de campo, influenciando de maneira direta o resultado da partida. É bom nisso, todos sabem. Sua carreira está aí para mostrar. Há quem conteste essa verdade, no entanto. Argumentam que, em alguns momentos, ele parece não ter alegria em fazer o que faz, esconde-se.

Coisas do ofício de centroavante. Acredite, nem mesmo os fenômenos estão imunes às críticas. Às vezes custam a ser compreendidos. Ronaldo já experimentou isso. No Real Madrid, foi contestado por parte da torcida. Queriam vê-lo participar mais do jogo coletivo da equipe. Do campeão mundial Vicente del Bosque, então comandante merengue, veio a defesa. O treinador isentou o atacante de culpa, afirmando que ele estava acima do bem e do mal e que seu desempenho não podia ser medido pelo de seus companheiros. Del Bosque tinha consciência do papel de Ronaldo. Sabia que ele, como quase todos os goleadores, é uma entidade autônoma.

Foi assim, gozando desse status e, mais importante, honrando-o, que o pentacampeão forjou sua trajetória, superando a desconfiança e dando mostras irrefutáveis de ser duro na queda. Perseguido pelas lesões, venceu todas. Tudo isso à base de gols, muitos gols, e também de carisma.

A cada arrancada sua, o Fenômeno parece levar junto não só os zagueiros, mas também um batalhão de fãs. De origem humilde, o jogador, que na adolescência abandonou o sonho de atuar pelo Flamengo, seu clube do coração, por falta de dinheiro, jamais perdeu o jeito simples herdado de uma infância de restrições. “Ele é fenomenal até nisso. Um cara que merece tudo que ganhou e muito mais. Lembro-me até hoje daquela Copa da França. Minha mulher passou alguns dias por lá, vendo o torneio, e ele fez questão de que ficasse com a sua família em uma casa que alugou. É um fora de série”, afirma Giovanni, ex-craque do Santos e companheiro de Ronaldo na Seleção e no Barcelona.

Ninguém há de rebater tais palavras. Da primeira venda, do São Cristovão para o Cruzeiro, em 1993, por US$ 10 mil, Ronaldo construiu um império. Referência dentro da área, é também um exemplo de como administrar a carreira. Dono de uma fortuna estimada em US$ 250 milhões, o artilheiro sobreviveu às polêmicas e assentou um modelo para seus colegas.

É um bravo que venceu os obstáculos que a vida insistentemente lhe impôs. Não tem medo de nada, apenas do escuro, admite. Talvez por ter se caído tão bem diante dos holofotes.
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