Antes de Messi, Justin Fashanu

Marcus Alves, da revista ESPN
Os tempos são outros. Tratado antes como tabu, o tema passou a discutido abertamente por aí. Reflexo do passar dos anos e, claro, de uma mudança de pensamento. Algo que já pode ser diagnosticado na Inglaterra. Palco de uma das principais ligas do mundo – para muitos a maior, ainda que a Alemã tenha superado no aspecto financeiro –, o país abriga hoje torcedores mais conscientes, que nem de longe lembram os antigos hooligans.

Quem aponta isso é a Universidade de Staffordshire. Em pesquisa recente feita junto a 2 mil pessoas, ela conseguiu números marcantes sobre a questão da homossexualidade no futebol. Segundo o instituto, 93% dos entrevistados acreditam que não há espaço para esse tipo de preconceito nos gramados e que os cartolas deveriam investir em ações para coibir qualquer espécie de comportamento agressivo nas arquibancadas.

Mais: 60% deles apoiam jogadores que cogitam “sair do armário”.

Alguns já fizeram isso por aí. Inclusive, no Brasil – caso de Messi, goleiro da segunda divisão potiguar e um dos personagens da edição de outubro da revista ESPN. Por aqui, ele é visto por dirigentes de seu clube como uma fonte de marketing. Tal visão nem sempre foi compartilhada pelo mundo da bola.

Essa mesma Inglaterra que agora parece encarar o assunto de forma madura presenciou um episódio marcante no passado. Tido como um dos jogadores mais talentosos de sua geração, Justin Fashanu foi protagonista de uma trajetória destacada no futebol. Aos 17 anos, o atacante de origem nigeriana já estreava profissionalmente pelo Norwich City e marcava seus primeiros gols.

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Dono de uma pontaria que chamava a atenção, a jovem promessa logo despertou o interesse dos cartolas ao ser catapultado para o time sub-21 inglês. Dali para o estrelato, custou pouco tempo. Apenas três temporadas depois de surgir, o jogador foi negociado com o Nottingham Forest, numa transação avaliada em £ 1 milhão (a primeira envolvendo um atleta negro por esse valor). Chegava para substituir Trevor Francis, estrela do English Team.

Lá, naquilo que tinha tudo para ser a sua grande oportunidade de projeção, viu começar o drama que marcaria a sua carreira e levaria à sua morte. Ainda incerto sobre a sua homossexualidade, Fashanu passava por um processo de autodescoberta, que viria a se espalhar entre seus colegas, chegando aos ouvidos do mítico treinador Brian Clough, de pouca simpatia com a causa.

Deixando claro o seu desconforto com a situação, o comandante afastou aos poucos o atacante das atividades até emprestá-lo ao Southampton. Ali, tinha início a peregrinação do atleta, numa estrada que jamais o recolocaria de volta ao caminho que, em seu início, parecia traçar e que incluiria, ainda, alguns dramas – a morte de um amigo gay e a frustração na busca pela religião.

Após todos aqueles episódios, Fashanu decidira que era hora de dar um basta naquilo tudo e, em entrevista ao tablóide “The Sun”, expôs de modo aberto o que muitos já desconfiavam, assumindo ser homossexual. Foi o primeiro e, até hoje, único jogador da primeira divisão inglesa a escancarar de tal maneira sua opção sexual. Algo que, embora não atingido o devido reconhecimento na época, viria a fazer dele um ícone nessa briga que agora os torcedores parecem abraçar.

De fim de vida trágico, com a decisão de se suicidar ao se ver envolvido em acusações infundadas de molestamento sexual, Fashanu assentaria o exemplo para gente como o brasileiro Messi, goleiro, ídolo e revolucionário por essas terras.
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