O sorriso de Madiba

Marcos Caetano, colunista do ESPN.com.br
Amigos, no domingo da final, eu completei a minha quarta cobertura de final de Copa do Mundo. Nesses doze anos, vi de tudo um pouco. Vi o Brasil perder feio em 1998, vi o Brasil ganhar bonito em 2002, vi a Itália com brilho apenas defensivo ficar com o caneco em 2006, e hoje, fui para o estádio com um mero palpite - Espanha -, mas sem saber bem o que esperar, além do enorme equilíbrio, que de fato houve. Só sei é do seguinte: Deus deve gostar mesmo desse negócio de futebol, pois eu não consigo lembrar de uma final disputada sob chuva – e o céu de Johanesburgo amanheceu no domingo sem uma nuvem sequer.

A atmosfera na cidade esteve simplesmente extraordinária e parece que todo mundo escolheu um time para torcer. Encontrei indianos com a camisa da Holanda, portugueses – quem diria! – com a camisa da Espanha e até uns e outros com as cores dos dois times. A impressão que tenho é a de que ninguém consegue ficar imune à febre do futebol. E, de 1998 para cá, parece que a intensidade da doença só faz aumentar. Imaginem só no Brasil, em 2014.

A caminho do estádio, eu sonhava em ver uma final de bom futebol, muito disputada e cheia de drama. Porque final sem drama não tem a menor graça. Na última Copa, escrevi aqui que a cabeçada de Zidane em Materazzi salvou uma decisão que caminhava para ser uma das mais modorrentas da história. Em 2010, eu queria uma trama novelesca, repleta de reviravoltas e lances surpreendentes. Queria ver jogadas de craque, jogadas de raça e, por que não, uma ou outra jogada de pereba – provando que os que estiveram no grandioso Soccer City, cercado dos olhares de bilhões de pessoas em todo o planeta, são, sim, mortais.

No final das contas, acertei o palpite e vi um dos jogos com mais gols perdidos da história das finais. A Espanha começou muito melhor e dominou o primeiro tempo. Mas a Holanda, equipe traiçoeira, que sabe dar o bote na hora certa, foi melhor no segundo tempo e, graças à milagrosa ponta da chuteira de Casillas, Robben perdeu a chance de ser o heroi da decisão. O jogo estava tão imprevisível dava a impressão de que qualquer pequeno detalhe poderia decidir tudo. E esse pequeno detalhe apareceu no segundo tempo da prorrogação, com as cores da Espanha: um cartão vermelho. Com um a menos, a Holanda até lutou, mas um espaço precioso foi aberto para que Iniesta gravasse para sempre uma estrela sobre o escudo da camisa da Fúria espanhola.

Falei sobre muitas coisas que eu gostaria de ter presenciado na grande final. Mas, entre todos os eventos possíveis, o que eu mais desejava surgiu antes da bola rolar: Nelson Mandela, o homem que uniu a África do Sul e tornou possível o sonho de uma Copa no país, desfilando toda a sua grandeza e sua fé inquebrantável na raça humana. O sorriso de Madiba é a maior lembrança que eu levarei deste inesquecível mundial.
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