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O impacto numérico de John Tavares em William Nylander e nos Maple Leafs

A decisão do center canadense John Tavares de voltar para casa e defender os Maple Leafs não apenas surpreendeu o mundo do hockey, como também mudou alguns panoramas relevantes no âmbito contratual de Toronto e também da NHL inteira.

O contrato que vale por 7 anos, pagando um total de $77 milhões - o equivalente a $11M por temporada - é o com maior média salarial assinado nesta década da free agency da NHL, também estando entre os de maior montante, principalmente após as mudanças recorrentes das regras do novo acordo de CBA que vigora na liga desde 2012-13.

Tavares é, sem dúvidas, o maior free agent da NHL desde Scott Niedermayer, que deixou New Jersey para ir à Anaheim, já tendo vencido três Stanley Cups com os Devils e um troféu Norris dois anos antes da mudança, já sendo um dos melhores defensores consolidados de sua geração. Tavares ainda não tem as credenciais de Niedermayer, mas sua repercussão é validamente comparável.

Na época que assinou com os Mighty Ducks, o máximo permitido que um jogador poderia receber era $7.8M, e Niedermayer o fez por $6.75M. Tavares poderia assinar por um máximo de $15.9M, o equivalente a 20% da folha salarial de um time. A média de $11M pode não parecer tão absurda quando colocada sob esta perspectiva, mas há de se considerar que apenas Connor McDavid ($12.5M) carrega um salário médio maior.

Tavares ocupa 13,84% da folha salarial de Toronto. E o que isso significa?

A folha salarial da NHL, ou o salary cap, possui um limite de $79.5M para cada um dos 31 times, com o limite mínimo sendo de $58.8M. Ou seja, os times não podem gastar mais do que $79.5 milhões com seu elenco de no máximo 23 jogadores, também não podendo gastar menos do que $58.8 milhões, tudo para que haja equilíbrio financeiro e de talento entre as franquias.

O teto é notavelmente respeitado por todos os General Managers, que não o ultrapassam nem em situações extraordinárias.

Os $11M de Tavares na folha salarial dos Leafs é extremamente relevante para um time que se encontra na situação de Toronto: com diversos jogadores jovens prestes a alcançarem os ápices de suas carreiras, o que consequentemente resultará em contratos caros a serem adicionados ao lado do de Tavares.

Em uma entrevista ao podcast dos jornalistas canadenses Jeff Marek e Elliotte Friedman, o 31 Thoughts, o General Manager de Toronto, Kyle Dubas, foi questionado se ele conseguirá manter William Nylander, Auston Matthews e Mitch Marner juntos no time, considerando a dificuldade matemática que a franquia enfrentará.

Dubas foi curto e muito seguro em sua resposta: "Nós podemos e iremos".

As consequências de contratos de alto valor, concentrando alta parte do salary cap em um grupo pequeno de jogadores, são sentidas em alguns times até hoje. Como o caso do Chicago Blackhawks, que não conseguiram emplacar campanhas significativas desde que Jonathan Toews e Patrick Kane assinaram seus novos vínculos de $10.5M anuais para cada.

Kyle Dubas, aos 32 anos, é o GM do time mais quente e com maior atenção midiática de toda a NHL. E com a temporada 2018-19 já em andamento, parece cada vez mais difícil de acreditar que ele conseguirá manter a promessa de manter Matthews, Marner e Nylander juntos por muito tempo.

O apelo de Dubas nas consequentes negociações será o de que Tavares escolheu Toronto e optou por receber menos justamente para manter o time em uma situação menos severa junto ao cap, uma atitude honrável e que coloca o time em primeiro lugar.

Matthews, Nylander e Marner também terão de fazer isso para que Toronto maximize suas chances de vencer uma Stanley Cup nos próximos 8 anos, um objetivo bastante plausível - potencializado pela chegada de Tavares.

Eis que chegamos ao assunto mais comentado em Toronto até então: William Nylander.

Ainda sem um contrato por ser um Restricted Free Agent (RFA) e incapaz de jogar por Toronto, os Leafs detêm os direitos de Nylander – apesar de seus status de free agent. Nylander pode assinar um contrato com qualquer outro time, a chamada offer sheet. Mas por Toronto deter os direitos dele, os Leafs teriam o direito de igualar a oferta e ficar com o jogador, ou aceitar a oferta do outro time e receber escolhas de draft em compensação.

São, então, três opções que Toronto tem: assinar um novo contrato de Nylander, resolver a situação por meio de uma offer sheet (seja igualando a oferta ou aceitando a compensação), ou trocar os direitos de Nylander para outro time.

Toronto e o jogador estão tentando resolver esse imbróglio desde julho. A situação de Nylander é extremamente delicada, com Toronto já tendo disputado mais de 10 partidas na temporada sem ele.

Os jogadores comparáveis a Nylander são Nikolaj Ehlers e David Pastrnak, wingers ofensivos e capazes de produzir ótimos números ofensivos. Ainda assim, não são comparações exatas.

Nylander teve 13 pontos em seu primeiro ano de NHL (dividido entre os Marlies, time filiado a Toronto na AHL), depois 61 pontos no segundo ano e novamente 61 pontos no terceiro ano.

Ehlers teve 38 pontos em sua primeira temporada na liga, 64 na segunda temporada e 60 na terceira. Pastrnak teve 26 na primeira, 70 e 80 na segunda e terceira. Ehlers assinou um novo contrato de 7 anos, $6M anuais, ainda durante a temporada passada. Pastrnak assinou por 6 anos, $6.66M anuais, sendo que a produção dele foi melhor que a de Nylander, antes da temporada 2017-18 começar.

Projetar que Nylander venha a ter números e papel semelhantes aos de Ehlers e Pastrnak é bastante razoável, considerando sua importância no grupo de ataque e power play dos Leafs.

Minha projeção realista para o novo contrato de Nylander seria de 6 anos, $6.5M por temporada. Bem no meio de Ehlers e Pastrnak, levando em consideração que Nylander pode jogar como center e que o cap subiu desde o início da temporada passada.

O problema é que Nylander e seu agente não estão levando Ehlers e Pastrnak como comparações, mas sim Leon Draisaitl.

Draisaitl teve duas temporadas extremamente sólidas na NHL antes de assinar por $8.5M anuais. 51 pontos na primeira temporada e, aí sim, as duas em questão: 77 e 70 pontos na segunda e terceira, respectivamente, jogando majoritariamente como center em Edmonton.

Não apenas a diferença de pontos é significante, mas Draisaitl é um jogador mais versátil e que joga no power play e penalty kill dos Oilers. Nylander não tem a mesma importância para os Leafs como Draisaitl tem para Edmonton.

Se Nylander quer $8.5M por 8 temporadas, ele terá que continuar esperando. Os Leafs não pagarão isso.

Outra opção, então, seria um contrato mais curto. Um contrato mais curto, de 3 anos, por exemplo. Este método pode representar o tempo limite que Nylander ficará em Toronto, no entanto.

Um exemplo é Nikita Kucherov. Em seu primeiro ano na NHL, Kucherov teve 18 pontos em 52 jogos. 65 pontos na segunda temporada e 66 na terceira. Números bem similares aos de Nylander, não? Kucherov assinou um contrato de 3 anos logo após seu terceiro ano, valendo $4.7M anuais.

Kucherov então explodiu na NHL, tendo temporadas monstruosas de 85 pontos e 100 pontos nos dois anos seguintes. A temporada atual, de 2018-19, é a última em que seu contrato de $4.7M contará ao cap de Tampa. Kucherov assinou um novo contrato de 8 anos, valendo $9.5M anuais com os Bolts em julho.

William Nylander ainda é um RFA, enquanto seus dois companheiros, Auston Matthews e Mitch Marner, serão ao final desta temporada. A tempestade está apenas começando.

Projetando os futuros salários, os Leafs conseguirão manter Auston Matthews por $12.5M anuais, Tavares por $11M e Mitch Marner por $9.5M se Nylander assinar por $6.5M. Desta forma, eles jogariam juntos pelos próximos 6 anos. Mas se Nylander assinar um contrato mais curto, elevar sua produção como Kucherov e precisar ganhar mais depois, os Leafs não poderão dar $9.5M para Nylander.

A partir do momento que Tavares chegou, os Leafs adicionaram um dos melhores jogadores do mundo ao seu elenco. Junto dele, milhões de cálculos e contas a serem feitas por Kyle Dubas para que a promessa feita de que Matthews, Marner e Nylander fiquem em Toronto por anos e anos seja cumprida.