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NHL: Draft 2018, seja bem-vindo

Eis que chegamos ao mês mais bipolar dos esportes norte-americanos.

Junho representa ansiedade, nervosismo e muita expectativa acumulada pelas finais da Stanley Cup e da NBA.

Ao mesmo tempo, junho representa o fim simultâneo de duas temporadas das grandes ligas. Representa o começo de um período de abstinência de hockey no gelo e de bolas laranjas voando e sendo enterradas pelos astros do basquete.

Mas acima de toda essa mistura de sensações, junho também abriga o meu evento favorito do ano. Não é o meu aniversário, nem o carnaval ou a noite de natal. Mas sim o Draft da NHL.

Dallas sediará a 56ª edição, no American Airlines Center, casa dos Stars e Mavericks, no dia 22 de junho.

Para quem desconhece o funcionamento do Draft, mais de 300 jovens jogadores estão disponíveis para serem selecionados pelos 31 times da NHL, este sendo o primeiro passo destes atletas rumo à profissionalização na principal liga de hockey do mundo. O Draft consiste de sete rodadas, onde cada time escolhe um jogador por rodada. 31 times multiplicado por sete rodadas resultam em 217 jogadores selecionados. Claramente, os melhores são escolhidos primeiro.

O Draft, no entanto, não se resume apenas às escolhas. O Draft é um local onde todos os 31 General Managers se encontram e negociam, cara a cara, inúmeras possibilidades de trocas, envolvendo jogadores, prospectos e escolhas. O Draft é a primeira oportunidade que os times têm de corrigir os erros da temporada que se passou, e dar o primeiro passo rumo a um ano que projeta melhoras e mudanças nos elencos.

Apesar de tamanha movimentação habitual que um Draft carrega, é impossível prever o que acontecerá no deste ano. Muitas histórias inacabadas podem ter desfechos, como as iniciadas na última Trade Deadline. Erik Karlsson. Max Pacioretty. Ryan O’Reilly. Nomes grandes estarão em jogo, sem dúvidas, mas este não é o objetivo do texto.

O que podemos estudar e analisar são justamente os protagonistas dos dias 22 e 23 de junho: os prospectos a serem selecionados.

A classe do Draft de 2018 é uma boa classe. Com potencial de ser uma classe muito boa.

Primeiro, contextualizando sobre o Draft deste ano: temos um jogador geracional disponível, este sendo Rasmus Dahlin, o defensor sueco. Logo depois de Dahlin, um Top 9 bastante sólido formado por cinco forwards: Andrei Svechnikov, Brady Tkachuk, Filip Zadina, Jesperi Kotkaniemi e Oliver Wahlstrom, todos com potencial de se tornarem forwards de impacto no nível profissional. O Top 9 é completo por quatro defensores com grande potencial também – não o mesmo de Dahlin, mas potencial grande o suficiente para que eles se tornem jogadores de segundo par, senão de primeiro par, na NHL: Adam Boqvist, Evan Bouchard, Noah Dobson e Quinn Hughes.

Dahlin está em uma classe própria de talento, um nível acima dos outros nove. A categoria geracional é a mesma que Connor McDavid, Auston Matthews, Sidney Crosby se encaixavam ao entrarem em seus respectivos drafts. Dahlin é, sim, um jogador incrivelmente único e talentoso. Não existem dúvidas de que ele será o primeiro selecionado no Draft deste ano pelo vencedor da loteria, o Buffalo Sabres.

A segunda classe de talentos pode ser identificada neste grupo de nove jogadores. Prospectos de elite, que se distanciam do resto da primeira rodada e projetam se tornarem jogadores estabilizados de NHL em um futuro não tão distante. Alguns deles, inclusive, já estão prontos para jogar na NHL, enquanto outros precisarão de mais alguns anos de desenvolvimento – o que não prejudica de maneira nenhuma a avaliação de talento e seu potencial como profissionais.

Dado o devido destaque ao excelente grupo formado por estes 10 jogadores, entramos na próxima fase de talentos, que vai da 10ª seleção do Draft até a 20ª. Prospectos que projetam chegar à NHL eventualmente, mas com menos chance de sucesso e com menos impacto que os 10 primeiros selecionados. O nível cai de “elite” para “ótimo”, ou melhor exemplificando: um prospecto geracional poderia ser considerado de nível A+, o prospecto de elite de nível A ou A-, e os prospectos ótimos de nível B+ ou B.

A última divisão se dá da 20ª escolha até a 31ª, onde o nível cai consideravelmente para apenas “bom”. Prospectos de nível B-, C+, C. E é a partir da 20ª seleção que o Draft começa a rumar em direção de águas misteriosas, porque há muitos prospectos de nível C+ ou C. Pode se dizer que o nível de talento adquirido no final da 1ª rodada equivale ao do começo da 2ª rodada, isto é, da 32ª escolha até a 40ª.

Organizando as divisões de talentos, vejo a 1ª rodada do Draft deste ano da seguinte maneira: • 1 – Grupo Geracional (A+) – Rasmus Dahlin sozinho, no topo de sua classe; • 2-9 – Grupo de Elite (A, A-) – Forwards e defensores com o potencial de se tornarem jogadores de primeira linha; • 10-20 – Grupo dos Ótimos (B+, B) – Forwards e defensores com sólido potencial de top 6 e defensores de top 4, com alguns podendo se tornar de elite; • 20-31 – Grupo dos Bons (B-, C+, C) – Prospectos com maior probabilidade de se tornarem jogadores de 3ª linha do que de 2ª linha, ou 3º par de defesa do que de 2º par.

Mas afinal, o que todos esses números, símbolos e linguagem complicada quer dizer? Que eu tenho bastante convicção que Dahlin será o melhor jogador dessa classe. Depois, de 2-9 temos jogadores com mais potencial do que os de 10-20, e por aí vai.

Eis que chegamos a parte mais interessante do Draft: cada time tem seus próprios rankings, seus próprios planos e avaliações de cada um dos 31 prospectos que serão selecionados na 1ª rodada.

Não importa o quão incrível eu ache, por exemplo, o Filip Zadina. Se Montreal tiver um jogador melhor ranqueado em sua classificação do que o Zadina, eles podem muito bem selecionar outro jogador. Isso é óbvio, e vale para qualquer ranking que existir na internet.

O Draft sempre carrega consigo inúmeras surpresas, como presenciamos nos últimos anos. Independente do consenso criado pelos jornalistas e experts, os times não têm medo de escolher o jogador que eles mais gostam e que acreditam ter o melhor futuro na NHL dentre todos os prospectos disponíveis.

O exemplo de Montreal não foi sem querer. Os Canadiens têm uma clara necessidade de centers e defensores, não apenas em seu elenco atual da NHL como entre todos os prospectos da organização.

Buffalo vai selecionar Dahlin. É esperado e bastante provável que Carolina escolha Svechnikov. Montreal pode, muito bem, surpreender e optar por Jesperi Kotkaniemi, o center finlandês, ou Noah Dobson, o defensor canadense que foi grande destaque do Acadie-Bathurst Titan, o time vendedor da Memorial Cup, principal título júnior canadense.

O que Montreal fizer na 3ª posição, independente da escolha, terá muitas consequências no decorrer das 10 primeiras escolhas deste Draft.

Outro fator importante neste draft: existem ao menos três “elementos x” nesta classe. Por elemento x, categorizo o prospecto que tem muito talento, mas muitos pontos de interrogação em suas características como jogador que podem interferir em seu desenvolvimento e eventualmente impedir uma elevação ao nível da NHL. São eles: Vitali Kravtsov, o russo que jogou muitíssimo bem os playoffs da KHL aos 17 anos; Ryan Merkley, o defensor do Guelph Storm da OHL que tem imenso talento ofensivo, mas sérios questionamentos sobre sua disciplina; e Dominik Bokk, o winger alemão que se mudou para a Suécia e mostrou grande evolução em uma temporada muito mais desafiadora do que suas anteriores.

Outro jogador a ficar de olho, mas que não se encaixa na categoria de “elemento x” porque é um prospecto mais sólido, concretizado e com alta probabilidade de jogar na NHL, é Barrett Hayton, center do Soo Saint Marie Greyhounds. Hayton foi incrível nos playoffs da OHL, uma das três principais ligas júniores canadenses, crescendo no ranking de muitos times e ameaçando entrar no Top 10.

Para finalizar, outro método importante que é levado em consideração na hora de montar estas listas: centers são mais valiosos que defensores, que são mais valiosos que wingers, que são mais valiosos que goleiros. Para facilitar, na hora de selecionar um jogador tão jovem, a ordem de valor (sem considerar o talento individual) é centers > defensores > winger > goleiros. O motivo? É muito mais difícil achar um center de 1ª linha ou um defensor de 1º par do que um winger de 1ª linha. Basta ver a free agency. Quantos centers de elite estão disponíveis a cada ano? E defensores? Wingers, no entanto, sempre estão presentes no mercado, mesmo aqueles que marcam 20-30 gols por temporada.

A lista já está pronta, com cada um dos 31 prospectos ranqueados e com uma breve descrição sobre seus estilos de jogo. A chance de todos esses 31 prospectos por mim listados serem selecionados na 1ª rodada, no entanto, é mínima. E por isso que o Draft da NHL é tão intrigante. Muita coisa pode acontecer no primeiro dia de “recrutamento”.

Tem alguma dúvida sobre algum prospecto em específico, ou sobre o funcionamento do Draft? Estou sempre à disposição no twitter, no @LucasHanashiro. Prometo não me alongar nas explicações tanto quanto neste texto ou meu ranking, que sairá nesta segunda-feira, aqui no ESPN.com.br.