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'Parça' de Brady, ele sobreviveu a Belichick e foi aposentado da NFL por Tebow: o tricampeão do Super Bowl que virou executivo

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Ex-Patriots diz que até hoje fica intimidado por Belichick: 'Ia para o treino torcendo para ele não gritar comigo' (1:12)

Lonie Paxton conta como foi seu começo de carreira com um dos mais temidos treinadores (1:12)

Ele é tricampeão do Super Bowl com o New England Patriots, amigo de Tom Brady e “sobreviveu” ao técnico Bill Belichick por nove temporadas. Mesmo assim, poucos devem estar acostumados ao nome de Lonie Paxton, jogador de quase 1,90m e 122 quilos que participou do início da longeva dinastia da NFL.

Hoje executivo de Esportes e Entretenimento Global da GoPro, famosa marca de câmeras esportivas, Paxton fez sua carreira na inglória posição de long snapper, o jogador responsável pelo snap em jogadas de chute, seja o punt ou o chute de field goal.

Trata-se de um jogador fundamental – tanto que as equipes usam uma das 53 vagas do elenco para quem faz especificamente isso –, mas que poucas vezes se vê nos holofotes. Quando isso acontece, geralmente não é uma boa notícia.

“Sempre que você está lá se supõe que deve ser perfeito. E você pode fazer perfeitamente 100 de 100 vezes, mas naquela 101º que for errada você terá milhões de pessoas te encarando e dizendo ‘o que diabos você acabou de fazer?’”, explicou Paxton em entrevista exclusiva à ESPN.

Em visita ao Brasil, o ex-jogador contou como acabou atuando em uma posição tão peculiar, falou do relacionamento com Tom Brady e Bill Belichick, e também explicou como o milagroso passe de Tim Tebow nos playoffs de 2011 acabou, indiretamente, encerrando sua carreira.

LONG SNAPPER? SÉRIO?

Nascido Leonidas Earl Paxton III, Lonie passou a infância assistindo aos jogos dos Rams, durante a primeira passagem da franquia por Los Angeles. Graças ao pai, que gostava de ser um dos primeiros a entrar no estádio, muito antes das partidas, ele conheceu a função que exerceria.

“Logo em frente aos nossos lugares era onde os long snappers aqueciam, e eu achava interessante como eles lançavam uma espiral perfeita no meio das pernas. Eu me lembro de ir para casa quando tinha oito anos, tentar fazer no meio das minhas pernas, fazia com uma mão e não era tão bom”, contou.

Ao chegar para jogar no colegial, Paxton se candidatou à vaga de quarterback e também se ofereceu para fazer as vezes de long snapper, já que era “basicamente lançar a bola pelo meio das pernas”.

“Então eu comecei como quarterback no ano de calouro do colegial e também era o long snapper. Certa vez eu pulei para recuperar um fumble e quebrei o tornozelo do nosso center, então eles me moveram de quarterback para center, o que culminou com uma evolução natural de ficar maior, começar trabalhar mais forte e aprender como ser um long snaper melhor”, explicou.

“Sempre foi algo para ajudar o time, ninguém mais achava que podia fazer, então eu fiz e fiz consistentemente, fui melhorando e fiz uma carreira com isso”, completou.

SOBREVIVENDO NOS PATRIOTS AO LADO DE TOM BRADY

Foi durante a primeira temporada de Paxton no New England Patriots, em 2000, que ele fez amizade com outro garoto do sul da Califórnia que teria sucesso na franquia: Tom Brady.

“Temos histórias semelhantes. Os dois são do sul da Califórnia, não fomos recrutados no topo (do draft), e pegamos o mesmo avião indo para o treinamento de calouros. Ficamos juntos e ainda somos amigos hoje em dia”, disse sobre o colega que reencontrou recentemente no Kentucky Derby (Lonie é o primeiro da esquerda para a direita).

Era o primeiro ano de Bill Belichick no comando da franquia, e não foi fácil conseguir agradar o treinador, que ainda tentava dar uma cara à equipe.

“No meu ano de calouro tinha 40 e poucos calouros vindo para o training camp. No fim só tinham restado sete ou oito de nós. E no fim de 2000, da temporada que fomos 5-11, tinha provavelmente 30 outros caras do time que não estavam mais lá”, contou.

“Ele reconstruía o time, achava jogadores em quem realmente acreditavam no time, no modelo, no ‘Patriot Way’, na mentalidade de colocar o time em primeiro lugar”, completou.

A inevitável pergunta sobre se o treinador é tão intimidador como aparenta ser vem acompanhada da inevitável resposta.

“Sim, ele definitivamente é um pouco intimidador, ele ainda é intimidador para mim após a aposentadoria”, afirmou.

“Eu me lembro de ir treinar todo dia e você ficava como ‘cara, tomara que ele não grite comigo hoje’. Era intimidante, com certeza”, lembrou.

“Mas acho que é isso o que o time precisa. Ele faz todo mundo jogar no mesmo nível, ninguém é maior que a outra pessoa, mesmo hoje, Tom Brady. Sabe, ele trata Tom como faz com o mais novo no campo. E acho que todos os jogadores respeitam ele por isso”, completou.

ANJOS NA NEVE

Na prorrogação do divisional de 2001, a sequência teve um snap perfeito, um chute certeiro de Vinatieri e Lonie Paxton prontamente caindo na end zone para fazer anjos de neve, na cena que ficou marcada na cabeça do torcedor dos Patriots.

“Não diria o melhor momento da minha vida, que foi o Super Bowl, mas o Super Bowl veio depois do ‘snow kick’, então...”, ponderou o ex-jogador.

Ele contou que antes daquela partida, em 19 de janeiro de 2002, ele tentava se concentrar enquanto alguns amigos da Califórnia bebiam e faziam planos para comemorar a vitória sobre o Oakland Raiders, pelos playoffs, com anjos de neve no estacionamento do estádio.

“Aquilo estava na minha cabeça e no fim do jogo nós tivemos a chance de chutar o que basicamente era um chute tranquilo para vencer. A primeira coisa que pensei foi ‘tem uma enorme montanha de neve ali, eu vou deitar e fazer anjos de neve se vencermos isso’. Então, tão logo a bola subiu, eu vi que estava dentro. O resto é história”, contou.

APOSENTADORIA PELA EMOÇÃO

Em 2009, Paxton mudou de uniforme, deixando o New England Patriots para defender o Denver Broncos. Três anos depois, chegaria a hora de pendurar as chuteiras após um dos jogos que habitam a memória de torcedores da equipe do Colorado e também do Pittsburgh Steelers

O empate em 23 a 23 na rodada de Wild Card dos playoffs colocou Broncos e Steelers decidindo a vaga na prorrogação. Mas o tempo extra durou apenas 11 segundos, graças ao inesquecível passe de Tim Tebow para Demaryius Thomas e o touchdown de 80 jardas.

“Minha esposa estava nas arquibancadas, grávida de gêmeos. E eu me lembro, nós vencemos o jogo, ficamos tão contentes, pulamos, nos abraçamos, beijamos e dois dias depois ela entrou em trabalho de parto prematuro”, contou.

“Então, acho que aquela agitação fez com que os bebês quisessem nascer. O problema foi que ela estava de 23, 24 semanas, e bebês não deveriam sair tão cedo. Foi um período de muito stress para ela e para mim, recebemos o diagnóstico dos médicos dizendo que coisas ruins poderiam acontecer, então minha mente estava meio distante”, continuou.

Na semana seguinte, para o duelo contra seu ex-time no Divisional, Paxton não tinha condições de jogar e David Binn foi chamado para o seu lugar.

“Quando chegou a offseason, o foco estava nas crianças, minha esposa, e eu não estava focado em futebol como estava no passado. Eu comecei a pensar em ‘e se as coisas chegaram ao fim? Será que eu realmente quero pular por aí, mudar minha família, meus recém-nascidos, de cidade para cidade e pegar as oportunidades?’”, lembrou.

Depois de um teste com o Washington Redskins, seu pensamento estava realmente em pendurar as chuteiras e mudar de ramo, aproveitando os contatos que tinha feito ao longo de sua carreira. A conversa com um colega que trabalhava na GoPro gerou uma entrevista e, então, veio o momento de tomar a decisão.

O contrato para a nova carreira chegou no mesmo dia em que o San Diego Chargers fez uma proposta para ele disputar os últimos três jogos da temporada.

“Tive que tomar uma decisão, e foi realmente difícil. Eu me lembro de chorar com minha esposa em Denver. Tomei a decisão e meu corpo estava doendo, mentalmente eu não estava lá e percebi que melhor do que ficar pulando era começar a minha oportunidade pós-carreira”, contou.

Hoje, pai de quatro crianças e com uma carreira bem sucedida depois da aposentadoria, Lonie Paxton tem certeza de que acertou na decisão. Além disso, os anéis de três Super Bowl não deixam ele se esquecer que acertou em suas escolhas.