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Quem disse que eu não consigo? A espetacular história de superação do treinador de futebol americano sem braços e pernas

Rob Mendez jamais jogou futebol americano em sua vida, nem sequer tocou em uma bola oval. Ele também jamais pisou em um campo, mas tornou-se treinador principal do time da Prospect High School.

A falta de experiência prática com a modalidade tem uma explicação que chega a assustar: Rob Mendez é uma das poucas pessoas do mundo que convivem com a tetra-melia, síndrome rara que causa a ausência completa de braços e pernas.

Sua experiência comandando os garotos na escola próxima à Saratoga, na Califórnia, foi documentada em um especial da ESPN que você pode conferir no WatchESPN.

“Talvez seja algo de ego, mas quando alguém me diz que eu não consigo fazer algo, ou tenta me separar, eu apenas quero provar que ele está errado”, disse Mendez, que explicou como chegou até este momento.

DERRUBANDO BARREIRAS

Não foi fácil para os pais de Rob ouvirem, no oitavo mês de gestação, que o bebê não apresentava nenhum dos membros em formação. Um aborto já estava fora de questão e os médicos informaram que recém nascidos nestas condições costumavam viver poucas horas ou dias, sendo que aqueles que “ousavam” viver mais geralmente apresentavam significantes problemas mentais.

Rob, contudo, nasceu saudável, mas seus pais não tinham ideia de como lidar com o filho. Josie, a mãe, contou que não conseguia olhar para ele nas primeiras duas semanas e depois cobria-o com lençóis ao sair de casa.

Já o pai, Robert Mendez Sr., disse que via potencial na criança forte e feliz, mas lutava contra as emoções e questionava Deus por aquilo. Posteriomente, ele se entregou para a bebida.

“Eu estava bebendo para esquecer. Apenas para acabar com a dor. Não demorou muito para eu perceber que o álcool não era a resposta”, afirmou.

Foi então que a família entendeu que teria que integrar Rob o máximo possível, deixando de lado qualquer rótulo que poderiam colocar no filho.

“Esta é uma palavra que meu pai nunca gostou: especial. Especial é besteira. Todos somos especiais. Os outros tipos de crianças são especiais também. O que diabos isso quer dizer? Meu pai me dizia: ‘Você não é especial, Rob. Você é diferente. E ser diferente não é ruim. Compreenda isso. Supere os limites. E qualquer um que tiver problema com isso, mostre que está errado’”, disse.

Com ajuda da tecnologia ele foi esquiar, nadar, aprendeu a desenhar e escrever usando a boca. Com sua cadeira de rodas, rebocou os amigos nos skates pelas ruas da vizinhança, foi goleiro em um time de hockey de rua e atuou como árbitro em jogos de basquete dos colegas.

Nada era impossível.

O FUTEBOL AMERICANO NO CONTROLE

A irmã mais velha, Jackie, foi quem teve a ideia de colocar um controle de Playstation no queixo de Rob, apoiando no ombro. Ao contrário de outros tipos de jogos, Madden dava a chance do garoto relaxar entre um snap e outro.

“Soa ridículo, mas é verdade. É como os humanos são, eles se adaptam. Eu não sabia dizer qual era a sensação de receber uma bola em uma rota flat, mas sabia o que era isso e o motivo disso funcionar”, afirmou Rob, que ficou em segundo em um campeonato de videogame de 32 times organizado por um colega.

Quando um amigo foi calouro no time de futebol americano do colegial, Rob se tornou um treinador. Montava os planos de jogo no videogame e saia para praticar. No último ano, ele já era treinador dos quarterbacks e tinha na cabeça que era aquilo que queria fazer pelo resto da vida.

PERSEGUINDO O SONHO

Foram 12 anos trabalhando como auxiliar em cinco colégios, esperando uma chance de ser o principal nome de uma comissão.

Mike Cable, responsável pelo programa esportivo de Prospect, se deparou com um belo currículo ao procurar alguém que pudesse mudar a cultura daquela escola. Era justamente o de Rob Mendez.

“Não vou mentir. Eu fiquei um pouco nervoso. Eu ficava pensando: ‘Como esse cara pode treinar?’”, disse Cable sobre sua reação ao pesquisar o nome de Rob na internet.

O DESAFIO

A Prospect High School fica menos de 10 quilômetros distante da sede da Apple, próximo ao Vale do Silício. Apesar disso, 73% das classes são compostas por minorias e 26% dos alunos são de famílias economicamente desfavorecidas.

A chegada do novo treinador agitou o grupo e um jogador deixou o colégio por isso. Mas aqueles que ficaram logo entenderam que o comandante exigia respeito, contato visual e responsabilidade. A ideia era “construir uma família”.

Certa vez, incomodado com a dificuldade de um quarterback entender qual jogada era proposta, Mendez gritou para todos chegarem perto e desenhou – com uma caneta colocada em sua boca e um quadro branco segurado por um assistente – o que deveria ser feito.

“É uma ’37 stretch’, certo? Vamos fingir isso por esse caminho e então girar para fora. Mas nos realmente precisávamos fazer com que acreditem que vamos para o outro lado. Eles precisam comprar esse ‘fake’. Ou então não vai funcionar. Entenderam?”, explicou.

O quarterback afirmou que havia entendido e pediu desculpas por não ter feito antes. “Você não precisa se desculpar. Apenas foque”, respondeu Mendez.

ACIDENTE

Faltando duas semanas para a estreia na temporada, Rob sofreu um acidente e tanto. Na garagem da casa da família, ele se inclinou para alcançar o celular, mas não fazia ideia de que o cinto de segurança em sua cintura não estava preso.

“Foi horrível”, disse seu pai, que havia saído por um instante de perto. “Como uma panqueca caindo no chão. Um prédio de 10 andares indo abaixo. Eu jurava que tinha travado o cinto. Me virei, dei dois ou três passos e ouvi aquilo”.

O pai já cansou de dizer que Rob deveria usar também o cinco que fica próximo ao peito, mas o treinador se nega pois isso o atrapalharia na hora de alcançar o celular ou para desenhar as jogadas.

No hospital, Rob soube que havia fraturado alguns ossos da face e uma cirurgia era aconselhada, além de um repouso de pelo menos um mês. Mas ele não deu ouvidos, perdendo apenas um dia de treino. Ao justificar a ausência na atividade, ele disse apenas que tinha “brigado com o chão”.

“Eu sou muito bom lidando com a dor e não queria ficar em casa sentindo pena de mim mesmo. Se eu posso sair e trabalhar por quatro ou cinco horas, então estou bem”, disse.

DESEMPENHO E FUTURO

Prospect terminou a temporada com campanha de 8 vitórias e duas derrotas. O desempenho chamou atenção de diversos outros programas que lhe ofereceram oportunidades como técnico principal, mas a meta de Rob é voltar ao time.

“Não acho que conseguiria fazer isso com essas crianças. Temos um trabalho ainda não terminado por aqui”, disse.

Esta é uma versão traduzida e editada da reportagem de Wayne Drehs intitulada "Who Says I Can't" (em inglês), disponível no ESPN.com.