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Colin Kaepernick não precisa da NFL para continuar sua luta

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Mesmo longe da NFL e com acordo fechado, Colin Kaepernick desenvolveu uma personalidade que vai além do esporte (1:42)

Último touchdown do jogador foi em janeiro de 2017 (1:42)

A disputa nos tribunais entre a NFL e Colin Kaepernick finalmente acabou.

Na sexta-feira, o advogado de Kaepernick e a liga divulgaram um comunicado conjunto em que os dois lados, que também inclui o safety do Carolina Panthers Eric Reid, “decidiram resolver as queixas pendentes”, fazendo referência ao processo por conluio que os dois jogadores registraram contra a liga e seus proprietários em outubro de 2017.

O comunicado se encerra com a informação de que existe um “acordo de confidencialidade” entre as partes, o que significa que provavelmente nunca serão reveladas as provas que Kaepernick tinha contra a liga, ou qual foi o montante que ele recebeu por retirar a queixa.

Além das especificidades, o acordo também pode significar que Kaepernick, de apenas 31 anos, não jogará mais uma descida sequer na NFL.

E se este foi o resultado, não há problema algum.

Começando com ele ajoelhando-se durante o hino nacional em agosto de 2016, em protesto à desigualdade racial e violência policial, Kaepernick incitou mudanças não apenas na NFL, mas por todo os Estados Unidos, algo que nem uma campanha de MVP ou um título de Super Bowl poderia ter conseguido. (Para referência, o MVP da NFL em 2018, Patrick Mahomes, mal teve seu nome mencionado desde que ganhou o prêmio no dia 2 de fevereiro).

Em apenas 2 anos e meio, Kaepernick fez mais para a discussão nacional sobre raça e conduta policial do que qualquer pesquisa ou força-tarefa presidencial.

Ele doou mais de US$ 1,1 milhão, cerca de 10% do último salário que ganhou como quarterback da NFL, para organizações de justiça social dedicadas ao combate da violência policial, encarceramento massivo, fome infantil e desabrigados. Este é um número que não inclui o valor recorde de US$ 89 milhões que um grupo de jogadores conseguiu com a liga em novembro de 2017, que ajuda fundos de organizações que lutam pela reforma educacional e criminal, além das responsabilidades da polícia. Por mais criticado que o acordo da Coalizão de Jogadores tenha sido, este dinheiro nunca teria existido sem Kaepernick.

Um joelho forçou quase todos os segmentos da sociedade a confrontar as situações difíceis dos afro-americanos, quer eles queiram ou não. Das ligas profissionais até as infantis, escolas até às delegacias e forças armadas, a sensação é de que todo mundo foi questionado sobre o que achava do rapaz com cabelo afro ajoelhando-se durante o hino nacional.

As injustiças raciais que ele lutava ganharam espaço na ESPN e outros meios esportivos. Aqueles espaços que normalmente poderia evitar reconhecer que existia discriminação racial e violência baseada no preconceito (o Congresso, várias universidades, o programa do Jimmy Kimmel) não poderiam mais fazer isso.

Apenas na última semana, um garoto branco de 10 anos da Carolina do Norte ajoelhou-se enquanto o resto do grupo de escoteiros recitava o Juramento à Bandeira na prefeitura, pois ele queria se ajoelhar “contra a discriminação racial, que é basicamente (quanto) pessoas são más com as outras pessoas de cores diferentes”. Aquele garoto poderia ter crescido em uma sociedade “daltônica” não fosse por Kaepernick.

Nem mesmo o show do intervalo do Super Bowl, normalmente um evento apolítico de pompa e circunstância, tornou-se um referendo do que significa ser um aliado – ou, no caso de Travis Scott, um vendido.

Em seus dois anos longe do esporte, Kaepernick ficou maior do que qualquer atleta profissional estadunidense não chamado LeBron James. Apesar do silêncio imposto por si próprio, qualquer detalhe de informação sobre ele (Um treino em Houston! Uma participação inócua em uma premiação! Uma propaganda para uma marca de tênis!) agitaria o noticiário por completo.

Mesmo com o aparente consenso da fadiga sobre Kaepernick após os meses passarem e muitos quarterbacks medíocres assinarem contratos, e os pedidos para que todo mundo “falasse apenas de esporte”, Kaepernick ressoava. Ele tinha uma das camisas mais vendidas mesmo sem contrato. Seu comercial para a Nike em setembro gerou 3.4 milhões de menções à marca no Twitter e ajudou as ações da empresa subirem mais de 6%.

Kaepernick é, como Muhammad Ali disse sobre si mesmo à revista Life durante seu exílio do boxe profissional por 43 meses no final dos anos 1960, “Maior do que nunca. Tão grande como toda história”.

O campeão dos peso-pesados, duramente criticado em sua época por se levantar sobre sua moral, disse que ainda era feliz apesar de terem tirado um de seus títulos e a licença de lutador por ter protestado contra a Guerra do Vietnã. “Pois eu sou livre. Eu fiz a resistência que todos os negros terão que fazer mais cedo ou mais tarde – possam ou não resistir ao seu mestre”.

Kaepernick, como Ali em seu tempo, perdeu sua batalha contra o esporte que ele jogava. Mas ele confrontou uma organização muiti-bilionária e, para todos os efeitos, venceu.

Kaepernick agora é livre.