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NFL: Está na hora de aceitar que o New England Patriots é o dono da maior dinastia da história dos esportes

Coloque todo o ódio que você tem em suas mãos, feche-as como se estivesse segurando areia, deixe-a escorrer pelos seus dedos até que acabe. O New England Patriots merece seu respeito e admiração. Resumindo, nunca iremos ver isso novamente em nossas vidas.

Para todos os que não torcem pelos Patriots, a noite do dia 3 de fevereiro deveria marcar o fim de uma relação problemática e o começo de algo especial.

New England venceu o Los Angeles Rams por 13 a 3 no Super Bowl LIII e, mesmo jogando 'feio', levou seu sexto título desde o dia que, em setembro de 2001, uma escolha de sexta rodada se transformou em Tom Brady - um quarterback pouco valorizado que se desenvolveu ao ponto de ser o melhor jogador de futebol americano que já existiu.

Chegou a hora de aceitarmos esta ideia. A dinastia dos Patriots é a maior da história dos esportes norte-americanos, universitários ou profissionais,

Os EUA amam times vencedores e pessoas que ajudam a criar novos limites para as conquistas humanas. Os Patriots venceram assustadores dois terços dos nove Super Bowls que disputaram desde que Bill Belichick colocou Tom Brady em campo. Eles começaram tudo isso vencendo o favorito St. Louis Rams no Super Bowl XXXVI e continuaram, 17 anos depois, batendo os azarões Rams de Los Angeles.

Esqueça qualquer polêmica que o time foi acusado de se envolver. Os Patriots superam as dificuldades impostas por uma liga que busca o equilíbrio, usa limites na folha salaria, o draft, a free agency e seu calendário para evitar que Belichick e Brady façam exatamente o que acabaram de fazer: vencer.

Ao contrário de outras grandes dinastias da NBA, MLB ou NHL - como Chicago Bulls, Boston Celtics, New York Yankees ou Montreal Canadiens -, os Patriots nunca tiveram a margem de erro de uma série melhor de cinco ou sete jogos. E ao contrário das dinastias universitárias, Belichick nunca teve a chance de recrutar os melhores jogadores do país, ano após ano. Campeões são punidos no futebol americano profissional, sendo obrigados a selecionarem jogadores nas últimas posições do draft.

Belichick teve de mexer em seu elenco, substituir seu melhores jogadores. A realidade é que ele sofre uma grande pressão para continuar identificando talento que possa fazer seu time superar novos limites.

No Super Bowl LIII, o triunfo foi menos dramático, mas não menos significativo. Belichick, um avô de 66 anos, é um velho conhecido do avô de Sean McVay, John. Ele venceu um rival que tem a metade de sua idade para se tornar o treinador campeão mais velho da história - e se igualar a George Halas e Curly Lambeau entre os técnicos com mais títulos da NFL (seis). Brady se tornou o titular mais velho a ser campeão, com 41 anos, e o primeiro jogador a ter seis anéis da liga - o primeiro hexacampeão com tamanho protagonismo a igualar Michael Jordan.

E não pense que Brady não sabe disso. Ele quer passar Jordan, pode apostar. Começou sua carreira vencendo três títulos em quatro anos. Por que deveria terminar vencendo três em cinco, se pode levar quatro troféus em seis temporadas?

As origens da dinastia de Belichick nos levam à vizinhança de West Orange, em Nova Jersey, onde Amos Alonzo Stagg nasceu. Stagg era treinador no futebol americano universitário nos anos 40 quando encontrou Wayne Hardin pela frente, ex-treinador na Academia Naval. Foi quando o jovem filho de Steve Belichick, então auxiliar técnico, buscou ajuda.

Bill perguntou a Hardin sobre a posição em que deveria jogar, e o treinador de Navy respondeu: "Vire-se, abaixe e faça o snap para mim". Hardin achou que a primeira tentativa não foi boa o bastante. Na segunda, Belichick foi perfeito. "Nunca mude", gritou Hardin.

Se desenvolvendo na posição de center, Belichick estudou lendas como Roger Staubach e Joe Bellino, também ex-atletas de Navy que se atentavam a todos os detalhes de um treinamento. Era a cultura da Academia. Phil McConkey, que foi treinador por Belichick nos anos 70, afirma que "ele foi o técnico mais durão. Não nos preparava apenas para o jogo, mas para sermos combatentes da Marinha".

O filho único de Steve Belichick aprendeu com a disciplina da Academia e começou a tratar cada treino de pré-temporada como uma final. Por isso os Patriots são os Patriots. Por isso Belichick tem tantos anéis de Super Bowl quanto lendas como Don Shula, Tom Landry e Bill Parcells têm, juntos.

É fácil argumentar que Belichick tenha perdido controle do vestiário na temporada passada. Ele irritou Brady ao impedir que Alex Guerrero, guru fitness e parceiro de negócios de Brady, tivesse acesso ao time. Assim como irritou o elenco ao deixar Malcolm Butler no banco durante a derrota para o Philadelphia Eagles no Super Bowl LII. Brady, Rob Gronkowski e outros jogadores reclamaram pelas redes sociais e, de acordo com fontes, o quarterback pensava, ainda em março, em deixar New England para não ter de ficar com Belichick por mais uma temporada.

Brady mandou uma forte mensagem para Belichick ao ser o único quarterback titular da liga a não aparecer para as primeiras atividades do time na pré-temporada - depois de dizer que gostaria de jogar até os 45 anos e ver a franquia trocar seu possível sucessor, Jimmy Garoppolo, Brady sabia que não poderia se afastar tão cedo do esporte.

Jon Bon Jovi, amigo de Belichick há muitos anos, estava ao lado do vestiário na noite de domingo quando disse para a ESPN que, neste ano, os Patriots tiveram uma química melhor do que na temporada passada. "Tommy está se dando bem com Bill. Bill está se dando bem com (Robert) Kraft (dono dos Patriots). E Kraft está sendo gentil com ele. Eles estão em paz. Vencer faz isso com você."

"Ele disse, 'sou ruim. Estou velho'... Mas no ano passado, todos estavam falando que ele era o melhor da história. Como ele iria se motivar? Os Eagles chegaram e venceram como azarões", disse Bon Jovi sobre Brady.

"Neste ano, Tommy disse, 'eu sou azarão'. E tratou as coisas assim."

Enquanto a comemoração acontecia no campo do Mercedes-Benz Stadium, todos os principais personagens desta novela estavam se abraçando. Belichick e Brady. Brady e Kraft.

Os Patriots igualaram o recorde de vitórias em Super Bowls do Pittsburgh Steelers, e tudo por causa de Belichick e Brady - que, juntos, somam 107 anos, contra os 57 dos rivais Sean McVay e Jared Goff. Venceram pelo fato de que Belichick sabe treinar punters e sabe como transformar um quarterback que jogou em Kent State e foi a 232ª escolha de seu draft, Julian Edelman, em um dos jogadores mais eficientes da história - e um MVP de Super Bowl.

Os Patriots prevaleceram por causa de Gronkowski, que fez a principal recepção neste que pode ter sido seu último jogo. Por causa de Jason McCourty, que impediu um touchdown certo de Brandin Cooks. Por causa de Stephon Gilmore, que interceptou Goff perto da end zone dos Patriots nos minutos finais e matou os Rams na partida.

No fim, Belichick celebrou mais um momento mágico ao lado de sua família e amigos. Na outra vitória dos Patriots sobre os Rams em um Super Bowl, ele abraçou sua filha, Amanda, e os filhos, Stephen e Brian. Ele fez o mesmo desta vez. Mas, agora, seus filhos estão crescidos. Amanda é técnica do time de lacrosse na univeridade de Holy Cross. Stephen e Brian são auxiliares na comissão técnica do pai.

Os Patriots de Belichick podem vencer mais um ou dois títulos antes do dia em que ele e Brady irão se aposentar. Mas mesmo que nunca mais cheguem aos playoffs, eles já garantiram o posto de donos da melhor dinastia da história dos esportes norte-americanos. Também ganharam o direito de serem admirados, incondicionalmente.

É hora de todos os rivais aceitarem. Os Patriots mandaram uma simples mensagem na noite de três de fevereiro. Não odeie, o que eles fazem é lindo.