<
>

NFL: Kaepernick ainda sem emprego e questões raciais com certeza deixam alguém desconfortável - Roger Goodell

Colin Kaepernick poderia muito bem estar sentado em uma das cadeiras durante a entrevista coletiva do comissário da NFL, Roger Goodell, alguns dias antes do Super Bowl. Era possível sentir a presença do quarterback na sala.

Pelo fato de Atlanta, com sua forte ligação histórica aos movimentos em prol dos direitos civis, ser a cidade-sede do jogo e de Kaepernick, o ex-quarterback do San Francisco 49ers, ter se tornado a nova face na luta pela justiça social, era inevitável que Goodell enfrentasse uma enxurrada de perguntas de repórteres em relação ao jogador cujas ações estabeleceram a discussão nacional envolvendo a liga por mais de dois anos.

E, previsivelmente, Goodell continuou a se esquivar e rebater da melhor forma que podia. Mas essa estratégia não deu muito certo.

Goodell manteve a posição de que Kaepernick continuará sem time depois de jogar por San Francisco em 2016 porque, essencialmente, nenhum time acredita que o veterano seja capaz de ajudá-lo a vencer.

"Se um time decidir que Colin Kaepernick, ou qualquer outro jogador, pode ajudá-lo a vencer, é isso que irá fazer [contratá-lo]", disse Goodell. "Eles querem vencer. E eles tomam essas decisões de forma individual, buscando o melhor para seus clubes."

Kaepernick ainda continua dividindo opiniões enquanto se mantém em silêncio.

O problema é que essa desculpa não vai colar.

É impossível acreditar que, com a escassez de quarterbacks talentosos em uma liga que depende de quarterbacks, nenhum time contratou Kaepernick alegando que ele não tem habilidade suficiente para contribuir. Kaepernick tem experiência (ele já começou jogando 58 vezes) e a quarta maior taxa de touchdowns e interceptações de todos os tempos.

Os técnicos da NFL querem quarterbacks com experiência e que saibam cuidar bem da bola. De repente parece irrelevante o fato de que Kaepernick preenche os dois requisitos?

Mesmo jogando pelos horríveis 49ers durante sua mais recente temporada (em 2016, o San Francisco teve campanha de 2-14), o quarterback mostrou habilidades de alto nível. Os receivers de San Francisco tiveram a segunda maior porcentagem de passes incompletos no campeonato. Ainda assim, Kaepernick completou quase 60% dos seus passes (59,2%). Ele deu passes para 16 touchdowns e apenas quatro de seus passes foram interceptados.

Um dos pilares da falsa narrativa de que Kaepernick não pode ajudar nenhuma equipe é que, aos 31 anos, ele seria muito velho, e que teria ficado muito tempo sem jogar. Bom, o Washington Redskins jogou esse argumento ilusório no lixo nessa temporada.

Depois de Alex Smith ter sofrido uma lesão em novembro que pode acabar com sua carreira, eles contrataram o fraco Mark Sanchez. Depois que Sanchez fez o que ele faz naturalmente, os Redskins voltaram ao mercado de quarterbacks free agents e contrataram Josh Johnson, que tem 32 anos e não havia acertado nenhum passe em um jogo de temporada regular da NFL desde 2011.

Há quarterbacks nos elencos da NFL que não conseguem mascar chicletes e completar 50% de seus passes ao mesmo tempo, e ainda assim não há uma única equipe que Kaepernick poderia ajudar? Quer dizer, Goodell está sempre tentando defender os times, mas essa situação é difícil de engolir.

Entenda: desde o momento em que Kaepernick sentou e ajoelhou durante o hino nacional, para chamar atenção à brutalidade policial e à opressão do sistema, Goodell e os bilionários para quem ele trabalha ficaram sem saber como lidar com o problema mais polêmico do campeonato. E a situação se tornou mais confusa ainda para eles quando Kaepernick abriu queixa contra a NFL acusando-a de praticar conluio, alegando que os donos dos times conspiraram para arruinar sua carreira devido aos seus posicionamentos políticos (uma audiência completa da queixa está prevista para esse ano).

Não será uma surpresa caso Kaepernick nunca mais jogue na NFL. Também não seria algo chocante se a liga, independentemente do resultado do caso de Kaepernick, continuasse a sofrer na boca do povo pela forma como o quarteback que já levou os 49ers ao Super Bowl foi tratado. Até o show do intervalo desse ano foi afetado pela repercussão negativa.

Na noite da última terça-feira, a NFL anunciou que o Maroon 5 não realizará uma coletiva de imprensa antes do jogo, o que é incomum para esse evento. Parece óbvio que ter de lidar com perguntas difíceis sobre a reação de diversos astros afro-americanos — Rihanna esteve dentre os músicos que supostamente teriam recusado fazer o show, e outros astros de peso como Jay-Z, Meek Mill, Common e Nick Cannon supostamente influenciaram o rapper Travis Scott a não se apresentar junto com o Maroon 5. O fato de Kaepernick ainda estar sem um emprego na NFL com certeza deixou alguém desconfortável.

"Esse é o maior palco do mundo", disse Goodell. "E eu tenho certeza que as pessoas querem participar."

"Nós temos aproximadamente 200 milhões de fãs. Sabemos que há segmentos que vão reagir de maneira diferente a situações diferentes que ocorrem na nossa liga. Mas no final das contas eu acho que as pessoas respeitam e admiram as coisas que fazemos, e que elas querem fazer parte disso."

As outras partes do discurso de Goodell também não foram de elogios à liga.

Logo de cara, Goodell falou sobre a falta de diversidade durante este ciclo de contratações de treinadores. Os donos das equipes estão com 100% de aproveitamento no preenchimento de posições até agora: sete vagas, sete homens brancos escolhidos. Obviamente esse não é o tipo de perfeição que Goodell quer, especialmente depois que a liga trabalhou para fortalecer a Rooney Rule, que estabelece que as equipes da NFL devem entrevistar pelo menos um candidato pertencente a minorias para os cargos de treinador principal, gerente-geral e suas posições equivalentes na diretoria.

Goodell se recusou a falar diretamente sobre a situação deplorável desse ciclo, preferindo, em vez disso, enfatizar que a liga e a Fritz Pollard Alliance, que ajuda a fiscalizar o cumprimento da regra, continuarão a discutir sobre como aumentar a participação de candidatos pertencentes a minorias. Mas é claro que ter mais candidatos das minorias capacitados não ajudará muito se os donos dos times continuarem obcecados em encontrar o próximo Sean McVay, que comandará o Los Angeles Rams no Super Bowl de domingo no Mercedes-Benz Stadium.

"Bem, nós não ficamos analisando o sucesso ou insucesso da Rooney Rule a cada ano", disse Goodell.

Talvez ele devesse. E isso também poderia ajudar a NFL na busca por argumentos em relação à situação de Kaepernick, que ainda está dando o que falar.