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'VAR da NFL' já foi polêmico e banido, mas lance há 20 anos reabriu as portas para a tecnologia

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“Um sentimento de que estamos tirando o elemento humano do jogo e tornando isso em uma partida de cabine e sala de imprensa”, disse um sobre o uso da arbitragem de vídeo.

“Basicamente, essa foi uma grande teoria que não funciona na prática”, comentou o outro.

Os comentários caberiam perfeitamente nas atuais discussões sobre o uso do VAR no futebol, mas o primeiro foi de Tex Schramm, general manager do Dallas Cowboys e presidente do Comitê de Competição da NFL em meados da década de 1980, enquanto o segundo foi de Norman Braman, em 1991, quando era proprietário do Philadelphia Eagles.

Assim como o futebol da bola redonda, a NFL também discutiu muito o uso do auxílio de vídeo para a arbitragem. E foi há exatos 20 anos que um lance acabou mudando a opinião de todos e abriu as portas para o uso da tecnologia como conhecemos hoje.

A relação da liga com o vídeo veio muito antes do futebol pensar que isso poderia acontecer. Em 1976, Art McNally, então diretor de arbitragem, fez um teste durante um Monday Night Football entre Cowboys e Buffalo Bills para ver quanto tempo uma revisão por vídeo atrasaria uma partida.

Um lance envolvendo O.J. Simpson poderia ter sido revertido com o artifício e o sistema ganhou seu primeiro adepto. Porém, os testes começaram apenas dois anos depois, e não animaram ninguém. Faltavam câmeras para tomar as decisões, e o custo complicava a operação.

Novos testes em 1985 trouxeram resultados melhores e o vídeo estreou na liga na temporada seguinte, após a aprovação de sua implementação com 23 votos a favor dos 28 possíveis. As regras eram parecidas com as de hoje, com revisão automática em caso de troca de posse de bola, pontuação, posição da bola, e até mesmo algumas infrações, como em casos de mais homens em campo.

Entre 1986 e 1991 foram 1.330 jogadas revisadas, com uma média de 2,2 por jogo e em 12,6% dessas revisões a marcação de campo foi revertida. Mas problemas também aconteceram.

Já em 1986, uma falha de comunicação entre um supervisor e o árbitro fez com que a indicação de “passe incompleto” fosse entendida como “passe é completo” no jogo entre Kansas City Chiefs e Oakland Raiders. Já foi o começo do fim.

Em 1991, 17 donos de franquias votaram contra o uso do vídeo alegando que o sistema atrasava muito o jogo e falhava em corrigir muitas jogadas. Familiar, não?

A NFL seguiu realizando testes para buscar algo que realmente não deixasse dúvidas, até que na tarde do domingo de 6 de dezembro de 1998, um erro de arbitragem que facilmente seria corrigido pela televisão mudou os rumos do esporte mais uma vez.

No antigo Giants Stadium, o Seattle Seahawks vencia o New York Jets por 31 a 26 com apenas 27 segundos no relógio. Os donos da casa tiveram uma última oportunidade e uma corrida do quarteback Vinny Testaverde virou o jogo e criou uma enorme polêmica.

O capacete de Testaverde cruzou a linha da end zone e um árbitro próximo assinalou o touchdown, mas logo no primeiro replay da transmissão ficou claro que a bola nunca ultrapassou a linha.

A derrota por 32 a 31 custou caro para Seattle, que praticamente ficou sem chances de lutar por uma vaga de wild card para os playoffs. Pior para o técnico Dennis Erickson, que recebeu uma ligação do então supervisor da arbitragem Jerry Seeman admitindo que a marcação foi errada, mas acabou perdendo o emprego.

A crise fez com que o Comitê de Competição votasse – e rejeitasse – propostas de volta do vídeo de forma imediata e também nos playoffs.

Em 1999 a revisão por vídeo voltou ao jogo, diminuindo de três para dois o número de desafios, a perda de um pedido de tempo no caso da jogada não ser revertida e a impossibilidade de solicitar o desafio nos dois minutos finais de cada metade do jogo.

Com o passar do tempo algumas alterações foram feitas na regra, até que em 2007 ficou definido que o vídeo não era algo para ser discutido ano a ano, tornando-se parte fixa do regulamento da NFL.

O caminho tortuoso para chegarem ao modelo atual, visto por muitos como exemplar – mesmo que não infalível – pode ser usado pelo futebol da bola redonda. E alguns dirigentes já pensam desta forma.

“No futebol americano, para ficar em um exemplo, o uso do vídeo é uma realidade. E o uso ocasionou a questão do aprimoramento do próprio uso. Então acho que o futebol não vai escapar disso”, disse Marcelo Medeiros, presidente do Internacional, em entrevista ao ESPN.com.br durante o Bola de Prata, na última segunda-feira.

A NFL ainda segue sua evolução e hoje já se discute se o recurso poderá ser utilizado em outros lances, como as faltas por uso do capacete em tackles. As telas de 9 polegadas viraram monitores portáteis de alta definição, e a evolução não para.