<
>

NFL: A confiança profunda de Patrick Mahomes, do Kansas City Chiefs

Texto publicado na ESPN The Magazine de novembro, que você pode conferir aqui (em inglês)

Pesquisei até os confins da internet para tentar entender como é ter um braço como o de Patrick Mahomes. Encontrei um arremesso tão raro que tecnicamente não existe, invalidado devido a uma falta por segurada. Novembro de 2014. Mahomes é um calouro de 19 anos na Texas Tech, enfrentando Oklahoma em seu segundo jogo como titular. É uma terceira para 10 na linha de 39 jardas do Oklahoma Sooners. Ele foi treinado para observar dois recebedores em sequência e, se ambos estivessem marcados, fazer uma jogada.

Um, dois, vai. Ele recebe o snap e fica sob pressão imediata -- "um, vai" -- e ele desvia para a esquerda, esquiva, para longe da pressão, mas direto para uma armadilha. Ele está a uma jarda da beirada do campo e quatro defensores dos Sooners estão se aproximando depressa... até que, com seu peso se movendo para a esquerda e um capacete no seu pescoço, Mahomes estica seu braço -- naquele momento, sua única parte do corpo em movimento, como se estivesse isolado -- e a bola segue uma trajetória que parecia impossível sem a ajuda do vento, a expressão física de uma qualidade metafísica, uma confiança profunda conhecida por poucos abençoados. A bola assobia; gira em uma espiral rápida e estreita; parece alterar a física e muda das possibilidades no campo -- voando baixo como se navegasse profundamente -- até que acerta o peito de um recebedor na end zone no mesmo instante em que Mahomes vai ao chão. Vi esse passe 20 vezes. Vi um gênio do improviso do futebol americano. Vi um homem fazendo cálculos e avaliando riscos que eu não pude computar. Vi o lance até eu ter certeza do que estava observando.

Depois eu me sentei com ele e comentei sobre lançamentos assim. E ele recebeu os elogios sem expressão, como se nada do que comentei tivesse acontecido com ele. Foi apenas um passe. Um passe que ele sempre faz -- e tem feito desde que segurou uma bola pela primeira vez.

EM QUALQUER geração, há poucos jogadores que tenham um braço realmente potente. Esses caras nascem assim. Se não têm o dom, ainda podem ser bons quarterbacks da NFL, mesmo não sendo bem pagos como os melhores. Se eles têm o dom, mas o desperdiçam, ficam esquecidos. Mas se tiverem o dom e não desperdiçá-lo, e combiná-lo com uma inteligência acima da média e com uma ética de trabalho manual -- bom, é isso que quero estudar com Mahomes.

Em uma tarde de outubro no escritório do Kansas City Chiefs, Mahomes não parece que quer ser analisado. Ele já parece ter sido estudado, talvez exausto por estar mudando sua vida completamente nesta temporada. Ele tem 23 anos, sem ainda ter completado 16 jogos na carreira, e já tem uma camisa usada em uma partida no Hall da Fama e lidera a liga (até a semana 9) em touchdowns e jardas aéreas, e é o quarterback com segundo melhor rating. Tem sido um ano e tanto. O mais impressionante é que ele normalizou o impossível, fazendo passes semanais que desafiam a lógica e a cinesiologia.

Um dia, no apartamento de Mahomes no bairro Country Club Plaza em Kansas City, seu avô lhe perguntou: "Como é ser famoso?". Por um lado, significa que ele consome menos ketchup. Passou a maior parte da vida colocando ketchup em tudo. Ganhava garrafas de ketchup de aniversário. Mas agora que todas as pessoas observam seus passos, ele fica envergonhado em comer ketchup. Recentemente em um restaurante, sua mãe, Randi, percebeu sua vontade enquanto ele comia um bife. "É só pedir", disse Randi. "Sei que você quer". Patrick não pediria. Ela pediu um e deu a ele.

Mas a ligação entre a fama e o ketchup é uma história para depois. Estamos aqui para falar sobre o seu braço, então fiz uma pergunta a ele que não faria a um jogador de técnica obsessiva, como Tom Brady, por exemplo.

"Você já precisou pensar para lançar a bola?"

Mahomes costuma falar depressa e sempre parece seguir um discurso ensaiado, elogiando seus técnicos e companheiros de equipe, mas ele parou, como se tivesse sido a primeira vez que precisasse pensar sobre seus dons, e respondeu:

"Não muito".

ESTOU JUNTO DE John Elway enquanto observamos Mahomes durante o aquecimento no Arrowhead Stadium antes dos Chiefs jogarem contra os Broncos, no final de outubro. Mahomes se movimenta para a esquerda e faz um lançamento profundo para a esquerda, depois vai para a direita e lança para a esquerda. Ele lança 60 jardas sem ficar tenso ou parecer cansado. Parece que ele está brincando -- até mesmo mexe no celular entre os exercícios -- mas é um treino sério. Ele faz passes assim durante os jogos. Alguns técnicos dos Broncos observam Mahomes, atraídos pelo espetáculo. Ele controla habilidades que invejam todos que já jogaram como quarterback e, mesmo que você nunca tenha lançado uma bola com muita eficiência para ter uma noção do quão difícil é o que ele faz, é ainda mais fascinante, incrível e repleto de sutilezas, como o ângulo que seu nariz levanta e abaixa, como a bola parece ganhar velocidade e distância de uma maneira violenta, mas ainda possível de ser agarrada. Passes assim mudam mais do que o momento de um jogo. Eles param o tempo, forçando você a tirar os olhos do celular e fazendo você imaginar como deve ser liberar tamanha força. Elway sabe como é.

Perguntei a ele: "Quando você tinha o braço mais forte, como era lançar a bola?".

"Não sei", ele responde. Ele pensa por um momento e me dá a versão do futebol americano de uma cena de "Gênio Indomável". "Você sente que pode fazer qualquer coisa".

Para serem bem-sucedidos na NFL, a maioria dos jogadores precisam aceitar suas limitações. É preciso aprender a trabalhar junto e contra elas. Mas se alguém nasce com um braço como o de Mahomes ou Elway, ele permite a benção de nunca precisar se reavaliar -- a menos, é claro, que algumas derrotas na pós-temporada os forcem a reconsiderar tudo.

MAHOMES PODE NÃO pensar muito sobre os próprios lançamentos, mas pessoas próximas a ele passaram muito tempo pensando em maneiras de fazê-lo pegar mais leve. Seu pai, Pat, foi arremessador de beisebol durante 11 anos e a família morou em apartamentos e quartos de hotel nas cidades onde ele jogou. Quando pequeno, Patrick ia ao estádio com o pai praticar rebatidas, voltava para casa, assistia o jogo na televisão e fazia lançamentos durante os comerciais. Era divertido e cansativo. Randi escondia a bola em algum lugar, esperando conseguir alguns momentos de paz. "Eu pensava: 'Consigo ler mais um parágrafo do livro até ele encontrar a bola'", ela diz.

Quando Randi e Pat matricularam Patrick em uma escola de beisebol para crianças em sua cidade natal, Tyler, Texas, a criança de 4 anos era tão avançado que foi trocado por dois jogadores – esporte no Texas é coisa séria – e começou a treinar com crianças mais velhas. Na primeira sessão de treinos, ele pegou uma bola no chão entre as bases e a disparou, acertando um garoto entre os olhos, quebrando seus óculos. "Pensei que qualquer um conseguiria pegá-la", diz Mahomes, rindo.

O desafio de Mahomes na infância foi o desafio daqueles que têm um dom. Qual a melhor maneira de ensiná-lo? Vale a pena tentar? Pat tentou desenvolver a força do braço do filho por meio de uma série de treinamentos de beisebol, começando com arremessos longos e passando por arremessos de diferentes formas, com os pés em paralelo ou com um pé posicionado da maneira errada, esperando ajudar Patrick a encontrar o melhor momento de lançar a bola. Acontece que todos os momentos eram poderosos. Ele não apenas arremessava em diversos ângulos – sabia lançar da maneira clássica, a três quartos ou partindo da altura do quadril – ele também enxergava diversos ângulos e a melhor maneira de fazer uma bola chegar ao seu alvo. "Se provou ser uma tempestade perfeita", diz Pat. Quando Patrick estava prestes a começar o ensino médio, ele passou a jogar futebol americano no quintal com os amigos. Um dia ele lançou uma bola com toda sua força ao seu pai. Foi um lançamento que Pat ainda lembra uma década depois, não apenas por causa da força, mas por também ter sido uma declaração. Seu filho traçaria o próprio caminho.

"Pareceu que o cheiro do futebol americano passava direto por minhas mãos", diz Pat.

MAHOMES TEM O tipo de braço que pode criar suposições. Quando era criança, entrou em um acampamento de futebol americano de verão usando um boné de beisebol virado para trás. Adam Cook, o quarterback do acampamento e futuro técnico de Patrick na Whitehouse High, um dos seus melhores amigos, decidiu testá-lo. Ele tinha ouvido falar da força no braço e como conseguia lançar a bola em pouco tempo – os técnicos tendem a ver os lançamentos a três quartos como o principal dos lançamentos, sendo arriscados e muito legais – e pensava que muitas crianças com tais qualificações eram sabichões mimados. Cook chegou a ele e disse: "Tire o seu boné para eu falar com você".

Patrick o tirou sem questionamentos. Embora seu talento sempre tenha significado que o jogo é fácil para ele, é um conformista com os pés no chão e disposto a trabalhar. "Pai, eu só quero ser treinado", ele costumava dizer a Pat.

No ensino médio, ele trabalhou com um técnico chamado Reno Moore, que pedia para Patrick se deitar no chão perto de uma bola e, quando Moore desse o sinal, ele precisaria se levantar a arremessá-la em um dos três furos em uma rede suspensa, para agilizar seu tempo de lançar. "A força natural do braço dele era fenomenal", diz Moore. "Ele me fazia arrancar os cabelos quando tentava fazê-lo melhorar o trabalho com os pés e a sincronização, mas concluímos que ele era bom o suficiente para fazer coisas especiais".

"A força natural do braço dele era fenomenal. Deus não criou muitos braços assim." ADAM COOK, Técnico de Mahomes no Ensino Médio

Na Whitehouse High, Adam Cook e seu irmão, o coordenador ofensivo Brad, faziam muitas chamadas de screen passes e ficavam encantados com o quão rápido a bola saía da mão de Mahomes. Anos mais tarde, Brad analisou os screen passes de Mahomes e descobriu que ele lançava a bola em 0.58 segundo, comparando com a média de 0.67 para todos os quarterbacks da Whitehouse até então. Sam, filho de Adam Cook, foi gandula durante os anos de Mahomes e vê Patrick como seu ídolo -- não apenas por ele ter feito Sam se sentir parte do time ou por sempre lembrar as datas de aniversários dos seus companheiros e fazer os técnicos as anunciarem durante os treinos, mas por imaginar como seria ter um braço como o dele. "Eu via ele fazer as jogadas e pensava: 'Talvez eu consiga fazer algo parecido'", diz Sam.

Mas é claro que ele não conseguia. Ninguém conseguia. "Deus não criou muitos braços assim", diz Adam Cook.

O braço deu uma benção ou maldição de nunca ficar desesperado. Todos os quarterbacks de hoje que entrarão no Hall da Fama no futuro passaram por momentos onde o futebol americano poderia ter continuado sem eles. O mais perto que Mahomes chegou disso foi durante uma competição Elite 11 no colegial. Ele estava cansado, tinha arremessado em cinco entradas em uma partida de beisebol no dia anterior. Não se classificou. Cook ficou furioso. Pat Pai ficou furioso. Patrick ficou furioso? Foi uma cicatriz marcante, um momento -- como a demora em Tom Brady ser escolhido no draft, a lesão no ombro de Drew Brees ou a incapacidade de Aaron Rodger não ter conseguido uma grande oferta ao sair do colegial -- que se tornou um aprendizado? Não. "O leste do Texas não é conhecido por produzir quarterbacks", ele deu de ombros. "Nunca estive no circuito do futebol americano. Eu não era um cara que divulgava meu nome".

Seu braço lhe deu confiança para saber que tudo daria certo. Durante sua temporada como veterano no colégio, em 2013, ele lançou para 50 touchdowns e correu para outros 15. O beisebol o perseguiu, mas ele ficava entediado no esporte e disse aos times interessados que só jogaria por um bônus de US$2,5 milhões, um valor que inventou apenas para fazê-los perder o interesse, conforme disse ao The Kansas City Star. O futebol americano lhe deu uma plataforma, uma tela em branco a cada jogada. Ele adora "a tarefa diária de dissecar e aprender sobre as defesas. De ter um novo desafio a cada semana". Em um jogo dos playoffs contra Poteet High, Mahomes girou para longe do linebacker Malik Jefferson, atual jogador do Cincinnati Bengals, e lançou um passe profundo na direita, resultando em um touchdown. Pat Pai posteriormente considerou este o momento mais memorável da carreira do filho -- e ressaltou que é o tipo de jogada que Patrick tem feito "sua vida toda". Veja Mahomes fugir da pressão e lançar para Kareem Hunt anotar um touchdown de 67 jardas contra os Patriots e vai entender o que ele quis dizer.

KLIFF KINGSBURY ESTÁ sentado na ponta de uma mesa de reuniões em uma quinta-feira de outubro. Estamos no prédio de futebol americano da Texas Tech. Uma camisa usada de Mahomes está pendurada na parede do escritório, junto de um quadro dele. Poucas pessoas conhecem quarterbacks tão bem como o técnico dos Red Raiders. Ele era uma estrela na Texas Tech, estudou Brady e Brees na NFL, e treinou Case Keenum e Johnny Manziel na universidade. Técnicos da NFL vivem roubando jogadas do seu plano de jogo. Andy Reid recentemente disse à Sports Illustrated que ele é um "gênio". "Ele só está sendo gentil", diz Kingsbury. "Ele se sente grato por eu ter garantido a sobrevivência do Patrick durante a universidade".

Ele mostra um vídeo de Mahomes na universidade, parecendo muito vivo e oferecendo uma exibição do espetacular. Mahomes gira para a direita e lança 30 jardas como se estivesse arremessando uma pedra. "A maioria dos humanos não consegue fazer isso", diz Kingsbury. Mahomes faz passes em profundidade como se ele estivesse arremessando um Frisbee. "O resto de nós se esforça demais para fazer lançamentos como ele," continua Kingsbury. "Nunca o vi se desgastar, nunca. Não importa o quão longo o passe tenha sido".

Pergunto a Kingsbury sobre uma evolução no tempo de passe de Mahomes, argumentando que deve ter mudado. Quer dizer, Brady e Rodgers reinventaram seus movimentos ao longo dos anos, isso se não se reinventaram por inteiro. Kingsbury treinou Mahomes para fazer passes mais altos, mas só isso. "Havia uma pureza nisso", diz Kingsbury. Durante três anos em Lubbock, Mahomes nunca teve um dia ruim lançando bolas. Nunca estava mal.

Então talvez não seja surpreendente saber que Mahomes se entediou com Mahomes. Talvez isso aconteça quando você estabelece o recorde da NCAA com 819 jardas totais em um único jogo, ou quando você lança passes de 85 jardas sem grandes esforços durante os aquecimentos. Kingsbury precisou ser criativo para treiná-lo. Ele preparava redes com três alvos algumas vezes por semana e participava junto de Mahomes e do reserva da Texas Tech, Nic Shimonek, da versão quarterback de H-O-R-S-E – uma brincadeira em que um jogador deve imitar o que o colega fez antes, lançando da mesma forma e do mesmo lugar. O exercício chegava a ficar insano, com os quarterbacks jogando bolas acima das traves na end zone. Kingsbury ganhava muitas vezes -- ele tinha o melhor toque -- mas um dia eles decidiram incluir lançamentos com a mão esquerda. Não demorou a fazer parte da rotina. Kingsbury e Shimonek foram os únicos nos Estados Unidos que não ficaram boquiabertos quando Mahomes, correndo para esquerda contra os Broncos na Semana 4, com Von Miller na sua cola, passou a bola para sua mão esquerda e lançou para Tyreek Hill conquistar a primeira descida. "Foi algo treinado", diz Kingsbury.

Ele está tentando me dizer que houve uma evolução. Só estou procurando no lugar errado. A maioria dos quarterbacks vão à universidade aprender a jogar na NFL. Mahomes aprendeu a lançar com a mão esquerda.

NO COMEÇO de cada ano, Mike Sheppard, um antigo técnico universitário e auxiliar de Bill Belichick e Mike Holmgren, dirige uma curta distância de sua casa nas colinas de San Clemente para a instalação Exos em Carlsbad para se juntar a outro técnico e amigo, Bill Cunerty, para preparar quarterbacks para o draft. Mahomes foi um cliente durante seis semanas em 2017. Sheppard conhece Andy Reid desde o final da década de 70, quando o viu na Glendale Community College e o levou a BYU, onde Reid conheceu sua esposa, Tammy, e iniciou sua carreira como técnico.

Um dia, entre o combine e draft de 2017, Reid ligou para Sheppard para conversar sobre Mahomes. "Só estou fazendo uma devida diligência", ele disse. "Não vou demorar".

Sheppard tinha uma pasta repleta de anotações sobre Mahomes. Ele tinha 11 tópicos listados, tais como "Melhorias", partindo de "contagem do snap" a "desenhar proteções TTU" e "duas mãos na bola". Mas um tópico que faltava foi revelador: não havia quase nenhuma anotação sobre o tempo de passe de Mahomes. Os treinadores de quarterbacks adoram levar os créditos por cuidarem da movimentação dos calouros de maior potencial durante a época do draft, mas Sheppard disse a Reid: "Há muitos braços fortes, mas nenhum tão preciso quanto ele".

Reid tentou esconder a empolgação. Como seria treinar Patrick? Ele escutaria? O material seria transferido com facilidade? Sheppard tinha sua própria teoria para calcular a inteligência de um quarterback. Se um quarterback tem boas notas, Sheppard sabe que ele é um trabalhador. Patrick foi selecionado ao programa Academic All-American, foi o atleta-aluno do ano e era nome frequente nas listas do reitor. "Ele é um bom aluno e trabalha duro", disse ele.

Ligações como essa costumam durar 15 minutos. Essa durou 45. "Levei um tempo para repassar a lista", costuma dizer atualmente.

"Andy estava empolgado com ele", diz Sheppard, "mas ele não queria que ninguém soubesse".

Mahomes suspeitava. Antes do draft, Reid entrevistou Mahomes em Kansas City. Foi uma reunião com seis horas de duração. No jargão do futebol americano, Reid disse: "Nós tentamos enterrá-lo". Ele sabe melhor do que a maioria que é possível seguir uma excelente carreira como técnico junto de bons quarterbacks, mas que é quase impossível vencer o Super Bowl sem um acima da média. No fim, os dois combinaram. Apesar do pensamento em grupo no dia do draft – Mahomes era inexperiente, suas incríveis estatísticas no ataque de Texas Tech não eram confiáveis, Mitch Trubisky era visto com maior potencial – os Chiefs fizeram uma troca e subiram 17 posições para selecioná-lo na décima escolha geral.

Assim que Mahomes se tornou jogador dos Chiefs, Reid aprendeu que a força não vinha apenas do braço. Também vinha do pulso. "Ele o movimenta rápido", diz Reid. Quando Patrick estava aprendendo a lançar bolas, Pat Pai sempre dizia "para ele envolver os pulsos". Pat queria que os passes rápidos do seu filho passassem a impressão de se elevarem -- "O pulso dele ficou cada vez mais forte" – mas não tinha ideia que a combinação aconteceria no terceiro período contra os Jaguars, na semana 5. Mahomes fugiu no pocket, mas suas travas prenderam no gramado. Ele fez o passe com a largura dos ombros separada, sem a ajuda do vento, como se estivesse arremessando um dardo. A bola chegou ao tight end Travis Kelce após viajar 25 jardas – um lançamento que nos força a perguntar, com um sincero hiperbolismo: se ele não parar a si mesmo, poderia ele ser imparável?

MAHOMES ESTÁ DIANTE do seu armário após o final do jogo contra os Broncos no final de outubro, vestindo um agasalho branco. Ele tem apenas um armário agora ao invés dos dois costumeiros às estrelas – todos precisamos lutar por alguma coisa – mas ele parece confortável e se sente em casa ao redor dos jogadores após uma vitória, do mesmo modo que ficava ao visitar seu pai após as vitórias. Ele passou para quatro touchdowns, mas fez várias jogadas em campo, incluindo uma em que foi para a direita e tinha Hill livre e correndo na diagonal, um passe que os Chiefs jamais teriam feito com Alex Smith. Mas Mahomes encontrou Hill tarde demais. Está perto de acontecer a festa particular que os Chiefs fazem para amigos e parentes após todos os jogos em casa, e Patrick está ansioso para vê-los. Isso me lembra um pouco de Tom Brady em 2001, na fase embrionária mística de algo especial. Pat e Randi têm a mesma exaustão de adrenalina que Tom Pai e Galynn Brady tinham na época, quando cruzavam o país todos os finais de semana, um passeio que faziam, pois ninguém sabia quando iria terminar. "Talvez eu tenha deixado de ir a Cleveland", disse Pat pai na noite anterior ao jogo contra os Broncos, antes de pensar melhor. "Não, eu nunca vou a Cleveland".

Ninguém sabe quando a temporada do Kansas City Chiefs vai terminar, mas é de conhecimento público que, nos últimos 20 anos, a temporada terminou precocemente para os Chiefs e para Andy Reid. Mahomes é um quarterback ilimitado, liderando uma equipe historicamente limitada. Os Chiefs têm sido cuidadosos com ele publicamente, permitindo que ele comemore, mas tentando controlá-lo, não querendo que a empolgação destrua aquele que pode ser o ano do time. Pelo menos neste momento, Mahomes está imune às dúvidas que atormentam os times que surgem subitamente – que atordoaram até mesmo John Elway após os anos em que aprendeu que O medo é seu maior inimigo. Dentro das instalações do time, pergunto a Mahomes se ele recorre a alguns de seus melhores momentos quando sente que precisa se inspirar.

"Nunca assisti nada que aumente minha confiança", diz ele. "Só continuo na minha e deixo as coisas acontecerem. Sinto que, mesmo se algo der errado, tenho confiança em mim e na minha equipe para consertar. Deixamos as coisas acontecerem no nosso time. Independentemente do que acontecer, daremos a volta por cima".

Imagine viver dessa forma, permanentemente livre. Talvez em algum momento no futuro Mahomes precise tentar recapturar esse sentimento, quando enfrentar eventuais adversidades na NFL. Ou talvez não. Talvez um braço raro acompanhe uma inteligência ainda mais rara.

No quarto período contra os Broncos, os Chiefs venciam por 10 pontos, mas Denver estava retornando ao jogo aos poucos. Mahomes começou a correr, mas lançou alto e com firmeza nos braços do safety dos Broncos, Justin Simmons. Mahomes foi até o banco irritado, mas não abalado. Quatro jogadas depois, os Chiefs forçaram um fumble em Keenum e Mahomes saiu do banco, abraçou alguns defensores e gritou: "Obrigado por me levantarem!" Em seguida ele pegou a bola e começou a aquecer, com o tempo de passe fluido e preciso, tudo o que é exigido dele e tudo o que sempre exigiu de si.

MAHOMES NUNCA ME contou como é fazer lançamentos extraordinários, apenas deixando claro que não parecem extraordinários para ele. Essa a diferença entre ele e 99% dos homens e garotos que ficarão dentro do pocket neste outono.

Mas 99% podem experimentar isso. Em meados de outubro, Sam Cook fez um lançamento que se lembrará pelo resto da vida. O gandula é agora um quarterback calouro na Whitehouse High, jogando no mesmo campo em que seu herói jogou e, durante um jogo contra Jacksonville, ele correu para a direita e viu um recebedor. É o tipo de lançamento – atrasado e no meio – que os quarterbacks são proibidos de tentar. Mas Sam não resistiu à oportunidade, não apenas para fazer um passe, mas para imitar Mahomes, com todo o seu perigo e glória. Ele lançou como Patrick, um rápido lançamento a três quartos, e acertou seu alvo para ganhar muitas jardas enquanto a torcida vibrava. Sentiu-se atingido por um raio. "Nunca senti nada como aquilo", ele me disse, ainda empolgado.

Mahomes conhece esse sentimento ou ele é inabalável? Ele precisou ir embora antes que eu pudesse perguntar. Mas aposto que ele sabe. E que o jogo dele no momento é nunca parar de pensar sobre isso.