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Aaron Rodgers ganharia mais que Tom Brady com Bill Belichick? O 'e se' definitivo

Aaron Rodgers teve sorte quando caiu para a 24ª posição em seu draft, mas não tanta sorte quanto Tom Brady teve quando caiu para 199º no dele. Em 2005, Rodgers foi selecionado por uma franquia icônica com histórico de mandar para campo jogadores especiais na posição.

Cinco anos antes, Brady foi recrutado por um treinador cujo sistema ajudou o quarterback a chegar no Super Bowl em metade de suas 16 temporadas saudáveis.

“Eu realmente sou um produto do que me cerca, por quem fui treinado, quem enfrentei, o período em que joguei”, disse Brady em entrevista à ESPN no último ano. “Eu realmente acho que se muita gente estivesse na minha situação eles poderiam ter conquistado o mesmo tipo de coisas”.

E se Rodgers estivesse neste lugar por toda sua carreira, jogando para Bill Belichick no sistema do New England Patriots que raramente produz jogadores que cometem erros como o de Ty Montgomery no último domingo, quando ele custou a Rodgers e ao Green Bay Packers a chance de vencer o invicto Rams – e resultou em sua troca para o Baltimore Ravens – transformando um touchback óbvio em uma tentativa de retorno que resultou em fumble?

Rodgers, um jogador de 34 anos que foi campeão uma vez, tem um físico melhor do que Brady, cinco vezes campeão com 41 anos, e ninguém no fã clube de Brady ousaria debater isso. Em uma conversa com treinadores da NFL nas últimas temporadas, Brady disse que se Rodgers tivesse o sistema ofensivo dos Patriots e exaustivo conhecimento da defesa dos adversários, “ele teria lançado 7.000 jardas todos os anos. Ele é muito mais talentoso que eu”.

Assim, não é surpresa que o duelo da noite deste domingo em Foxborough – impulsionado pela propaganda com o maior entre os maiores, Michael Jordan – tem sido vendido como um raro encontro entre o Mais Talentoso Quarterback de Todos os Tempos e o Maior Quarterback de Todos os Tempos. Sim, existe uma diferença.

Conquistas > Talento. E Tom Brady conquistou mais do que qualquer outro jogador na história.

Mas com Belichick, Brady aproveitou a vantagem de jogar para aquele que discutivelmente é o maior treinador de todos os tempos. Por outro lado, Rodgers tem ao lado Mike McCarthy, um bom treinador e campeão do Super Bowl que merece seu justo crédito por desenvolver Rodgers da mesma forma que Vince Lombardi e Mike Holmgren merecem créditos por desenvolverem Bart Starr e Brett Favre, respectivamente. Se McCarthy é um respeitado ator de drama, como Brian Dennehy ou Paul Giamatti, Belichick é um Marlon Brando ou Robert De Niro.

Rodgers teria conquistado muitos anéis de Super Bowls se tivesse atuado ao lado de Belichick?

Para começar, entenda que Belichick nunca teve um jogador com o talento de Rodgers. Dos quatro quarterbacks titulares que teve em Cleveland e New England – Bernie Kosar, Vinny Testaverde, Drew Bledsoe e Brady – apenas Testaverde pode se encaixar como atlético, e correu para mais de 200 jardas em uma temporada apenas uma vez. Rodgers tem oito temporadas com mais de 200 jardas corridas, incluindo quatro com mais de 300, enquanto Brady nunca correu mais que 110 e não chegou a 50 em sete temporadas.

Acontece também que Rodgers é o único jogador da história da NFL com um rating acima de 100 (ele tem 103.6 enquanto Brady tem 97,6 na carreira). Apesar de Belichick declara que “não há quarterback que eu prefira ter além de Tom Brady”, ele poderia esquematizar coisas com os pés de Rodgers que não poderia planejar com seu número 12. Brady, por exemplo, não tem em seu repertório a escapada para a esquerda e o impossível passe contrário ao movimento do corpo que levou os Packers a passarem pelo Dallas nos playoffs duas temporadas atrás.

“O sistema seria diferente com Rodgers”, disse um dos antigos assistentes de Belichick que já enfrentou Rodgers e Brady. “Aqueles passes baixos laterais para os recebedores pequenos, aquilo funciona melhor com Brady. Rodgers é tão bom atleta com um ótimo braço, acho que Bill usaria jogadas mais verticais no campo e moveria mais o pocket do que faz com Brady”.

Além de chamar mais escapadas e trabalho de pernas, Belichick, um detalhista, sem dúvidas maximizaria Rodgers nas “free plays” – sua habilidade de punir o defensor que “avança o sinal” e também o 12º jogador que está atrasado para deixar o campo, dizendo apenas um código que significa um inicio imediato das jogadas.

“Mas a capacidade atlética é diferente”, disse o ex-assistente de Belichick. “Isso não quer dizer que resultaria em mais campeonatos porque quão mais você poderia vencer do que Tom venceu? Rodgers e John Elway são dois dos quartebacks mais bem dotados fisicamente, mas a única coisa que Rodgers tem que Brady não tem é a habilidade de se mover”.

“Brady tem um instinto natural para manipular a proteção, sabendo quando deslizar para o lado dentro do pocket, e mentalmente Tom e Joe Montana são bons como ninguém na habilidade de olhar a defesa antes do snap e saber exatamente onde ir com a bola”, completou.

Brady venceu mais jogos de temporada regular (202) e de pós-temporada (27) do que qualquer outro quarterback, vivo ou morto, e sua competitividade impar é o principal motivo para essas marcas. Quanto Brady elevou o sistema de Belichick e quanto o sistema de Belichick elevou Brady é uma discussão de boteco que jamais será encerrada. “Mas o sistema dos Patriots foi 11-5 com Matt Cassel quando Brady ficou fora em 2008”, um executivo da liga disse sobre o quarterback com histórico 36-45. “E acho que Green Bay está 3-13 sem Aaron Rodgers”.

Enquanto isso, um segundo executivo da liga questionou quanto Rodgers coexistiria com Belichick e seu imperdoável estilo de treinar. Até o relacionamento finalmente e temporariamente desandar na última temporada, a 18ª deles juntos, Brady e Belichick mantiveram uma relação profissional quase perfeita. Belichick tratou seu melhor jogador como se ele precisasse ganhar uma bolsa de estudos todos os dias nos treinamentos e na sala de vídeos, e Brady – acostumado pelos cinco anos sob o comando de Lloyd Carr em Michigan – respondeu como se ele não tivesse alternativa.

Rodgers é conhecido por ser do tipo sensível com um ego mais saudável do que sua perna esquerda. Teria ele equiparado a boa-vontade de Brady para lidar com o tipo do treinador enquanto aceita contratos abaixo do valor do mercado para beneficiar o bem maior?

""Se você usar campeonatos para determinar o melhor quarterback, você tem que ir com Brady. Mas se você for ver quem é o mais completo quarterback, você tem que ir de Aaron Rodgers"" Michael Bishop, ex-quarterback dos Patriots

Rodgers passou pouco tempo perto do técnico dos Patriots. Ao contrário de Peyton Manning, ele nunca jogou para Belichick no Pro Bowl. Rodgers apenas fechou a partida para Favre na derrota para New England em 2006, e perdeu o encontro de 2010 por concussão. No único encontro, Rodgers venceu Belichick/Brady por 26 a 21 no Lambeau Field, em 2014. Brady conquistou seu quarto anel de Super Bowl mais de dois meses depois – duas semanas depois da candidatura de Rodgers para o segundo título ser negada pelo Seattle Seahawks.

Naquele ano, quando perguntado sobre as similaridades entre seu jogador e Rodgers, Belichick foi incisivo: “Ambos usam o número 12”. A verdade é que os quarterbacks tem muito mais coisa em comum do que isso. Eles cresceram separados por 3 horas e meia de viagem na California e usam detalhes reais e imaginários para abastecerem a ânsia de serem grandes. Brady foi reserva em colégio que não vencia e a sétima opção em Michigan quando deixou o inferno para entrar em campo. Rodgers usou sua carta de rejeição de Purdue como uma lembrança constante daqueles que o consideraram não merecedor de uma vaga na Big Ten.

“Sr. Pernas de Frango”, apelidou um dos membros da comissão técnica de Butte College, da Junior College, falando do quarterback com pernas finas e uma ética de trabalho que o levou de Butte para a Universidade da Califórnia, Berkeley para o Lambeau Field, onde os fãs inicialmente não o queriam como parte da sucessão de Favre.

Mas e se o destino tivesse jogado Rodgers na porta do Gillette Stadium e o colocado no programa de Belichick pelo qual Tom Brady passou no draft de 2000?

“Seria ilimitado o que Aaron teria feito com Belichick e aquela organização”, disse o ex-técnico principal de Butte, Craig Rigsbee, que recrutou Rodgers e segue próximo ao quarterback.

“A genialidade de Belichick é o que o faz evoluir o tempo todo o ataque e a defesa, e esta é a razão pela qual ele se manter no topo por tanto tempo. Belichick e (o coordenador ofensivo) Josh McDaniels teriam feito algumas coisas malucas com Aaron, porque ele tem todas as coisas inatingíveis para Brady e mais talento no braço, e ele é um atleta muito melhor. Acho que Aaron teria chegado a quatro ou cinco títulos também”, completou.

O primeiro executivo da NFL que deu chance de Belichick ser treinador principal, Ernie Accorsi, não tem tanta certeza disso. O diretor geral aposentado que levou Belichick para Cleveland em 1991 – e que recrutou um QB de Hall da Fama, Elway, e um potencial, Eli Manning, em drafts separados por 21 anos – disse que existem muitas variáveis imprevisíveis para afirmar se Rodgers teria vencido mais com Belichick do que o único título que conquistou com McCarthy.

“Eu sempre acreditei que Montana tinha que ter Bill Walsh, que Dan Marino tinha que ter Don Shula e que Starr absolutamente tinha que ter Lombardi”, disse Accorsi.

“Acredito piamente que quarterbacks precisam de certos técnicos, mas também acredito firmemente que Bill teria criado um sistema de sucesso em New England não importa que estilo de quarterback ele tivesse”, continuou.

“Penso que Bill teria feito algo diferente com Rodgers, com sua mobilidade. Ele é muito criativo e também espero para não ter adaptado seu estilo. Mas teria vencido tanto com Rodgers como venceu com Brady? Eu não sei. Brady é o único cara que eu vi em toda minha vida que joga na posição e faz parecer fácil. Brady não é um corredor, mas ele tem muito ritmo nos pés. O fato de Rodgers conseguir escapar é um bônus, mas... eu não sei o que aconteceria. Quando você muda jogadores hipoteticamente em situações diferentes, os astros se realinham. Não há como analisar essas coisas”, completou.

É por isso que é divertido imaginar. Um ex-jogador com uma perspectiva única na fictícia parceria Belichick-Rodgers é Michael Bishop, que foi recrutado pelos Patriots e assinou com os Packers em sua curta carreira na NFL (ele jogou por anos na Arena e na liga canadense) e estava na frente de Brady como reserva de Bledsoe no elenco de 2000.

Bishop e Brady costumavam sair juntos, e uma noite eles prometeram que se um deles tomasse a titularidade de Bledsoe uma vez, eles jamais a devolveriam. Brady honrou esta promessa, mas não antes de Bishop, o mais móvel quarterback que Belichick já treinou, lançar uma Hail Mary contra Indianapolis, em 2000, e se tornar a escolha do público para substituir Bledsoe.

“Quando eu cheguei na liga, o jeito que eu jogava e o jeito que eu me mexia – eu não acho que Bill Belichick estava pronto para aquilo naquele momento”, disse Bishop.

“Toda a liga era basead em jogadores como Bledsoe, caras de 1,93 m, 1,98m, que podiam ficar lá atrás e lançar isso longe. Eu não tenho nada contra New England ou Bill, mas eles nunca tiveram nada como eu. O jogo mudou, e agora você tem quarterbacks como Aaron Rodgers que conseguem sair e lançar em movimento, e isso significa quatro quartos de stress que você coloca na defesa”, afirmou.

“Penso que hoje Bill definitivamente se adaptaria para um quarterback móvel e acharia formas de mover o pocket e sair. Ele conquistou cinco títulos com Brady, mas se você colocar Rodgers lá, o céu seria o limite para eles. Se você for com campeonatos para determinar o melhor quarterback, você tem que ir com Brady. Mas se você for com quem é o mais completo quarterback, você tem que ir com Aaron Rodgers”, afirmou.

Rodgers-Brady é uma sociedade de admiração mútua. Quando um jovem jogador, Rodgers estudou Brady em vídeos e admirava sua precisão, sua presença no pocket e a forma que ele cuidava da bola e controlava a defesa do fundo do campo com seus olhos.

Já Brady tem constantemente dito que ama assistir Rodgers e que o quarterback dos Packers faz coisas que ninguém mais consegue fazer. “Aaron é um dos melhores que já jogou”, disse o 12 de New England após a vitória sobre Buffalo, na noite de segunda-feira.

Em sua participação semanal na WEEI, de Boston, ele chamou Rodgers de “inspirador” e disse que o quarterback de Green Bay “faz com que tenha vontade de sair, treinar e melhorar, porque acho que ele é tão fenomenal por como se porta no pocket. Sua habilidade de lançar a bola é diferente de qualquer outro provavelmente na história da liga. É bom demais de ver. Ele lançou alguns dos melhores passes incompletos que eu já vi”.

E alguns dos melhores completados também. Então, sim, Belichick e Rodgers teria causado estrago no alinhamento imaginário do futebol. Sempre preocupado com as ameaças dos rivais com quarterbacks móveis, Belichick poderia finalmente tem um para chamar de seu.

“Ele é um grande jogador”, disse o treinador antes do encontro em 2014. “Ele faz um trabalho incrível, realmente, em qualquer coisa. Ele não tem pontos fracos. Faz qualquer passe... é um cara difícil de derrubar, um cara durão e um grande passador, muito preciso, e com grande visão. Ele é realmente bom”.

Ele também é muito sortudo por ter jogado toda sua carreira em um uniforme tão facilmente reconhecível de uma franquia lendária. Só não tão sortudo quando Tom Brady, que terminou com um técnico e um sistema que o ajudou a tornar-se no maior quarterback de todos os tempos, se não o mais talentoso.