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NBA: O fracasso do 'líder' Kyrie Irving explica a temporada dos Celtics

No começo, parecia que tudo ficaria bem.

Quando o Boston Celtics chegou ao media day, em setembro do ano passado, eles eram grandes favoritos para representar o Leste em uma eventual final de NBA. Mais do que isso, naquele momento, nenhum time parecia ter um futuro tão promissor quanto os Celtics.

Brad Stevens, técnico do time, viu algo diferente.

“Eu sabia que seria difícil desde o começo, mas outubro tornou isso público,” disse o técnico dos Celtics, recentemente, para a ESPN. “Eu sabia que tudo seria muito, muito difícil.”

E ficou mais difícil do que ele jamais poderia ter imaginado. Difícil demais para superar. Boston perdeu a quarta partida consecutiva e foi eliminado pelo Milwaukee Bucks na segunda rodada dos playoffs.

Isso não deveria acontecer com um time que chegou até a final do leste por dois anos consecutivos – e então, adicionou os saudáveis Kyrie Irving e Gordon Hayward na brincadeira.

Temos muitas razões que podem explicar o motivo de a temporada ter sido tão difícil. No topo de todas elas, no entanto, está Kyrie Irving – mais especificamente, sua liderança através das palavras e ações dentro e fora da quadra.

Os comentários de Kyrie viraram a marca da longa e estranha temporada dos Celtics. As palavras de Kyrie não definiram apenas a temporada decepcionante, elas explicam como uma temporada que deveria ser a do retorno do time ao topo, se tornou em uma verdadeira bagunça.


“Não tínhamos nada a perder no ano passado”

Era uma noite de sábado pouco importante no meio de janeiro em Orlando, na Flórida.

Os torcedores da cidade de Boston estavam focados na partida que aconteceria no dia seguinte, entre New England Patriots e Los Angeles Chargers, pela primeira rodada dos playoffs da NFL. No entanto, a cerca de 1.700 km ao sul, as tensões que existiam por trás da cortina nos Celtics deixariam se tornariam conhecidas.

Os Celtics perdiam por dois pontos e o relógio apontava 2,9 segundos restantes na partida. Brad Stevens desenhou uma jogada, e Kyrie Irving não gostou. Ele deixou claro antes mesmo de voltar para a quadra.

Gordon Hayward, que colocou a bola em jogo, encontrou Jayson Tatum, sem marcação. O jovem ala dos Celtics arremessou e a bola tocou no aro. A torcida em Orlando comemorou a vitória.

Irving, no entanto, estava apenas começando.

Claramente insatisfeito com a chamada, Kyrie descontou em Al Horford e Gordon Hayward. A discussão começou dentro da quadra e não terminou no vestiário. “Nós não tínhamos nada a perder no ano passado,” Kyrie disse. “Jogávamos sem responsabilidade, e cada um podia fazer o que quisesse com a bola, porque ninguém tinha expectativa de nada sobre nós. Os jovens superaram as expectativas, então estávamos no lucro. Nesta temporada, as expectativas são reais. Da comissão até os jogadores, é tudo real, e diário. É difícil.”

Esse momento contra o Magic serviu, apenas, para simbolizar as tensões vividas no vestiário do time – as mesmas que Brad Stevens se referiu no começo da temporada.

Foi reportado que Kyrie ‘cutucava’ os jovens jogadores do time – especialmente, Jayson Tatum, Jaylen Brown e Terry Rozier – através da mídia. Ele não citava nomes, como não o fez em Orlando, mas estava claro para todos o que estava acontecendo.


Por exemplo, quando Brown ficou de fora da partida em New Orleans, no dia 26 de novembro. Naquele momento, os Celtics estavam 10-10 na temporada. Hayward, que estava tendo dificuldades tremendas de readaptação após um ano perdido por conta de lesão, já havia sido sacado do time titular por Marcus Morris. Com Brown fora, Marcus Smart foi o escolhido.

Após uma vitória esmagadora, Kyrie não poupou elogios ao seu novo companheiro de time titular.

“Existe uma razão pela qual ele [Smart] é muito importante para o sucesso do nosso time,” Kyrie disse. “Ele é um vertarno agora – não em termos de temporadas, mas ele já teve algumas temporadas do mais alto nível pelos Celtics. Nós sabemos que ele vai estar nos lugares certos, fazendo as coisas certas.”

A mensagem foi alta e clara: se dependesse de Kyrie Irving, Marcus Smart não sairia mais do time titular dos Celtics.

Seu desejo foi atendido. E era, também, a coisa certa a se fazer – Boston venceu oito consecutivas com Smart no time titular, e ele foi, provavelmente, o melhor armador defensivo de toda a liga nesta temporada. Mas as críticas aos jovens não acabaram por aí.


“Eu queria ser o cara que nos lideraria para o título”

Dois dias após a derrota para o Orlando Magic, eles perderam de novo – desta vez, contra o Brooklyn Nets.

Os comentários de Kyrie em Orlando ainda incomodavam o time.

“No fim do dia, nós temos que estar lá para os nossos companheiros,” disse Jaylen Brown após a derrota. “Não podemos fazer comentários e apontar dedos. Temos que continuar a empoderar uns aos outros e estar lá quando o companheiro precisar. Se não fizermos isso, se começarmos a apontar dedos, todo mundo vai entrar na sua concha. Temos que jogar basquete.”

Foi um grande momento – e o sinal mais claro de que os jovens estavam incomodados com a liderança de Kyrie Irving. No entanto, suas temporadas não foram marcadas apenas pelas críticas de Irving. Eles tiveram, sim, suas dificuldades.

Rozier foi de “Scarry Terry” – estrela dos playoffs do ano passado – para reserva absoluto do time. Jaylen Brown, titular por várias semanas, estava claramente desconfortável, forçando jogadas erradas. Jayson Tatum, após treinar com Kobe Bryant na intertemporada, voltou animado demais. Sua marca em jogadas de isolação era a pior da NBA entre os jogadores com mais de 100 tentativas. Ele foi para o banco também.


Mas os jovens não foram os únicos afetados pela profundidade do elenco dos Celtics. Há um velho ditado no basquete que uma equipe pode ter muitos caras, mas que é preciso que haja uma hierarquia clara dentro da equipe, onde todos entendam seus papeis e os aceitem. Para que tudo dê certo, é preciso equilíbrio, colaboração e confiança. Os Celtics não tinham nada disso nesta temporada.

“Dava pra ver,” Brad Stevens disse para a ESPN. “Quando os jogos começam a rolar, fica difícil, porque você não consegue fazer aquilo que ama. E isso é algo difícil de digerir, porque todos querem vencer.”

Brown, Rozier e Tatum haviam sido grandes contribuintes durante a campanha até as finais de conferência em 2018. E agora, eles estavam ouvindo que deveriam abrir espaço para Kyrie Irving, que havia feito críticas a eles publicamente, e para Gordon Hayward, que claramente não voltou para sua fase antiga.

“Você nunca sabe o que vai acontecer,” Danny Ainge disse para a ESPN no começo da temporada. “Eu sabia que esses problemas existiam, mas saber qual seria o impacto deles [no time] é outra coisa. Eu não estou frustrado, nem impaciente, nem bravo ou algo do tipo. Eu só queria que tudo acontecesse de uma forma mais fácil. Eu queria que os caras aceitassem seus papeis.”

Após os comentários de Jaylen Brown, Kyrie Irving pediu desculpas depois de uma vitória contra o Toronto Raptors em 16 de janeiro.

Mas então, no brilho de uma das melhores vitórias da temporada de Boston, Irving fez uma admissão impressionante, que fez todos esquecerem completamente o que havia acontecido nos 48 minutos anteriores. No auge de sua explosão em Orlando, Irving ligou para LeBron James para pedir desculpas por como ele lidou com a liderança e críticas de James, enquanto eles eram companheiros de equipe.

"Obviamente, isso foi importante pra mim, porque eu tive que ligar para LeBron e dizer que pedi desculpas por ser aquele jovem jogador que queria tudo na ponta dos dedos, e eu queria tudo no meu limite", disse Irving. "Eu queria ser o cara que nos levaria ao título. Eu queria ser o líder. Eu queria ser tudo isso, e a responsabilidade de ser o melhor do mundo e liderar sua equipe é algo que não é para muitas pessoas.”

A vitória contra os Raptors deu início a melhor sequência dos Celtics na temporada, com 10 vitórias nos 11 jogos seguintes.

Os problemas, entretanto, estavam esperando do outro lado da rua – e os Celtics não poderiam fazer nada sobre isso.


“Eu não devo m* nenhuma para ninguém”

Aos trancos e barrancos, havia uma coisa que não parecia ser um problema para Boston: o compromisso de Irving com o Celtics.

Em um evento para torcedores que têm ingressos de temporada no TD Garden, no início de outubro, Irving prometeu assinar novamente com os Celtics para a próxima temporada.

"Eu compartilhei com alguns dos meus colegas de equipe, assim como com a organização, assim como com todos os outros em Boston. Se vocês me receberem de volta, planejo renovar meu contrato e estar aqui no ano que vem", disse Irving.

Apesar de suas declarações públicas, muitas vezes era difícil para qualquer um – icluindo os próprios Celtics – entender o que estava passando na cabeça de Irving. Isso fazia com que as pessoas tivessem medo, receio de qualquer assunto relacionado ao camisa 11.

Quando Anthony Davis solicitou uma troca ao New Orleans Pelicans, Irving não teve problemas em deixar o mundo saber como estava se sentindo.

O pedido de Davis não só pegou a liga inteira de surpresa, mas também deixou Boston em uma situação impossível. Por causa de uma regra no acordo de negociação coletiva da NBA, Boston não conseguiu negociar com Davis. Aquela peculiaridade não era um problema quando parecia que Davis não estaria no mercado até o fim da temporada, quando Boston poderia reunir vários jogadores e escolhas para seduzir os Pelicans.

Mas quando Anthony Davis fez o pedido, Boston estava preso. Enquanto a liga era tomada por rumores da troca de Davis, os Celtics só podiam sentar e esperar – torecendo para que Anthony Davis fosse jogador dos Pelicans até o fim da data de trocas.


Enquanto isso, a liga estava se movimentando – de maneira mais notável, o New York Knicks, que trocou Kristaps Porzingis para o Dallas Mavericks no dia 31 de janeiro, permitindo que o time tivesse espaço suficiente no cap salarial para assinar com dois free agentes de salário máximo. No momento em que a troca foi anunciada, os Knicks começaram a ser linkados com Kevin Durant e Kyrie Irving.

Esse rumor só foi crescendo quando, no dia seguinte, os Celtics foram até Nova York para enfrentar os Knicks. Apesar de não ter falado sobre o seu futuro, Irving viu seu nome aparecer em diversos rumores por toda a liga. E isso o incomodou.

Então, quando ele se sentou em uma sessão de arremessos no Madison Square Garden, na manhã de 1º de fevereiro, ele se libertou.

Quando perguntado diretamente sobre seu compromisso anterior de assinar novamente com o Celtics, e se ele ainda detinha, Irving tinha apenas que dizer: "Pergunte-me em 1º de julho".

E enquanto Irving deixou claro que ainda acreditava no que Boston poderia realizar, ele disse que seu compromisso em outubro foi um exemplo de se envolver com a empolgação do momento.

"Passei os últimos oito anos tentando fazer o que todo mundo queria que eu fizesse em termos de tomar minhas decisões e tentar validá-las através da mídia, através de outros funcionários, gerentes, qualquer pessoa neste negócio", disse Irving. "E eu não devo a ninguém ..."

Por fim, nada aconteceu, mas o barulho de AD e Kyrie permaneceu. Os rumores sobre a parceria de Irving e Durant foram ainda mais (e absurdamente) alimentados por um vídeo de os dois conversando um corredor em Charlotte, Carolina do Norte, durante o All-Star Weekend, e dos dois passando tempo juntos em Miami logo após.

Enquanto os Celtics aumentava sua munição para ir atrás de Anthony Davis, várias equipes foram se amontoando no topo da Conferência Leste. E se Boston não implodiu após os comentários de Irving, não começou a jogar muito também.

Ao longo dos 28 jogos finais da temporada, os Celtics venceram exatamente 14 e perderam 14 – assim como havia sido nos primeiros 20 jogos da temporada. E ainda assim, a questão permaneceu: a melhor versão dessa equipe poderia finalmente aparecer nos playoffs?


“Foi para isso que eu vim para cá”

Enquanto Kyrie Irving se sentava no pódio dentro do Fiserv Forum, em Milwaukee, após o jogo 2, parecia que aquela versão dos Celtics que todos antecipavam no começo de outubro tinha se tornado realidade. Brown e Hayward encontraram um ritmo, anotando bons números vindo do banco. Os Celtics haviam chegado aos playoffs saudáveis (menos Marcus Smart). Os problemas estavam desaparecendo. Vindo de uma varrida na primeira rodada dos playoffs, os Celtics dominaram os Bucks no jogo 1.

Entao, apesar de Milwaukee ter devolvido a grande vitória no jogo 2, os Celtics – e Kyrie Irving – estavam bastante confiantes.

“Não há nada novo aqui,” disse Irving após acertar apenas 4 dos 18 arremessos que tentou na partida, naquela que foi, provavelmente, a sua pior atuação na história dos playoffs da NBA. “Foi para isso que eu vim para cá. Foi para isso que Boston foi atrás de mim.”


Só agora, os Celtics encontrariam o seu maior desafio. Boston perdeu o jogo 3, em outra atuação fraca de Kyrie Irving. “Precisamos ser mais eficientes, especialmente nos próximos jogos da série,” disse Irving. “Daqui para frente, acho que vocês não verão outro 8-22.”

Irving estava certo. Em um jogo 4 crucial, ele fez 8-22 da quadra. Seus 43 arremessos errados na série inteira, naquele ponto, era a pior marca da sua carreira em playoffs. Após outra derrota, Irving estava provocador.

“Quem liga?” disse Irving quando perguntado sobre suas atuações. “Eu sou um jogador de basquete. As expectativas em mim sempre serão altas ... Eu estou tentando fazer tudo. Para mim, 22 arremessos? Eu teria arremessado 30. Eu sou tão bom assim.”

Irving não arremessou 30 vezes no jogo 5. No entanto, ele acertou 6 de 21 – incluindo um air ball absursdo no começo do primeiro tempo. Ele acertou apenas uma bola de três na partida. A performance de Kyrie fez com que seus números na série terminassem com 25 arremessos certos de 83 tentados.

Seus companheiros não fizeram nada melhor, também. Os Celtics tiveram 30% de aproveitamento na série. Apenas os próprios Bucks amassando o aro em alguns momentos deixou com que os Celtics tivessem esperança. Mas, quando os Bucks acertaram a mão, o inevitável se tornou realidade.

Com 8 minutos e 40 segundos restantes no quarto período, o Bucks tinha o jogo totalmente em mãos. Irving saiu da partida pela última vez, lentamente, se arrastando até o banco. Ele passou o resto do jogo assistindo do banco em uma camiseta de aquecimento enquanto os fãs de Milwaukee celebravam a primeira classificação da equipe às finais da conferência em quase duas décadas.

Quando os segundos finais se esgotaram, Irving foi o primeiro Celtic a chegar ao banco Bucks. Ele trocou saudações com vários jogadores, incluindo Giannis Antetokounmpo, e o técnico Mike Budenholzer antes de entrar no túnel – em uma intertemporada cheia de incertezas.


“Ah, cara, que lugar é melhor?”

Uma única coisa não inviabilizou essa temporada do Celtics. Do outro lado da lista, os jogadores não conseguiram cumprir seus papeis. Parte disso recai sobre Brad Stevens, cujo trabalho é administrar estrelas e expectativas. A recuperação de Hayward nunca foi assegurada de tomar um caminho linear. E a situação de Davis também atrapalhou.

Mas nada contribuiu para a temporada de Boston desandar mais do que Irving. Como ele disse, é para isso que ele veio para Boston. Sem ele, há um ano, os Celtics simplesmente não eram bons o suficiente para vencer a Conferência Leste. Contar com Irving deveria fazer Boston dar um passo para frente, não para trás.

Em vez disso, o peso da sua personalidade ajudou a afundar um time que muitos pensavam que seria postulante ao título.

Agora, a questão é: o que Kyrie Irving fará na free agency?

Se ele ficar em Boston, os Celtics continuam sendo candidatos a adquirir Anthony Davis, e isso os tornaria competitivos por anos e anos. Se ele sair, escolhas duras precisarão ser tomadas.

Horford, que continua sendo um dos homens mais valiosos e versáteis da liga, também pode se tornar um free agent neste verão. Boston precisa que ele fique. E se Irving for embora, os Celtics terão que decidir se faz sentido buscar Davis, ou se concentrar em cultivar e desenvolver os jovens talentos em seu elenco, adicionando as várias escolhas na primeira rodada que eles têm no draft deste ano.

No começo da temporada, era difícil prever que isso aconteceria. Não muito após dizer que ia ficar em Boston, em outubro, Kyrie participou de um comercial da Nike em um TD Garden vazio.

Nele, Kyrie e seu pai, Drederick, se enfrentam em um jogo de 1x1 com outra pessoa ali. Em um momento, Irving toma conhecimento dessa outra pessoa e pergunta: “Ah, cara, que lugar é melhor?”

Enquanto a câmera vai em direção do teto do TD Garden, Irving diz que ele quer ser a razão pela qual ninguém mais usará o número 11 em Boston. Meses depois, isso parece ser menos provável do que nunca.