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Da escola ao Draft da NBA, a história de Zion Williamson

ALGUMAS HORAS antes do começo do torneio da NCAA para Duke, em Columbia, na Carolina do Sul, Bill Pell está sentado em sua sala de estar, pensando no último ano em que deu aulas na Spartanburg Day, uma pequena escola particular que fica a cerca de 260 km do ginásio onde o time dos Blue Devils jogariam naquela noite.

Antes de se aposentar, o professor de 79 anos deu aulas de escrita criativa, um curso eletivo para crianças interessadas. Menos de 10 alunos se interessaram. Um deles era um garoto de 17 anos chamado Zion Williamson.

"Espero que ele não se importe que eu fale isso, mas ele é um baita poeta", diz Pell, sorrindo enquanto arruma seus óculos. "O garoto sabe escrever."

Pell mora em uma rua quieta de interior em Spartanburg, em uma casa construída nos século XIX. Antes de se mudar para cá décadas atrás, ele trabalhou como editor para a Associação de Língua Moderna em Nova York. Na Spartanburg Day, ele tentou criar um espaço onde seus estudantes pudessem expressar seus sentimentos através dos textos.

"Todos os adolescentes são muito emotivos", disse ele, rindo. "No começo eu perguntei se o Zion sabia o que estava tentando fazer. Ele disse que não sabia. Não estava 100% confortável", seguiu o agora professor aposentado, que também usava suas aulas para leitura de obras de Shakespeare, por exemplo.

No começo, Zion tentava escrever textos pequenos, mas não ficava satisfeito com os resultados. Depois, começou a escrever poemas. "Ele me passava os textos com muita cautela. Eu comecei dando sugestões. Foi quando ele começou a só escrever poemas... e com o passar do tempo, eles ficaram cada vez mais complicados e sofisticados. Eram notáveis."

"Eu falei, 'Zion... você vai será tão bom escrevendo quanto é jogando basquete se continuar assim'."

Enquanto os alunos compartilhavam o que escreviam para ouvir as críticas, Zion não gostava de ler seus textos em frente ao restante da sala. "Ele era tímido com isso", relembra Pell. "E não era o único."

O professor aposentado não quis falar mais nada sobre as características das poesias de Zion, mas guardou uma delas. Uma que se sente confortável para compartilhar, afinal, ela foi lida em público durante evento da escola. Ele abre uma pasta em seu colo e pega uma folha de papel.

"Eu tentava encontrar uma forma de me comunicar melhor com o tipo de pessoa que ele é", diz Pell. No final do ano escolar, alguns dos atletas que estavam se formando escreveram textos para os professores. Pell entregou a nota de Zion, que foi escrita para ele. O texto, claro e astuto, transmite o nível de seriedade que ecoa da descrição feita por Pell. No começo, Zion agradece seu professor por ajuda-lo a crescer fora do basquete.

"Agora que minha jornada no Ensino Médio termina, eu gostaria de que você fosse comigo", escreveu Zion. "Em vez disso, vou levar as lições que você me deu e aplica-las no meu próximo capítulo."

Pell guarda a carta de volta em sua pasta com cuidado, como se fosse feita de vidro. "Viu o que quis dizer sobre a sensibilidade?", ele pergunta.

AGORA QUE ELE está oficialmente em seu caminho para a NBA, Zion Williamson chegará no draft como a promessa mais esperada da história recente do basquete, mas nós não sabemos muito sobre ele. Pense nisso: em sua carreira universitária, Zion ganhou status de celebridade - seu nome se tornou presença constante entre as palavras mais buscadas no Twitter -, mas o que nós aprendemos?

Sabemos que ele gosta de anime, porque sua mãe revelou a curiosidade em entrevista durante um jogo. Sabemos que ele gosta de escutar músicas de Jay-Z, algo que seus colegas de time chamaram de "old school" - irritando aqueles que nasceram antes dos anos 90. Mas além disso, Zion ainda é um mistério.

Ele e sua família evitaram os holofotes enquanto ele esteve em Duke, negando a maioria dos pedidos de entrevistas - inclusive um para este texto -, mas há lições que podem ser tiradas quando olhamos para sua passagem por Spartanburg Day, uma escola que tem apenas 450 alunos - ele foi um de 45 que se formaram na mesma classe. Só o fato de que Zion, um dos nomes que mais geram expectativa no basquete, estudou em Spartanburg Day - que não é conhecida por ter sucesso nos esportes - já faz dele uma anomalia.

A família conheceu a escolha quando o avô de Zion, que jogou na universidade de Clemson, se aproximou do então treinador de Spartanburg Day, Lee Sartor, durante um torneio de basquete. Sartor, agora treinador na Erskine College, diz que Zion não chamava atenção por seu tamanho quando estava na sexta série.

"Do ponto de vista de QI de basquete, ele era melhor que a maioria das crianças. Mas fisicamente, era como os outros."

Mas quando Zion entrou no Ensino Médio, cresceu quase 13 centímetros tão rapidamente que sua mãe, Sharonda, teve de colocar gelo em seus joelhos para lidar com as dores que sentia do crescimento.

Em seu primeiro ano no Ensino Médio, Zion jogou de armador e mostrou as mesmas habilidades que surpreenderam as pessoas durante sua temporada em Duke. Ele também começou a enterrar. Sartor se lembra de enviar um vídeo para a ESPN com uma de suas primeiras cravadas durante jogos.

Não demorou para que os vídeos tomassem conta das redes sociais com o garoto da Carolina do Sul que martelava aros. Donnie Bui, um dos editores que cortava seus lances para o portal BallIsLife.com, se mudou para Charlotte só por conta de Zion. "Nos primeiros jogos que fui, umas 50 pessoas apareciam para assistir", ele diz. "Ele fazia todas aquelas coisas incríveis e eu pensava, 'O que está acontecendo? Por que as pessoas não aparecem para ver o garoto?'"

Na metade do terceiro ano de Zion no Ensino Médio, depois do dia em que ele marcou 53 pontos no Chick-fil-A Classic, o rapper Drake publicou uma foto usando a camisa de Spartanburg Day - e o número de seguidores do garoto no Instagram explodiu. Só que enquanto a expectativa sobre ele crescia, Zion continuava com seus pés no chão. Sartor diz que a influência da família e o ambiente escolar fizeram a diferença. "Era uma atmosfera em que Zion cresceu sendo ele mesmo, apenas um aluno de Ensino Médio."

Na quadra, Zion empolgava os fãs com enterradas de 360º e outras cravadas. Fora dela, Sartor lembra de um adolescente que só queria estar com seus amigos. "Ele jogava para milhares de pessoas, mas se tivesse de andar em frente a 30 pessoas... não gostava."

Quando Zion escolheu Duke, chocando as pessoas da cidade que esperavam que ele fosse para Clemson - na região -, ele entrou para um dos grupos mais estrelados de atletas universitários da história. Algumas pessoas chegaram a questionar se o ego não iria atrapalhar as superestrelas de Duke. Zion rapidamente ganhou a reputação de ser altruísta em quadra. Uma característica que, de acordo com Bui, é sua desde os tempos de Ensino Médio. Mesmo antes de jogar com grandes promessas do basquete, "ele sempre tentava envolver seus colegas de time no jogo", relembra.

O currículo incomum de Zion fez com que ele se formasse de formas não esperadas - e o transformou em um mistério entre os olheiros. Por ter jogado em uma escola tão pequena - e contra outras escolas nanicas -, os jogos com Zion eram como o livro "As Viagens de Gulliver", quando o 'gigante' chega em uma ilha de pessoas minúsculas - chamadas de liliputeanos.

Por isso, críticos questionavam se o queridinho do SportsCenter, ainda um arremessador ruim, poderia ser dominante contra adversários mais complicados. Ao sair do Ensino Médio, ele não era conhecido de forma unânime como uma futura estrela da NBA - principalmente pelo fato de que poucos achavam que Zion era mais do que um ala que sabia enterrar. Isso produziu um paradoxo: a promessa mais esperada dos últimos anos era, também, pouco valorizada.