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Como Fiba quer transformar Mundial de basquete em Copa do Mundo e parar até NBA

A Fiba, entidade organizadora internacional do basquete, está fazendo uma aposta ambiciosa pensada há 10 anos. E o objetivo é, um dia, rivalizar com o maior evento de futebol do mundo.

Começa pelo nome. O que foi conhecido durante décadas como Campeonato Mundial da Fiba – um evento que acontece a cada quatro anos entre Olimpíadas – vai passar a se chamar Copa do Mundo da Fiba. Para começar, o primeiro evento será em setembro, na China, país que tem o maior números de fãs de basquete no mundo.

No início da manhã de sábado, a FIBA realizou o sorteio do torneio em uma cerimônia em Shenzhen, que contou com as duas figuras mais populares entre os fãs chineses: Kobe Bryant e Yao Ming.

Se você se esqueceu da existência de Campeonatos Mundiais / Copa do Mundo, pode ser ela não acontece há cinco anos. Foi transferida de sua “rotação” normal de quatro em quatro anos para o verão deste ano. Isso foi principalmente para que não fosse realizado no mesmo ano da Copa do Mundo da Fifa.

Com toda honestidade, a Fiba tem um longo caminho a percorrer para tentar conciliar esse evento com a Copa. Para ilustrar como os negócios foram conduzidos neste evento, basta olhar para o Campeonato Mundial de 2014 na Espanha.

Naquele ano, a Finlândia recebeu um "wild card" do torneio em vez de candidatos mais dignos, como Canadá e Rússia, porque, em essência, a empresa finlandesa que criou o Angry Birds comprou o a vaga com uma oferta lucrativa. Isso não foi revelado em um evento, o Angry Birds anunciou orgulhosamente. Não era incomum no passado para a Fiba dar “wild cards” a países que prometeram vender a maioria dos ingressos ou, até mesmo, que prometeram vender direitos de transmissão.

Esse negócio, supostamente, está no passado. A Fiba tem um novo sistema de qualificação controverso que, como seu “irmão mais velho”, o futebol, acontece ao longo de dois anos. Para ser mais parecido ainda com a Copa, a Fiba até expandiu o número de seleções de 24 para 32.

Em um período de 18 meses, 80 países disputaram 12 jogos em suas regiões para se qualificarem. Esta foi uma mudança em relação ao sistema anterior, onde as equipes jogavam nos torneios continentais durante o verão e os melhores avançavam. A maioria desses jogos classificatórios foi disputada durante os meses de inverno e na temporada dos clubes, o que muitas vezes significava que os melhores jogadores dos países não poderiam participar. Certamente nenhum jogador da NBA.

Isso acontece no futebol, as eliminatórias da Copa do Mundo acontecem durante as temporadas dos clubes. Mas a Copa do Mundo da FIFA é tão importante e tão tradicional que as ligas de todo o mundo param para permitir que os melhores jogadores disputem as eliminatórias.

Isso não aconteceu na NBA nem em nenhuma das principais ligas europeias. A seleção norte americana teve que lutar para colocar equipes de qualidade formadas por jogadores da G-League e free-agents. O técnico Jeff Van Gundy classificou a equipe dos EUA com um histórico de 10-2 jogando em toda a América do Norte e do Sul. Além disso, usou 54 jogadores diferentes nos 12 jogos.

Muitos países não tiveram elenco suficiente para tantos jogos. Uma das vítimas disso foi a Eslovênia. Eles ganharam o prestigioso campeonato europeu em 2017, liderados pelo sensacional Luka Doncic. Antes deste formato, eles teriam sido um dos cabeças de chave da Copa e teriam confrontos favoráveis.

Mas com Doncic jogando pelo Dallas Mavericks – para não mencionar outras estrelas como Goran Dragic – os eslovenos não conseguiram passar pelas novas eliminatórias. Doncic, um dos jovens jogadores mais empolgantes do mundo, não estará na Copa do Mundo. E ele e os eslovenos realmente vão ter problemas para chegar às Olimpíadas de 2020, porque a maioria dos classificados vem dos melhores colocados da Copa do Mundo.

A ideia aqui é que, no futuro, a Copa do Mundo será tão valiosa que a NBA interromperá sua agenda e os grandes jogadores americanos do dia voarão para o Uruguai ou Brasil para jogos intensos de eliminatórias na metade da temporada. A mesma coisa, em teoria, aconteceria em toda a Europa, Ásia e Austrália. No futebol, isso é bastante comum.

Mas agora, isso não passa de um sonho distante. Mas a Fiba está tentando, de todas as maneiras, torna-lo realidade. Para os americanos, a Copa do Mundo simplesmente não importa tanto quanto as Olimpíadas, que é onde o Dream Team foi lançado em 1992.

Das 18 Olimpíadas em que o basquete foi disputado, os EUA só perderam três vezes, e cada uma delas foi histórica. Em 1972, a vitória da União Soviética sobre os americanos em Munique foi maluca. Em 1988, o bronze em Seul ajudou a fazer com que os atletas profissionais viessem disputar os Jogos, e o bronze em Atenas, em 2004, causou uma enorme reforma do basquete americano. A equipe dos EUA perdeu apenas uma vez na competição principal desde então e isso foi em 2006.

Quanto ao Campeonato Mundial, os americanos só ganharam uma vez entre 1986-2010, e quase ninguém se importa com isso. Em 2002, a equipe dos EUA terminou com um péssimo sexto lugar, e esse evento foi realizado em casa, em Indianápolis.

Dito isso, a equipe dos EUA é a atual bicampeã do torneio e ninguém conseguiu vencer uma terceira vez consecutiva. Com Gregg Popovich no comando, a proximidade das Olimpíadas de Tóquio no próximo verão e muitas das principais estrelas dedicadas ao crescimento de seus fãs na China, a expectativa é de que os melhores jogadores disputem o torneio.

Já se passaram cinco anos desde que este evento foi realizado e diversos talentos de jogadores não americanos apareceram. A China, depois de perder suas cinco partidas no Rio 2016, e não ter conseguido medalha na Copa Asiática da Fiba em 2017, está sob pressão. Pelo menos a torcida estará do seu lado desta vez.

Além de todas as manobras por trás dos bastidores, o torneio pode ser forte suficiente para desafiar o domínio completo do Team USA nos últimos dez anos de basquete internacional. Bom, pelo menos é isso que o mundo espera ver.