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Dwyane Wade vai se aposentar da NBA. O que o 'Flash' vai fazer agora?

Em um dia de folga, pouco depois do All-Star Weekend, Dwyane Wade passeia pelo vestiário do Miami Heat na AmericanAirlines Arena. Será uma das últimas vezes que ele fará isso como jogador, e ele está tão efervescente como estaria apenas cinco dias depois quando, na mesma arena, com tranças no cabelo (em tributo a Allen Iverson), ele acertou a bola de três que venceu a partida para o seu Heat contra os atuais bicampeões Warriors.

“Muitas vezes você não acerta aquele arremesso,” Wade disse para o repórter Nick Friedell naquela noite. “E o que eu fiz, foi justamente um sem apoio, arremessando todo torto. Maluquice!”

Após 16 temporadas – que incluíram três títulos, um MVP das Finais e o nascimento de um trio que mudou a liga para sempre – Wade está na última reta de sua volta final. Nós pedimos para que o futuro membro do Hall da Fama refletisse sobre sua carreira icônica – e por que os pequenos momentos são os que ele mais vai sentir falta na NBA.

P: Como é para você se aposentar nos seus termos?

Dwyane Wade: Acho que eu não entendia o significado disso até passar pelo processo. Eu me sinto mais do que abençoado. Estou muito grato. Na verdade, eu estava um pouco descontente com essa ideia de sair em tour para as pessoas me celebrarem. Mas sentando e conversando com a minha equipe, eles disseram que os fãs queriam se despedir. E estou grato, tem sido um baita ano para mim.

P: O que sobre essa “última volta” está te deixando tão feliz?

Wade: Há zero pressão em mim. Normalmente, eu sou muito duro comigo mesmo. Eu tenho expectativas muito grandes. Se eu não atingir esse nível, eu fico louco, frustrado. Esse ano me permitiu apenas jogar e não me importar se eu faço 22 ou dois pontos. Essa é a primeira vez que eu tive a chance de apreciar tudo, sorrir e ir para a próxima – vitória, derrota ou empate.

P: Como você lida com o fato de parar de trabalhar dos 40 anos?

Wade: Eu estou me aposentando do basquete, mas ainda tenho muito trabalho restando em mim. Eu tenho 37 anos, sou um cara novo. Os homens e mulheres de negócios mais bem-sucedidos começaram [o sucesso] aos 40. Eles viram CEOs de empresas. Se você tem 40 anos, você é novo. Eu não estou afim de ser um calouro outra vez, mas quero esse desafio do que fazer agora. E não faço ideia do que será [risos].

P: Por que tirar a licença paternidade foi tão importante para você? [Wade ficou duas semanas longe das quadras em novembro, quando a filha Kaavia nasceu]

Wade: Eu sempre gosto de fazer as coisas do jeito que eu quero. Alguns me chamam de cabeça dura. Mas eu sinto que, às vezes, pedimos certas coisas para algumas pessoas que nem nós mesmos faríamos. Claro que eu pediria para a minha mulher estar lá comigo – tirar “férias” do trabalho, ficar com a filha: como assim você vai voltar a trabalhar? Você tem um bebê! Para mim, é a mesma situação. Claro, eu jogo basquete, então não posso tirar um mês ou seis semanas de folga. Mas eu posso tirar um tempinho para ficar com a minha filha.

P: Como foi isso para a sua esposa?

Wade: Minha esposa é uma “molecona”. Se você é um cara e quer se divertir com uma mulher, ela seria sua melhor amiga. Ela nunca pareceu ser aquele tipo de mãe que fica na mesa de jantar falando “Olha o meu bebê. Meu bebê fez isso hoje. Meu bebê sorriu hoje.” Então eu fico muito feliz quando a vejo vidrada na nossa filha, ou quando estamos conversando e a Kaavia vira o assunto. E ela fica por 20, 30 minutos falando sobre isso e eu tiro sarro “que bom que você não ia ser assim, né?”

P: Na sua carreira, existe algo em que você gostaria de ter tido uma segunda chance?

Wade: Essa é complicada. Justamente porque eu tenho tido uma carreira muito boa. Provavelmente, eu gostaria de ter mais conhecimento sobre o meu corpo quando era mais novo. Eu tinha pessoas excelentes ao meu redor. Mas se você não quer ouvir, o que ele estão dizendo para você é besteira. Gostaria de ter entendido o que eu precisava, quando eu precisava e como eu precisava – para ter feito meu físico durar um pouco mais.

P: Se eu dissesse que você é o terceiro melhor SG (ala-armador) da história da NBA apenas atrás de Michael Jordan e Kobe Bryant, o que você responderia?

Wade: Não, não, não e não. Se alguém me dissesse que um dia eu estaria na mesma conversa que os melhores da história da posição – com Jordan, Kobe, Iverson, Jerry West... Ray Allen, um dos meus jogadores preferidos – eu diria “Tem certeza que você está falando sobre o cara certo? Aquele ‘arrogantezinho’ de Chicago?” Porque eu não vejo assim. É isso que estou tentando passar para o meu filho. Estou tentando inspirá-lo desta maneira.

P: Do que você mais vai sentir falta?

Wade: Você tem seus melhores amigos. Você ama aqueles domingos, ou algo do tipo, você ri, faz piadas, etc. Você pensa até nas coisas que não ... Só besteira. É disso que vou sentir falta. As conversas no vestiário, quando estávamos no ônibus, no avião, viajar com o time das Olimpíadas, viajar para a China com o Carmelo [Anthony] e com o Chris [Paul], e só sentar lá no fundo do ônibus com o Bron. Eu vou sentir essa camaradagem, essa irmandade que você não vai ter em outro lugar.

P: Qual conselho você daria para jovens jogadores sobre a intensidade da fama na NBA?

Wade: É mais difícil. A maior coisa ... você tem que ter uma base de quem você é. Não perca aquela pessoa. Eu tive momento nos quais aquele D-Wade de antigamente escapou, e eu tive de buscá-lo. Eu queria ser uma boa pessoa, queria que as pessoas saíssem dos encontros comigo se sentindo melhor. Então, entenda quem você é e quem você quer se tornar. Daí em diante, se esforce para conseguir. E não se perca no caminho.