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Kawhi Leonard no Toronto Raptors: presidente colocou a cultura da franquia em jogo por ele - mas vai funcionar?

Em uma manhã cinzenta de agosto, em 2015, o presidente do Toronto Raptors, Masai Ujiri, tem um imprevisto. Ele está do lado de fora de um ginásio de basquete em Lagos, capital da Nigéria, com uma equipe de filmagem e 55 jovens vestidos com camisetas verdes-petróleo, com a frase “A Nigéria sonha grande” estampada.

Por causa das câmeras, os funcionários do ginásio acreditam que podem ganhar algum dinheiro e barram as entradas. Ao invés de mandar sua equipe para conversar, Ujiri vai pessoalmente resolver as coisas. No entanto, o que aqueles homens não sabiam é que Ujiri havia crescido com o chefe deles.

Nascido no Reino Unido, mas criado na Nigéria, Ujiri fundou aquele centro de treinamento, o Giants of Africa (Gigantes da África, em tradução livre), em 2003, com o objetivo de usar o basquete para transformar garotos em homens. Quinze anos depois, a organização se espalhou por 10 países no continente, incluindo a região de Darfur, devastada pela guerra, se expandiu e passou a integrar, inclusive, garotas.

As responsabilidades de Ujiri também se multiplicaram: ele se tornou o primeiro gerente geral e presidente de um time integrante de uma das quatro principais ligas de esportes americanos (NBA, NFL, MLB e NHL), mas ainda é conhecido pelo cuidado ativo que tem com cada um dos jovens.

Em um momento está se certificando de que a estrela do time, Sodiq Awogbemi, que abandonou a escola por causa do Boko Haram, está recebendo educação. “De qualquer maneira que pudermos ajudar”, ele costuma dizer. Em outro momento, ele lembra os garotos de respeitarem as mulheres: “Este é um problema na África e no mundo inteiro”.

Ele também é conhecido por sua paixão pela causa, uma característica que aqueles jovens estariam prestes a testemunhar no momento da abertura dos portões. “Mudem esta m**** de país, porque este país é péssimo”, diz. “É ego, é suborno, é uma m****. Vocês precisam ser melhores que isso. Mesmo se vocês não se tornarem jogadores profissionais de basquete, vocês podem ser o gerente deste estádio. Vocês podem ser o presidente deste país”.

“Vocês podem ser o presidente do Toronto Raptors”.

Ujiri, de 44 anos, deposita paciência e paixão em Toronto, onde transformou os Raptors em um dos melhores times da NBA. Desde sua chegada, em 2013, construiu um elenco completamente unido que venceu 64% de seus jogos na temporada regular, levou a franquia às suas primeiras Finais de Conferência em 2015-16 e, na última temporada, conquistou o recorde de 59 vitórias do time.

“Masai olha para isso tudo e pensa: ‘Estamos realmente construindo algo aqui. Estes jogadores são uma parte do grupo’”, disse um olheiro da Conferência Oeste no último mês de fevereiro, quando o Toronto estava no topo do Leste. “Isto é raro na nossa liga; ele consegue falar com os jogadores não somente sobre basquete, mas também sobre a vida em geral”.

Aquela temporada, a melhor na história da franquia, dependeu muito do melhor banco da liga, que liderou os números da NBA em assistências por jogo e teve a segunda melhor porcentagem de arremessos certos na segunda metade da temporada regular. Cinco daqueles reservas – Delon Wright, Fred Van Vleet, Jakob Poeltl, Pascal Siakam e CJ Miles – jogaram na G League, a liga de desenvolvimento da NBA, antes de se tornarem a segunda formação de Toronto mais usada da temporada passada.

No entanto, quando os Cavaliers varreram os Raptors nas semifinais de Conferência pelo segundo ano consecutivo, os ideais de estabilidade e compromisso de Ujiri se depararam com uma dura realidade: vencer com consistência não é o suficiente para vencer tudo.

“Em algum momento não poderemos mais ficar fazendo tudo de novo e de novo. Esta é a definição de insanidade”, disse Ujiri em setembro, com a voz ríspida. “É preciso mudar, sabe?”.

Em julho, dois dias antes de Ujiri fazer a troca por Kawhi Leonard – mudando os Raptors para melhor –, ele está parado em pé em uma quadra na região rural do Quênia, junto com o 44º presidente dos Estados Unidos. Eles estão celebrando um centro infantil inaugurado pela meia-irmã de Barack Obama, Auma, com uma quadra de basquete financiada pelo Giants of Africa. Ujiri, vestindo uma camisa com o número 44, e Obama, falam com uma multidão de 600 pessoas, das quais 150 são crianças da região. Obama tenta – e acerta – seu único arremesso na saída.

Na manhã seguinte, Ujiri voa para Nairóbi, pesando uma difícil decisão. A discordância de Kawhi Leonard com os Spurs vem se arrastando por meses. Ele poderia se tornar o melhor e mais versátil jogador dos Raptors da história. Mas abandonar DeMar DeRozan, um Raptor verdadeiro e leal, seria passar por cima da ética da franquia – e de tudo o que Ujiri trabalhou tanto para construir?

Ujiri, então, decide agir. Ele troca DeRozan; Poeltl, um reserva que incorpora sua fé em todos os jogadores; e uma valiosa primeira escolha no draft por Leonard e Danny Green. De um quarto de hotel no Quênia, no meio da noite, ele balança o equilíbrio de poder no Leste até seu ponto mais ao norte.

A troca gera reação imediata. Naquele dia, DeRozan posta no Instagram: “Te falam uma coisa e, no final, é outra. Não se pode confiar neles. Não existe lealdade neste jogo. Te vendem rápido por um pouco de nada...”.

Dois dias depois, Ujiri admite que houve uma “falha de comunicação” com DeRozan, mas fala de pragmatismo com os repórteres. “Eu sei que sou leal e, neste meio, você constrói relações com o passar dos anos”, disse Ujiri, batendo no coração. “A parte humana não facilita em nada”.

“Eu entendo de esporte e, no esporte, o objetivo é vencer. E eu tenho um mandato para vencer”.

Para adquirir Leonard, Ujiri teve de lidar não somente com o rompimento de um time que levou cinco anos para ser construído, mas também com a potencial quebra de uma cultura cultivada por ele desde os primeiros dias de sua carreira.

Depois de jogar profissionalmente na Europa, arrumou um trabalho não remunerado no Orlando Magic em 2002 como olheiro internacional. Ele pagava suas próprias despesas com a viagem e, às vezes, se hospedava na casa de amigos para economizar. Depois de um ano, Kiki Vandeweghe, na época diretor geral dos Nuggets, o contratou e encontrou dinheiro no orçamento para uniformes de treino extras que Ujiri poderia emprestar para seus garotos do Giants of Africa. Ujiri também colocou uma cesta no meio do vestiário, na qual jogadores como Carmelo Anthony e Kenyon Martin podiam doar tênis velhos.

Um dia, o veterano do Denver Nuggets, Marcus Camby, que tinha contrato com a marca de roupas da AND1, perguntou a Ujiri: “Quantos pares de tênis você quer? Me passe o seu endereço”. Ujiri não pensou muito sobre isso, mas, quando chegou em casa, encontrou caixas de sapato em sua porta. Oitenta pares, precisamente. Exatamente o número que ele havia pedido.

Ujiri nunca deixou suas ambições profissionais interferirem em sua dedicação ao Giants of Africa. Em 2010, quando era o diretor técnico assistente dos Raptors, teve a chance de se tornar o primeiro diretor geral africano na NBA – com os Nuggets. Ele foi do Senegal para a Nigéria para Toronto para Denver, deixando o Basquete Sem Fronteiras para dar entrevistas pessoalmente. Ele achava que tinha arrasado.

O diretor dos Nuggets, Paul Andrews, ofereceu o trabalho a Ujiri. Ele respondeu pedindo mais 50 mil dólares por ano, além de seu salário, para financiar seus acampamentos de treino na África – quantia que ele tinha em Toronto.

“Então, por 50 mil dólares, você desistiria de ser o vice-presidente executivo do Denver Nuggets?”, perguntou Andrews.

“Sim”.

Andrews prometeu que pensaria a respeito. Quatro minutos depois, o telefone tocou novamente: “Você é o novo vice-presidente executivo do Denver Nuggets”.

Se passou pela cabeça de Ujiri que ele poderia ter sacrificado uma oportunidade que nenhum outro africano já teve? “Não”, ele responde agora, com os olhos estreitos. “Eu só estava pensando na importância de fazer aqueles acampamentos de treinamento. Eles sempre significaram tanto para mim. Isso era a única coisa na minha cabeça”.

Ujiri terá de bancar sua própria personalidade e a cultura que construiu para convencer Leonard, que muitos acreditam que irá se juntar a LeBron James em Los Angeles no próximo verão, como free agent, a ficar em Toronto. “Masai irá se tornar amigo de Kawhi, um tipo de irmão mais velho”, disse David Thorpe, que ajudou Ujiri a começar na NBA. “Caras que não são fáceis de conversar estão comandando times em alto nível. Masai é o oposto. É muito fácil conversar com ele. Ele está disposto a deixar as coisas germinarem, falar com as pessoas, construir o processo e deixar o processo acontecer”.

Na véspera da pré-temporada, a imprensa se junta na Scotiabank Arena (até mesmo o nome da casa dos Raptors é novo) para as primeiras palavras de Kawhi Leonard com a camisa de Toronto. No entanto, Kyle Lowry, que segundo a TSN se esquivou das ligações de Ujiri durante o verão, fala primeiro e é questionado sobre seu melhor amigo, DeRozan. “Nossa relação é maior que o basquetebol”, ele responde. “Ele ainda é o meu parceiro”.

Os fãs se juntam na arena. Ujiri aparece, cercado por Leonard e Green. A multidão grita. Depois de educadamente responder sobre sua saúde, o drama em San Antonio e seus novos companheiros de equipe, Kawhi é questionado se sua chegada irá mudar a percepção da NBA sobre Toronto. Ujiri se coloca. Com seu clube em um ponto de inflexão, ele defende um lugar, um povo e uma cultura cuidadosamente criados a partir de uma identidade usada a meio mundo de distância.

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This that OVO, that SZN

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“Pessoal, a narrativa de não querer vir para esta cidade acabou”, ele diz. “Acreditem nesta cidade, acreditem em vocês mesmos”.

A plateia irrompe novamente.

“Aqui em Toronto”, Ujiri continua, “temos que acreditar em nós mesmos, certo?”.

Contra os Celtics, no segundo jogo da temporada, Kawhi Leonard mostra aos torcedores dos Raptors por que eles devem acreditar. Depois de acertar três de onze arremessos na primeira metade, ele brilha no terceiro quarto. Acelera por Jaylen Brown e vai para a enterrada; arremessa na cara de Marcus Morris; faz um fadeaway sobre Kyrie Irving; corre de ponta a ponta para uma bandeja, após um rebote defensivo. Gritos de “MVP! MVP!” preenchem todo o ginásio, a partir das arquibancadas superiores da Scotiabank Arena. “Ainda teremos 80 jogos após esta noite?”, diz Hubie Brown, analista da ESPN, enquanto ri durante a transmissão da partida.

“Você não envia seu voto após esta noite?”, responde Ryan Ruocco.

Kawhi Leonard termina o jogo com 31 pontos e 10 rebotes, liderando Toronto na vitória por 113 a 101 sobre Boston. Ele teve média de 27 pontos e 8 rebotes em seus primeiros cinco jogos – todos com vitória dos Raptors. E ainda não alcançou o vigor físico de cair o queixo que tinha em seus dias nos Spurs.

“Se ele conseguir fazer com que Kawhi jogue como jogou em San Antonio, então Ujiri pode ter feito a melhor troca desde Carmelo”, disse David Thorpe, referindo-se ao tempo que Ujiri passou em Denver. “Pense nisso: Masai pode ter feito duas das melhores trocas na história da NBA”.

Ujiri colocou a cultura de sua franquia em jogo neste verão. Por enquanto, sua aposta parece estar dando resultado.

Clique aqui para acessar o texto original, de Anthony Olivieri*