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NBA: como regras e audiência da TV extinguiram o conservadorismo das defesas da Liga

A NBA está em meio de uma gloriosa revolução ofensiva, com uma legião de arremessadores auxiliados pelo small ball e alimentados por mudanças de regras que impedem as táticas defensivas da velha guarda. O resultado: os números de pontos explodiram absurdamente. Considerando entre 2014 e 2016, as equipes superaram três vezes a barreira de 140 pontos no tempo regulamentar.

Nas últimas duas temporadas da NBA, quando o frenesi começou a subir, os times chegaram à mesma marca oito vezes por ano. No primeiro mês desta temporada, foram seis oportunidades, e parece que a repetição não terá fim.

Francamente, é fantástico pensando em agregar de valor de entretenimento ao jogo. Não há muitas reclamações dos fãs. A frase "defesa ganha campeonatos" nunca pareceu tão fora de moda. No verão passado, momentos depois de assinar um contrato de US$ 20 milhões por ano, Jabari Parker declarou que "eles não pagam aos jogadores para defenderem" sem o menor indício de vergonha.

Essa revolução deixou a inteligência defensiva da NBA ser esquecida e mandada para cavernas geladas, como os rebeldes em Guerra nas Estrelas, para refletir sobre o que diabos eles podem fazer a respeito. A equipe que descobre como defender as modernas artilharias pode ser dominante no futuro.

Mas o volume de arremessos e as regras de liberdade de movimento que os árbitros foram instruídos a impor nesta temporada criaram uma tempestade perfeita. É a completa crise nos treinamentos defensivos.

"É muito mais difícil jogar e ser pioneiro na defesa agora", disse o técnico do San Antonio Spurs, Gregg Popovich, que está na vanguarda das mudanças de estratégia da NBA há duas décadas. "Mudar parece ser a resposta de todos. Mas isso é realmente dependente do jogador." Vamos rever uma breve história dos últimos 15 anos na guerra da defesa contra o ataque.

Na era pós-Michael Jordan, entre 2003 e 2005, vários jogos das finais da NBA viram que as equipes não conseguiram passar dos 70 pontos. Enquanto isso, os índices de audiência da TV caíam. Os catedráticos reagiram proibindo o hand-checking, o uso frequente das mãos na marcação - os Spurs e o Detroit Pistons fizeram a quadra parecer uma linha de scrimmage da NFL às vezes -, e o jogo se abriu para aqueles que tinham capacidade para infiltrar. No primeiro ano das mudanças de regras,

Allen Iverson liderou a liga em lances livres feitos e foi o cestinha da temporada. No ano seguinte, Kobe Bryant foi 819 vezes para a linha de lance livre e teve uma média de 35,4 pontos por jogo, que ainda permanece como o recorde da era moderna.

Para combater essa mudança de regra que ajudou muito o ataque, as defesas começaram a empregar uma tática chamada "shrink the floor”, algo como "encolher a quadra", que consistia em embolar os defensores na frente do jogador que ia para a infiltração, diminuindo o espaço e o obrigando a abrir o jogo para quem estava fora. Acontece que os Spurs eram os melhores nisso também.

E aqui é onde nós tivemos o ponto de mudança. Primeiro com Mike D'Antoni, correndo seu ataque de "7 segundos ou menos", então com técnicos como Erik Spoelstra estudando o ataque de Chip Kelly na Universidade de Oregon e desenvolvendo um sistema de "ritmo e espaço".

E, finalmente, com treinadores como Mike Budenholzer, instalando grande volume de passes que desorganizavam o movimento defensivo. "Shrink the floor" foi derrotado por "stretch the floor", algo como "espaçar a quadra". Logo depois, surgiram os "stretch 4s" e, por fim, "stretch 5s". Foi a queda livre das defesas desde então.

O antídoto, como Popovich disse, é que as equipes encorajem seus defensores a mudanças constantes de posição em uma tentativa infrutífera de economizar tempo. Isso fez com que muitos grandalhões perdessem espaço nos times, e até mesmo da liga. Os olheiros estão à caça de jogadores grandes com novos perfis no College e na Europa. Alas são as maiores demandas.

"Aqui está o problema: a maioria desses caras realmente não sabe como jogar uma defesa de troca", disse um treinador assistente da NBA especializado em defesa. "Eles não foram criados jogando dessa maneira. Parece simples, basta mudar tudo, mas na verdade é difícil, e não são muitos caras que fazem isso bem. Não são muitos times que fazem isso bem."

Quanto mais treinadores você fala no campeonato, mais eles ecoam esse sentimento. Não é que o conceito seja novo. A novidade é jogar dessa maneira a cada noite. Foi uma estratégia de fim de jogo por décadas. E, nos playoffs, quando as equipes podiam realmente se planejar contra um único adversário, às vezes você a via em esquemas especiais em situações específicas.

Use isso como um princípio central de defesa por 48 minutos para 82 jogos, e, bem, as equipes que não são boas nisso muitas vezes passam vergonha. Hoje, são muitas equipes nessa situação. Nos últimos anos, o ex-técnico do Cleveland Cavaliers, Ty Lue, quase não trocou sua equipe durante a temporada regular. Mas, nos playoffs, ele mudava sem parar.

Lue disse que estava "salvando" a estratégia, o que levou alguns a rotulá-la de "defesa secreta". Realmente, ele estava tentando administrar as limitações de sua equipe durante a longa temporada regular.

"Para ser honesto, para ser realmente bom na defesa agora, você tem que ter jogadores inteligentes e que conversem o tempo todo para trabalhar uns com os outros", disse um técnico da NBA. "Não há muitos caras que fazem isso. Eles nunca falam."

O Golden State Warriors, naturalmente, está à frente da curva aqui. Eles trocam tudo - foi uma das razões pelas quais eles pararam de jogar e depois se despediram de homens grandes como JaVale McGee e Zaza Pachulia, colocando caras como Damian Jones em seus lugares - e são inteligentes sobre isso.

Por exemplo, eles sabem que as equipes caçarão Stephen Curry nas mudanças de posição. Então, eles vão rotineiramente rodar o ataque para proteger Curry. Esse conceito, conhecido no jargão como "switch the switcher", é extremamente difícil de administrar no calor de um jogo. Os Warriors podem fazer isso frequentemente por que têm defensores fortes e brutos como Draymond Green e Andre Iguodala. Mas esses jogadores, obviamente, são difíceis de encontrar e às vezes impossíveis de desenvolver.

Resumindo: as defesas estão uma geração atrás dos ataques. O técnico ou equipe que encontrar vantagem neste jogo interminável pode ser generosamente recompensada.

Dois dos times que mais prezam pela defesa e têm dois técnicos que são mestres nisso se enfrentam nesta sexta-feira (09). Boston Celtics, de Brad Stevens, e Utah Jazz, de Quin Snyder, duelarão a partir das 00h30 de sexta para sábado, no horário de Brasília, com transmissão da ESPN e WatchESPN.