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Provocações, bebedeira com Curry e Jordan como alvo: Draymond Green abre o jogo e revela metas nos Warriors

É manhã de segunda-feira no sofisticado bairro Harajuku, em Tóquio, no Japão. Estou do lado de fora de uma estação de trem movimentada, esperando o três vezes All-Star e três vezes campeão da NBA Draymond Green. Fomos passear pela agitada, bizarra e incrivelmente rosa Takeshita Street, um paraíso de compras para os fãs de anime.

Sempre descontraído, o senhor 'faz-tudo' do Golden State Warriors enche os japoneses de perguntas sobre moda, comportamento e os onipresentes banheiros eletrônicos, descritos por quem os usa como um spa para o bumbum. "É outro nível", diz ele, "mas tenho medo de usar a função spray".

Os moradores de Tóquio são solícitos com o turista de mais de 2 metros de altura, mas não sabem bem quem ele é. Durante três horas, fizemos compras, conhecemos um café cheio de corujas, comemos sushi, tomamos saquê e passeamos pelos jardins do Santuário Meiji. Encontramos dezenas de pessoas, mas só uma delas pareceu reconhecer o jogador. Dessa forma tivemos todo o tempo para conversar sobre o futuro dos Warriors e o que significa ser o coração, a alma, a força e a voz de uma das melhores equipes da história do basquete.

ESPN: Uma das coisas que mais gosto nas viagens é a nova perspectiva que elas trazem sobre o lugar onde vivemos.

GREEN: Isso é verdade. Por isso, quando viajo, sempre procuro estar aberto a coisas novas. Nós estamos fechados de várias formas. Sempre achamos que nosso caminho é o melhor. Ninguém gosta de estar errado. Steve [Kerr] às vezes sugere uma jogada e eu digo: "Não, vamos tentar outra jogada". Tem horas que dá certo, mas quando não rola, ele fica uma fera [risos]. E só para ser chato, ele pede a jogada outra vez.

E funciona?

Mas eu não entro na dele não [risos].

Bill Simmons pediu ao Steph Curry para contar alguma história legal sobre o Draymond. Curry escolheu uma treta com Steve Kerr em um treino, que, segundo ele, foi "muito divertida".

A gente costumava treinar no um contra um o tempo todo. O Steve ficava provocando: “Sai daqui, cara! Você já era!" "Eu tô inteirão! Não saio da quadra de jeito nenhum! Uma hora eu acabava saindo, mas pra encher o saco eu pegava uma série ainda mais difícil depois. Mas a nossa relação é incrível.

Antigamente, a gente batia de frente... todo mundo lembra da confusão em Oklahoma [no intervalo de uma partida na campanha de 73 vitórias dos Warriors], quando brigamos no vestiário... mas nós crescemos e hoje nos conhecemos melhor.

Daqui a alguns anos, quando seus filhos perguntarem: "Papai, conta como era àquele time dos Warriors", o que você vai responder?

Que era um time incrível. E vou contar que a gente trabalhou e se sacrificou muito, o que pode ser um exemplo para eles.

Será que você vai dizer algo como: “Molecada, foi o melhor time de todo os tempos”?

Com certeza. Mais isso é muito subjetivo. Acho que poderíamos vencer os Lakers dos anos 1980 e os Bulls de 1996. Mas, sim, o jogo hoje em dia é muito diferente.

Você esqueceu do Kareem...

Mas o Kareem também não vai me marcar na quadra inteira. O Jordan foi o maior de todos os tempos, mas ele não era bom nos lances de 3 como o Steph. Essas equipes não jogavam em função dos lances de 3 pontos e tinham menos movimentação. Do jeito que o basquete é jogado hoje, nós venceríamos. No jogo do tempo deles, provavelmente eles ganhariam.

Quanto o time pode melhorar com a chegada do Boogie Cousins?

Acho que pode ser o nosso melhor time. Vai ser! Eu acredito nisso. Ele acrescenta algo novo no time: é um cara que fica dentro do garrafão, é só jogar a bola ali dentro que ele resolve.

Ele disse que você ligou chamando ele para o time, mas avisou também que vocês dois iriam bater de frente

Eu falei isso mesmo. E vai ser assim mesmo.

Nós somos amigos, mas eu conheço o Boogie, ele me conhece e sabe que provavelmente vamos acabar brigando em algum momento. Não tem problema. Eu e o Kevin [Durant] também brigamos às vezes. Mas a gente continua atropelando os adversários que aparecem pela frente.

Você viu a choradeira que houve após a contratação?

Eu nem ligo para essa história de “supertime que vai acabar com a NBA”. O time que puder ser dominante não vai perder a chance. Também não me importo de ser o vilão, mas ninguém previu que nós seríamos uma superequipe quando eu era o número 35 no draft, Klay [Thompson] era um moleque e Steph estava tentando provar que não era bichado.

Todo mundo esquece que nós fomos contratados no draft. Tudo bem, o Kevin foi uma exceção, mas quando contratamos ele, nós já tínhamos ganho um campeonato e jogado outra final, onde só perdemos no sétimo jogo. Nós já éramos um timaço!

Muita gente colocou a culpa no KD [Kevin Durant]. Como você acha que ele sentiu isso?

Eu acho que ele segurou bem a bronca. Teve gente que não entendeu: "Por que ele está respondendo para essa pessoa?" Mas é assim que ele é. Quando ele entra na quadra, destrói todo mundo. Isso é o que importa. E a única coisa que dissemos a ele nas reuniões [de contratação] foi: “Todo mundo vai dar sua opinião. Você nunca vai decidir nada sozinho. Acho que cumprimos essa promessa.

Entre contratações e declarações polêmicas, a NBA tem uma pré-temporada supermovimentada. Por que você deu uma parada nas mídias sociais?

A treta do Kevin com o CJ McCollum foi hilária. Eu entendo a posição do Kevin. A resposta dele mostra que ele não estava acreditando naquilo: "Pô, mano, eu acabei de fazer o seu podcast!" [risos]. Foi uma frase bem típica dele. Pô, mano, acabei de fazer o seu podcast. Aí, o Joel Embiid fez um comentário: "Não compare o DeAndre Ayton comigo. Eu jogo na defesa". Ele é hilário.

Como você se sente com o fim da rivalidade entre Warriors e Cavs?

Para mim, ela acabou no ano passado. Sem o Kyrie [Irving], a equipe deles ficou completamente diferente. A rivalidade ficou para trás.

Quem você acha que pode desafiar os Warriors no lugar dos Cavs?

Eu acho que o Boston tem um time muito bom... na verdade é um time excelente. O Toronto [Raptors] também vem forte. Todos os times da Conferência Oeste são fortes. O Houston [Rockets] ainda é o Houston. Os Lakers estão ainda mais fores.

O LeBron não vai melhorar o time [Lakers] do dia para a noite.

Pô, ele mudou o Cleveland do dia para a noite.

Parece que o elenco de "doidões" dos Lakers é uma resposta ao time de vocês. Eles contrataram jogadores que sabem marcar e sabem atacar, mesmo não sendo bons arremessadores. Você acha que eles têm algum plano?

Acho que é uma lógica completamente diferente das equipes anteriores do LeBron. Vamos ver se funciona. Mas estão tentando esse esquema de marcação forte há quatro anos. E até agora, nada. "Vai lá, intimida ele. Joga duro". Mas não funciona. A gente vai ver dessa vez.

Com certeza, nenhum deles sabe provocar melhor do que você. Você está no Hall da Fama da provocação. Steph diz que você provoca até no treino.

Eu adoro provocar o Steph. Eu grito com ele toda hora: "Você é baixinho, eu vou te bloquear, você não vai conseguir arremessar seu frangote!" Às vezes ele fica bravo!

Me dá umas dicas para fazer isso.

Eu não consigo.

Todo mundo sabe que você é o cara mais provocador do basquete.

Sou mesmo, mas essas coisas saem na hora. Por exemplo, a história do Paul Pierce ganhou muita atenção, quando eu disse para ele: “Você não é o Kobe. Não vai ter jogo de despedida! Ele estava reclamando desde o começo: “Acaba com ele, Blake [Griffin]! Ele não joga nada! Ele não joga nada!" Então, eu respondi: "Se liga. Fica na sua. Ele sabe que isso não é verdade. Tá mais que provado que isso não é verdade. Ele continuou resmungando, aí eu não aguentei e soltei aquela frase. Mas não foi nada planejado.

Tem alguém que nunca cai nas provocações?

Sabe um cara que eu nem perco tempo? Tim Duncan. Quando eu era mais novo, tentei provocar o Tim, ele parecia uma árvore na minha frente [risos]. Não tinha nenhuma expressão! Eu disse: “Tá bom. Parei". Nunca mais falei nada para ele. Depois disso, toda vez que ele cai na quadra eu era o primeiro que aparecia para ajudar, como se jogasse no time dele [risos].

Também tentei provocar o Kobe, naquela época eu já estava no meu segundo ano na liga. Era um ponto decisivo, e o Mark Jackson me colocou para marcar ele e eu consegui anular o cara. Eu falei: "É isso aí, acabei com você!" Ele olhou para mim como se eu fosse doido e disse: "Eu não errei por sua causa. Vai lá sentar". Eu pensei: "Putz! Tudo bem, você manda".

Você tem outra característica marcante também: não tá nem aí para o que as pessoas pensam de você.

[Risos] Com certeza.

Mas é impossível não perguntar: o que você acha que as pessoas pensam de você?

Elas devem pensar que eu sou um idiota [risos]. Eu acho isso engraçado.. Eu não ligo se você pensa que eu sou um idiota, porque isso significa que você não me conhece.

Bom, você também é tido como o motorzinho de um time histórico. Como é essa responsabilidade?

Muita gente fala isso de mim, mas também tem gente falando que as estrelas me levam nas costas [risos]. O segredo do sucesso de toda equipe é cada um entender o seu papel. Esse é o meu papel. Eu sou o motorzinho, o cara que liga o time, o líder na quadra. Eu adoro esse papel. Mas é complicado. Eu não consigo tirar uma folga.

O motor esquenta demais às vezes?

Com certeza.

Você consegue dosar essa energia ou às vezes a coisa sai do seu controle?

Eu estou tentando canalizar a energia. Não quero controlar nada. Tenho que ser do jeito que eu sou. Se você gosta do meu jeito de jogar, sabe que é isso que me faz ser bom. É isso que vai me dar vantagem sobre o cara que está me marcando, então por que controlar?

Como você encarou aquela expulsão na final de 2016?

Eu não me arrependo porque se acontecer de novo, eu vou fazer a mesma coisa. Antes de ser um jogador de basquete, eu sou um ser-humano. Veja se você consegue entender: Se você está no escritório trabalhando, levantando do chão na mesma posição em que eu estava, e entra alguém no escritório e pisa no seu ombro, sua reação provavelmente vai ser a mesma [ele levanta os braços para o alto]. Eu estava no meu escritório. Alguém passou por cima de mim [faz o mesmo movimento]. É isso.

Você acha que foi isso que fez você perder o título?

Sim. Isso pesou, com certeza. Mas eu também não acho que teríamos vencido esses dois últimos campeonatos se a gente tivesse ganho aquele. Tudo acontece por um motivo, a vida me ensinou isso. Entender isso fez de mim quem eu sou hoje. Mas eu assumo a culpa. Não tem problema.

Quando o reinado vai acabar?

Klay e Kevin vão ter passe livre ano que vem. Em 2020, vai ser a minha vez. O que a gente vai fazer? Vamos esperar para ver o que acontece. Mas se o time ficar junto, só a velhice vai derrubar a gente. Vai demorar ainda...

Todo mundo acha que você ou o Kevin Durant serão os primeiros jogadores importantes a saírem, porque você vai querer um aumento bom em 2020 e porque o KD [Kevin Durant] precisa ganhar em outro time para ser visto como protagonista.

Isso não tem nada a ver. Ele foi MVP em duas finais.

E você? Você pediu 12 milhões de dólares na última renovação.

Não sei bem o que vai acontecer, mas acho que estou em uma posição melhor do que os outros. O contrato do Steph estava acabando, agora é a vez do Klay e do Kevin renovarem. Isso me dá a chance de esperar o movimento dos outros. Sinceramente, se eu for o primeiro a sair, a menos que seja em 2020, não vai ser por decisão minha. O meu contrato é o último a vencer. Eu sou a última das preocupações do time.

Você quer se aposentar com a camisa dos Warriors?

Eu adoraria. Dá uma olhada na liga hoje em dia, quantos caras ficam na mesma equipe? Kobe, Dirk, Duncan, Manu. Isso já não acontece mais. Seria incrível me aposentar aqui. Mas não depende só de mim, é um negócio. Eu tenho que seguir o jogo.

Você é o camisa 5 de um time que joga no esquema small-ball. Já jogou muitos minutos de playoff. Quantos anos você ainda acha que tem pela frente?

Eu quero jogar 15 anos. Mais nove. Os minutos de playoff são desgastantes, mas eu cuido do meu corpo. Andei tentando uns treinos novos neste verão.

Quando você pendurar o tênis, como vai querer ser lembrado?

Quando largar o basquete, espero que as pessoas pensem: "Aquele cara foi um vencedor". Esse sempre foi meu objetivo.

Então você acabou de confessar que se importa com o jeito que as pessoas vão lembrar da sua carreira.

Sim, eu me importo com esse legado. Mas no dia a dia eu não tô nem aí para o que as pessoas pensam. Quando se trata de um legado, precisa se preocupar com o que vão pensar de você. Quero ser lembrado como vencedor e como o melhor defensor da história. Poucos jogadores na história da NBA foram tão bons na defesa como eu. É um objetivo que pode ser definido em números: eu quero cinco prêmios de melhor defensor do ano. Ben Wallace ganhou quatro. Quando ele me entregou o meu primeiro, ele falou: "Parabéns, mas ainda faltam mais três". Então esse é o objetivo agora: cinco.

Quantos anéis você quer ganhar?

Olha, três títulos foram bem difíceis, seis é um absurdo... mas obviamente todos nós crescemos querendo ser como [Michael] Jordan, então esse é o número. Sei que é loucura, mas eu gostaria de chegar lá. Sete seria incrível.

Ultima pergunta: Steph contou a história preferida dele sobre você. Qual é a sua história favorita sobre o Steph?

Vou pensar em alguma história que não queime o filme dele [risos]. Minha história favorita do Steph aconteceu logo no começo, antes do nosso primeiro título. Nós estávamos em Memphis, perdendo de 2 a 1. Steph não estava jogando bem e parecia que o mundo iria cair na nossa cabeça. Então, ele estava no quarto sem nada para fazer e eu liguei para ele: "Ei, vamos tomar alguma coisa". "Claro, vamos nessa". Fomos no Blues City Café, bebemos um monte, comemos um monte de besteira e nos divertimos. E vencemos os três jogos seguintes. A gente só precisava se divertir um pouco.

Depois, aconteceu em Cleveland, a gente perdia por 2 a 1 nas primeiras finais. Steph não estava legal também, eu levei uma garrafa de vinho para o quarto dele. Ficamos eu e ele no quarto, enxugando uma garrafa inteira de vinho. E vencemos os três jogos seguintes. São esses momentos que não vou esquecer nunca. Esse é o meu parceiro, cara.