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'Não é uma escolha': Joanna Maranhão vê sua militância nas redes sociais como uma responsabilidade inevitável

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Olhar espnW: Promotora de Justiça explica o que mulheres devem fazer para denunciar abusos (2:14)

Gabriela Manssur foi uma das convidadas do programa Olhar espnW (2:14)

"Não é uma escolha".

Essa foi a resposta da ex-nadadora Joanna Maranhão ao ESPN.com.br quando indagada sobre as razões que a levaram a seu comportamento combativo e militante nas redes sociais.

"Eu não escolhi ser uma pessoa pública, foi uma consequência. Mas eu estou 'ali'. Para mim, o contrário, calar, é que seria uma escolha", acredita.

"Tomo muita porrada, mas, sem querer usar um clichê, aprendo muito. É violento, sim, muitas vezes. Mas é enriquecedor", diz.

É desse modo que Joanna encara a si mesma e suas responsabilidades com seus 74 mil seguidores no Twitter e mais de 54 mil no Instagram.

Joanna não se cala diante de postagens sexistas, elitistas, racistas e reacionárias, de um modo geral. E não escolhe os interlocutores que vai combater.

Podem ser atletas, políticos, celebridades. Não faz diferença. Se ela entender que a postagem fere preceitos de igualdade e Justiça social, há boas chances de Joanna responder.

Ela também costuma opinar sobre as pautas políticas, sociais e sobre tudo aquilo em que considera poder contribuir, expondo seu ponto de vista e sendo didática - quando consegue.

"Às vezes, revejo postagens minhas, opiniões que coloquei, e penso que poderia ter sido melhor", reconhece, diante de momentos em que perdeu a cabeça, por exemplo. "Mesmo assim, é pedagógico", diz.

Foi o caso da recente discussão com o nadador Felipe França, na qual uma mera discordância por critérios técnicos de formação de atletas na natação logo descambou para bate-boca sobre fundamentalismo religioso e abuso sexual.

"Ele bateu na minha ferida muito forte e eu reagi de modo muito forte", explica ela, referindo-se ao tema abuso de crianças - algo de que ela foi vítima aos nove anos. "Mas, hoje, também não me cobro ser forte em todos os momentos", diz ela.

Para Joanna, não faz sentido ter tanta projeção e não usá-la para algo positivo. Ela respeita a posição de esportistas que não se manifestam, mas vê nisso um pouco de falta de coragem - e muito de artificialidade.

"Eu sempre ouvi que atleta só pode falar de competição e treino. Pô, eu não consigo dissociar. Até porque, ninguém é assim, monotemático", diz. "Nos bastidores, os atletas falam de tudo, afinal", diz.

Joanna sabe que sua postura é tida por consultores de imagem e comunicação como equivocada.

"Sou o exemplo do 'errado' nos media trainings", diz ela, em referência aos cursos de treinamento para lidar com jornalistas ao qual muitos atletas são submetidos.

Joanna é detentora do melhor resultado de uma mulher brasileira em Jogos Olímpicos (5º lugar nos 400 Medley em Atenas-2004, com quatro participações), dona de oito medalhas em Jogos Pan-Americanos e oito recordes sul-americanos.

CONFLITOS E PROCESSOS

A discussão com Felipe França, que fez de Joanna alvo de queixa-crime, poderia ter acontecido muitos anos antes.

"Desde a época em que convivíamos, como atletas, eu já discordava quando ele era machista e se justificava com posições religiosas, por exemplo", diz. "Sempre respeitei, deixava passar. Mas, dessa vez, eu não aguentei", diz.

A ex-nadadora já consultou seus advogados sobre como se defender na questão.

Joanna também interpelou na Justiça o vereador pelo RJ Carlos Bolsonaro, filho do presidente da república.

Em julho do ano passado, o político insinuou que ela defendia abuso e pedofilia, quando Joanna explicou que nem todo pedófilo é abusador, e que a condição é um distúrbio psicológico.

Outro conflito que ficou notório foi com a ex-jogadora de vôlei Ana Paula, ferrenha defensora de posições conservadoras e alinhadas com a direita.

"Eu vacilei com ela. Percebi que fui infantil e a procurei para pedir desculpas", conta Joanna, mesmo discordando veementemente de suas posições. A ex-jogadora nunca respondeu e, atualmente, é bloqueda por Joanna nas redes.

"Às vezes, eu acho que há pessoas que 'jogam para a torcida', não se preocupam em aprofundar o diálogo. Trabalham mais como fonte de propaganda do que como debatedores", acredita.

Regina Duarte, atriz veterana e sempre contrária às pautas de esquerda, também já foi ironizada por Joanna no Twitter.

Curiosamente, mesmo entre as pessoas de esquerda, Joanna às vezes é criticada. "Petistas me consideram ameaça, quando discordo de alguns pontos defendidos por eles ", conta ela.

BOLHA E PROJETOS

"De cinco anos para cá, eu passei a repensar um pouco meus privilégios e entender qual é o meu papel na sociedade", diz Joanna Maranhão.

"Sim, eu treinei muito, mas vim de uma família de classe média, que pôde me matricular na melhor escola de natação da cidade. Só com isso, eu já larguei na frente de muita gente. Não tira o meu mérito, mas e quantas crianças teriam o mesmo mérito, mas não tiveram a oportunidade?", indaga.

Grávida de seis meses, Joanna quer evitar que o filho Caetano demore tanto quanto ela para entender sua situação favorável.

"Ele também vai nascer em uma situação confortável, vai frequentar clubes de elite. Mas vamos levá-lo para conhecer projetos sociais, para conhecer a realidade fora da bolha dele", diz.

Não é só postando que Joanna, fundadora da ONG Infância Livre, quer contribuir.

Atualmente, ela mantém um projeto que leva aula de natação a crianças de famílias de baixa renda em Belo Horizonte. Mas ela não está contente e pretende reformulá-lo em breve.

"Como estou em Recife, não estou presente sempre", diz.

Em dois finais de semana por mês, ela também dá palestras sobre educação sexual, num trabalho que ela entende ser uma sementinha.

"Temos alguns planos diferentes para depois que o Caetano nascer", diz. Um deles, passa por uma mudança para o exterior.

Inspirada por sua história de vida, ela também pretende fazer um mestrado sobre o tema do ensino de temas ligados à sexualidade para crianças, nos EUA.

Aqui ou nos Estados Unidos, o que Joanna sabe é que sua postura militante não deve mudar depois que ela der à luz.

"Eu ficaria muito surpresa se isso acontecesse", afirma.