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UFC: Anderson Silva relembra drama por perna quebrada e como implorava ajuda à esposa para esconder choro dos filhos

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Anderson Silva relembra angústia com lesão e desabafo: 'Meu Deus, não posso continuar. É muita dor' (0:41)

Em entrevista exclusiva à ESPN, Spider contou sobre a recuperação da trágica perna quebrada; assista à reportagem completa no WatchESPN! (0:41)

Existem diversos momentos na carreira dos atletas que, quando combinados, definem sua carreira. Talvez esses momentos sejam mais pontuais no mundo das artes marciais mistas, um esporte de extremos quando se pensa nos altos e baixos vividos pelos competidores. Um nocaute, uma decisão, um card anunciado, uma suspensão.

Anderson Silva já passou por cada uma dessas situações.

Mas há uma situação particular que todos que acompanham sua carreira conseguem lembrar.

A lesão

Considerada por muitos como uma das piores lesões que já ocorreu no MMA, o momento em que a perna de Silva quebrou aparentemente ao meio, há cinco anos, pode ser o mais marcante de sua vida profissional.

Quando o lutador de 38 anos subiu ao octógono para enfrentar Chris Weidman naquela noite trágica de dezembro de 2013, seu foco estava em reconquistar o cinturão dos médios no UFC, título que Weidman havia arrancado dele alguns meses atrás naquela que seria sua primeira derrota em sete anos.

Esse foco mudou de direção bruscamente no primeiro minuto do segundo round, quando Weidman defendeu o chute de Silva e a força do impacto imediatamente fraturou a parte inferior da perna do brasileiro, tanto a tíbia quanto a fíbula. Bastou um piscar de olhos para que os impulsos neurais chegassem ao seu cérebro sinalizando que algo havia dado errado, e qualquer um assistindo à luta conseguia ver o membro distorcido de Silva balançando no ar, dobrando-se de uma forma que as leis da física não permitem quando os ossos estão intactos.

As pessoas que estavam assistindo ficaram em choque. De acordo com o narrador do UFC, Jon Anik, foi um momento ímpar na história do esporte.

“Silva talvez estivesse em seu melhor momento naquela luta, por mais que ele estivesse vindo de uma derrota amplamente divulgada pela mídia”, disse Anik. “Em 2013, muitos o consideravam o maior lutador pound for pound (de todas as categorias) que já foi visto, e, com certeza, o mais bem-sucedido. Seria como se Michael Jordan tivesse quebrado a perna no ponto mais alto de sua carreira.”

Quando tomou ciência de sua lesão, a reação de Silva foi instintiva e rápida. Ele segurou sua perna como se estivesse a protegendo, tentando mantê-la segura enquanto desabava na lona em aflição. À medida que a equipe médica corria para atendê-lo, o barulho na arena começou a desvanecer em sua mente. Nos minutos seguintes – que foram uma eternidade para Silva – ele se perguntou o que havia feito para merecer esse destino. Enquanto era carregado em uma maca, ele perguntou ao seu treinador:

“Por que isso acontece comigo?” perguntou. “Por que Deus não me ajuda? Por que Deus não me protege?”

Ele se lembra de seu técnico simplesmente dizendo: “Relaxe, não fale nada agora.”

Horas depois, Silva passaria por uma cirurgia para inserir uma haste de titânio em sua perna para estabilizar a fratura. Por mais devastadora que a lesão tenha parecido, poderia ter sido pior. Havia possibilidade de ocorrer uma fratura exposta, o que aumentaria o risco de infecção. Ele poderia ter sofrido danos graves aos vasos sanguíneos ou ao tecido mole da região, o que potencialmente comprometeria a saúde de sua perna no futuro. No fim das contas, Silva teve sorte em ter escapado de danos colaterais sérios.

Mas esse era um lutador conhecido especialmente por sua marca registrada de distribuir chutes. O lado bom da lesão não estava claro para ele, pelo menos não ainda.

O choque inicial por ter sofrido a lesão foi rapidamente substituído por medo e ansiedade. Ele não suportava olhar para a perna nas horas imediatamente posteriores à cirurgia, com medo de ver algo tão irreconhecível que não pudesse aguentar. Ele admitiu ter pensamentos temerosos como o de ainda poder perder sua perna ou de não poder mais caminhar. Era mais fácil não olhar.

“Eu estava com medo”, disse Anderson. “Não olhei para a minha perna. Nem vi minha perna. Eu só tomei os remédios e dormi por dois dias.”

O encorajamento constante de seus médicos e das pessoas próximas a ele finalmente deram ao lutador a coragem para olhar para baixo. Seu rosto se iluminou. Nenhuma deformidade. Nenhum cabo de metal, como sua imaginação havia sugerido. Apenas uma perna. Sua perna. Estava intacta e estranhamente familiar, apesar da sensação de que havia sido separada do resto do corpo apenas alguns dias antes.

Naquele momento, Silva fez uma promessa a si mesmo.

“Agora é hora de ter mais respeito pela minha vida, pelo quanto sou sortudo nesse mundo.”

O medo pelo qual Anderson Silva passou antes foi diminuindo quando ele começou a confiar em sua perna para apoiar o peso, mesmo que só um pouco no começo, e cada vez mais à medida que começava a se sentir mais habituado. Mas essas emoções iniciais foram substituídas por outra sensação: dor. Muita dor mesmo.

A dor que o lutador sentiu veio parcialmente em razão de sua decisão de parar de tomar remédios para dor poucos dias após a cirurgia. Ele estava preocupado com o fato de que os remédios o estivessem livrando totalmente da dor, mas que, por mais que fosse ótimo estar livre dela, isso o fizesse ficar instintivamente ansioso. Ele avisou à esposa que dependeria somente de gelo para se recuperar, mas aprendeu bem rápido que pagaria caro por isso.

A dor era tão extrema, especialmente à noite, que ele implorava à sua esposa que o levasse para dar longas e demoradas voltas de carro para que seus filhos não o vissem chorar. Grande lutador peso-médio do UFC, Anderson Silva estava lidando com muito mais que uma perna quebrada. Sua alma fraturada e sua confiança enfraquecida seriam muito mais difíceis de recuperar.

Assim começou o processo de uma lenta e gradual recuperação. Começou com Silva aprendendo a andar novamente -- hesitante no começo, aumentando gradualmente a pressão em seu pé até que conseguisse aguentar todo o peso do corpo -- e eventualmente andando “normalmente”, conforme seu cérebro ia se acostumando com a perna.

Mas Silva descobriu rapidamente que o corpo tem uma capacidade de compensação incrível, inventando alternativas para faltas de força, equilíbrio e coordenação motora que, se não corrigidas, podem levar a um grave enfraquecimento físico com o passar do tempo. A passada muito mais curta com a perna machucada ao caminhar, o uso maior de força pela perna mais forte ao se agachar e a hesitação ao virar para o lado machucado eram reflexos da resistência de seu corpo em confiar no membro em recuperação. Foi a fisioterapeuta de Anderson que chamou a atenção do lutador a essas compensações logo no início, e então trabalhou com ele para ajudar a superá-las.

Ele estava longe de terminar. A próxima batalha seria usar sua perna esquerda para chutar. Obviamente havia o desafio mental de vencer o medo de repetir a lesão. será que aquela perna -- haste e osso -- realmente aguentaria a força do impacto?

Mas também havia um desafio mais sutil, que seria o de se apoiar na perna esquerda para chutar com a direita. Será que ele teria força e equilíbrio suficientes na perna esquerda para desferir um chute poderoso com a perna direita?

Ele começou os testes. Chutes com menor amplitude e com pouca velocidade e força. Então, aumentava a velocidade, a força e a amplitude. Finalmente, o lutador já começava a chutar com confiança novamente.

Depois de terminar todos os elementos do treinamento, só havia mais um teste: voltar ao octógono. E esse teste veio 13 meses depois, em 2015, quando ele enfrentou Nick Diaz no UFC 183. Anderson Silva não só passou no teste como superou as expectativas. Pode não ter sido sua melhor luta, e certamente não foi aquela em que demonstrou mais domínio, mas pode sim ter sido a mais importante. Vencendo por decisão unânime (que mais tarde terminou “sem resultado” após o brasileiro ter sido testado positivo no antidoping), Anderson mostrou ao mundo – e, mais importante, a ele mesmo – que ele com certeza poderia lutar de novo.

O lutador dá o crédito à fisioterapia por trazê-lo de volta depois de sua lesão devastadora. Mas ele já havia passado pela fisioterapia anos antes, quando começou sua carreira no UFC, e viu que os benefícios trazidos por ela iam muito além de simplesmente ajudá-lo a se recuperar.

“A fisioterapia me ajuda muito porque ela muda todo o meu corpo, meu equilíbrio e minha mente”, disse Anderson. “A fisioterapia me ajuda a continuar vencendo todas as minhas lutas no UFC”.

Ele sabia que seria essencial incluir a fisioterapia na continuidade de seu treinamento de recuperação, mas talvez nunca imaginasse o quão integradas sua recuperação e sua preparação para as lutas se tornariam. Vários anos antes, quando treinava na Black House MMA em Los Angeles, ele conheceu Jason Park, um jovem e sério profissional do Muay Thai que treinava alguns jovens lutadores que Anderson admirava. Conforme os dois se tornavam mais chegados, o brasileiro viu com bons olhos o estilo de treinamento de Park e finalmente o contratou para se juntar a sua equipe.

Além de ter um bom olho para perceber mínimos detalhes nos movimentos de Anderson Silva e detectar em quais situações ele poderia ser beneficiado com treinos específicos, Park também é ciente de como a rotina de treinos para um lutador de 40 anos deve ser diferente da de alguém 20 anos mais novo.

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“Eu tento analisar o treinamento dele através de uma perspectiva holística, buscando equilibrar trabalho e treino com recuperação”, diz Park, apontando que qualquer rotina está sujeita a modificações necessárias baseando-se em como Anderson responde à sessão.

Enquanto defende que um lutador mais velho como Silva se beneficia por ter mais eficiência na rotina de treinos (por exemplo, pela alta intensidade dos exercícios complementados com maiores pausas), Park deixa claro que a idade não significa desvantagem.

“O Anderson é um verdadeiro artista marcial, além de ser um atleta incrível”, disse Park. “Sua base sólida, sua experiência e sua criatividade o ensinam a se ajustar ao adversário. Mas o mais importante é que ele é respeitoso o tempo todo, sempre ouvindo os outros, sempre perguntando como pode fazer para melhorar.”

O Anderson pós-lesão, agora, é cinco anos mais velho que o Anderson pré-lesão, mas isso não o deixa menos apaixonado por lutar. Ele acredita que o “por quê?” perguntado na noite da lesão já foi respondido.

“Nossa, obrigado Deus, obrigado por me dar a oportunidade de entrar na jaula novamente e fazer algo especial, porque esse é quem eu sou”, disse Silva. “Eu amo lutar. Eu amo.”

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Anderson está ciente de que seu tempo no octógono está terminando. A preparação do lutador para o próximo capítulo fica evidente em seus centros de treinamento -- um em Los Angeles, onde ele mora, e um no Brasil. Além do treinamento físico, ele procura transmitir as filosofias e os ensinamentos das artes marciais para ajudar cada pessoa a descobrir o “algo especial” dentro de seu coração e de sua mente. Anderson Silva espera poder expandir seu Spider Kick Gym internacionalmente com o passar do tempo para que possa retribuir o esporte do qual acredita ter recebido tanto. Ele sabe que seu caminho não foi perfeito, mas está comprometido a ajudar outros que podem estar em busca de melhorar suas próprias jornadas.

Quando perguntado sobre qual deseja que seja seu legado, a resposta de Anderson é simples:

"Quando as pessoas pensarem sobre o Anderson Silva, que elas pensem ‘Ah, esse cara me ajudou’ Não importa o que aconteça... ame seu trabalho, ame sua família, ame sua vida e ame fazer algo melhor para as pessoas.”

A Spider Kick

No sul da Califórnia, em uma manhã ensolarada de primavera, a lenda do UFC, Anderson Silva, cumprimenta os visitantes com um sorriso de orelha a orelha em sua recém-inaugurada academia.

“Sejam bem-vindos à minha casa.”

O lutador, famoso por ter sido o campeão dos pesos-médios pelo maior período de tempo na história do UFC, parece relaxado vestido com sua roupa de treino exclusiva da Spider Kick, uma linha de vestuários que ele está desenvolvendo para refletir seu estilo de artes marciais.

Há uma pequena, mas confortável sala de espera para convidados do lado esquerdo e um cabideiro com diversos protótipos apenas esperando a aprovação do lutador do lado direito. Ele chama a atenção para o balcão de entrada no centro -- ou melhor, para as luvas assinadas na parede logo atrás -- mencionando os vários atletas de outros esportes que já apareceram para treinar.

O lutador guia seus visitantes até outro lado da academia, onde apresenta a sala de crioterapia (“para recuperação”), o equipamento para treino com pesos (selecionado especialmente para complementar o treinamento de artes marciais mistas) e um pequeno vestiário. Em seguida, Anderson se direciona à parte exterior, atravessando um jardim de pedras no estilo zen (onde diz ir para esvaziar a mente) para chegar ao estúdio de artes marciais, onde todos, respeitosamente, deixam seus calçados do lado de fora antes de entrar.

Ele guia o grupo a um espaço completamente branco -- desde a tinta na parede até os tatames no chão. A única cor visível é a de três gravuras na parede: uma de cada um de seus ídolos, Bruce Lee e Muhammad Ali, e uma foto de Silva rodeado por jovens fãs.

Esse estúdio foi o projeto em que Silva dedicou sua paizão durante todo o ano passado. Ele está se dedicando a compartilhar o amor pelas artes marciais e a capacidade dessa arte de transformar indivíduos em seres humanos melhores pois, nas palavras do lutador, “nesse mundo, as pessoas não ligam umas para as outras”. Ele sabe que está construindo algo que o manterá ocupado quando ele aposentar do octógono.

Mas esse dia ainda não chegou.

Ainda há mais além do horizonte para o lutador Anderson “Spider” Silva, começando por seu retorno no UFC 234, no dia 9 de fevereiro, após um intervalo de quase dois anos. Para entender o que ainda está por vir é preciso, primeiro, que compreendamos como ele chegou até aqui.