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"Vai um 'caldicana' aí?": A história de Taco

Um dos maiores expoentes do cenário de Counter-Strike nacional Epitácio conta sua trajetória

A gritaria de uma feira de rua é algo tão brasileiro quanto jogar futebol com os pés descalços ou o piso feito de azulejo vermelho quebrado. Seja no início ou no fim da feira, existe aquela parte no qual vemos uma barraca de pastel e bem do lado uma outra com vendendo o puro néctar do caldo de cana – ou “caldicana”, a bebida favorita de Taco, um dos mais carismáticos entry fraggers do Counter-Strike nacional.

“É uma coisa que diz muito sobre mim porque, de fato, gosto muito de caldo de cana. Eu ia para a feira tomar caldo de cana com meu avô. Então, é uma coisa real. Chegar e pedir ‘dois caldos de cana’, sou eu ali. É o Epitácio, não é o Taco. É legal esse meme porque realmente diz algo sobre mim”, conta Taco em entrevista exclusiva para a ESPN.

Mas antes de se tornar o “Taco” que todos conhecemos hoje em dia, o recifense Epitácio Pessoa de Melo já era um atleta de corpo e alma que quase perdeu a oportunidade de pisar em uma LAN de Counter-Strike. No lugar de um mouse e teclado nas mãos, ele teria uma chuteira nos pés. Ou seria o contrário? Taco diz convicto: “O futsal teve um impacto gigantesco na minha carreira do CS”.

O INÍCIO

“Sempre gostei de jogar bola e estudar”, conta o recifense de 24 anos ao se lembrar de seu passado com nostalgia. “Sempre fiz as coisas que uma criança normal faz. Passei a infância jogando bola na rua, indo brincar na pracinha. Minha vida foi boa”.

Epitácio sempre foi Taco (apelido que ganhou de sua família) e foi um pouco espoleta, principalmente na escola. Não foram poucas as vezes em que sua mãe foi convocada para comparecer na escola para “falar sobre o Taco”, que não se desgrudava de seu irmão. “Ele era como espelho [para mim]”, confessa o profissional de Counter-Strike.

Sua jornada pelas quadras começou no futsal por acaso e sorte. “Eu tava jogando no recreio do colégio e tava mandando muito bem, aí o treinador chamado Gama me chamou para fazer teste no Benfica. No mesmo dia liguei pra minha mãe avisando”.

Nas quadras, Taco chegou a competir em campeonatos regionais que deram um certo sabor gostoso para a vitória que nunca saiu de sua cabeça. “Ganhei vários campeonatos na minha cidade. Era um nível bom a ponto de chegar a pensar em seguir carreira, de meus familiares pensarem que eu viraria profissional de futebol”, relembra o jogador.

A carreira de jogador de futebol não foi muito longeva, mas tornou possível jogar pelo Sport, seu time de coração. “Cheguei a jogar pelo Sport e eu mandei bem”, conta. Taco, inclusive, teve a chance de jogar um clássico recifense contra o Náutico, ao qual afirma sem modéstia: “Calei os Aflitos”.

“A casa estava lotada e, como eu era fixo nessa época, sempre saia com a bola, responsabilidade que era grande porque, se eu perdesse a bola ou desse um passe errado, o adversário ia sair na cara do gol” relembra Taco quase narrando as jogadas: “Lembro que meu treinador, em todas as bolas que iam para o goleiro, berrava mandando o goleiro passar a bola pra mim”. Ele termina essa fase dizendo “Foi um dos melhores jogos da minha carreira. Eu destruí os caras”.

Não apenas isso, mas a passagem pelo futsal foi importante para sua formação como atleta de esporte eletrônico principalmente seu primeiro técnico. “O Gama era um cara muito rígido, que me cobrava muito, mas que também me dava muito carinho e me fazia me sentir muito importante. Esse trabalho que ele fez surtiu efeito na minha carreira dentro dos esportes eletrônicos”.

“Você ter noção de equipe é fundamental para qualquer esporte. O futsal me ajudou muito a ser competitivo. Eu odiava perder, sempre odiei. Isso veio do futsal, das partidas que joguei”, explica Taco.


No futsal, Taco viveu o sonho de vestir a camisa do clube que ama, Sport Recife, e até realizou o feito de “calar os Aflitos” Reprodução / Eleague

DO FUTEBOL PARA O COUNTER-STRIKE,

Se o futsal foi o alicerce para transformar Taco em um atleta, seu irmão foi fundamental para ele se tornar o astro que todos conhecemos no Counter-Strike. “Minha caminhada no CS começou quando era muito pequeno. Meu irmão e meus primos jogavam a versão 1.6, só que como eu era muito pequeno eu não jogava e nem eles deixavam. Foi assistindo que comecei a tomar gosto pelo jogo”.

Mas o interesse pelo FPS mais jogador do mundo aumentou por conta de um momento difícil não só para Taco, mas também para os familiares. O jogo serviu para sair da realidade que era saber que a própria mãe foi diagnosticada com câncer em 2013, passando assim por momentos sombrios junto aos filhos. Um deles, conta o jogador, foi quando os médicos o contaram que “iam testar um antibiótico novo e se funcionasse, beleza. Se não, meio que já era”. O tratamento deu certo e hoje ela está completamente recuperada.

“O jogo apareceu nessa fase conturbada e serviu como válvula de escape. Consequentemente, meu interesse pelo futebol foi caindo. Eu não queria tanto contato com as pessoas e, por incrível que pareça, os jogos deram uma afastada. Entre treinar no ginásio e jogar uma coisa que me tirasse da realidade por algumas horas, eu preferi sair da realidade”, relembra.

Foi esta provação a responsável por Taco dar os primeiros passos no competitivo de Counter-Strike. A largada rumo ao topo da modalidade, segundo o próprio Epitácio, aconteceu numa das edições do ESEA Open no Brasil: “Joguei o primeiro campeonato online do País e, nessa época, já me divertia bastante com meus amigos, mas não era tão bom”.


Luta da mãe, Marília, contra um câncer foi responsável por Taco se interessar pelo CS, usando o jogo para fugir da realidade Arquivo pessoal

Apesar de ter conhecido o Counter-Strike pela saudosa versão 1.6, Taco se intitula como “cria” de Global Offensive: “Eu sou CS:GO total. O CS 1.6 não teve influência para eu jogar o CS:GO porque no 1.6 eu era extremamente amador. Eu jogava mais para me divertir por mais que meu lado competitivo estivesse aflorando”.

Taco fala sobre o Afterall Gaming, o primeiro time a dar uma oportunidade ao jogador. Na formação estavam nomes conhecidos no cenário nacional, como o místico Rodrigo “r0” Souza (ex-integrante do MIBR). “A gente pode chamar de primeiro time de expressão, mas expressão perto do que eu era na época. Foi o primeiro time que tinha um nível competitivo, por menor que fosse na época”, conta.

Aos poucos Taco foi ganhando destaque em campeonatos menores e, quando nem imaginava, recebeu convite para defender uma das tags mais históricas do competitivo brasileiro, o semXorah (sX). O episódio foi marcante para Taco por dois motivos: Além de ser um sinal de que ele estava trilhando no caminho certo, foi nesta época que o jogador começou sua parceria com coldzera.

“Eu estava jogando bem alguns campeonatos e treinos, e um dia me chamaram para entrar no sX. Na época, eles tinham no elenco jogadores que eram do Source. Aí me chamaram pra fazer um teste e quem estava comigo era o cold”, relembra.

Foi nesta época também em que o entry fragger ficou frente a frente com o lendário cogu, momento o qual relembra com gosto: “Quando eu comecei a me dedicar, eu estava jogando um DM para treinar e o cogu estava me xingando muito no microfone, me chamando de cheater. E tratava-se de um jogador que eu sabia que era bem tenso. Na época, o cogu era um dos melhores do Brasil. Isso, querendo ou não, me deu um pouco de confiança. Me deu um boost. Foi quando eu pensei ‘Tá chorando pra mim, mas eu não estou cheatando. Devo ser bom mesmo’”.

Mas não demorou muito para Taco provar seu valor presencialmente. Foi em 2013, numa das lan houses paulistanas que mais apoiaram o CS:GO nos primórdios da modalidade, a L.G.X, que o jogador, mesmo sem poder comparecer ao confronto final, soltou o grito de campeão. Atuando pelo Team TBA, junto a fer e outros nomes conhecidos do 1.6, o recifense conquistou a 1ª LGX Cup em São Paulo.

“Chegamos na final, que foi contra ProGaming.TD. A gente se classificou para a decisão vindo da repescagem. Lembro que jogamos um jogo contra o TD e a grande final foi contra eles de novo. Mas como o campeonato atrasou e eu tinha comprado uma passagem num horário muito ruim, acabei não podendo jogar a final. Aí chamaram o KHTEX e mesmo assim conseguiram ganhar do time do FalleN na época”, relembra.

Esse título, de acordo com Taco, é um dos mais importantes da carreira porque “foi a primeira vez que eu senti o gosto [de ser campeão]. Eu recebi a premiação, que foi R$ 150 reais pra cada um, e eu lembro que nesse campeonato meu mouse quebrou e usei esse dinheiro pra comprar outro mouse, basicamente”.

Apesar da competição disputada em São Paulo ter rendido frutos em relação ao pessoal, para o semXorah, em si, a LGX Cup não fez tão bem assim. Segundo Taco, “logo depois desse campeonato a gente tentou manter o time, mas aí cada um foi para um lado e eu fiquei sem time. Foi quando me juntei com o cold, que tinha voltado a jogar CS, e montamos uma line junto com fv, DmZx e Lul4”.

O jogador fala com carinho dessa formação porque os outros três integrantes eram “mais cascudos e ensinaram bastante a gente em relação a experiência, jogar presencialmente. Foi uma passagem bem legal jogarndo com esses caras. Foi bem importante para a nossa evolução. Foram caras bem legais no começo. Por mais que a gente tivesse talento, eles tinham paciência de ensinar”.


Ao lado de cold, Taco iniciou a carreira e obteve as principais conquistas. RFRSH / Blast Pro Series

TACOLD: DA DEX PARA O MUNDO

Bebeto e Romário, Shaquille O’Neal e Kobe Bryant, Tom Brady e Rob Gronkowski são exemplos de duplas que fizeram história nas respectivas modalidades tradicionais que competiram. Quando se fala de parceiros que tiveram sucesso nos esportes eletrônicos, não tem como não citar Taco e coldzera.

A primeira lembrança que vem a cabeça de Taco sobre a parceria com o cold é o treino que fizeram juntos para entrar no semXorah: “Nesse treino a gente mandou muito, destruímos os caras. Aí os caras resolveram nos manter e entramos juntos no time”

“Nessa época a gente era muito pronet, mas éramos porque não tinha campeonato presencial. Não tínhamos a oportunidade de jogar na LAN. Como éramos jogadores desconhecidos, como ninguém conhecia a gente, éramos considerados pronets, os famosos ‘danets’. Falavam que eu e o cold éramos ‘xitados’”, relembra Taco, rindo.

Diferente do que muitos pensam, a ida de cold para a Luminosity não foi a primeira abreviação na história da dupla. “Quando aconteceu o primeiro presencial de CS:GO no Brasil, o sX não pôde ir e nessa época o cold decidiu parar de jogar para se dedicar ao League of Legends”, revela Taco, que aproveita pra falar que o companheiro estava mandando bem no título da Riot Games.

“Eu ia todo dia no privado dele falando: ‘cara, não faz isso, vamos jogar CS….cold, vem para o CS’ e ele me respondia mandando eu parar de encher o saco dele e que não ia parar com o LoL”, conta

De acordo com Taco, “basicamente o cold só voltou para o CS por causa de mim. Eu insisti, enchi o saco dele para gente voltar a jogar junto porque quando jogávamos, arregaçávamos todo mundo. O tacold surgiu já nessa época. Mandávamos bem juntos desde o sX”.

Epitácio lembra também do momento em que cold o avisou que estava deixando a Dexterity para defender a Luminosity nos Estados Unidos: “Foi engraçado porque estávamos dominando o Brasil quando a KaBuM.TD kickou o zqk e chamaram o cold. Lembro que fiquei muito triste na época e assumo que quando o cold veio falar comigo, disse pra ele não ir. Foi uma resposta ruim porque foi egoísta”.


TACOLD: Momento da união dos amigos inseparáveis no início do cenário de Global Offensive Games Academy

Taco afirma que os dois brincam sobre o episódio porque cold “sabe que [minha reação] foi compreensível já que naquela época o nosso time era tão bom e estávamos tão perto de atingir os objetivos e agora ele vai sair, vai ser uma grande perda para o meu time. Foi aquele não de desespero”.

Sobre a parceria que tem com cold, Taco afirma que “é muito estranho explicar. Existem coisas na vida que você não explica. Em questão de personalidade eu e o cold somos bem diferentes, mas a gente pensa muito igual para diversas coisas e acaba que sabemos lidar com as circunstâncias da vida”

“Você jogando, olhar para o lado e ver um cara que você confia não só no jogo, mas também na vida. Você faz a sua [função], faz a dele. Vai tentar fazer o cara fazer a dele, fazer com que o cara dê o seu melhor para ajudar o seu parceiro. Com certeza nosso desempenho dentro de jogo, a parte que acontece fora ajuda bastante”, explica.

Nem mesmo a personalidade explica de cold fez a parceria com Taco estremecer. “Ele é um cara bastante explosivo, que demonstra muito os sentimentos, enquanto eu sou um cara mais na minha. Totalmente o contrário”.

Taco fala ainda sobre dois episódios que o faz lembrar do “tacold”. A primeira foi numa edição de ESL Pro League, a qual o time ganhou e ambos receberam prêmios individuais: “Ele foi o MVP pelo HLTV, enquanto eu fui escolhido o MVP pela ESL”.

Já a outra lembrança foi quando cold recebeu o “Oscar dos games” em 2016. “Eu fiquei muito emocionado quando ele recebeu o The Game Awards. Estávamos em Atlanta jogando um torneio e ele teve que pegar um vôo para Los Angeles só para receber o prêmio. Lembro quando o Michael Phelps falou o nome dele e eu quase chorei de vê-lo recebendo esse prêmio porque eu sei o quanto ele se dedica”.

“Da Dexterity para o mundo”. Esse é o lema do “tacold”, de acordo com Epitácio. “Sempre falava isso para o cold. Crescemos juntos e, de fato, a gente saiu da Dex para o mundo. Hoje somos conhecidos no mundo todo. Temos uma carreira de bastante sucesso e, o que é mais legal nisso, é que a gente tem bastante vontade para continuar vencendo. Ainda não acabou. Temos bastante vontade e queremos conquistar bastante coisas juntos”.

Emocionado, Taco termina dizendo que, “sem dúvida, o cold é um cara que não importa o que acontecer no CS, ele vai participar da minha vida pessoal sim. Sem dúvidas”.


Junto aos companheiros da NTC, Taco venceu o Golden Chance e com isso veio a primeira oportunidade de morar e competir nos EUA. Games Academy

CHANCE DE OURO

O dia 2 de agosto de 2015 está imortalizado na carreira de Taco. Isso porque foi nessa data que o jogador conquistou a tão sonhada oportunidade de poder competir nos Estados Unidos ao vencer a Golden Chance, competição promovida pela Games Academy.

Na ocasião Taco estava atuando pela Dexterity ao lado de cold, Lucas1, Hen1 e prd – Felps tinha passado pela line, porém não tinha se encaixado -, e a conquista foi rodeada de incertezas.

A começar pelo desligamento da Dex: "Quando a gente chegou pra passar a notícia para a Dex, sobre a Golden Chance, o responsável pela organização falou 'não é justo eu continuar dando suporte pra vocês, sendo que vocês vão jogar um campeonato e, se vencerem, vão assinar com outra organização'. Mas de boa fé, a Dex nos liberou a gente e a gente ficou sem organização. Foi quando a gente usou a NTC só como tag mesmo".

Houveram também as mudanças na formação. A primeira, pensada, envolvendo a saída de prd para a entrada de fnx. Já a outra foi forçada, sendo consequência da ida de cold para o Luminosity

“Antes da Golden Chance, a gente estava ganhando tudo no Brasil e chegou num ponto que, mesmo ganhando, resolvemos fazer uma mudança porque queríamos ficar melhores ainda. Foi na época que a gente tirou o prd e botamos o fnx, que estava focado e se dedicando bastante”, conta

Para o lugar de cold, zqk foi a primeira opção. Porém, a negociação acabou não dando certo.“Eu cheguei e mandei uma mensagem para ele, que respondeu: ‘bom, seria legal jogar com vocês, mas vou passar férias com a minha namorada e depois quando voltar a gente vê’. Lembro que nessa época fiquei um pouco chateado, aí fui para o meu ‘plano B’ que era o SHOOWTiME. Era mais viável porque, além de jogar muito bem, ele fazia parte do time que era o único que poderia bater a gente no Golden Chance”, relembra.

A primeira aparição do Não Tem Como (NTC) aconteceu no Rio de Janeiro para a disputa da segunda edição do R1se Cup. A competição, segundo Taco, era primordial para a participação do quinteto no Golden Chance, mas que quase acabou com o sonho de todos.

“Quando a gente foi para a R1se, nosso planejamento era: ‘a gente não tem mais organização para bancar as passagens, a gente não tem mais dinheiro. Então, precisamos vencer a competição e ficar com o prêmio de R$ 3 mil. Vamos pegar esse dinheiro e todo mundo viaja para São Paulo e nos mantemos lá”, narra

O objetivo de conquistar o torneio foi alcançado, mas a segurança financeira por causa da premiação não veio: “A gente venceu o campeonato, mas não teve premiação. O prêmio não poderia ser pago na hora. Resumidamente, não tinha dinheiro”.

Foi então que uma outra faceta de Taco surgiu para todos: o de ser bom com as finanças. “Na época eu era o capitão e o mais organizado financeiramente. Eu tinha um dinheiro, literalmente um dinheirinho dentre R$ 500 e R$ 1 mil. Aí lembro que cheguei no hotel e contei a todos que a premiação não ia ser paga. Na hora do desespero, pegamos um caderno e olhei para cada um dos moleques e perguntei ‘quem tem dinheiro aí’. Juntamos tudo e ainda faltava bastante”, relembra.

Mas a possibilidade de não jogar o Golden Chance nunca foi cogitada: “Sempre tive na cabeça que a gente ia dar um jeito de ir para São Paulo. Se tivesse que dormir na rua, eu iria dormir. Se tivesse que ir de bicicleta, eu iria. Eu ia jogar a Golden Chance de qualquer jeito. Só não jogaria se eu quebrasse os braços ou morressem”.


Dead e Zews foram quem socorreram Taco no momento em que o jogador mais precisou e também aqueles que estiveram junto com o recifense em algumas das maiores conquistas. Divulgação

Quem salvou o NTC foi Dead. Taco conta que, ainda no Rio de Janeiro, mandou uma mensagem para o então gerente do Luminosity “explicando tudo e pedindo ajuda. Ele respondeu ‘não se preocupa, vocês vão para a competição’. Ele perguntou o quanto tínhamos e depois falou que íamos para a casa Zews. Eles eram muito amigos. O dinheiro que tínhamos deu para comprar as passagens de ônibus”.

Só em ouvir a voz de Taco quando o assunto é o Golden Chance, é possível perceber o quanto o torneio era importante para o jogador: “Era tudo ou nada. Eu tinha gasto tudo o que eu tinha. Fiz tudo que eu podia. Larguei uma organização de lado que, querendo ou não, pagava um salário. Se eu perdesse esse campeonato eu voltaria para casa com uma mão na frente e outra atrás. Era literalmente tudo ou nada pra mim. Demos o sangue nesse campeonato”.

As emoções não acabaram nem mesmo quando Taco e os companheiros subiram ao pódio para comemorar o título. “Foi muito apertada essa final”, descreve sobre a vitória do NTC sobre o rampageKillers por 3 a 2 de virada. “O lado emocional fez ser assim por tudo o que a gente passou. Depois do ‘gg’ foi só lágrima”, relembra o jogador.

Segundo o recifense, após o título “um filme passou na cabeça assim que a gente levantou para comemorar. Durante a final, lembro que a gente teve um começo bem ruim. Um dos PC deu problema e, com isso, rolou uma pausa. Nessa pausa eu senti que deu para a galera dar uma respirada, principalmente o SHOOWTiME, que era novo e nunca tinha jogado na LAN e tava enfrentando o ex-time. Foi esse tempo que a gente usou para conversar. Essa pausa deu um up na gente”.

A mãe que não sabia que Taco tinha ido para São Paulo disputar o Golden Chance foi a primeira a saber sobre a conquista. “Eu falei: ‘mãe, deu certo. Estou indo morar nos EUA’. Ela ficou muito feliz na época por mim. Ela ficou bem feliz pelo fato de eu estar feliz, ela sabia que eu tava conquistando algo muito importante pra mim. Eu já levava o CS muito a sério, tão a sério que, se eu perdesse um campeonato, eu ficava muito abalado. Nessa época eu vivia pra jogar e jogava pra viver”.

Do Brasil, Taco foi para os EUA junto com seus companheiros de equipe. De lá, foi caldicana em todos os continentes do globo, com destaque para a Europa onde os principais torneios de sua carreira foram conquistados. Dalton Cara/ESPN

DOS EUA PARA O TOPO DO MUNDO

Junto aos companheiros de NTC, Taco foi para os Estados Unidos para representar as cores da Games Academy. A adaptação ao cenário americano foi quase que instantânea, com o time em pouco tempo conseguindo bater de frente com as principais equipes da região.

Provocações sofridas num treino contra o cloud9 são as principais lembranças de Taco quanto ao início da caminhada em solo americano. “Um dos jogadores deles ficava escrevendo de forma irônica ‘Taco, qual é sua resolução? Qual é a sua sensibilidade? Você pode passar a sua mira? Aí quando ganhamos deles, esse mesmo jogador falou ‘parabéns, você quer um bolo para comemorar?’. Eu pensei, ‘tudo bem, não vou me importar’. Achei escroto, lógico, mas fazer o que?”, relembra.

Boas atuações e alguns títulos conquistados fizeram com que Taco chamasse a atenção da Luminosity. Os primeiros boatos, de acordo com o jogador, começaram já no segundo mês de Games Academy.

“Já rolava muito boato. Se você parar para pensar, o meu tempo na GA foi muito curto. Passei três meses no time. Em algum momento, eu passei a perceber que eu ia entrar na LG. Primeiro porque todo mundo na comunidade falava que a LG tinha que pegar o Taco e o fnx; segundo porque eles estavam jogando mal e, por último, porque eu sabia que poderia”, revela

O primeiro flerte com o time liderado por FalleN aconteceu após o RNG Pro Series. Taco lembra muito bem desse campeonato por conta de uma smoke “roubada” ensinada por Zews que o ajudou a destruir campeonato, enquanto boltz não foi bem junto a LG.

“Os caras estavam muito insatisfeitos com o boltz, não queriam mais jogar com ele. Nesse mesmo campeonato eu usei essa smoke do Zews e acabou que destruí no jogo fazendo a função do Boltz. Quando aconteceu isso aí, no mesmo mesmo campeonato, o pessoal da LG chegou em mim e falou: ‘cara, você é o que a gente precisa’. Só falaram isso, mas não chegaram a me chamar pro time. Aí eu respondi, ‘pô, beleza’”, relembra.

Taco já competindo nos EUA vestindo a camisa da Games Academy, mais passo para sua caminhada vencedora. HLTV.org

Epitácio completa dizendo que, “depois desse campeonato, a gente parou para comer algo na estrada e os caras do meu time chegaram e falaram ‘Taco, você vai para a LG?’” e eu respondi, ‘tá louco velho? Ninguém me chamou não’. E de fato ninguém tinha chamado, mas todo mundo já estava desconfiado”.

Mas o convite não demorou a chegar, sendo ele feito após a eliminação da LG no IEM San Jose.“Nós estávamos assistindo um filme, quando o fer me ligou. Ele perguntou se eu e o fnx estávamos sozinhos. Aí eu respondi ‘não, mas posso estar’. Ele disse que queria falar com a gente e nesse momento eu já sabia. Fui chamar o fnx, que estava assistindo uma série e então dei um migué porque não podia chegar lá e falar que o fer queria falar com a gente”.

Taco ri relembrando o episódio. “Falei: ‘o Lin vem aqui no quarto, você é o maior bagunceiro. Vem aqui arrumar o quarto’. Ele respondeu:, ‘tá louco? depois eu arrumo isso aí’. Foi quando cheguei no ouvido dele e falei: ‘vem aqui rapidão, o bagulho é sério’. Aí ele foi pro quarto e rolou o convite oficial e aceitamos. O Zews também. Lembro que nessa noite eu não dormi, fiquei com o Zews conversando a noite toda”.

Foi vestindo a camisa do Luminosity que Taco chegou ao topo do cenário de Counter-Strike. Ao poucos, foi acumulando bons resultados em torneios disputados dentro e fora do País, primordiais para a construção da confiança para a disputa do Major.

Segundo Taco, ele e os companheiros sabiam o quanto eram bons, mas que “ganhar um Major foi surpresa até para gente porque a gente estava perdendo muito em finais. Tínhamos esse bloqueio em finais”.

“Era meu primeiro Major e você não espera que vá ganhar o primeiro Major. Tínhamos potencial para chegar na semifinal, mas ganhar era um pouco distante ainda. Mas aí aconteceu”, completa Taco.

Mousesports e Ninjas in Pyjamas foram as vítimas da Luminosity na Fase de Grupos, enquanto Virtus.pro e Liquid as equipes vencidas pelos brasileiros nas quartas e semifinal, respectivamente. Já na decisão, Taco e companhia bateram o Natus Vincere - um dos favoritos ao título.

O jogador revela que a LG “jogou essa final sem nenhuma pressão” porque o fato da equipe já estar na final do Major “era uma conquista absurda pelos adversários que enfrentamos até a final. Jogamos sem pressão e esse foi motivo para ganharmos tão fácil”.

“O Major foi o campeonato que mudou a minha vida”, afirma Taco, que completa dizendo que o título teve um gosto ainda mais especial por ter vindo logo após a morte da avó. Assim como na época em que a mãe estava adoecida, Epitácio utilizou o episódio de combustível para dar mais de 100% na competição.


Taco levantando o troféu do MLG Columbus, o primeiro Major conquistado ainda na época de Luminosity.Arquivo Pessoal

“Minha avó tinha morrido três semanas antes do Major e eu estava muito triste. Na época, lembrei que um dos motivos que me levaram a ser bom no CS foi quando minha mãe teve problema de saúde e eu pude afogar todas as minhas mágoas, minha raiva e minha frustração no jogo. Quando minha avó morreu, voltei para esse modo automático de ‘estou muito triste e vou descontar essa tristeza no jogo mais uma vez’. Eu queria ganhar muito para a minha avó, mas infelizmente ela não estava viva para me assistir ganhando esse Major”, conta.

Questionado se o restante do time sabia soube sobre o falecimento, Taco afirma que contou para o time. Mas o jogador deixa claro que “jamais aceitaria não jogar um Major por isso” já que “era um sonho estar ali e eu queria dedicar o Major para a minha avó, o que consegui”.

O título do MLG Columbus colocou a Luminosity na crista da onda, mas com o passar do tempo a equipe apareceu nas manchetes mais pela polêmica transferência para o SK Gaming do que pelos resultados em si.

Conforme revelado pela ESPN, em maio de 2016, os jogadores assinaram um contrato com a organização alemã, mas acabaram desistindo e optando por permanecer na LG. A mudança de organização, como revelou FalleN na época, acabou causando um racha no elenco e sendo considerada pelo Verdadeiro como "o maior erro da vida" do quinteto.

“Era tudo muito novo para gente. Não sabíamos muito bem lidar com as coisas. Recebemos uma proposta muito boa da SK na época, enquanto tivemos alguns problemas com a Luminosity também”, relembra Taco mostrando leve desconforto.

O jogador, contudo, deixa claro que a mudança “foi um passo importantíssimo para a nossa carreira” porque “a SK tinha um approach sensacional e era uma organização que tinha muita experiência. Era excelente para a situação que estávamos. Caiu como uma luva”.


Mesmo não tendo competido no CS 1.6, Taco sabia do peso que era vestir a camisa da SKHLTV.org

Apesar de ter começado a competir no Counter-Strike numa época em que a SK Gaming sequer estava presente na modalidade, Taco afirma que sabia o que a organização representava. “Eu sabia o peso que era vestir a camisa da SK e, sem dúvida, eu senti. Mas sabíamos porque estávamos lá. Sabíamos o quão grande a SK era”, aponta.

A estreia do quinteto brasileiro pela SK não poderia ter sido da melhor forma: num Major disputado na cidade natal do clube. “Para a organização, representava muito. Era um sonho que eles tinham, de ganhar um Major na própria cidade”, revela

Sobre a possibilidade de, mais uma vez, levantar o troféu de um Major, Taco revela que ele e os companheiros sabiam que poderia acontecer caso o time fosse bem na Fase de Grupos. “Chegamos no torneio, pegamos o grupo da morte e na nossa cabeça era: ‘cara, se passarmos desse grupo, vamos ser campeões do Major”, conta. Dito e feito. A SK não só superou os adversários da chave, como também todos aqueles que enfrentou no mata-mata.

Mas o ESL One Cologne não foi o único título conquistado por Taco vestindo a camisa da SK. Para se ter uma ideia, em 2017, o quinteto foi campeão de oito dos nove torneios nos quais foi finalista - um recorde na história da modalidade. O jogador sabe o tamanho do feito: “A história da SK no CS:GO se resume às nossas conquistas. Foi bom para os dois lados, mas com certeza a história do clube no CS:GO foi construída por nós, brasileiros”.

A edição 2016 do ESL One Cologne foi o segundo Major conquistado por Taco, mas agora pela SK Gaming HLTV.org

O COMEÇO DO FIM

Nem todas as lembranças de Taco junto ao SK são boas. Por duas vezes a equipe viveu má fase, sendo que na segunda vez o jogador foi escolhido como o “bode expiatório”. De forma categórica, o jogador afirma que “a comunidade ajudou a destruir o melhor time que já existiu na história do esporte eletrônico brasileiro. Sem dúvida, uma parcela da comunidade ajudou bastante [para a separação da formação]”.

E foi esta “perseguição” um dos motivos que o levaram a deixar o time: “O fato de eu ser o bode expiatório, o fato de ser basicamente a minha culpa foi me esgotando e criando uma dúvida na minha cabeça. Fui mudando muito como pessoa, me tornando mais negativo. Eu já aguentava há dois anos, sendo que rolava muitas coisas nos bastidores, Mas no final das contas não interessava o que estava acontecendo a culpa era sempre minha”

O jogador fala ainda que conseguia suportar todo o hate que recebia comunidade desde que “tivesse reconhecimento interno do meu time” já que “nunca precisei de reconhecimento público”.

“Enquanto eu estivesse feliz no ambiente em que estava, tava tudo bem. A galeria podia hatear, falar mal o quanto quisesse porque eu nunca quis esse reconhecimento público. Nunca quis alguém para me proteger publicamente”, afirma.

E foi num desses períodos de resultados inexpressivos que Taco acabou deixando a equipe. logo após as eliminações precoces na IEM e no WESG. “Na época eu já estava bem descontente com coisas internas. Depois da IEM tivemos um campeonato para jogar na China e minha cabeça já não estava tão boa. Eu já não queria estar ali mais e esse foi o momento que falei para mim mesmo que eu não ia me esforçar para mudar, mas se nada mudar eu to fora”, explica

Taco conta que após o compromisso na China conversou com o Dead e com o cold que “eu queria sair da equipe e que não estava mais me sentindo bem”. Foi também depois do WESG que o jogador procurou Zews a fim de saber se poderia ir para o Liquid: “Mandei uma mensagem perguntando se tinha uma vaga no Liquid e se o Liquid se interessava por mim”.

Questionado se pediu para sair do time apenas por conta das críticas recebidas, Taco deixa claro que não. O jogador traz à tona a rotineira acomodação que se instalava na equipe após sequência de títulos: “Depois do Major da ELEAGUE a gente tava sem confiança, caímos novamente no comodismo e eu fiquei cansado de tanta repetição, de tanto tanto comodismo que resolvi sair”.

Apesar de outras propostas, Team Liquid foi time que mais interessou Taco após deixar SK. HLTV.org

EU QUERO É O LIQUID

“O Liquid foi o primeiro time que veio na cabeça”, afirma Taco. O jogador, contudo, fala que recebeu propostas de outras equipes, tanto dos Estados Unidos, como também da Europa.

Por não querer causar alvoroço, Taco faz jogo duro e prefere não revelar o nome dos interessados. “Acho que a única [proposta] que se tornou pública foi a cloud9. Rolaram boatos que eu estava indo pra lá. Cheguei a treinar uma semana com eles, que queriam me comprar. Tiveram conversas para o pagamento do meu passe, mas minha opção foi pelo Liquid”, conta

A presença de Zews no Liquid foi primordial para Taco porque “iria me ajudar a adaptar ao time”. O jogador revela que “o que me fez entrar no Liquid foi que a equipe estava numa fase boa, estavam numa evolução constante e a função que o Stewie2k desempenhava na época era a mesma da minha”.

“Eu sabia que eu seria um upgrade. Eu sabia que, com a experiência que eu tinha, com meu currículo e minha liderança, eu iria conseguir fazer o Liquid melhor. Essa convicção estava na minha cabeça o tempo todo. [O Liquid] foi minha primeira opção por mais que levei em consideração todas as outras. Era a equipe que eu realmente queria entrar”, afirma

Apesar de estar convicto de para onde queria ir, Taco sabia que a negociação não seria simples porque, conforme Zews explicou na tal ligação, o Liquid já havia feito muitas mudanças naquele ano e também porque “eu não era um jogador barato. Por conta disso, ele não me garantiu que estava dentro, mas deu a certeza que iria fazer todo o esforço necessário”.

Quando interpelado sobre o que faria caso o Liquid não pudesse comprá-lo, Taco responde que “a minha segunda opção seria o time europeu, mas que, como eu não queria sair dos EUA, eu entraria para o cloud9”.

Liberdade é a palavra que Taco usa para descrever o que sentiu quando chegou ao Liquid: “Eu estava muito feliz. Primeiro porque eu sabia que eu ia melhorar o time deles e, segundo, porque eu tinha me livrado de todos os problemas que vivi na SK. Além do que, a estrutura oferecida pelo Liquid e a confiança que a gerência me deu foram muito importantes para mim. O respeito que os jogadores tinham por mim, isso tudo me deixou muito motivado”.


Vestindo a camisa do Liquid, Taco reencontrou a alegria de jogar Counter-Strike . Divulgação/Team Liquid

De fato com a chegada de Taco o Liquid melhorou de nível e começou a figurar entre os melhores times do mundo. Para se ter uma ideia, o brasileiro entrou na equipe quando a mesma ocupava a nona colocação no ranking promovido pelo HLTV.org e a deixou no ‘Top3’ em dezembro de 2018.

“Eu estava num dos melhores momentos da minha carreira, individualmente falando. Estava muito bem e muito feliz jogando. Isso estava sendo traduzido dentro do servidor e eu estava num nível bem bom na época”, expõe.

“A minha entrada no Liquid foi o ‘breakpoint’”, relembra Taco. “Foi exatamente o que o time precisava para subir de nível. Além da parte referente a dentro do jogo, eu trouxe muito a mentalidade vencedora, de como tem que agir outgame e de como melhorar em equipe. Trouxe essa parte mais aguerrida, mais brasileira. Quando entrei no Liquid já entrei com a mentalidade de que era o mais experiente, o mais velho”

Mas o sucesso do Liquid com Taco não significa que o brasileiro conquistou muitos títulos junto ao time. A “seca”, contudo, foi muito por conta da fase vivida pelo Astralis. Os dinamarqueses foram algozes da equipe de Epitácio em seis decisões.

“Se não fosse a Astralis….”, lamenta o jogador, que completa afirmando que não faz “ideia do que faltou. A gente chegou muito perto várias vezes, mas não conseguimos conquistar o título”.

Foi no sexto mês defendendo a organização norte-americana que Taco sentiu que a passagem pelo Liquid não ia durar muito. Primeiro porque nessa época o brasileiro voltou a ser sondado por um clube europeu, proposta esta que o balançou: “Conversei com a direção da Liquid sobre sair e uma das razões foi porque a gente não conseguia vencer nas finais”.

“Nunca descobri o motivo desse bloqueio [de vencer finais], mas era uma coisa que me chateava muito e até hoje não descobri o porque”, afirma

Analisando o tempo em jogou pelo Liquid, Taco fala que, “apesar de não ter sido vitoriosa em termos de troféus, minha passagem foi vitoriosa para minha vida e para os jogadores que estavam lá. O ano de 2018 não foi o meu melhor em relação a títulos, mas foi um dos melhores anos da minha vida em relação a aprendizado.”

“A minha trajetória no Liquid foi maravilhosa, uma das melhores coisas que aconteceram na minha carreira. O Liquid fez tão bem pra mim, quanto eu fiz para a organização. Não existe dúvida em relação a isso”, complementa.


Mais uma vez Zews foi peça importante na carreira de Taco. Apenas se o treinador também fosse contratado, o jogador aceitaria voltar a jogar ao lado de FalleN e companhia, agora pelo MIBR HLTV.org

VOLTO, MAS SÓ SE FOR COM ZEWS

Foi na fase final da oitava temporada da ESL Pro League que Taco decidiu deixar o Liquid. Neste campeonato, o brasileiro foi responsável direto pela eliminação do MIBR após vitória nas semifinais.

O jogador revela que a primeira conversa sobre voltar a atuar junto aos ex-SK foi com Dead: “Minha primeira reação foi um pouco contrária, mas fui amadurecendo a ideia e, no final, resolvi que eu queria voltar para casa. A vontade de voltar para minhas origens falou mais alto”. Mas de acordo com Taco a ida para o MIBR dependia também da contratação de Zews: “Deixei claro que não iria sem ele”.

“Eu estava muito feliz no Liquid, para ser bem sincero, e me reencontrei lá. Aumentei meu nível absurdamente como jogador e profissional. Não tinha motivos para sair do Liquid e, inclusive, cheguei a recusar várias vezes propostas do MIBR. Mas no final do ano pensei bem e conversei bastante com o Zews, e decidimos voltar. Acreditamos no projeto e nos jogadores que estavam aqui”, afirma.

Taco completa dizendo que “é uma sensação totalmente diferente quando você joga por um time do seu País, quando você representa a sua bandeira. É uma sensação totalmente diferente”.

O fato de nunca ter cortado laços com FalleN, fer e cold pesou na decisão de aceitar a proposta do MIBR, segundo o jogador.

“Nossa relação foi uma coisa que nunca mudou. Quando eu sai da SK, continuamos nos falando. Esses caras são os caras com os quais conquistei as melhores coisas da nossa vida. Fomos campeões mundiais duas vezes e vencemos outros diversos títulos. Pudemos ajudar nossa família financeiramente. Conseguimos coisas indescritíveis até para o cenário brasileiro. Não tinhacomo sair do time e mandar um ‘valeu, falou’. Impossível”.

Numa das muitas tratativas que teve com os antigos companheiros sobre o retorno da formação brasileira, “as coisas do passado” foram abordadas e “chegamos num consenso que me fez voltar. Conversamos sobre cada uma das coisas que não gostávamos, tipo uma intervenção”.

“O Liquid fez todo o esforço possível para me convencer a ficar. Tanto a organização, quanto os jogadores queriam muito que ficássemos. Porém, pelo respeito que tinham por nós dois, em nenhum momento o clube travou a negociação. Eles foram justos o tempo todo, tentaram de tudo, mas quando viram que nossa vontade como ser humano, uma coisa relacionada a família e ao time do próprio país, falaram que iam fazer acontecer e fizeram”, conta.

: Poder vestir a camisa que carrega a bandeira do próprio País foi importante para Taco aceitar a proposta do MIBRHLTV.org

Mas para Taco, a transferência “foi melhor para o Liquid do que para o MIBR”. Na visão do jogador, “foi melhor para o Liquid no final das contas porque eles me compraram por um valor na época e o MIBR adquiriu o Stewie2k por uma quantia maior. Quando o Liquid me trocou, basicamente, conseguiu um jogador barato por um mais caro”.

Apesar dos dias turbulentos que marcaram o fim da passagem na época de SK, Taco fala que ficou motivado em voltar a jogar com os velhos companheiros pelo MIBR “porque, primeiramente, eu estaria com o Zews ao meu lado e também porque eu vi que a cabeça da galera tinha mudado bastante”.

Mesmo sabendo que o hate que sofreu no passado iria voltar, Taco aponta que voltar a atuar com os ex-SK “foi uma grande lição as pessoas que me criticavam. Foi uma lição gigantesca porque não é um jogador, é uma equipe. Não são stats, mas sim quem está trabalhando na equipe”.

Lúcido, o jogador não compara as críticas que recebeu nesse ano as do passado. “Não tem nada comparado com o que eu sofri em 2016 e em 2017. Mesmo a gente ganhando todos os troféus e sendo o melhor time do mundo, para parte da torcida eu era o pior jogador que já existiu no Brasil.

“Todo mundo estava bem motivado a voltar a se comunicar em português e em voltar a jogar entre amigos. Independente de qualquer coisa que aconteceu, sempre fomos muito próximos. Então, tava todo mundo bem motivado para reeditar essa parceria”, conta.

Apesar do início de Taco pelo MIBR ter sido com o pé direito, terminando o primeiro Major da temporada entre os quatro primeiros, nos meses seguintes o nível da equipe caiu absurdamente e problemas foram escancarados até a surpreendente saída de cold.

O jogador reconhece que, “infelizmente, as coisas não deram certo e os resultados provam um pouco disso”. Taco, contudo, afirma que “não seria justo apontar dedos para um ou para outro. É um time e temos que ganhar ou perder como um. Não foram seis meses em vão, chegou num momento que tudo serviu de aprendizado”.

Taco diz ainda que o próprio nível de jogo caiu e “alguns problemas que aconteceram em 2018” voltaram, o que o decepcionou: “Quando decidi sair, não estava mais feliz e eu não queria mais estar naquele ambiente. Quando voltei, essas coisas voltaram a acontecer e isso me deixou muito decepcionado porque, como falei antes, eu tinha zero motivos para sair do Liquid”.

“Chegamos num ponto que não tem muita coisa para ser feita. O momento é de reestruturação. Vamos fazer tudo focado na equipe, no MIBR, no time e não no indivíduo”, exalta

Mostrando confiança, o integrante do MIBR finaliza dizendo que tem certeza "que a gente pode repetir os feitos da SK. Se eu não tivesse certeza, não teria saído do Liquid. Com o tempo a gente pode voltar a ser o melhor time do mundo. Os outros times também sabem disso, que se voltarmos ao nosso nível...". Taco nem precisa terminar a frase. Nós sabemos que essa história está longe de acabar - mas sempre regado a um caldicana e, quem sabe, um pastel.


Gabriel Melo Escreve sobre esportes eletrônicos para o ESPN Brasil. Acompanha o cenário competitivo desde 2006, graças ao mundial conquistado pelo MIBR, e sonha em ver o Brasil indo bem internacionalmente no LoL