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"KOE" – Rexpeita o Pai

Marrento, mas com coração de ouro, brTT conta sua história no mundo dos esports e como se tornou o maior ídolo de League of Legends

Todas as manhãs, uma enxurrada de “Koe” aparece na minha timeline do Twitter. Pessoas de todo canto do Brasil o seguem e idolatram. São mais de 830 mil seguidores na rede social que o chamam de "Pai" e o "rexpeitam" como tal. A "Filharada" segue suas mensagens de incentivo a praticar exercícios físicos no Instagram, já derrubou sites de transmissões ao vivo e, claro, compra os bonés, camisetas e outros artigos em sua loja.

Hoje, brTT está em pleno auge e a apenas algumas horas de pisar no palco de mais uma final do CBLoL, a sexta de sua carreira. O atirador do Flamengo eSports é um dos raros casos de unanimidade no cenário competitivo de League of Legends e deseja arduamente voltar a pisar em um palco internacional — desta vez vestindo a camisa que estampa o escudo CRF no lado esquerdo do peito, assim como muitos outros ídolos do clube fizeram antes dele em outras categorias, principalmente no futebol

"Eu me espelho bastante no Romário, porque ele jogou no Flamengo", diz brTT em uma rara ocasião que cedeu uma entrevista longa. “Quando perguntam, eu sempre falava que era o Romário, que fica na área para marcar o gol. Todo mundo sabe a lenda que foi o Zico no Flamengo, o que ele representou. Eu fico entre esses dois, com esse sonho de quem sabe representar a Nação como os dois representaram”.


brTT começou sua carreira de atleta em Warcraft III, Dota e Counter-Strike: Source. “desde essa época eu já meio que me destacava”, conta

OS PRIMÓRDIOS

Mas, antes de chegar a esse ponto, Felipe Gonçalves da Rocha, o carioca que hoje tem 28 anos, perseguiu a carreira de esportista desde sua adolescência. “Por mais que eu tenha tido uma infância bem movimentada na questão de sempre estar praticando esporte: surf, futebol, skate -, eu sempre tinha um meio termo e frequentava as lan houses desde muito novo, e desde essa época eu já meio que me destacava”, relembra.

O jogador afirma que desde aquela época tinha o sangue competitivo correndo em suas veias. “Não sei como, mas eu sempre jogava contra pessoas mais velhas. Eu tinha 14 e jogava contra os caras de 20, 18 anos, e eu sempre saía vitorioso. Então desde muito novo meus amigos falavam que eu tinha um diferencial, que eu tinha o dom para aquilo”, conta. “A partir desse momento eu passei a jogar jogos que tinham mais a questão do competitivo, mesmo. Eu sempre fui muito competitivo. Tudo que eu jogava, sempre queria ser o melhor, então eu comecei a jogar uns jogos que tinham campeonatos, comecei a participar deles, e foi aí que começou a paixão”.

A carreira de brTT começou ainda no Warcraft III, jogo de estratégia onde nasceu o Dota, o ancestral de League of Legends que ele chegou a disputar competitivamente. “Comecei a me destacar no cenário brasileiro. Eu sempre estive entre os melhores jogadores do Brasil”.

Então, chegou o Counter-Strike, e brTT passou a disputar torneios de ambos os jogos. “Por mais que eu gostasse bastante de jogar Dota, não tinha muitos campeonatos nas lan houses quanto de CS”, recorda. “Todo final de semana eu jogava campeonato de CS, viajava para todos os bairros do Rio para jogar campeonato, e acabou que eu estava competindo nos dois ao mesmo tempo”.

Ele não diz na entrevista, porém, em 2007, ele saiu da Vila da Penha e foi parar em diversos torneios internacionais nos EUA, França, Suécia e Alemanha. Não existem muitos relatos da época, mas muitos fãs do esport de então elogiavam a sua habilidade e domínio com Kunkaa e, principalmente, a dominância de seu clã, o Sadam Vai Ownar. BrTT também atuou pela Prime, FireGamers e CNB, sem falar que também defendeu a seleção brasileira em torneios sul-americanos.

No Counter-Strike, brTT também teve algumas conquistas, mas nada tão expressivo quanto no Dota. Ele chegou a disputar a IEM Global Challenge de Nova York e a World Cyber Games Brasil pelo semXorah, além de passar por times como a Imbalanced. Além disso, chegou a jogar contra e ao lado de grandes nomes do cenário, como FalleN, Bit, kNg e entre outros.

Mas quem conhece o cenário competitivo sabe que para atuar em alto nível é necessário dedicação e ser praticamente “monogâmico” com os jogos que atua. “Isso me fez ser kickado de um time porque eu estava faltando nos treinos para treinar outro jogo. Não estava dando pra conciliar muito bem. Eu gostava muito dos dois e não sabia qual escolher”, revela.

Em meio a tudo isso, surgiu o League of Legends e a responsabilidade da faculdade. Era muita coisa acumulada, e ele precisou se decidir. “Eu estava jogando Dota, CS, e não tinha uma remuneração muito boa, daí começa a bater a preocupação dos familiares. ‘Cara, o que vai ser do seu futuro? O que você vai fazer da sua vida? Você tem que focar na faculdade’”, relembra. “Foram batendo essas preocupações e foi aí que eu recebi um convite pra conhecer o League of Legends. Falaram que ia ter um campeonato gigantesco, que era a IEM em São Paulo na época, o primeiro campeonato de LoL”.


Uma das raras fotos do início de carreira, ao lado da paiN em 2013. brTT já era conhecido por ser marrento e muito bom como atirador

AMOR À PRIMEIRA VISTA

O campeonato que brTT menciona era a sexta temporada da Intel Extreme Masters, que aconteceu no início de 2012 durante a Campus Party. “Eu fui chamado em dezembro de 2011 [para a paiN Gaming], a convite do MiT na época. Ele disse ‘tá a fim de jogar LoL? Vai ter um evento muito grande, com premiação boa’. Acabou que eu topei. Não foi muito fácil, porque eu gostava muito de DotA e de CS, jogava profissionalmente, mas acabou que eu topei e, cara, eu me dediquei absurdos em dezembro e janeiro, porque o campeonato já ia ser em fevereiro”, conta.

Ele tinha pouco tempo para treinar e estar pronto para jogar diante de uma legião de campuseiros. “Quando eu soube que ia ter torcida, eu falei ‘cara, eu tenho que ter uma performance boa, porque vai ter plateia e é uma chance de eu começar a brilhar em outro jogo’”, afirma.

Mesmo se dedicando muito, veio um grande baque: “Eu me dediquei muito em dezembro e janeiro e, no comecinho de janeiro, recebi a notícia de que eles iam me tirar do time… O campeonato era muito importante, eu não tinha experiência e eles optaram por outro atirador na época, o Manajj, que já tinha mais experiência, já jogava há mais tempo. Eu fiquei bem chateado, pra não falar outra palavra”.

Isso, porém, não foi motivo para desistir de participar do torneio, e foi então que ele entrou para a Noob da Net, seu primeiro time “oficial”. “Eu já estava conhecendo algumas pessoas na solo queue na época, então comecei a chamar [a galera para jogar] e falei pra mim mesmo: ‘cara, eu não posso perder esse campeonato de jeito nenhum, me dediquei muito durante dois meses inteiros para jogar esse campeonato. Não importa se eles são o time favorito, eu acho que a gente tem condição’. Acabou que eu chamei quatro pessoas da soloQ e a gente chegou lá e ganhou de todo mundo”, lembra.

A primeira partida teve um gostinho especial, pois foi contra a paiN. “Eu me lembro até hoje, foi um jogo muito emocionante, quase teve briga, bastante gritaria, foi realmente bem intenso”, revela. Nesse momento da entrevista, brTT dá um sorriso se lembrando do ocorrido. “Foi uma história bem legal, eu ter acabado ganhando esse campeonato depois de ter sido kickado [da paiN]”.

A sensação de vencer o torneio em frente a um grande público foi boa demais para o atirador. “Então foi como se fosse amor pela primeira vista. Me apaixonei pelo jogo e estamos aí até hoje”, confessa.


Já na Keyd Stars, jogou ao lado dos dois primeiros sul-coreanos que chegaram ao Brasil, SuNo e Winged

PAI “MARRENTO”

O início de carreira de brTT trouxe também a fama de “marrento”, mas ele acredita que esse era mais um traço de sua origem. “A questão da marra eu diria que é mais um jeito dos cariocas. Não é porque eu sou um cara marrento, um cara escroto, é mais o jeito que eu tinha, e sei lá, a garotada curtia bastante o meu jeito. Tanto que a minha stream ficou bastante famosa na época e eu comecei a criar uma fanbase bem grande por conta desse meu jeito, que era bem diferente do jeito convencional da galera que jogava”, explica.

Hoje em dia, isso mudou um pouco. Em suas entrevistas recentes, percebemos que brTT não é mais o jogador que bate de frente com seus adversários nem discute pela internet. Segundo ele, isso se deve ao seu crescimento profissional e pessoal. “Hoje eu mudei bastante, eu cresci, amadureci muito, então não tinha como continuar sendo aquele brTT que gritava depois de toda kill, fazia graça… Hoje eu sou um cara muito mais focado e centrado na vitória”, crava.

A fama foi chegando e cada vez mais e mais seguidores começavam a acompanhar suas lives e redes sociais. Giuliana Capitani, a Caju, foi bastante responsável por isso, pois ela que começou a cuidar da imagem de brTT nas redes sociais. Logo em seguida, brTT começou a chamar seus fãs de “filhos”. “Quem deu essa ideia foi a Caju, de começar a me intitular como pai, porque eu vejo muito todo mundo que me acompanha, todo mundo que me apoia, como se fossem filhos pra mim”, lembra.

“Eu tento sempre passar a melhor imagem pra eles, sei que eu sou exemplo pra toda a garotada hoje em dia. A maioria que me acompanha se espelha muito em mim, quem sabe um dia se tornar o que eu fui um dia no esports, ou como profissional, então eu tento sempre passar o melhor pra eles, estar sempre dando conselhos e esperando que um dia eles sejam realmente muito bem sucedidos. Eu acho que é por isso que surgiu essa questão do pai, e a galera acolheu bastante, começou a me chamar de pai”, conta.

O atirador reconhece que os fãs são o combustível para sua carreira. Se hoje brTT é um dos jogadores com mais seguidores do Flamengo, muito disso se deve à interação entre ele e seus filhos. “Eu só tenho a agradecer, porque eu deixo sempre muito claro que se não fosse a filharada, eu não seria ninguém hoje. Por isso eu sempre fico muito feliz quando eles me chamam de pai, porque eu sei que, é claro, eu não sou o pai deles, mas tem esse reconhecimento, tem um carinho muito grande quando eles falam isso”, afirma.

“Acho que minha relação com os meus seguidores, meus filhos, é muito mais uma relação de pai e filho mesmo, e não só uma relação de streamer e espectador”, explica. “O streamer está ali para entreter, fazer graça. Eu estou ali mais para tentar passar uma imagem e tentar dar um conselho de como eles podem se tornar pessoas melhores e passando um exemplo de profissional bom, empenhado e dedicado. Se eles querem realmente ter sucesso na carreira, eles têm que se empenhar e se dedicar sempre, nunca desistir do sonho deles. Sempre tento ajudá-los da melhor forma possível, e eu acho que a nossa relação é muito mais de pai e filho do que streamer e viewer”.


Ainda na Keyd Stars, brTT não conseguiu chegar à final com o time estrelado. Foi uma decepção para quem acompanhava o cenário competitivo de League of Legends

FAMÍLIA

Mas se estamos falando de família, é claro que precisamos falar da sua relação com os seus consanguíneos. Quem entra no perfil do brTT no Twitter vê a mensagem fixada “VÔ, EU CONSEGUI!!!”, o que mostra a sua gratidão a uma das pessoas que mais apoiaram sua carreira. Seus pais, seu irmão e avós são parte intrínseca de sua história no mundo dos esports.

Lá no início, quando ainda jogava nas lans da Vila da Penha, Leandro, seu irmão, foi quem o acompanhava nos torneios da cidade do Rio de Janeiro. E seu avô foi quem trouxe um computador propício para jogar e fazer transmissões online. Pergunto para brTT como foi o apoio de seus parentes. Ele para um pouco, pensa e responde: “Sobre questão de apoio de família, eu nunca fui de reclamar e nunca vou reclamar sobre esse assunto, porque eu sempre concordo absurdamente por essa preocupação que os familiares têm — que foi a preocupação que meus familiares sempre tiveram. Eu acho que [ela] é sempre pensando no bem do filho deles, no bem da família, então eu concordo plenamente com todas as contestações que eles sempre fizeram, porque eu sei que sempre foi pensando no meu bem”.

Vale ressaltar novamente que a vida de um jogador de esporte eletrônico não se diferencia muito de um atleta de esporte tradicional. Para se dedicar à profissão, os jogadores têm que sair de casa ainda muito jovens e deixar de lado oportunidades como cursar uma faculdade. Os jovens talentos dos esportes, como no futebol, por exemplo, vão viver em centros de base, junto aos centros de treinamentos dos clubes. No esports, a maioria das organizações contam com Gaming Houses para alojar seus atletas. Isso garante que os jogadores se concentrem em aprimorar suas habilidades. Não foi diferente com brTT.

“Mas eles nunca tentaram me proibir de jogar ou coisa do tipo”, continua. “Eles sempre me davam conselhos tentando realmente fazer com que eu pensasse o que era o melhor para a minha vida. Acabou que eles ajudaram, porque eu realmente pensei o que era melhor para a minha vida e que era isso que eu realmente amava fazer. Por mais que sempre tivessem essas contestações, a maioria do tempo eles estavam do meu lado, eles estavam me apoiando, principalmente meu avô, que sempre estava do meu lado, me apoiando, querendo ver meu sucesso, e foi por conta dele que eu ganhei meu primeiro computador pra começar a fazer as streams”.

“Quando eu comecei a jogar League of Legends, eu vi que tinha uma galera fazendo stream e ele conseguiu me apoiar me dando esse computador, porque eu sempre joguei com um computador muito ruim em casa. Na época que eu jogava Dota e CS eu jogava com um computador que ficava em 5 fps nas teamfights, a tela simplesmente travava”, lembra. “Acabou que meu avô me deu esse computador, daí eu comecei a fazer as streams, comecei a crescer bastante. Na época que eu fazia stream na casa do meu avô e da minha avó, ela fazia misto quente, e essa live ficou bem conhecida. Então tudo começou graças a eles”.


Marca registrada de brTT, a frase “Rexpeita o rato” foi levado para o jogo - a primeira vez que isso aconteceu em League of Legends

REXPEITA O RATO

A carreira de brTT em League of Legends foi sendo construída e passou por altos e baixos. Em 2012, quando voltou para a paiN, disputou e venceu alguns torneios online como o Go4LoL. Isso garantiu ao clube uma vaga no Circuito Brasileiro de League of Legends, o antecessor espiritual do CBLoL (Campeonato Brasileiro de League of Legends).

BrTT se lembra com carinho dessa fase, principalmente da final contra a CNB. Os Canibais tinham acabado de contratar a escalação da Nex Impetus, com Leko, Danagorn, takeshi, manajj e Alocs. Essa formação estava a pleno vapor nos torneios online e eram tidos como os grandes favoritos para levar o troféu. “A gente não era os favoritos e conseguiu fazer uma final de 3 a 0… 3 a 0 não, 3 a 1, e tipo muito clean e com uma torcida que eu nunca imaginei que eu fosse jogar na frente”, recorda.

Eu estava lá acompanhando esse torneio e, realmente, a competição foi um marco para a história dos esports no Brasil. O WTC Golden Hall, em São Paulo, recebeu 3 mil pessoas para acompanhar as jogadas de brTT, espeon, Venon, SirT e Kami. A paiN perdeu a primeira partida, mas atropelou a CNB nas três seguintes.

“Foi um campeonato com uma estrutura realmente bem grande. A torcida era muito grande, e ver aquela vibração da galera com cada jogada... Na época eu era muito de puxar a galera para torcer, para vibrar. Ver que eles estavam correspondendo aquilo pra mim foi sensacional”, relembra o jogador.

Com o título, a paiN foi disputar o primeiro International Wild Card na Gamescom e, apesar de ter uma boa campanha, acabou sendo derrotada pela GamingGear.eu na grande final e perdeu a chance de participar do Mundial da época. Porém, nunca é demais relembrar que foi nesse mesmo torneio que brTT conseguiu marcar seu primeiro Pentakill em torneios internacionais.


Também foi mais ou menos nessa época em que o bordão “Rexpeita o Rato” surgiu.

“O ‘respeita o rato’ veio de uma stream que eu estava fazendo na casa do meu avô. A famosa stream. Eu estava jogando um jogo de Twitch e acabou que eu dei um pentakill e dei aquela famosa emocionada, que eu sempre dava na época”, brinca TT. “Soltei um grito ‘respeita o rato’ e todo mundo começou a mandar no chat ‘respeita o rato, rexpeita o rato, rexpeita. Foi daí que também veio a Rexpeita [a marca de street wear na qual ele é sócio junto ao irmão], que depois de tanto as pessoas mandarem ‘rexpeita’ no chat, com o X mesmo, porque eu sempre falei o S bastante puxado. Então, essa jogada nessa live foi meio que um marco na minha vida”.

Já que ele tocou no assunto, logo emendo: O que significa a Rexpeita pra você?

“Ah, cara, eu diria que a Rexpeita é meu maior orgulho, porque foi uma coisa que surgiu da minha carreira, do meu jogo. Se não fosse o jogo, sei lá, eu tenho certeza que a marca nem existiria. Claro, meu irmão que veio com a ideia na época da gente criar um boné com o nome Rexpeita porque a galera estava vibrando muito, spammando muito e acabou que a gente criou [a marca]. A gente produziu dois modelos de boné e, tipo, esgotou em dois dias. Muito rápido. Foi uma coisa que me surpreendeu muito e até hoje me orgulha muito poder ver o carinho e o quanto a galera gosta da marca. Para mim, eu diria que é meu maior orgulho”.

Não apenas isso, o bordão ganhou tanta notoriedade que a Riot Games incorporou a frase em League of Legends, quando Twitch recebeu uma atualização visual em 2014.


A palavra “Rexpeita” ficou tão ligada a brTT que virou sua marca de street wear

DO TOPO AO BANCO

Após a passagem pela paiN, brTT foi para a Keyd Stars em 2014. A equipe tinha formado uma escalação de verdadeiras estrelas, reunindo os maiores nomes do League of Legends brasileiro, como Mylon, Loop e brTT, além de importar SuNo e Winged. Sobre essa época, o atirador diz que aprendeu muito. “Eu tive a chance de jogar com dois coreanos ao meu lado e consegui trazer um título para a Keyd também, que é coisa que é bem difícil de acontecer, né?”, brinca “A galera cobra bastante, mas a gente conseguiu trazer aquele campeonato brasileiro [o título foi a Liga Brasileira - Série dos Campeões]. Eu diria que [a época] serviu de muito aprendizado e que vai ficar marcada, é claro”.

No ano seguinte, brTT voltou para a paiN e fez a melhor campanha que o Brasil já teve em torneios internacionais. “2015 foi o ano, o boom do cenário e para a minha carreira também”, comenta o atirador.

Com a vitória da paiN no CBLoL e no Desafio Internacional em cima da KLG, no Chile — casa dos adversários —, a equipe garantiu uma vaga no Mundial de League of Legends. Foi o momento mais brilhante da carreira de brTT até então. “Fora isso, o documentário da Riot, o Legends Rising, foi um marco da minha vida e minha carreira que eu sempre vou lembrar. Eu sempre me emociono muito quando eu assisto, porque aquilo ali foi realmente feito de coração. Eu acho que todo mundo que assiste se emociona bastante também por conta disso”, comenta brTT.

Ele sabia que precisava mostrar o seu jogo para o mundo. “Na época, eu tinha que me dedicar muito. Sabendo da visualização que estava tendo e de tanta gente que estava me apoiando, querendo ver o meu sucesso, eu tinha que me dedicar muito mais que os outros porque a cobrança era sempre maior. Acho que é por isso que eu me tornei, na época, o melhor ADC [do Brasil]”.


Campeã brasileira de 2015 no Allianz Parque, a paiN garantiu partiu para o Mundial de League of Legends e fez a melhor campanha brasileira em eventos internacionais

A participação da paiN foi marcada por ter sido a melhor campanha brasileira internacionalmente pois a equipe arrancou vitórias contra a Flash Wolves e a CLG, deixando a equipe com o resultado de 2 vitórias e 4 derrotas. Não se engane por esses números, pois, apesar de ter caído ainda na fase de grupos, as partidas em que perdeu não foram fáceis para os adversários vencerem a paiN. Até mesmo os sul-coreanos da Koo Tigers sofreram para derrotar a trupe brasileira.

Mesmo assim, a lua de mel de brTT e a paiN tinha chegado ao fim. No ano seguinte, em 2016, as coisas não estavam indo tão bem. “A gente estava tendo alguns conflitos de opinião, principalmente com o técnico na época, o MiT. Eu era uma pessoa que gostava bastante de argumentar, seja dentro ou fora do draft, sempre tentando bater cabeça, tentando ver o que era melhor para o time. O MiT sempre foi um cara muito autoritário e eu era a única pessoa que batia de frente. Acho que isso foi um fator muito importante para minha ida para a reserva. Mas é claro que tiveram outros motivos também”, conta TT.

Um deles era a vontade de brTT querer morar fora da Gaming House, algo que nunca tinha sido imaginado no cenário competitivo. “Na época eu estava começando a me mudar, eu ia morar com minha mulher, a galera não estava muito acostumada”, conta.

“Às vezes eu saía, acabava o treino e ninguém falava nada. Eu ia para casa e, às vezes, a galera ficava um pouco chateada com isso. As coisas não estavam sendo faladas para mim e acabou sendo um snowball de problemas, onde eu fui me distanciando. Um dia fui chamado e disseram que eu ia para a reserva e não me queriam na Gaming House”, diz o jogador. “É sempre um aprendizado”.

A ida de brTT para o banco de reservas foi um baque para o cenário competitivo. Como assim um CBLoL sem o principal atirador do Brasil? “Cara, como eu falei: é tudo uma questão de experiência que a gente leva para a vida. Eu não guardo mágoa de ninguém. É claro que na época eu fiquei muito chateado com muitas coisas”, conta. Porém, mesmo tendo sido uma fase chata, o atirador garante que não ficaram ressentimentos: “Ninguém guarda mágoa de ninguém, hoje está todo mundo tranquilo e são coisas que a gente vai levar como experiência”.


Do céu ao inferno: Logo após o Mundial, brTT foi para o banco da paiN. “É claro que na época eu fiquei muito chateado”, lembra brTT

No final de 2016, brTT foi para a Red Canids, um time formado por “renegados”, como o caso de YoDa que tinha sido contratado em março daquele ano e estava atuando como caçador, e tockers, que vinha da INTZ e também estava passando por um momento conturbado.

Foi dada largada no CBLoL 2017, um ano no qual ficou nítido que o nível do cenário nacional estava bem abaixo do normal, algo reconhecido por analistas, jogadores e jornalistas. Por ficar praticamente seis meses sem treinar, brTT dividia a rota inferior com Sacy e não tinha tanto destaque. A equipe elogiava o conhecimento trazido por tockers e a liderança de brTT, mas, mesmo assim, ele não jogava todas as partidas.

“Cara, eu diria que a passagem pela Red Canids foi meio conturbada. Eu não diria que estava em uma fase ruim. Diria que estava jogando muito bem, mas estava rolando de eu estar jogando na reserva. Estava substituindo com o Sacy e estavam rolando muitos conflitos fora de jogo na Gaming House, fazendo com que nosso entrosamento e meu jogo fossem bastante afetados”, relembra.

“Por mais que estas coisas tenham acontecido, a gente conseguiu sair com a vitória ainda no primeiro split, mas acho que a gente ganhou também porque o nível não estava tão alto naquela época. Deu para ver na final que foi muito fácil para a Red contra a Keyd. Foi uma época bastante conturbada, onde estava tendo muitos conflitos fora de jogo, na Gaming House. Eu diria que foi o que mais afetou o meu jogo”, conta.

No fim daquele ano de 2017, finalmente parecia que ia tudo mudar para melhor. BrTT estava recebendo uma proposta que mudaria sua vida: a chegada do Flamengo nos esports.


Formada por renegados, a Red Canids levantou o caneco na primeira etapa do CBLoL de 2017. Mais uma final para o “pai”

UMA VEZ FLAMENGO...

Em paralelo a tudo isso, o cenário competitivo de League of Legends vinha recebendo cada vez mais atenção da mídia tradicional por conta do forte investimento que a Riot Games havia feito nos anos anteriores. O League of Legends foi ocupando espaços que nunca tinham sido imaginados, como a grande final de 2014 no Maracanãzinho, a de 2015 no Allianz Parque, a de 2016 no Ginásio do Ibirapuera e a de 2017 no Mineirinho. Todas com ingressos esgotados em questão de minutos. Entretanto,foi a chegada do Flamengo no cenário competitivo que mudou tudo.

O Clube de Regatas estava de olho nesse filão e vinha fazendo um grande investimento e, principalmente, apostando em brTT, flamenguista de coração e que seria a ponte entre o Rubro-Negro e uma legião de torcedores que, talvez, nunca se interessariam pelo esporte bretão. Porém, existia um empecilho: o Flamengo queria conquistar seu espaço no CBLoL, não comprar uma vaga, como muitos times haviam feito antes, nem se associar a outros times como também já havia sido feito, como no caso da Santos.Dex ou da Remo Brave. Para isso, o Flamengo precisava subir do Circuito Desafiante e chegar ao CBLoL.

“Acabou que eu vim para o Flamengo porque me deram uma estrutura muito boa. Também sempre foi meu time do coração. Sou flamenguista fanático desde cedo, assistia todos os jogos com meu avô. É o que sempre falo: não é sonho, pois nunca passou pela minha cabeça representar meu time do coração nos esports”, conta.


Beijando o brasão do Flamengo, brTT mostra seu amor ao clube por quem sempre torceu desde criança

Questiono se a ida para o clube também estava relacionada ao fato de o Flamengo não adotar o sistema de Gaming House, e sim o de Gaming Office, no qual os jogadores vão até o centro de treinamento para fazer os afazeres do dia a dia. “Eu não diria que este foi um dos motivos”, aponta. “É claro que o maior motivo vai sempre ser ter a estrutura, a possibilidade de sair campeão e representar bem o Brasil. Na época, eles estavam mostrando uma estrutura boa e eu tinha deixado claro que só iria se fosse para um Gaming Office”.

No entanto, o jogador reforça que, sim, morar sozinho era sua prioridade. “Eu não estava mais em condição de viver em uma Gaming House. Eu não estava mais com idade para viver em uma Gaming House. Eu tenho minha vida separada do trabalho e não tinha mais condições de morar com um time”, crava.

Na primeira etapa de 2018, o Flamengo conseguiu subir do Circuitão. A grande final, foi contra a IDM Gaming (atual Uppercut), mas o título não veio. A conquista da vaga veio na Série de Promoção, na qual o Rubro-Negro disputou a vaga contra a Team oNe e mandou os Golden Boys para o Circuito Desafiante.

Na segunda etapa do CBLoL 2018, o Flamengo veio forte e logo em sua primeira participação esteve na final contra a KaBuM. Também foi um “quase” para a Nação, mas mesmo assim uma grande conquista, afinal, uma organização com apenas um ano de existência chegar em duas finais é algo raro no mundo dos esports.


Mais uma final, porém desta vez, brTT não levantou a taça usando o uniforme Rubro-Negro

VENCER, VENCER, VENCER

Se você chegou a esse ponto, notoriamente deve ter imaginado que brTT é um jogador diferenciado. Passou por altos e baixos, experimentou o melhor e o pior do mundo dos esports, além de tudo está “velho” para a carreira. Muitos jogadores com a idade dele já teriam largado essa vida e partido para outra, seja como treinador, seja como streamer ou até fora do ramo dos esports. No entanto, o atirador segue como um dos principais nomes do cenário brasileiro e mundial.

“Já é difícil ver um jogador estar jogando com 27 anos, 28 anos e ainda mais em alto nível. Você vê, tem exemplos em outros esports, jogadores no CS, que às vezes estão numa idade tão avançada e você vê que eles já não estão no mesmo nível de antes. Então, você estar com uma idade muito mais avançada e ainda ter uma vida paralela, ter a sua casa... Você não mora numa gaming house e consegue conciliar isso tudo, é realmente muito difícil”, conta.

De onde ele tira força para continuar crescendo e evoluindo? “Eu diria que o principal é sempre estar podendo orgulhar todo mundo que me acompanha, principalmente a minha família, quem me ama mesmo, quem está sempre do meu lado. Eu tiro forças disso... Minha mãe e minha família que estão sempre me acompanhando. Eu sempre tento fazer o meu melhor para poder orgulhar eles no final de tudo”.

“E, é claro, toda a filharada, que está sempre acompanhando, mandando mensagens. Eu diria que o pesadelo deles vai ser quando eu me aposentar”, pondera brTT.


O brasão rubro-negro pesa no peito? “Com certeza tem mais peso que as outras camisas que vesti. Representa uma nação, a maior torcida do Brasil”

“Sempre quando acontece alguma coisa, sempre quando termina um split, recebo sempre milhares de mensagens pedindo para eu não me aposentar. Eu acho que isso é uma das coisas que mais me dão força para eu sempre estar tentando me renovar... sempre me mantendo no topo. E é claro também que tem o motivo que é muito importante, que é eu querer ganhar um MSI, um Mundial, querer ganhar um campeonato que realmente é importante para o Brasil e dar orgulho para os torcedores brasileiros, que é uma coisa que está complicado ultimamente”, continua.

Essa coisa da aposentadoria de brTT (e de outros jogadores com sua idade) é algo que realmente vem sendo discutida no mundo dos esports. No entanto, ele sempre dá a volta por cima. Atualmente, o carioca é considerado o melhor atirador do Brasil, e não canso de reforçar esse ponto em toda oportunidade que tenho para falar do Felipe Gonçalves, a pessoa e o jogador.

Mas isso passa pela cabeça dele? “É claro que passa pela cabeça”, conta. “Por mais que seja uma coisa que eu não queira, é algo que eu tenho sempre que pensar na minha vida, no meu futuro. Eu tenho que sempre estar pensando nas possibilidades e o que posso fazer quando terminar. Todo mundo que compete sabe quão cansativo é, e eu, particularmente, tenho estado exausto. Não sei se é por causa da idade ou pelo quanto estou me dedicando. Chega no fim do dia e eu só quero me deitar na cama e desmaiar, porque chego em casa cansado”, desabafa. Porém, ele deixa claro que isso ainda não vai acontecer em breve. “Eu só quero realmente me aposentar quando trouxer algum título mundial para o Brasil”.


Para brTT o sonho de sua carreira é “um dia me tornar um ídolo da Nação”

De qualquer forma, brTT está ciente de que está em sua melhor fase. “Eu não esperava que isso fosse acontecer. Depois de tantos anos assim, me encontrar na melhor fase de minha carreira. Eu diria que estar com um suporte como Luci está me ajudando muito. Eu poderia estar focando mais no meu jogo em si ao invés de focar em muitas outras coisas, no que temos que fazer no jogo. Focar realmente no meu jogo está ajudando no meu desempenho dentro de jogo, na minha evolução. Isso está me dando muito mais ânimo para continuar me dedicando e treinando bastante, pois acho que este ano a gente consegue fazer realmente algo significante fora do Brasil”, afirma.

“Eu diria que um objetivo é quem sabe um dia me tornar um ídolo da Nação. É muito difícil. Todo mundo sabe que os torcedores do Flamengo são fanáticos pelo futebol, só falam de futebol”, revela o jogador. A entrevista vai chegando ao fim, mas antes de me despedir, brTT completa: “Eu tenho ambição de quem sabe um dia eu me tornar um ídolo da nação. Por isso eu digo que tem um peso maior, porque eu sempre estarei dando 200% para representar muito bem e dar orgulho aos torcedores do Flamengo”.

Rodrigo Guerra É Editor do ESPN Esports Brasil, jornalista de games há 20 anos e acompanha o cenário de esports desde 2009. Siga-o no Twitter @guerra.
Colaboração de Daniela Rigon, Evelyn Mackus, Gabriel Melo e Ricardo Caetano.
Desenvolvimento de João Victor Dias.