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Habilidoso, líder e cruelmente honesto: tockers

Meio da Vivo Keyd abre os motivos pessoais de sua figura como maior anti-herói do cenário brasileiro de League of Legends.

Quarta-feira, 10h05 da manhã. Devido a um pequeno trânsito na Marginal Tietê, em São Paulo, eu estava atrasado. Estava um tanto esbaforido, afinal, eu não gosto de chegar aos meus compromissos fora do horário marcado.

Assim que passei pela porta da Gaming House da Vivo Keyd, notei que o computador de tockers, estava ligado e com o client de League of Legends iniciado. Entrei ainda me sentindo um pouco culpado na casa, passei os olhos rapidamente pela sala de treinamento, porém só fui encontrá-lo sentado junto a Klaus e Jockster na mesa da cozinha, tomando café e comendo um misto quente. Desacelerei e respirei.

“E então, vamos tirar essa matéria do papel?” Perguntei pro tockers, enquanto esperava Klaus sair da cozinha para colocar açúcar no meu café. “Bora” respondeu, comendo o final do misto em uma só mordida e levantando.

Tockers, sempre foi um jogador que não costuma chamar as atenções para si. Por isso, estava ansioso para saber o que havia mudado nele desde a última vez que nos falamos mais profundamente, na semana do fatídico “Eu não ligo pra você e nem para o país” , lá em 2017. Na época, o Meio abriu um pouco mais de sua personalidade ao afirmar que não se sente querido pela comunidade, mas que não tem problemas com isso, já que não se importa muito com sua imagem pública, apenas com sua carreira de jogador.

Prometi para ele que um dia faríamos um perfil mais completo, porque para entendermos jogadores aclamados do cenário, basta vermos suas conquistas, seu esforço diário e sua imagem perante a comunidade.

Mas quando vemos que nem conquistas e esforço superaram a falta da imagem, temos que mergulhar mais afundo no que transforma Gabriel Claumann - seu nome de nascimento - no maior anti-herói do cenário brasileiro de League.

“Pouco se sabe sobre mim”, diz tockers. “Se tu pegar uma pessoa que chegou agora e vê a gente jogando, ela vai ver que eu arrumo treta, sou chato pra cara*** e falo mal de todo mundo. É isso que elas vão ver, é isso que elas querem ver, mas não vão saber que eu sou bem diferente disso”.


De “coadjuvante” na INTZ à protagonista na Red Canids e Keyd. Riot Games

RENEGADO, Após jogar Counter-Strike no começo da adolescência, tockers migrou para o League of Legends ainda no servidor Norte-Americano, quando o jogo começou a crescer no Brasil. Do Bronze, passou para o Ouro, e do Ouro disparou para o Desafiante. Com Shini, formou a primeira equipe lá em 2013, a Mossad, mas foi com a AceZone e-Sports (junto com Yang, Piolho, Sarkis e Professor) que ganhou sua primeira notoriedade, em 2014. A equipe que, alguns meses depois e com a adição de outros jogadores, viraria INTZ e-Sports.

A ascensão histórica dos Intrépidos em 2015/16, tomando o CBLoL de assalto e vencendo três de quatro Etapas, ainda é considerada um marco no esporte eletrônico brasileiro. De jogadores secundários, Yang, Revolta, tockers, micaO e Jockster rapidamente se transformaram em estrelas de suas posições, e coletivamente uma equipe que ficou dois anos sem sofrer sequer uma derrota em séries no CBLoL.

No entanto, o que era para ser a cereja num bolo magistral, acabou sendo o começo de uma mudança completa na vida da equipe e de seus integrantes.


As expectativas da INTZ 2016 no Mundial eram grandes, mas caíram por terra. Aquele foi o começo da derrocada. Riot Games

“Às vezes acho que o melhor teria sido não vencer a EDG naquela estreia do Mundial 2016”, diz tockers olhando além de mim. “Foi um dos momentos mais felizes da minha vida, mas foi daí pra baixo por ego que alguns jogadores da equipe criaram, dentre outras coisas”. “Você criou?”, pergunto. “Não”, devolve o Meio.

“Eu tenho um estilo muito mais racional do que emocional”, comenta. “Por isso, se ganho algum jogo ou campeonato, não é do meu estilo sair pulando ou gritando. Mesmo com pessoas ao meu redor que fazem isso, eu não sou influenciado pelo ânimo delas por ter uma personalidade muito forte. Dificilmente sou impactado pelo que está acontecendo no jogo. Se estivermos ganhando ou perdendo, a minha visão está em qual será o próximo passo. O que podemos fazer para continuar na frente ou voltar para a partida”.


“Homem de gelo”, tockers é um jogador mais racional do que emocional, o que contribui para deixá-lo às margens do que é comum entre a torcida. Riot Games

Os anos de 2015 e 2016 haviam colocado a INTZ toda em evidência, mas a quebra dos jogadores no Mundial 2016 dividiram seus caminhos. Após quase dois anos juntos, Yang e Revolta foram para a Keyd, tockers para a Red Canids, e micaO e Jockster permaneceram na INTZ. O “Exodia” se separava após dominar o cenário brasileiro como nenhum outro time jamais havia feito.

O reflexo foi sentido no cenário logo na Primeira Etapa de 2017. O conhecimento do “jogo macro” que a INTZ usava foi espalhado para as outras equipes, como pólen no vento. Tockers, pela primeira vez na carreira, entrou em destaque após uma série de cinco jogos fantástica na Matilha. Aclamado pelo nível de jogo e, principalmente, por como distribuía o seu conhecimento para os outros “renegados” da equipe, foi eleito o MVP da Primeira Etapa 2017.

A INTZ de 2016 sempre parecia a “INTZ de Revolta”, talvez de Yang, ou Jockster, ou micaO, mas dificilmente de tockers. “A torcida vivia falando que eu era carregado, ou que eu afundava o time, e por mais que você não acredite nisso, às vezes de tanto falarem acaba entrando em sua cabeça, e você começa a se questionar”.

“2017 foi um ano extremamente complicado”, crava o Meio. “Eu tive que fazer muita coisa, mais do que eu deveria, e no meio disso passei por problemas pessoais. Basicamente, tive que ensinar o pessoal jogar o macro na Red Canids. O bom foi que, apesar da nossa derrota no Mundial, no final dele eu estava batendo de frente com muitos mids globais, alguns deles de times top tier, então voltei pro Brasil ainda com um nível muito superior ao dos brasileiros, e foi nessa toada que eu joguei a Primeira Etapa”.


Líder da Red Canids dentro e fora de jogo, tockers foi coroado MVP da Primeira Etapa 2017 do CBLoL. Riot Games

Fora isso, tockers descobriu em si mesmo a capacidade de liderar.

Há diversas formas de liderança: coordenar jogadas, liderança por habilidade individual, fora de jogo, etc. Mas o Meio conquistou toda a Red Canids com conhecimento. “Minha liderança é estratégica. Aponto os melhores caminhos, encontro maneiras novas de jogar, uma estratégia que funcione, ou ajudar um membro do time que está com dificuldade em algum aspecto do jogo. Enfim, este é o meu papel”.

“Eu tinha que estar ligado no que todos estavam fazendo, o que me dava uma visão de mapa maior e me deixava planejar o jogo três ou quatro passos na frente, guiando a equipe. Eu conseguia coordenar as peças no mapa porque estava em boa fase e ganhava minhas lanes”.

A Primeira Etapa 2017 de tockers foi como jogar um jogo de xadrez em cinco tabuleiros diferentes. Em grande fase, o Meio vencia suas rotas e espalhava com facilidade a vantagem adquirida para os outros jogadores, além de coordenar o jogo macro da equipe, controle de ondas, pontos de pressão. Jogo tinindo, voando.

Na sexta e sétimas rodadas, confrontos contra paiN e Keyd, respectivamente, empate e derrota. A equipe foi ultrapassada nos critérios de desempate pela INTZ e perdeu a liderança com o fechar das cortinas da Fase de Pontos, e mesmo classificada para os playoffs, algo estava errado.


Apesar de um começo de 2017 fantástico, tockers esbarrou em problemas pessoais ao final da Fase Regular, e foi aí que YoDa apareceu. Riot Games

Quando Quando a Red Canids anunciou que YoDa, Meio reserva da equipe que ainda não havia disputado partidas no ano, entraria no lugar de tockers, MVP do campeonato, para a disputa das semifinais da Primeira Etapa 2017, a maioria massiva da conversa foi em torno da grande provação que o “streamer” YoDa teria pela frente, ou como a Red Canids era a primeira a realmente surpreender com a escalação de um dos seus reservas – naquela época, a maioria dos subs era praticamente decorativo.

“Na verdade, mesmo após as cinco partidas que eu joguei bem, a torcida ainda pedia o YoDa. Eu tenho consciência disso”, diz tockers calmamente. “Mas também que eu era muito melhor que ele e que eu sempre seria a melhor opção pra equipe. Claro que, em meio aos problemas que eu tive, precisei dar um passo para trás, e o YoDa aceitou o desafio”.

Com YoDa, a Red Canids bateu convincentemente a paiN Gaming por 3-1, aumentando a euforia e trunfo da história do Meio. Para tockers, foi o outro lado da moeda.

“Ficou praticamente impossível abrir o Twitter ou outras mídias sociais, tamanha quantidade de pessoas me xingando e dizendo para nunca mais pisar em campo. Não era fácil lidar, ele é um nome muito grande e tem fãs muito fervorosos. No entanto, todos nós tínhamos ciência de que o importante ali era a equipe, e eles sabiam que eu era a melhor opção pra jogar. Me blindaram e não deixaram a comunidade impactar na nossa forma de jogar ou na nossa rotina”.


A Red Canids de 2017 foi um momento crucial na carreira de todos os jogadores daquela equipe. Pela unidade, pelo companheirismo e pela habilidade. Riot Games

Tockers voltou para o jogo na segunda partida da final contra a Keyd de Revolta e Yang, quando a Red Canids já vencia por 1-0. Sem chances para o azar e jogando bem, o Meio ajudou a Matilha a fechar o 3-0 em Recife.

Se tockers havia ou não resolvido ou adiado seus problemas, é algo que jamais saberemos. O título colocou em destaque as histórias dos renegados, da volta por cima de brTT, Nappon e tockers, da importância dos subs YoDa e Sacy, do finalmente no topo Dioud e Robo, e passou para baixo do pano algumas outras, como os problemas pessoais de tockers e o peso público da torcida.

Os problemas que tenho, eu enfrento. - Tockers

“Não gosto de expor a minha vida ou os meus problemas pessoais para a comunidade, porque eu estou ali para jogar e ganhar. Este é o tockers. Os problemas que tenho, eu enfrento. Não choro no Twitter ou abro para todos porque sou eu que tenho que lidar com eles, então em momento algum eu pensei em revelar o que aconteceu. Se impacta a equipe, sempre serei franco e deixarei todos eles sabendo, como a Red Canids e os jogadores sabiam, mas o público não tem nada a ver com esta situação”.

Por tomar a melhor decisão para si como pessoa, tockers abriu mão de se fragilizar em frente aos torcedores.

Para muitos, inclusive este que escreve, fragilizar-se não necessariamente é algo ruim.

Todos nós passamos por problemas difíceis.

Doer e sentir é humanizar.

Mas tockers não funciona assim – e está tudo bem.


Líder da matilha em 2017, tockers sente-se confortável na figura de “lobo solitário”. Riot Games

– Queria falar sobre o dia 30 de junho de 2017... – começo a falar.
– Ah, esse dia... – me interrompe tockers.
– Você já sabe o que eu vou falar? Rio.
Claro que sabe.

O confronto com a torcida pós-eliminação no MSI 2017 fez tockers vir a público, e seu texto acabou incitando ainda mais revolta.

Tockers foi cruelmente honesto sobre sua visão das coisas até então, papel que não estamos acostumados a ver no século XXI, no qual muitas vezes colocar sua imagem pública na frente de suas opiniões verdadeiras transforma jogadores em uma fábrica de boas citações e bom-mocismo. É o “precisamos erguer a cabeça, ver o que o professô tem pra falar e voltar pro segundo tempo, virar o jogo e dar alegria pra essa torcida maravilhosa que merece” no futebol.

Talvez o prego que mais tenha doído para a torcida na sua autocrucificação pública tenha sido: “O público do Brasil nunca me abraçou, então me desculpem se eu não me sinto tão agradecido por ele. Eu nunca dei menos do que o máximo de mim pelo Brasil, mesmo com todos me criticando, mesmo com todos esperando um único erro meu pra me apedrejar. Me desculpem, mas não exijam de mim algo que nunca me deram”.

E se dói, “é porque é verdade”, crava tockers sobre o assunto, quase dois anos depois.

“Aquele lance de “jogar por mim” que eu me referi em 2017 era em relação à carreira. Não há dúvidas que o mais importante no gameplay é o time, mas o motivo pelo qual eu jogo League é nada mais, nada menos do que por mim mesmo, pelo desafio, pela competitividade. Fora da minha equipe eu não poderia me importar menos pelo que acontece, mas lá dentro trato todos como irmãos”.

“No nosso cenário, os fãs criam a narrativa que lhes convém” - Tockers

“Os fãs entenderem ou não, gostarem ou não dessas decisões, é muito particular. No nosso cenário, os fãs criam a narrativa que lhes convém. Às vezes jogadores que tem menos fãs são taxados de egoístas ou mercenários por decisões de sua própria carreira, e outros que são mais populares são vistos como dedicados e desbravadores. As mídias sociais e a imprensa impactam muito no sentimento dos torcedores”.


Títulos e boas atuações não têm sido o suficiente para o Meio superar a narrativa que suas palavras ressoando entre a comunidade criaram. Riot Games

Mudar a sua própria narrativa não é uma tarefa fácil. Revolta, em 2013, disse um curto “Vai ser fácil” em um vídeo de expectativa para o confronto entre Keyd e Nex Impetus no CBLoL daquele ano. Após a derrota, o VT de dois segundos e três palavras assombrou o Caçador por um ano e meio, até entrar na INTZ e cravar seu nome como maior Caçador do Brasil por dois anos seguidos.

Tockers, no entanto, segue com sua sina.

Mesmo após quatro títulos nacionais (recordista, ao lado de brTT), sendo o jogador brasileiro que mais disputou partidas internacionais (recordista, 64), tockers não parece nem perto de mudar a sua narrativa perante a torcida.

“Ainda sou visto negativamente na comunidade, como o cara que não tá nem aí, o cara que não liga pro país, que quer que o mundo se exploda e qualquer jogador que jogue contra é ruim. Xinga a todos e quer apenas ver a merda acontecer em todos os lugares. Sinto que é isso que as pessoas sentem de mim, e sinceramente volto na famosa frase de ‘não ligo muito para o que as pessoas sentem ou pensam de mim’. Sempre falei que fama ou coisas assim nunca foram o meu objetivo, eu só quero jogar e competir. Não quero e não pretendo usar a minha imagem quando eu parar de jogar, então nunca liguei tanto, e a única coisa que eu realmente faço para tentar mudar essa narrativa da comunidade é jogar mais e ganhar mais, pouco importando o que as pessoas pensam”.

“Tem uma frase do Kurt Cobain que se encaixa perfeitamente em como eu lido com tudo isso: ‘Eu prefiro ser odiado por quem eu sou, do que ser amado pelo que eu não sou’”.

‘Prefiro ser odiado por quem eu sou, do que ser amado pelo que eu não sou’ - Tockers, citando Kurt Cobain

“Sinto que, pela minha narrativa, as pessoas esperam muito mais do que eu conseguiria entregar para mudar a minha história. Se eu jogar bem, ‘jogou mal’. Se eu acabar com o jogo, ‘ehh, ele jogou bem, mas foi só um jogo’. Pelas coisas que eu fiz ou falei no passado, para as coisas que eu faço serem minimamente notadas eu tenho que fazer algo muito maior do que realmente é. O brTT tem isso de maneira semelhante, mas pra um cara do tamanho dele sempre será um jogo de extremos. Se ele jogar mal, ele ‘tem que aposentar’, e se ele joga bem ele será endeusado. A nossa diferença é que eu estou mais embaixo, e o reconhecimento é mais difícil de vir. Não necessariamente levo isso como um problema, mas essa visão é uma cria da minha narrativa”.

Acima de tudo, tockers é um jogador honesto consigo e com a comunidade: não aparenta e não quer ser nada diferente do que é. Algo raro hoje em dia. Riot Games

O RETORNO DO EXÓDIA Talvez nem o Tockers se lembre muito bem, mas tenho em minha cabeça uma longa conversa – a primeira – que tivemos. Foi numa festa de comemoração do fim do IWCI no México, em 2016, em pleno domínio da INTZ no cenário brasileiro de League. Os brasileiros caíram para os russos da Hard Random (que viraria ser a Albus NoX Luna mais tarde) por 3-0 na semifinal, talvez a derrota que menos esperavam, e estavam abatidos, mas não os impediu de curtir um bom momento de folga e descontração entre o ano lotado que jogadores profissionais têm – ainda mais aqueles que vencem.

Para mim, ainda era meio difícil explicar como aqueles cinco jogadores encontraram uma fórmula mágica para funcionarem juntos e acabar com a concorrência no Brasil. Quando Revolta saiu da equipe, perderam a final da Segunda Etapa 2015, quando voltou, conquistaram a Primeira Etapa novamente (e futuramente iriam para o Mundial). De fato, os cinco, Yang, Revolta, tockers, micaO e Jockster, pareciam perfeitos para jogarem lado a lado.

Tamanha era a sinergia e o poder da equipe que, após praticamente dois anos juntos, três títulos nacionais e quatro torneios internacionais disputados, criou-se uma mística entre a comunidade que eles seriam o tal “Exodia” da série de mangá Yu-Gi-Oh! – letais juntos, indiferentes se separados.


O “Exodia” foi o elenco que mais atuou internacionalmente: quatro campeonatos - IWCI 2015 e 2016, IWCQ 2016 e Mundial 2016. Riot Games

Após a separação do Mundial 2016 e todas as experiências separados em 2017, ano que tockers foi o único a levantar uma taça (Yang e Revolta também, se contarmos o Rift Rivals 2017), a Vivo Keyd surpreendeu a todos ao tirar micaO e Jockster da INTZ e tockers da Red Canids. Para os jogadores, era a oportunidade de formar um time capaz de reconquistar orgulho internacional para a região.

E principalmente, os cinco estariam juntos novamente.

O Exodia se formava mais uma vez.

Seria o grande trunfo da Vivo Keyd, uma organização que, apesar de ter conquistado a Série dos Campeões em 2014, é zombada pela torcida adversária pela falta de títulos. Mas não mais. Se houvessem cartas no baralho que poderiam ser o super-trunfo dos Guerreiros para finalmente conquistar um caneco, estas eram elas.

A estreia não poderia ser mais emblemática: Keyd x INTZ. Com um 2-0, os cinco companheiros provavam que estavam prontos para escrever o próximo capítulo de suas histórias. Respiro.

E é aí que estavam enganados.

A derrota na segunda rodada para a ProGaming por 2-0 foi um baque para a comunidade. A invencibilidade de 28 séries seguidas sem derrota em solo nacional, para os jogadores, não foi nada demais. Sabia que ainda voltariam a se acostumar a jogar juntos. Mas veio uma segunda derrota, e a corda apertou um pouco mais.

E uma terceira, e a corda apertou um pouco mais.

A Keyd, ainda assim conseguiu seis vitórias que os colocaram na Fase Eliminatória. Era de conhecimento de todos que aqueles cinco jogadores viravam uma fera completamente diferente em séries Melhor de 5. Sua adaptabilidade, sua frieza... Respiro.

3-0 na CNB, 3-2 na Red Canids.

E então, quando menos esperávamos, a corda apertou de vez.

Finalmente destronados. Riot Games

Tockers olhou fixamente para baixo enquanto eu listava as surpresas negativas que a remontagem da lendária INTZ 2016 me trouxe na Keyd de 2018. Seu olhar não indicava indiferença, estava mais para alguém que já havia refletido – e conversado – muito a respeito de tudo aquilo. Pacientemente, ele me esperou terminar de tentar formular uma pergunta que mais parecia um desabafo.

- Você acha que foi ego? – Pergunto finalmente, fazendo tockers pela primeira vez levantar o olho.

Ego foi o pilar do nosso fracasso no ano passado. - Tockers

- Mas precisava ter demorado um ano? – Questiono. Tockers abre um sorriso, balançando a cabeça, e olha para cima.

Na Keyd de 2018, a cobrança de tantos títulos e partidas vencidas no passado criou um monstro na cabeça de todos: ego. Riot Games

“Ego é uma parada complicada, porque você não percebe que a maneira com que está vendo as coisas está sendo diferente porque tem algo que está mudando seu julgamento. Você vê uma coisa acontecendo e, ao invés de pensar o que todos pensariam, você enxerga algo diferente porque o ego está deturpando a sua visão. O resumo é que você sempre acha que está certo, e eu acho que a gente tinha um problema muito grande de ego e que a gente só conseguiu resolver depois que a vida deu muita porrada na gente. Foram necessárias duas Etapas, fomos lentos. Não foi fácil porque é preciso uma força de vontade muito grande para conseguir tirar esse ego de dentro de você”.

Coletivamente, a equipe conquistou um ego através de seus títulos e invencibilidade, além da visão quase sensacionalista que a torcida e a mídia tinham deles. Mesmo com os pés no chão, esses elogios agem igual às críticas repetidas da torcida. Eventualmente, a água penetra a rocha. Eventualmente, como um vírus, você eleva seu próprio patamar.

Eventualmente, aquilo lhe fada ao fracasso.

“Tínhamos um ego coletivo, mas o que foi realmente um problema foram os egos individuais. Foram os que não deixaram a gente evoluir, e não conseguimos lidar bem com isso. Quando egos fortes se chocam é muito complicado algum deles deixar o orgulho de lado. Não tínhamos muito bem uma coaching staff pra bater o pé e falar ‘é assim que a gente vai jogar’. Cada um queria colocar o seu estilo de jogo e ninguém abaixava a cabeça, então dava merda. Não conseguimos concordar em como jogar, nosso egos nos impediu de aceitar o ponto do outro”.


Peter, o mentor do Exodia e considerado por muitos como o melhor técnico a passar pelo Brasil. Riot Games

Mesmo quando atuavam sob a tutela de Abaxial, na INTZ, era claro para a maioria das pessoas que observavam o time que eles tinham uma mecânica diferente de como usar os técnicos. Fato é que Peter era a maior influência dos jogadores, apesar de ser o analista da equipe. Com tanto conhecimento estratégico adquirido após diversos campeonatos internacionais, era difícil ver algum técnico brasileiro que conseguisse controlar os cinco jogadores, e foi algo que Revolta falou para mim no início de 2018 que colocou isso em perspectiva. “O Galfi atua mais nos bastidores, não tanto no draft e estratégias”, disse-me o Caçador.

“Não havia nada que o Galfi pudesse ter feito de diferente para mudar aquela situação”, diz tockers. “O problema estava na nossa mentalidade e ego. Decidimos quando nos juntamos que a situação (de não ter uma coaching staff robusta) não era ideal, mas que conseguiríamos lidar. Não conseguimos. Assumimos que seria difícil, mas achávamos que tínhamos maturidade e conhecimento suficientes para fazer funcionar, mas acho que no final das contas faltou alguém pra não necessariamente ensinar, mas sim colocar todos para jogar no mesmo ideal. É muito melhor os cinco fazerem algo errado do que cada um querer fazer o seu certo. Nosso time foi praticamente uma Solo Queue com comunicação. Todos eram mecanicamente muito bons, era pra gente destruir todos os adversários, mas não encaixávamos o jogo em equipe”.


As derrotas da Keyd de 2018 foram a prova cabal de que nunca em League of Legends cinco jogadores superarão uma equipe unida, não importa o quão bom sejam. Riot Games

A Segunda Etapa de 2018 foi ainda pior para os cinco jogadores. A conquista da vaga para as Eliminatórias veio apenas nos critérios de desempate após a última rodada, mas pouco adiantou. Caíram na segunda fase da Escalada para a CNB, por 3-2. “Depois de um tempo sem mudar e as pessoas ainda terem cabeça dura, você entra num modo de saber que as coisas não vão funcionar, e mesmo assim não fala nada. É um processo de pensar ‘está errado, mas se eu falar, as pessoas não vão aceitar, vão discutir, nada vai mudar e só vai gerar mais estresse, então eu só vou ficar quieto’. Isso é muito próprio da minha personalidade. É o ficar quieto e deixar as pessoas levarem o barco, porque eu acho que estou certo, mas as pessoas também acham, então prefiro evitar o conflito”, comenta tockers.

E na verdade, a equipe não evitou tanto os conflitos. “Lavamos muita roupa suja. Muita mesmo. Infelizmente não foi o suficiente, era mais do que só desabafar”, completa.

Após duas Etapas muito aquém do esperado para todos, ficou claro que algo precisava mudar. Revolta deixou a equipe para a Red Canids, Galfi também saiu. Para seus lugares, Laba e Nelson, ambos da região do Sudeste Asiático, foram contratados. Professor e Klaus também se juntaram à equipe para dividir posição com micaO e Jockster. A Keyd se reinventava.

“O Nelson foi muito bom em nos apontar uma direção e nos fazer treinar e trabalhar pra uma mesma filosofia de trabalho. Não necessariamente mudaríamos tanto apenas pela saída do Revolta, seria mais uma readaptação, já que ele é um jogador muito bom. A mudança não está na troca de peças, e sim nos aprendizados que tivemos no ano passado e no impacto da coaching staff desse ano”, diz tockers.

Aprendendo com erros do passado e batalhando contra os do presente - o ciclo natural das coisas, a Keyd de 2019 luta por uma vaga na Fase Eliminatória. Riot Games

“Fez bem para o micaO e o Jockster terem reservas, até porque o Klaus e o Professor possuem qualidades diferentes dos dois, e tem uma troca de experiências muito boas. Seria interessante ter uma pessoa que jogasse às vezes no meu lugar, já que eu sei que aprendo muito vendo a partida pelo lado de fora, como o time reage e funciona. O Yang talvez gostaria para ter alguém de estilo diferente do dele, e que ajudasse ele com os seus pontos fracos. No final, acho que seria bom termos reservas, mas no Brasil é bem difícil de achar, já que a maioria dos jogadores de alto nível já está em algum lugar. Caso encontremos, tem bastante chance de trazermos, porque atrapalhar não vai, e eu e o Yang estamos totalmente abertos a essa experiência. Se for de alto nível e puder jogar no nosso lugar, melhor ainda, o que importa é ser o melhor pra equipe”.

ANTI-HERÓI

TOC TOC
- Ainda falta muito? – Me pergunta Diego, Manager da Keyd, abrindo a porta da varanda.
- Mais uns cinco minutos – Chuto, olhando pro tockers, que abre um sorriso e falando “relaxa”.

Tiro alguns segundos para refletir sobre a nossa conversa até então, enquanto Laba passa por nós deixando um “Hello!” sonolento. Tockers me parece uma pessoa diferente, mesmo sabendo que quando olho para ele, ainda me salta na mente a figura de um dos maiores anti-heróis do CBLoL.

- Vou pegar a definição de anti-herói aqui para você – diz tockers.
- Você já tinha ido procurar saber o que era? – rio.
- Não, pô! O Jockster dia desses comentou que eu era o anti-herói preferido dele, aí me mandou – ri o Meio.

Anti-herói é o termo que designa o protagonista que não possui as virtudes tradicionalmente atribuídas aos heróis. São personagens não inerentemente maus que, às vezes, praticam atos moralmente questionáveis.


Tockers é o maior anti-herói do cenário brasileiro de League of Legends. Riot Games

“Sinceramente o meu único objetivo hoje em dia é ser bom o suficiente para competir internacionalmente. (Ser o jogador com mais jogos internacionais) me dá bastante validação quando eu falo do cenário, da diferença de nível. Acho que isso é um dos ‘atos moralmente questionáveis’ que me fazem um anti-herói. Eu critico o nosso cenário, eu critico a nossa Solo Queue, mas eu não falo mal para denegrir o que temos, e sim porque eu quero ver melhora. Moralmente parece errado falar mal, mas eu quero que o nosso cenário seja respeitado, tanto que esse é o meu objetivo: ter uma equipe boa pra ir lá fora e não apanhar. Jogar de igual pra igual. Evoluir e ser respeitado lá fora”.

Eu critico a nossa Solo Queue, mas eu não falo mal para denegrir o que temos, e sim porque eu quero ver melhora – Tockers

“Claro que a grande maioria dos jogadores tem esse mesmo sentimento e critica as coisas internas, mas acho que eu sou mais visto como um anti-herói por não ter medo de falar algumas coisas do cenário que outros jogadores não têm, como o que comentei do Flamengo”.

Em entrevista após a derrota para o Flamengo, na terceira rodada, tockers disse que a equipe rubro-negra jogava de maneira unidimensional, ou seja, apenas com um estilo, o que rendeu duras críticas da comunidade e dos jogadores e staff flamenguistas. E se dói, como diz tockers, é porque é verdade.

“Mas como eu comentei depois de ter perdido pra eles, em tese eu não deveria estar falando nada deles, só deveria abaixar a cabeça e ir pro cantinho. E é isso que eu não tenho medo de fazer. Fui taxado de burro e de arrogante, mas sendo verdade, vou criticar e vou apontar, doa a quem doer”.


“Fui taxado de burro e de arrogante, mas sendo verdade, vou criticar e vou apontar, doa a quem doer”, declara tockersRiot Games

Com o tempo correndo e muito material na mão, levantei e estendi a mão para tockers, agradecendo a conversa. E acenando para Diego dentro da gaming house. Tockers se espreguiçou e levantou, olhando para o céu e o quintal da Keyd.

- Talvez algumas coisas caiam como bombas – Adiantei, me referindo à matéria enquanto passava porta adentro para a sala de PCs da equipe. Tockers sentou-se confortavelmente no seu computador, clicando no botão de “Jogar” do Client.

- Sabe, às vezes as pessoas estão mais preocupadas em me ofender e julgar do que realmente parar e tentar entender o que eu estou falando ou fazendo.


Bruno “LeonButcher” Pereira É jornalista de esports. ex-narrador de League of Legends, acompanha o cenário competitivo brasileiro desde os seus primórdios, em 2011.
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