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Bagagem de veterano, ímpeto de novato: Minerva

Saudosismo com o passado, firmeza no presente. Conheça a trajetória do caçador que trouxe a paiN de volta ao CBLoL.

No dia 20 de abril de 2019, a paiN Gaming renasceu. Gritos dos fãs e sorrisos dos jogadores protagonizaram a cena em que o time de esports com a maior torcida do Brasil conquistava o quase obrigatório título do Circuito Desafiante. A vitória garantiu o esperado retorno da organização ao CBLoL, primeira divisão de sua principal modalidade, o League of Legends.

Na etapa anterior, o time falhara na missão de reconquistar sua vaga. Desacreditada pela comunidade e cegamente apoiada pelos fãs, a paiN depositou suas últimas esperanças em duas contratações: o suporte esA, que vinha de um vice-campeonato no CBLoL pelo Flamengo, e o caçador em ascensão Minerva.

Na última semana de abril, dias após a vitória na segunda divisão, Minerva me recebeu com um sorriso na sede do time em que iniciara sua carreira. O local, que hoje em dia funciona como gaming office e quartel-general de todas as operações da organização, exalava uma tranquilidade difícil de ser encontrada em um time de esports. A casa inteira saboreava o título e a reconquista do espaço no CBLoL.

O retorno à paiN tinha um peso diferente para Minerva. “Era essa gaming house, sim”, afirma, levantando o olhar a fim de trazer nitidez às lembranças de 2013, ano em que iniciou sua jornada competitiva. “Muita coisa mudou, porque hoje não é mais GH. Algumas salas eram quartos, nossa sala de treino era ali embaixo”, aponta. “Atualmente é lá em cima, pra não ter barulho… É só a gente lá, o andar de cima é só do LoL.”

A primeira passagem pelo time, no entanto, não foi duradoura, e passa longe de ter sido a mais expressiva na carreira do jogador. Ao longo de sete anos, Minerva passou por cinco times profissionais, jogou em quatro posições, disputou mais de oito eliminatórias e foi campeão brasileiro uma vez, sendo parte da primeira formação a representar o Brasil em um Mundial.

Em abril de 2019, a leveza nos ombros do jogador era consequência da vitória na segunda divisão. Em tese, a conquista era mais simples que boa parte de seus feitos, mas a importância era cravada na repetição da frase “porque é a paiN”. Eu não precisava perguntar a ele sobre o sentimento de missão cumprida que a volta ao CBLoL propiciava. Estava escrito em suas expressões — Minerva e a paiN passavam por um período de lua de mel, e revisitar sua carreira sob esse curto contexto era um acerto.


Integrantes da paiN comemorando título do Circuito Desafiante, que cravou o retorno do time ao CBLoLBBL Esports

O INÍCIO

Sentado em uma das salas de streaming da paiN Gaming, Minerva sorri ao resgatar seu início no League of Legends e, posteriormente, nos esports. Muito antes de ser conhecido pelo público por seu nickname, Gustavo Alves foi iniciado nos mobas pelo DotA 1, e, por influência de amigos, migrou gradualmente para o LoL, ainda em versão beta, por volta de 2011.

“Eu não conhecia muito sobre o jogo e não gostava muito, mas era onde eu tinha minhas amizades. Trouxe meus amigos da escola, e alguns começaram a jogar ranqueadas, e eu não, só jogava normal game. Com o passar do tempo, eu, que sou uma pessoa competitiva, quis ter mais pontos que eles”, conta.

“Um era prata e o outro era bronze, na época”, recorda. Na intenção de competir com os colegas, Minerva passou a levar a sério o jogo e as ranqueadas — assim, subiu do unranked para o platina em dois meses, e, eventualmente, o maior elo, diamante, em que os jogadores profissionais da época estavam ranqueados.


Minerva em sua primeira passagem pela paiN, como suporte de brTT. paiN Gaming

“Eram só os old school, mesmo”, brinca. “Eu lembro que pro player que tinha era o LEP, takeshi, Alocs, o brTT, bastante gente antiga, assim.” Figura carimbada em torneios amadores e participante do CBLoL antes dele sequer existir, o então mid laner chamou a atenção de um dos times mais consolidados no cenário nacional, que engatinhava.

“Um belo dia, a paiN surgiu querendo entrar em contato com os meus pais”, conta, em tom descontraído. “Eles tinham avisado: ‘a gente tem interesse em você, gostamos do seu estilo de jogo, e mesmo você sendo um mid laner, queremos você como suporte porque gostamos do jeito que você joga’”, cita.

Minerva tinha por volta de 17 anos de idade, e tinha acabado de terminar o ensino médio. “Como foi para os seus pais”, pergunto. “Nossa… eu lembro que foi o inferno no começo”, confessa. “Eu comentei ‘mãe, pai, é o que eu quero, o que eu gosto de fazer’. Aí eles disseram não, logo de cara. ‘Como assim você vai pra São Paulo, ficar sozinho?’ Porque eu sou muito filhinho de papai, sabe?” brinca, revelando o apego mútuo por seus pais.


Time da paiN Gaming no final de 2013 era composto por Venon, SirT, Kami, brTT e Minerva. paiN Gaming

“Eu lembro que sempre vinha esse assunto. Eles já tinham dito não. Aí a gente estava na mesa, almoçando, e eles começavam. ‘Não, eu não acho que você tem que ir. Terminou o estudo agora, como assim?’”, relembra, aos risos. Com o passar do tempo e com muitas conversas, os pais do jogador cederam à vontade do filho, permitindo que Gustavo viesse a São Paulo em busca de um sonho em um cenário que, à época, não passava de uma aposta.

A paiN havia acabado de conquistar seu primeiro título, o do Circuito Brasileiro de 2013, com Venon, SirT, Kami, brTT e Espeon. Minerva entrava no lugar do suporte, que deixava o time rumo à KaBuM. “A convivência, naquela época, era tranquila”, relembra. “Era todo mundo muito imaturo e compartilhava do mesmo sonho, que era ser campeão. Então as coisas fluiam muito mais fácil.”

Em 2019, o jogador não lembra exatamente quanto tempo ficou na formação. “Eu joguei uns dois campeonatos pela paiN, daí a gente não teve muito sucesso nessa lineup e eles decidiram trocar eu e o Venon”, conta. Os substitutos eram Olleh e Lactea, dois dos primeiros coreanos no Brasil. Em poucas semanas, Minerva alavancaria sua carreira em um passo despretensioso, mas certeiro — a primeira ida à KaBuM.


Equipe da KaBuM e-Sports em 2014, composta por LEP, Danagorn, Tinowns, Minerva e Dans. Erica Dezzone/Estadão

A CASA EM LIMEIRA

“A KaBuM foi o primeiro time em que eu senti que estava com pessoas que são verdadeiramente amigas”, começa o jogador, com o olhar saudosista.

A escalação do time era composta por underdogs da época e estrelas da atualidade: LEP no topo, Danagorn na selva, Tinowns no meio e o atualmente aposentado Dans dividindo a rota inferior com Minerva. “A gente era amigo por ser amigo, sabe? Sem esperar nada em troca.”

“Quando você tem uma relação profissional com alguém, você precisa se dar bem com ela. Mas tem como ascender e passar para o próximo nível, a amizade. ‘Não vou brigar, não quero o mal dela, não vou deixar ela cair porque sou amiga dela’. As coisas são mútuas”, devaneia.

Minerva confessa que a vibe da gaming house em Limeira era “totalmente diferente” da paiN, nos Jardins. “Aqui as coisas eram mais sérias e as pessoas mais duras. Lá, eu senti uma vibe muito próxima, mais amiga. Todo mundo lá era muito criança, eram mais novos. O Dans era mais velho e sempre foi nossa mãezona, o mais maduro. Era um grupo mais brincalhão”, relembra.


KaBuM na Gaming House do time em Limeira . Erica Dezzone/Estadão

“A gente tinha uns 18, 19 anos. O Tin menos, ele sempre foi o mais novinho da turma, ele e o LEP. Na KaBuM, deu muito certo, fomos campeões. Talvez por esse clima… Na época, talvez a gente fosse o único time que tinha esse clima, todo mundo era muito próximo. As histórias que eu vivi na KaBuM, como amigo do pessoal, são extraordinárias…”

“Ah, me conta!”, insisto, com um sorriso maior que o dele, assumindo a posição de fã saudosista.

“Não tem como! São histórias malucas”, Minerva ri, balançando a cabeça em negação.

“Não tem nenhuma?”

“Ó, vou te contar uma. Sempre que a gente acabava o treino, a gente fazia alguma coisa. Conversava, se reunia. Aí, misteriosamente, quando a gente acordava de manhã, a gente não sabia por que, mas em alguns dias aparecia uma cadeira dentro da piscina.”

Eu rio, incrédula, e ele aponta que moravam os cinco da escalação, Ziriguidun, que atuava como técnico, e o manager, bit. “Surgiam cadeiras na piscina, e essa era a coisa mais tranquila. Era daí pra pior”, conta, sem sanar minha curiosidade. O sorriso em seu rosto era constante, e denunciava o carinho que Minerva tem pelas lembranças da escalação campeã brasileira de 2014.

No campeonato, a KaBuM era o time underdog. O favoritismo ao título ficava entre a Keyd, que vinha de uma vitória no torneio anterior com os coreanos Winged e Suno, a paiN de Olleh e Lactea e a CNB de Leko, Revolta, takeshi, ManaJJ e Alocs. A vitória do time de Limeira foi, possivelmente, a primeira “zica” do cenário brasileiro, e a primeira consolidação da icônica fala “coreano não é Deus”.


Riot Games Brasil

Minerva entrara como suporte na formação, mas uma intervenção de Dans fez com que o jogador fizesse a segunda mudança de posição em sua carreira. “Ele disse: ‘Minerva, você é muito agressivo. Quando eu jogo de AD, você nunca me protege, tá sempre atrás e querendo matar, então vamos testar você como AD’. Eu fiquei muito triste, porque eu entrei pra jogar de suporte, mas me disseram que eu não era bom de suporte!”, discorre, aos risos.

“No primeiro treino assim, deu super certo. A gente só queria deixar nossos jogadores confortáveis. Não era estratégia, era nossa vibe, sabe? Você precisa estar confortável pra jogar. A gente prezava isso”, conta. Minerva cita Dans com carinho, dizendo que o jogador era o suporte do time dentro e fora do jogo.

“Esse time foi um dos poucos no qual eu só precisava dar minha mecânica pra ser campeão”, crava. “Eu só precisava clicar. Não precisava falar nada. O Dans tinha o espírito da liderança… ele sabia lidar com a situação. Sabia ser firme, sabia ser tranquilo. Ele tinha nosso respeito e era mútuo”, conta Minerva.


KaBuM na vitória do Campeonato Brasileiro de 2014, que viria a ser o CBLoL. Riot Games Brasil

O PRIMEIRO TÍTULO

“A gente não esperava ser campeão”, confessa. “O time mais fraco do campeonato estava entre a gente e a AWP, que era o time do yeTz, do Digolera.” Minerva resgata detalhes sobre a fase de pontos do campeonato de 2014 com facilidade, como campeões, jogadas, resultados. A jornada ao primeiro título marcou sua carreira e sua vida, e a nitidez de sua narrativa denuncia que algumas cenas são fatalmente inesquecíveis.

“Eu lembro que teve uma coisa épica na semifinal”, discorre.

“Antes, como não era tão organizado quanto hoje, os jogadores ficavam numa fila pra entrar no palco. Tipo, a fila da Keyd e a fila da KaBuM. Indo pra nossa, a gente viu a da Keyd. Eu lembro que o Mylon começou a comentar ‘nossa, ganhamos’. E o brTT ‘kkkkk, ganhamos mesmo, hahaha’”, Minerva simula risadas.

“Eles começaram a bullshitar a gente na nossa frente”, conta o jogador, com tom de indignação na voz, me arrancando mais risadas. “‘Não, tá ganho já, pra onde a gente vai depois daqui? Vamos bater a paiN na final’, umas coisas assim. Aí o Dans reuniu o time e fez um motivacional muito pesado para a série. Acho que eles terem dito isso melhorou muito o nosso time.”

“A gente viu eles falando mal na nossa frente, sem respeito algum, e passamos por cima dos caras depois. E com campeões que eu nem tinha jogado em treinos!”, conta. Assim, a KaBuM venceu a Keyd e garantiu seu espaço no Maracanãzinho, onde enfrentariam a CNB.

“Eu fiquei muito hypado porque o meu pai é muito ligado em futebol”, comenta. “Eu sou do Rio, e o Maracanãzinho é muito próximo de onde morávamos. Foi uma emoção muito grande estar lá. Tinha um significado muito maior pra minha família, porque eles são fanáticos por futebol. Foi uma vitória muito marcante na minha vida”, diz.


KaBuM na disputa do Mundial 2014. Riot Games

O CAMPEONATO MUNDIAL

“Eu acho que a ficha só foi realmente cair depois do Mundial”, confessa Minerva.

Após a vitória no campeonato brasileiro, a KaBuM disputou o International Wildcard, em que se qualificaram para o primeiro mundial disputado por uma equipe brasileira. O quinteto foi sorteado no grupo D, com a Cloud9 (de Balls, Meteos, Hai, Sneaky e Lemonnation), a Alliance (de Froggen) e a Najin White Shield (de GorillA).

O vão entre o Brasil e o resto do mundo já era grande, e o time perdeu seus cinco primeiros jogos — até, sem possibilidade de passar para a próxima fase, vencer a última partida contra a Alliance. O time europeu classificara-se ao Mundial como campeão da LCS EU, e LEP, Danagorn, Tinowns, Dans e Minerva fizeram história ao vencer a partida e eliminar a equipe do campeonato.

“Depois do Mundial eu fui perceber a proporção que foi a gente estar lá, presencialmente. A gente ter ganho o jogo contra a Alliance, a gente ter feito história”, comenta, cinco anos depois. “Durante, acho que a adrenalina era tanta… nas mínimas coisas. Aparecer na câmera da Riot gringa já era algo que eu ficava ‘meu Deus do céu!’”, confessa.

“Andar pelo hotel e encontrar o Bjergsen, o Doublelift… Teve uma vez que saímos para comemorar em um evento da Riot. As maiores pessoas de fora estavam lá… Bjergsen, Doublelift, Aphromoo. Eu ficava ‘meu Deus do céu, e a gente aqui’. Caiu a ficha depois. Na hora, eu só ficava ‘o que eu tô vivendo, o que eu tô passando agora, isso é muito bom’. Acho que eu tava tão na adrenalina na hora que eu nem percebi”, conta Minerva, com o tom mais baixo, revivendo um dos momentos mais expressivos de sua carreira.

Time da KaBuM comemorando vitória contra a europeia Alliance no Mundial 2014. Riot Games

Depois de contar sobre 2014, a intensidade em sua narrativa diminui. Minerva viveria uma fase complicada após o primeiro auge em sua trajetória, e a saída da KaBuM e a passagem por outros times é comentada com menos apreço, menos saudosismo e menos nostalgia.

O ano de 2014, no entanto, ainda foi marcado por outro acontecimento.

ASSUMINDO A HOMOSSEXUALIDADE

Em agosto do mesmo ano, um dos maiores ídolos do League of Legends nacional tomou a frente em uma comunidade pouco acostumada com discussões políticas e sociais e foi um dos primeiros pro players a assumir sua homossexualidade. Em um texto intimista e sincero, Kami, da paiN, contou a seus fãs que era gay.

Dias depois, Minerva também publicou um pronunciamento a seus fãs — que era, na verdade, muito mais uma confirmação do que um anúncio. O carioca, na época ainda na KaBuM, foi o segundo jogador de LoL a se assumir gay publicamente.

“Eu nunca fui uma pessoa de esconder o que eu sou. Eu sempre dei pinta, sempre fazia piadas, nunca escondi ser gay. Só me assumi publicamente porque era muito recorrente eu estar fazendo live e pessoas no chat fazerem piadas pejorativas… Peguei o gancho do Kami, sim”, confessa. “Me assumi pra que isso sumisse um pouco, e pra que outras pessoas pudessem se inspirar em mim.”

A trajetória até assumir sem rodeios sua orientação sexual, no entanto, não foi tão tranquila. Minerva se ajeita na cadeira ao confidenciar seu processo de aceitação, até entender que não seguia o padrão heteronormativo.

“Pra me aceitar, realmente demorou um pouco”, conta, levantando o olhar para resgatar as lembranças, mas sem sinal de pesar ou tristeza em suas expressões. “Acho que foi nos meus 17, 18 anos. Eu tive bastante influência de um grande amigo que eu tinha no LoL, o Anjinho [ex-Dexterity, aposentado em 2015].”

“Como ele era gay abertamente e era uma pessoa muito divertida, autêntica, carismática, eu me via muito querendo ser ele”, confessa. “Porque ele era seguro de si e muito tranquilo. Eu via nele muita inspiração pra ser quem eu realmente era. No começo, eu não me aceitava muito como gay. Eu sabia que teria que enfrentar algumas dificuldades, principalmente na minha família, que é cristã. Então eu queria o caminho mais fácil. Que era ser hetero, cuspir no chão…”, Minerva ri do estereótipo.

“Tendo contato com o Anjinho, eu ia me aceitando cada vez mais, e enxergando isso de forma positiva. Quando eu me tornei pro player, eu já estava em uns 70, 80%. Antes era tóxico, meio chato não se aceitar, mas eu cheguei num bom ponto”, sorri.

Minerva conta que não sofreu muito preconceito, e que seus pais são tranquilos. “Mas eles sempre foram?”, questiono.

“Assim… eles nunca não aceitaram”, diz. “No começo, eles tiveram um choque, principalmente meu pai. Eu me assumi pra eles pela internet… não tive coragem de falar cara a cara. Minha mãe comentou que meu pai ficou muito mal, triste, não tava comendo. Mas com o passar do tempo eles aceitaram e foram me apoiando cada vez mais, tanto na minha vida pessoal quanto profissional.”

Apesar da repercussão de seu pronunciamento, em 2014, e de ser um dos poucos jogadores assumidamente gays nos esports, Minerva não se considera um ícone LGBT, e confessa que não tem tanta proximidade com a comunidade. “Acho que eu precisaria melhorar muito como pessoa para me tornar um ícone”, avalia.

Ele cita um tweet misógino que fez há alguns anos, em que sofreu represálias dos fãs. “Eu me retratei, pedi desculpa…”, responde. “Desde então, tentei ser uma pessoa melhor e sempre pensei no que eu postava. Foi algo muito necessário pra mim… quer dizer, eu podia ter aprendido e melhorado de forma mais tranquila, sem pagar micão”, brinca. “Mas da forma que foi, eu aceitei bem e pude melhorar como pessoa”, afirma.


Riot Games

A BAIXA NA CARREIRA E O RECOMEÇO NA KABUM

Após o Mundial de 2014, Minerva passaria por alguns dos momentos mais difíceis de sua carreira. Em 2019, o jogador revisita esses momentos sem amargura — mas com o apreço de quem valoriza os pontos altos de sua carreira por lembrar do que sentiu nos mais baixos.

Minerva pediu para sair da KaBuM e passou alguns meses em sua casa, no Rio de Janeiro, cuidando de questões pessoais relacionadas à sua autoestima. O jogador voltara a disputar ranqueadas em sua primeira rota, a mid lane, e chamou a atenção de uma organização nova no cenário, a Big Gods.

“Essa época foi meio que um dark times… eu não gostei muito de passar por isso”, comenta. O time tinha patrocínio da Lenovo e anunciou os coreanos Nexus e Nicker como companheiros de Minerva, além da bot lane com Sacy e Alocs. O carioca, no entanto, passou menos de um split na formação.

Primeira escalação da Big Gods, composta por Nexus, Nicker, Minerva, Sacy e Alocs Reprodução/Cidade Gamer

“Acho que as situações lá foram muito mal gerenciadas, tanto no time quanto no administrativo… Não gostei de trabalhar com coreanos, também. A experiência foi negativa e impactou muito pra mim. Não gosto de entrar em detalhes, mas eu não me sentia feliz estando lá. Não estava em um bom ponto, e fiquei contente em ter acabado”, desabafa.

Minerva conta que não se sentia bem como profissional, na época, e voltou para casa para se dedicar mais ao seu desempenho. “Aí o pessoal da KaBuM entrou em contato comigo: ‘Minerva, a gente quer você de volta. A gente precisa de você, a gente gosta de você’”, conta o jogador, citando seus ex-companheiros de time. “Eu falei ‘gente, não dá, acho que não tem como’. Eles insistiram muito e eu aceitei, falei pra fazermos um teste, e se eu fosse bem, a gente revia”.

Os treinos deram certo, e Minerva decidiu que seria o momento de voltar para Limeira. “Nesse time, era eu de ADC, o Zirigui de suporte, LEP no top, Tin no mid e o Bruninho, Bruninho SL, na jungle. Foi nesse time que eu virei jungler”, comenta.

O jogo da KaBuM não estava dando certo e, segundo Minerva, o time decidiu que seria melhor afastar o caçador. “Só que aí a gente ficou: ‘mano, não tem jungler’”, Minerva ri. “A gente rolava a lista do challenger procurando e não tinha. Aí fudeu”, expressa.

Minerva voltou à KaBuM em 2015. Riot Games Brasil

“Sabe quando você tá assistindo um filme, aí falam ‘fudeu’, um olha pra o outro e todos começam a se olhar até que todos olhem pra um só?”, ele me pergunta, e eu rio imaginando a cena. “Foi todo mundo olhando assim até vir em mim. Aí eu pensei ‘ai meu Deus, sobrou’. Eles comentaram: ‘e se você for na jungle?’ Eu ri, e falei: ‘achei boa a piada’. Alguém insistiu pra eu ser jungler… e foi, eu virei jungler. E sou até hoje, né?”, conclui.

Minerva conta que o começo de sua carreira como caçador foi dolorido, mas que, depois que isso foi superado, outra boa fase foi iniciada em sua carreira. “Quando eu entrei como jungler, nosso coach era o Peter Zhang, que atualmente é da TSM Academy. Ele me ensinou bastante coisa, vários conceitos que me melhoraram bastante”, conta.

Trio KaBuM despedia-se da organização para juntar-se à CNB. Riot Games Brasil

A ESPERANÇA BLUMER

Depois de um bom split com a KaBuM, Lep, Minerva e Tinowns foram negociados com a CNB, que buscava redenção após um primeiro split preocupante em 2016. O trio estreou com ótimo desempenho e liderou a fase de pontos do campeonato, conquistando vaga na final ao vencer a Keyd Stars. Mas 2016 foi o auge do Exodia da INTZ, e os Blumers perderam a série decisiva por 3 a 1.

O time aproveitava a crescente, apesar da decepção no vicecampeonato. Em 2017, no entanto, o rendimento caiu, e a organização viu-se cercada de polêmicas e problemas internos. A CNB ficou em 5º lugar durante a fase de pontos do primeiro split, escapando de uma série de promoção. No segundo, o desempenho foi pior, e a equipe ficou em sétimo lugar, acima apenas de uma TShow que vivia o pior split de sua história.

Tinowns foi suspenso por indisciplina; Minerva, afastado por comportamento negativo. O caçador não retornou à CNB após a quinta semana da segunda etapa, sendo substituído pelo mid laner Vash, que aceitou o desafio.

Mais uma vez, Minerva não tem pesar em seu olhar ao comentar seu último split pelo CNB. Voltar para casa durante o split por problemas pessoais fez parte de sua história, e ele não esconde as questões que o afastaram de sua carreira naquele momento.


Problemas pessoais marcaram a passagem de Minerva pela CNB. Riot Games Brasil

“Eu conheci uma pessoa, que foi meu ex. Com isso, eu tive muitos problemas pessoais, vamos dizer assim”, expõe. “Talvez eu tenha dado menos prioridade pro meu profissional e mais pro pessoal. (...) Eu de fato estava desmotivado, não conseguia conciliar.”

“Eu era muito imaturo, infelizmente”, avalia, com a firmeza no olhar característica do Minerva de 2019. “(...) Eu nunca tinha passado por namorar, dividir expectativas com alguém, querer estar com alguém. Lidei com isso de uma maneira muito errada. Aí eu tive uma piora muito grande, me desmotivei, e eu não acho que a CNB e meus colegas de time tenham lidado com isso da melhor forma”, confessa Minerva.

“É um pouco difícil, de fato, conversar com um jovem que tem 19, 20 anos e está apaixonado, que era o que eu estava na época. (...) Aconteceram muitas coisas, fui substituído pelo Vash, que nem era jungle… Foi um tempo difícil, mas me fez amadurecer muito como pessoa. Isso foi bem chato, mas eu tirei algo positivo”, afirma.

Após conflitos no último time, Minerva encontrou redenção na ProGaming. Riot Games Brasil

A CARTA NA MANGA DA PROGAMING

O terceiro recomeço na carreira de Minerva aconteceu com a saída do jogador rumo à ProGaming, equipe recém-chegada ao CBLoL. Neste ponto da conversa, o jogador demonstra carinho pela organização, mas não mais saudosismo — os devaneios e os olhares que resgatam o adolescente que sonhava em ser campeão são substituídos pela sobriedade de um profissional consolidado.

“Na ProGaming, eu já era muito melhor como pessoa e como profissional”, disserta. “Eles me ajudaram bastante a manter o que eu era, e a melhorar, também, principalmente o Dionrray [técnico assistente] e o manager deles. Mas eu sentia que lá era um pouco limitado, em questão de o que eu poderia ser e onde poderíamos chegar”, aponta.

“Sinto que nossas lineups tinham falhas. Eu não sentia que eram lines vencedoras, que brigariam pelo título. (...) Eu não sinto, também, que eu era referência dentro do time, tanto fora quanto dentro. Até poderia ser para quem via de fora, mas, internamente, eu não sentia isso. Tanto que a maioria dos meus picks na PRG não eram tão impactantes no começo do jogo. Aqui, na paiN, eu consigo ser essa referência que eu gosto de ser, pickando Elise, Rek’Sai, Karthus, Graves, essas coisas”, comenta.


Minerva e Skybart em comemoração de vitória no CBLoL. Riot Games Brasil

Apesar disso, Minerva nega no ato que tenha saído do time insatisfeito. “Eles foram um time que me proporcionou muito o sentimento de família”, divide. “Vivi coisas muito legais. A PRG deixou eu levar a minha cachorrinha pra casa, ela ficou uns 5 dias com a gente e todo mundo brincava com ela. Era meio que ‘somos uma família e tá vindo um cachorro’”, conta, com carinho.

Pela ProGaming, o caçador disputou a primeira Superliga ABCDE, em 2018, em que foi vicecampeão. No CBLoL 2018, o time disputou séries decisivas nas duas etapas a fim de manter sua vaga na primeira divisão, na parte de baixo da escalada.

“Relegation é algo que pode quebrar o time se ele não está 100% bem”, comenta, resgatando a temporada 2018. “(...) Aquele era um time que não era muito bom psicologicamente, então o clima ficava muito ruim. Vinha um clima de morte, como se estivéssemos passando pela pior coisa do mundo. Mas, graças a Deus, conseguimos passar por todos os demônios, e a PRG não caiu enquanto eu estava lá”, finaliza.

Minerva recebendo MVP na Superliga ABCDE 2018. BBL Esports

A VOLTA DO CICLO NA PAIN

A maioria das menções à paiN carregam um certo idealismo, e Minerva passa em suas palavras a impressão de quem faz parte de algo maior. A paiN é um dos times mais tradicionais do Brasil nos esports, estando presente desde o início das competições, sendo a primeira casa do jogador, que, após quatro anos, retornou para defender o time em um de seus momentos mais frágeis.

A paiN sofreu seu primeiro rebaixamento em 2018. Na primeira tentativa de volta ao CBLoL, perdeu a final do Desafiante e a série de promoção consecutivamente em dois sonoros 3 a 0. Minerva foi chamado quando o time precisava de uma profunda reestruturação. Para ele, no entanto, a decisão não chegou perto de ser um passo para trás.

“Por ser a paiN, não fez muita diferença estar no CD ou no CBLoL”, confessa. “Acho que teve até um significado maior, eu ter subido com a paiN. Poderia ter sido melhor, eu poderia ganhar o título do CBLoL, mas ganhar o Desafiante e colocar a paiN no lugar dela não foi pouco significativo”, esclarece.

“Como foi assumir essa responsabilidade?”, questiono. “Eu não sabia que eu lidaria bem quanto a isso. Foi algo que eu descobri em mim”, Minerva discorre. “Eu não assumi sozinho, mas de certa forma foi sim, porque como a paiN me contratou pra subir, se eu não colocasse o time no CBLoL, poderia ser o fim da minha carreira”, aponta.

“Eu tinha receio, sim, mas aprendi a lidar. E, pensando agora, foi muito gratificante ter seguido esse caminho. Eu tinha outras opções, mas escolhi essa e consegui.”


Minerva e o companheiro de equipe Ayel em comemoração de vitória. BBL Esports

Durante o Circuito Desafiante, Minerva foi um caçador destaque. Com campeões agressivos e domínio sobre sua selva e a do adversário, o jogador garantiu uma distância expressiva em habilidade sobre seus adversários, conquistando 13 vitórias na fase de pontos do torneio e guiando a paiN rumo ao título.

“Você sente que está na sua melhor fase?”, pergunto.

“Com certeza”, ele crava. “E eu acho que isso tende a crescer cada vez mais se eu continuar nesse caminho, se eu não baixar a guarda, não me desmotivar. Eu sinto que o que eu mostrei foi só 10%, e eu posso ser muito mais se eu continuar fazendo isso.”

Na final do Desafiante, dezenas de torcedores gritavam enlouquecidamente pela paiN, pintados em preto e vermelho, vestindo camisetas, entoando gritos de guerra e, posteriormente, dividindo com os jogadores a felicidade pelo título. “É gratificante demais”, comenta Minerva. “A torcida sempre vai estar ao nosso favor. Somos o time de maior tradição”, afirma.

“E quando vocês, perdem, o peso é maior?”

“Com certeza. Precisamos ter balanço e equilíbrio. A gente não pode se deixar levar pelas coisas muito boas. Temos que ter pé no chão, não se deixar abalar nos momentos de derrota, de fraqueza.”

Minerva prossegue. “Eu sinto, sim, que fiz história colocando a paiN de volta no CBLoL. Fico contente de fazer parte dessa line, e espero fazer parte da line que der mais um título pra a paiN. Qualquer coisa na paiN, qualquer título, por menor que seja, é um ganho muito grande. Porque quando você está na paiN, todos os holofotes estão para você. Ser o jungler da paiN tem um peso muito grande. Eu preciso manter isso. Quero continuar dando títulos, coisas produtivas, então preciso focar.”


Minerva e o companheiro de equipe Ayel em comemoração de vitória. BBL Esports

O SÉTIMO ANO DE CARREIRA

Com uma montanha russa de acontecimentos e resultados em seu currículo, o que não falta a Minerva é experiência. O caçador da paiN Gaming saboreia a boa fase. “Sabe criança, quando ganha um carrinho novo e quer ficar brincando? Eu tô brincando em estar em boa fase. Quero ficar brincando. Acordo brincando, durmo brincando”, sorri.

“Nesse momento, depois de tantos anos jogando e de ter passado por tanta coisa, o que você acha que ainda falta?”

“Títulos”, responde, sem hesitar. “Eu quero muito títulos”, o tom de voz simula um apelo. “Eu fui campeão em 2014, tô em 2019 agora. Quero títulos, eu quero ganhar, quero levantar taças igual eu fiz lá. Quero xingar, quero vibrar… quero ganhar. Faz muito tempo que eu não ganho. Quero dar títulos para a paiN igual eu falei e pra mim, também”, confessa.

“Quero [que digam] ‘olha, Minerva é o jungler revelação’, ‘melhor jungler do campeonato’. Quero ouvir essas coisas, ler essas coisas. Acho que é o que falta pra mim. Eu sinto que, desde que entrei na paiN, tive poucos jogos ruins, eu tenho sido muito constante. Eu melhorei como pessoa, venho melhorando bastante como profissional. Eu não sou mais aquele Minerva 8 ou 80. Quero que o outro time tenha medo de mim, que entrem na partida e falei ‘estamos contra o Minerva, fudeu’. É isso que eu busco. Eu tô no caminho certo, e quero continuar mantendo”, crava.

Encaminhando a conversa ao fim, pergunto para Minerva por que, ao longo de toda a sua trajetória, mudanças de posição, erros e acertos, ele nunca desistiu.

“Essa é a pergunta mais simples que eu já respondi. É o gosto que eu tenho pelo jogo. Eu não me vejo sem o LoL. Eu gosto da competitividade, gosto de jogar. (...) É um jogo que me ocupa muito, ocupa minha mente. Eu me sinto bem”, conta.

“Jogou por seis anos e vai jogar mais dez?”, brinco. Minerva ri.

“Eu acho que duro mais um pouquinho, sim.”


paiN Gaming


Evelyn Mackus Repórter no ESPN Esports, apaixonada por esporte eletrônico e aficionada por contar histórias da forma mais sensível possível.
Siga-o no Twitter: @evelynmackus