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Ex-Vasco 'pagou mico do século' com Romário e levou 'nó' de Eurico Miranda ao cobrar salários atrasados

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Relembre gols de Anselmo, ex-Palmeiras, contra o Caxias, na Série B de 2003 (0:20)

Centroavante fez parte do elenco que conquistou o acesso à primeira divisão (0:20)

Na última quarta-feira, o Santo André contou com uma pintura do atacante Anselmo para vencer a Inter de Limeira por 3 a 1 e sagrar-se campeão da Série A2 do Campeonato Paulista pela quinta vez em sua história.

Em conversa com a ESPN, o artilheiro de 38 anos, que é tão bom em contar histórias quanto em marcar gols, relembrou os melhores causos da sua curta - mas intensa - passagem pelo Vasco, em 2007.

Em três meses no clube da Colina, ele foi comandado por Celso Roth e conviveu com figuras que marcaram época em São Januário como o ex-presidente Eurico Miranda e o artilheiro Romário, que estava com 41 anos e buscava pelo milésimo gol em sua carreira.

NO LUGAR DO BAIXINHO

Revelado no Palmeiras, Anselmo rodou por diversas equipes antes de se destacar, aos 26 anos, no Carioca de 2007 pelo Boavista.

"O meu treinador era o Gaúcho, que me indicou ao Vasco sem eu saber. Um dia, tomei uma entrada forte no treino e ia brigar com um colega de time. Nisso, o Gaúcho me abraçou e falou: 'Você tá maluco? Estou dando a chance da tua vida e você faz uma cagada dessas?'. Aí fui saber que tinham olheiros do Vasco lá só para me verem. Eu quase não fui contratado por causa de uma infantilidade", disse, ao ESPN.com.br.

"Sou muito grato ao Gaúcho por tudo que fez pela gente, é um cara de quem sou amigo até hoje", afirmou.

Anselmo marcou 10 gols no torneio (o mesmo número dos vascaínos Leandro Amaral e Romário) e foi contratado pela equipe da Colina logo após o Estadual para fazer "sombra" para a dupla.

"Logo no primeiro dia que cheguei ao vestiário a galera me mostrou qual era o meu lugar para sentar. Todo mundo estava dando risada, mas eu não entendi. Um cara passou por mim e disse: 'Você está querendo ir embora antes do primeiro dia?' Foi aí que eu percebi que estava no lugar do Romário (risos). Era o armário número 11!", afirmou.

O elenco cruz-maltino tinha armado uma pegadinha de boas vindas para o recém-chegado...

"Nisso, o Baixinho chegou no vestiário já dando risada: 'Tu acabou de chegar e já quer que eu te mande de volta para o lugar de onde você veio?' A galera toda caiu na risada e eu fiquei super envergonhado. Pedi desculpas e saí de lá rapidinho (risos)", contou.

O 'BOTE' ERRADO

Poucos dias depois, Anselmo foi convidado para um churrasco de confraternização com alguns jogadores do Vasco.

"Eu cheguei atrasado e vi duas mulheres bonitas. Achei que estavam olhando na minha direção, mas não sabia quem elas eram. Cheguei lá para conversar, mas elas estavam adivinhe com quem? Com o Romário!", afirmou.

"O Leandro Amaral me zoou na hora: 'Você só dá bote errado, hein!' Eu ia sair de fininho quando chegou o Baixinho. Elas não estavam olhando para mim. Todo mundo começou a rir da minha cara e eu pedi desculpas. Em menos de duas semanas eu dei dois foras incríveis. Eu saí da festa com menos de dez minutos", recordou.

Apesar das brincadeiras e das gafes, Anselmo guarda com carinho a convivência com Romário. O eterno camisa 11 tinha diversas regalias, como treinar apenas quando queria, jogar poucas vezes fora de casa e viajar de primeira classe no avião.

"O Romário sempre foi muito diferenciado, era jogar a bola que ele resolvia. Foi um cara com quem aprendi muito. Lembro de um treino em que eu finalizava com força e algumas vezes a bola ia para fora. Quando chegava a vez do Romário, eram só toques fracos, mas quase todos eles iam para o gol e matavam o [goleiro] Cássio ", elogiou.

"Um dia, fiquei curioso e fui perguntar porque ele treinava daquela forma. O Baixinho respondeu: 'É uma coisa que aprendi lá atrás. Tem gente que acha que estou brincando, mas na verdade só estou pegando a direção do gol'. Era muito difícil ele chutar para fora nos jogos, são coisas que levamos para a carreira. Não tinha situação difícil, o Romário tornava tudo muito fácil", elogiou.

"Dificilmente nascerá outro cara com tanta qualidade e tanta personalidade. O Romário falava o que pensava. Isso faz falta nos dias de hoje", analisou.

INTIMADA EM EURICO

Mesmo pouco espaço no elenco do Vasco, já que Romário e Leandro eram titulares absolutos, Anselmo não desejava sair do clube da Colina. Uma orientação errada de seu antigo empresário, porém, mudou a situação.

"Eu fui falar com o finado Eurico Miranda por causa de salários atrasados: 'Doutor Eurico, me desculpe, mas estou apenas cobrando o que é meu por direito'. Ele olhou bem sério para mim e respondeu: 'Você não sabe como as coisas funcionam aqui. Eu sei que é seu por direito. Mas se os caras mais antigos não falam comigo por que você, que chegou ontem, vem falar?' Eu abaixei a cabeça e fui embora", contou.

Após a intimada no mandatário, o atacante selou seu destino equipe.

"Eu me arrependo muito de ter saído do Vasco. Se fosse hoje, teria ficado na minha, porque não era minha intenção sair do Vasco. Fui muito mal orientado meu pelo meu ex-empresário e talvez eu não tive personalidade suficiente para bater o pé", analisou.

"Por mais que estivesse com salários atrasados, não deveria pedido minha rescisão. Ele me mostrou um caminho diferente e que poderia abrir portas novas. Desejava ficar no clube, onde gostava de jogar, e na minha cidade, que é o Rio de Janeiro. Deveria ter tomado uma decisão só minha", garantiu.

PARADO NA BLITZ

Antes de colocar um ponto final em sua trajetória no Vasco, Anselmo viveria mais uma situação tragicômica.

"Nesse dia fui embora para casa bem chateado por estar saindo do Vasco. E estava dirigindo com a mão na nuca lamentando, quando passei por uma blitz da polícia e nem vi. Os caras acharam que eu estava com um rádio Nextel na mão passando informações. Era o maior desrespeito fazer isso com eles. Fui parado e deu a maior confusão porque cismaram comigo. Até eu provar que não era nada disso demorou porque me pediram documentação do meu carro e eu não achava", disse.

"Eu liguei para minha esposa para saber onde estava, mas ela também não sabia. Quem me salvou nessa situação foi um amigo meu que era policial e estava nessa blitz. Ele me reconheceu, senão eu poderia ter sido preso (risos). Esse documento só apareceu em casa umas dois semanas depois porque um amigo do amigo achou (risos)", finalizou.