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Palmeiras: Atacante Anselmo relembra as melhores histórias da era 'bom e barato', em 2003

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Relembre gols de Anselmo, ex-Palmeiras, contra o Caxias, na Série B de 2003 (0:20)

Centroavante fez parte do elenco que conquistou o acesso à primeira divisão (0:20)

No último final de semana, o Santo André contou com um gol do atacante Anselmo para conseguir o acesso à elite do Campeonato Paulista.

Se algum torcedor do Palmeiras acompanhou o jogo, pode ter pensado: "Será que é aquele mesmo que surgiu na base do Verdão e disputou posição com Vagner Love entre 2002 e 2003?".

Pois é ele mesmo!

Aos 38 anos, Anselmo Tadeu Silva do Nascimento segue na ativa e marcando seus gols - e sem qualquer vontade de pendurar as chuteiras.

Em conversa com a ESPN, o artilheiro, que é tão bom em contar histórias quanto em marcar gols, relembrou os melhores causos da "era bom e barato", como ficaram conhecidos os times do Verdão montados pelo ex-presidente Mustafá Contursi no início dos anos 2000.

CHEGADA AO PALMEIRAS

Eu comecei tarde no futebol, com quase 17 anos, no Campo Grande, do Rio de Janeiro. Fiquei só seis meses na base e fui para o profissional. Antes, eu ajudava meu pai, que era pintor, e meu tio, que fazia de tudo. A gente vai aprendendo as coisas e criando casca, que é pra ganhar a vida de alguma forma.

Depois passei pelo Campinas, que era o time do Careca, e joguei em seguida no Cornélio Procópio, do Paraná, mas era difícil, porque passávamos fome. Tinha que pedir dinheiro em casa, e aguentei só dois meses.

Depois, fui para o Flamengo de Guarulhos, que foi minha porta de entrada para o futebol de São Paulo. Estava jogando a 3ª divisão e um dia fomos fazer um amistoso contra o Palmeiras B. Me destaquei muito no jogo, e eles me contrataram na hora. Eu tinha 20 anos e ia fazer 21 em breve.

Depois, levei sete meses para ser promovido do B para o time de cima do Palmeiras. A base era ótima nessa época, mas quase nenhum jogador tinha espaço no principal. A equipe da nossa época tinha Vagner Love, Diego Souza, Edmílson, Francis, Diego Cavalieri, Alceu...

No fim, nós acabamos todos promovidos em 2003, mas foi uma exceção, por causa da reformulação que a equipe sofreu para jogar a Série B. Até isso, quase ninguém da base era usado no profissional. Eu mesmo subi em 2002, mas não tive muitas chances e fui emprestado. Aí fiz um bom trabalho e o Palmeiras foi me buscar de volta.

Em 2003, eu joguei a Série B quase toda, mas, na reta final, fui vendido para o Al-Sailiya, do Catar. Só tenho coisas boas para falar do Palmeiras. Era um ano muito difícil, mas fui muito bem acolhido. O Marcão tinha aquele jeito brincalhão que era engraçado demais, e o Arce me tratava quase como um filho. Eu me sentia muito à vontade e me preocupava só em jogar bola.

CHURRASCO E PAGODE COM LUXA

A extinta Copa dos Campeões, em 2002, foi minha segunda competição oficial pelo Palmeiras, mas eu nunca tinha jogado com o Vanderlei Luxemburgo. Ainda assim, ele me levou para o Piauí para os jogos. Acabou a partida contra o Vasco [1 a 1, 10/07/2002] e todo mundo estava muito tenso, e eu mais ainda, pois era uma das minhas primeiras chances. Fui ao banheiro, o Luxa encostou do meu lado e perguntou: 'E aí, negão, posso contar contigo?'. E eu respondi: 'Lógico, professor! A hora que quiser, estou pronto para jogar!'. Só que eu tremia demais de nervoso, e nem percebi que tinha largado a torneira aberta. Quando eu vi, a pia transbordou e eu fiquei inteiro molhado (risos).

Quando chegamos ao hotel, ele liberou o churrasco para a galera. Quando dei por mim, já estava com o repique na mão tocando pagode com a galera, solto e brincando. Nisso, chega o Luxa pelas nossas costas e todo mundo parou de tocar na hora. Todos olharam para a minha cara, acho que eu tava branco de susto (risos). Aí ele olhou para mim e falou: 'Negão, pega uma cerveja aqui!'. Eu respondi: 'Eu não bebo, professor'. E o Luxa retrucou: 'Deixa de palhaçada! Você tocando repique desse jeito, no mínimo você toca numa macumba ou bebe mais do que todo mundo aqui' (risos).

Eu era muito jovem, e nessa época não bebida nada, mesmo. Acabei tomando uns golinhos de cerveja só para não contrariar o homem. A galera, claro, não perdoou e começou a me zoar um monte, isso que sou católico (risos).

No dia seguinte, tinha treino pela manhã, um regenerativo. Todo mundo tratando de leve, mas, quando eu passava perto do Vanderlei, ele gritava: 'Moleque, o Arce tá com 36 anos e puxando a fila lá na frente. Você, com 21, não pode ficar no fim da fila. Se você terminar o treino atrás dele, eu te mando de volta para São Paulo e rescindo teu contrato'.

Daí eu dava um puta pique para chegar no Arce. Só que, quando eu passava na frente dele, o Walmir Cruz, que era o preparador, falava: 'Pelo amor de Deus, Anselmo, para de correr assim! Hoje é só regenerativo, você vai sofrer lesão!'. E eu respondia: 'Vai brigar com o Luxemburgo, ele disse que vai me mandar embora! Você me manda trocar, o Vanderlei me manda correr!'.

Depois, eu descobri a solução: cheguei no Arce e implorei, 'parceiro, vai de leve, diminui, senão você me mata ou me faz perder o emprego' (risos).

O UÍSQUE DE JAIR PICERNI

Ele vai me matar por contar essa história, mas amigo é para essas coisas (risos)!

Estávamos concentrados na Série B e fui um dos primeiros a chegar. Estava no quarto e todo mundo chegando na hora do lanche. De repente, chegam o Vagner Love e o Diego Souza chorando de rir: 'Desce, mano, pelo amor de Deus'. Eu perguntei 'o que foi?', mas eles só falavam para eu descer e ver com os meus próprios olhos.

Encontramos o professor Jair Picerni na lateral do hotel com um garrafão de uísque. O Vagner já chegou rindo, e o Jair olhou furioso pra gente: 'Se contarem pra alguém, amanhã vocês não jogam! Já fiquem sabendo disso!'. Aí ficou aquele climão, né? De repente, ele vira pra mim e pergunta: 'E você, toma uma cangibrina?' (risos).

No dia seguinte, a gente não parava de rir no vestiário. Todo mundo querendo saber do que a gente ria tanto, mas não contamos. Graças a Deus jogamos bem pra caramba, o Vagner e eu fizemos gols e o Diego Souza foi eleito o melhor em campo (risos).

No fim, é comum os treinadores liberaram uma cerveja de leve para dar uma descontraída em alguns momentos. Mas sabe como é jogador...

Tinha uma malandragem da galera que bebia com os que não bebiam. Ou seja: os malandros iam em cima de quem não bebia, 'pega como se fosse para você e passa pra gente'. Em um elenco de 25 pessoas, uns 15 talvez não bebiam. O problema é que os outros 10 bebiam por esses 15 (risos).

A MULHER DE MARCOS

Teve uma história ótima numa festa com o Marcos!

Estávamos conversando em uma roda e zoando pra caramba o Sérgio. Aí o Marcão tava contando uma história e citou o nome de uma mulher bem na hora que a esposa dele [a atriz Sônia Almeida] estava passando pelas costas.

A gente ficou gelado, sem saber o que ia acontecer, porque ela ouviu tudo...

Aí o Marcão olho pra gente e falou: 'Pessoal, relaxa. Já sei que minha mulher está aqui e vai ter briga em casa hoje. Nem esquentem a cabeça. Mas se eu aparecer aqui amanhã com a cara inchada, vocês já sabem quem foi. Enquanto isso, vou continuar a história aqui' (risos).

No fim, era tudo zoeira, porque a mulher do Marcos também é muito brincalhona, era da 'Praça é Nossa'. Mas a gente não sabia que era farra deles ou se era sério. Ficamos um tempão calados achando que a coisa ia ficar feia (risos).

O 7 A 2 PARA O VITÓRIA

Em 2003, a gente passou por vários apertos.

Teve aquele famoso 7 a 2 para o Vitória que levamos no Palestra, e minha família toda estava no estádio, porque eu tinha chance de jogar [o que de fato aconteceu, com Anselmo entrando no lugar do lateral direito Neném no decorrer da partida]. Era a família completa!

Acabou o jogo, estava todo mundo de cabeça inchada, chateado, e não conseguíamos sair do estádio, porque a torcida estava furiosa. Aí liguei para a minha mãe e falei: 'Pode ir para casa, porque nem sei como vamos embora daqui hoje...'

Minha mãe me xingou tanto naquele dia (risos). Ela incorporou uma torcedora brava e passou a me xingar para ir embora sem dar bandeira, porque estava todo mundo bravo. Se alguém percebe que ela estava ao telefone com um jogador, poderia dar problema pra ela.

Por fim, eu saí do estádio só umas três horas depois do jogo. E para mim era complicado ainda assim, porque eu morava na Barra Funda, pertinho do Parque Antárctica. Tive colegas que saíram escoltados ou de camburão naquela noite...

Quando cheguei em casa, minha mãe me pediu um milhão de desculpas: 'Pelo amor de Deus, me perdoa, não falei aquilo de coração. Tinha muito torcedor do meu lado e fiquei com medo de apanhar' (risos). Eu respondi: 'Claro, mãe, eu entendo. Eu também estava com medo de apanhar'.

Eu cresci muito com tudo aquilo. Depois daquele jogo foi muito complicado para nós. Precisamos ter cabeça boa para lidar com tudo aquilo. A gente entende que futebol é paixão e emoção, mas quando partem para a agressão é difícil.