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Lado B da Copa: Hitler, terrorismo e política - O extracampo do futebol peruano vai além de Guerrero

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Lado B da Copa: Problemas extracampo do Peru vão além de Guerrero (1:09)

Veja a íntegra da matéria no WatchESPN (1:09)

Um dos lugares mais exóticos do continente, com uma culinária reconhecida mundialmente e um dos berços do povo Inca. O Peru, com todas suas peculiaridades e mistérios, se destaca por sua natureza e história enquanto civilização.

E, assim como em todos os países sul-americanos, o futebol é a paixão nacional responsável por unir e movimentar sua população.

Dias antes da Copa do Mundo da Rússia, o povo peruano lida com uma indigesta realidade: Paolo Guerrero, capitão, ídolo de uma geração e maior responsável pelo retorno do país a um Mundial após 36 anos, estará suspenso durante o esperado período caso nenhuma outra grande reviravolta aconteça em seu caso.

Esta, entretanto, é apenas uma das constantes interferências extracampo que o futebol peruano se acostumou a encarar ao longo de sua história.

Dentro da lista, uma possível interferência externa de Hitler, atleta sendo morto por granada em atentado terrorista e presidente se livrando de impeachment são apenas alguns exemplos da conturbada linha do tempo de acontecimentos que acompanha de perto o esporte mais popular do país andino.

Superioridade na terra de Hitler e o polêmico jogo de Munique

Durante os Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha, Hitler começava sua trajetória como líder máximo da nação. Com a filosofia de que a raça ariana era a superior, o evento deveria ser o palco do predomínio dos alemães na competição.

Entretanto, o plano não correu exatamente como esperado, gerando desconforto entre os generais alemães, que continuavam presenciando resultados insatisfatórios durante o evento. E, em um destes casos, o Peru foi o protagonista.

Única equipe sul-americana na competição, os peruanos enfrentaram a Finlândia nas oitavas de final, vencendo por 7 a 3. Já nas quartas, a equipe encontrou uma das melhores seleções do futebol mundial: a Áustria, país natal de Hitler.

Contudo, a surpresa tomou conta em Munique. Após um empate em 2 a 2 no tempo normal, os sul-americanos sagraram-se vencedores do confronto na prorrogação com o placar de 4 a 2. Em contrapartida, engana-se quem pensa que a história desta partida acabaria no momento do apito final.

Apesar de vitoriosos dentro de campo, não foi o Peru que seguiu para disputar as semifinais olímpicas. Em um episódio cercado de incertezas e teorias, a Áustria avançou de fase e os peruanos acabaram sendo eliminados da competição.

José Valdeiglesias, jornalista da Rádio Ovación, é especializado na história da seleção do seu país. Segundo ele, existem duas versões do acontecimento a partir de investigações, análises de documentos e também uma publicação do sociólogo e historiador Aldo Panfichi.

‘’Nos contaram uma história na qual Hitler, a máxima autoridade da Alemanha naquele momento, deu por concluída a participação peruana e praticamente nos excluiu sem motivos aparentes dos Jogos Olímpicos de 1936. [...] O Peru era muito superior à equipe austríaca e iria surgir como uma potência naquela Olimpíada, fazendo com que a Fifa decidisse suspender a seleção e impedir que continuasse no torneio’’, disse o radialista.

Ele ainda explica a outra versão do acontecimento: ‘’A partida foi suspensa por uma suposta invasão de torcedores peruanos que agrediram um ou dois jogadores austríacos, e esse é um dos motivos pelos quais a Fifa anulou essa partida e não permitiu que tivesse sido remarcada’’, contou.

Pela falta de versões e documentos oficiais, é muito difícil afirmar certamente o ocorrido naquele momento, e enquanto não surgem definições concretas, as duas versões citadas irão continuar se contradizendo ao longo das próximas décadas, e recheando as páginas do futebol peruano.

Mas, mesmo sem retornarem com o título, os integrantes daquela equipe ainda são intensamente idolatrados no Peru. ‘’Jogadores como Campolo Alcalde, ‘El Mago’ Valdiviezo, Villanueva, Magallanes e todos eles passaram à imortalidade do futebol peruano.”, diz Valdeiglesias.

‘’Muitos deles ficaram na história e têm seus nomes mencionados até hoje, batizando até mesmo estádios, como o do Alianza Lima, que leva o nome de Alejandro Villanueva, e em Callao, onde um campo ao lado do aeroporto leva o nome de Campolo Alcalde. Seus nomes ficaram na história’’, conclui.

A geração de ouro e o terrorismo

Já na década de 1970 veio o início da melhor geração da história do futebol peruano. Além do título da Copa América de 1975, a classificação para três Copas do Mundo entre 70 e 82 evidenciava o sucesso na época.

Comandada por Didi como treinador e pelo meia Cubillas, a seleção nacional chegou ao seu melhor desempenho em um Mundial, caindo nas quartas diante do Brasil, por 4 a 2. Mas se engana os que pensam que o brasileiro era o mentor daquele time.

“Didi teve a sorte de comandar aquela grande geração do futebol peruano”, opina Valdeiglesias. “Acredito que o melhor que se passou para o Peru foi o Mundial de 70. Desde a classificação até o Mundial, com uma grande partida do Peru contra o Brasil, contra a Bulgária. [...] Foi a melhor participação em Copas.”, analisa.

Para os jogadores, o sentimento é o mesmo. Victor Cedrón, atacante peruano que defende o Figueirense, colocou em perspectiva a importância daqueles jogadores para o povo de seu país. ‘’Todos nós, como jogadores peruanos, vamos nos inspirar neles como atletas. É uma imagem que sempre miramos alcançar, já que eles foram os melhores jogadores do futebol peruano e desejamos seguir seus passos’’, disse.

Paralelamente com a ascensão daquela equipe, contudo, cresciam os conflitos protagonizados pelas disputas armadas entre guerrilhas locais e o governo.

Carros-bomba, assassinatos patrocinados e a contagem de cerca de 70 mil mortes aterrorizavam os cidadãos peruanos. Terror que também atingiu o futebol.

Em 1991, integrantes do Deportivo Municipal, clube da província de Miraflores, voltavam ao vestiário após um treinamento. Tudo parecia normal. O lateral Héctor Mathey, de 19 anos e uma das promessas do futebol local, viu um objeto desconhecido no chão do local e, ingenuamente, decidiu pegá-lo.

O objeto tratava-se de uma granada deixada por um grupo terrorista que mirava o quartel de San Martín, que ficava do outro lado da rua. O artefato explodiu, tirando a vida do promissor adolescente e ainda ferindo gravemente dois de seus companheiros de time

‘’Ele (terrorismo) atacou e influenciou toda a sociedade, não somente no futebol. Então, naturalmente, as pessoas deixaram de ir aos estádios por se sentirem ameaçadas, já que algum artefato poderia ser detonado em qualquer parte e em qualquer concentração pública”, contou José Valdeiglesias.

Classificação presidencial

Em um país em que o futebol tem uma relação tão forte com que se acontece fora das quatro linhas, era natural que a política não ficasse de fora de todo este cenário.

‘’Muitos políticos utilizam o futebol como um trampolim para benefícios e se fazem populares através de seus clubes para tentar serem prefeitos, congressistas, deputados e, por que não, presidentes’’, analisou José Valdeiglesias, evidenciando a similaridade de tal situação com a ocorrida no Brasil, por exemplo.

Durante a campanha das Eliminatórias para a Copa de 2018, inclusive, a relação futebol/política nunca esteve tão estreita. Pedro Pablo Kuczynski, então presidente do país, lidava com acusações de corrupção, possível envolvimento com grupos de milícia e uma possibilidade iminente de impeachment.

Prestes a ter a manutenção de sua posse votada no congresso local, o comandante se aproveitou da euforia pelas fases decisivas da campanha de classificação do Peru à Copa e, em uma jogada de xadrez política, viu membros aliados do parlamento simplesmente se absterem de opinar em seu processo de impeachment, adiando todo o processo.

Além disso, depois da concretização da classificação, um projeto de lei que sugeria a não participação de nenhum membro oficial da Federação Peruana de Futebol em outro cargo público do governo impossibilitaria a participação do país na Rússia. Este, porém, não foi para frente.

Um pouco mais tarde, Kuczynski acabaria renunciando ao cargo por não resistir às acusações. Apesar disso, os reflexos continuaram a surtir efeito na sociedade peruana, como preços inflacionados para acompanhar a equipe na Rússia e alta no dólar.

Tudo para participar de um momento que pode ser único para esta geração.

'Eu não quero morrer sem ver o Peru ir ao Mundial'

Trinta e seis anos após sua última classificação ao Mundial, o Peru disparou nas últimas rodadas das Eliminatórias Sul-Americanas. Precisando de apenas um empate para a tão sonhada classificação, os alvirrubros encararam a Colômbia, fora de casa.

Com altos tons de drama, aos 30 minutos do segundo tempo, os mandantes venciam por 1 a 0, eliminando a equipe andina. Coube à Paolo Guerrero, ex-Corinthians e atualmente no Flamengo, marcar de falta e empatar o jogo, garantindo a vaga aos playoffs classificatórios contra um representante da Oceania.

Sem muitas dificuldades, o Peru carimbou sua vaga à Rússia. O empate em 0 a 0 fora de casa foi calculado, para que, na partida de volta, em um Monumental de Lima lotado, a equipe vencesse por 2 a 0 e garantisse a classificação. Que alívio.

‘’Eles estão muito entusiasmados. Tinha uma propaganda na televisão do Peru que dizia: 'eu não quero morrer sem ver o Peru ir ao Mundial'. Então você pode imaginar o êxtase que eles estão vivendo’’. diz Rafael Bondi, jogador brasileiro com passagem pelo futebol peruano, revelando o estado de constante comemoração do povo peruano após a classificação.

Porém, como estão acostumados, mais um acontecimento extracampo gerou turbulências no futebol do Peru.

Em reflexo de um exame antidoping feito em dezembro de 2017, Guerrero foi acusado de ter apresentado traços de cocaína em seu corpo. A suspensão inicial de um ano o tiraria da Copa do Mundo.

Entretanto, após uma revisão do caso e o aparente indício de que o camisa 9 tinha ingerido apenas um tradicional chá derivado de uma folha da substância, sua pena foi reduzida em seis meses, logo, estaria pronto para atuar na Rússia.

Todavia, outra reviravolta aconteceu no caso e, após apelo dos acusadores, sua punição voltou a ser estendida, o impossibilitando novamente de atuar no Mundial.

A medida que gerou grande desaprovação entre jornalistas, do povo peruano e outros atletas de futebol, incluindo até os capitães de França, Dinamarca e Austrália, adversários da seleção peruana na primeira fase da Copa, que redigiram cartas direcionadas à Fifa solicitando a reavaliação da suspensão.

‘’O que pode ter ocorrido é que uma negligência ocasionou o consumo da substância de maneira involuntária. Hoje vemos que a punição foi drástica e desproporcional, injusta, mas que ele merecia um castigo por sua negligência’’, opinou José Valdeiglesias sobre o caso.

Já o conterrâneo Cedrón também considera a punição injusta. ‘’Ele (Guerrero) entregou todas as provas e realmente provou que não tinha nada a ver com o que disseram e pelo motivo que estão suspendendo ele’’, constata.

O apelo foi tão grande que acabou surtindo resultado positivo. Nesta semana, o atacante conseguiu uma liminar em um tribunal da justiça comum suíça para disputar o Mundial, anulando sua suspensão para o período em que a bola rolar na Rússia, reforçando, assim, seu país nos gramados europeus.

Com e sem Guerrero, o Peru já conseguiu outro feito notável no futebol, um esporte que inegavelmente transcende as quatro linhas no país andino.