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It's coming home: Como, em 40 dias, Inglaterra pode dominar o futebol e transformar refrão em realidade

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Veja o grito que se tornou símbolo de apoio à seleção inglesa (0:38)

Música traz o famoso refrão "Football's coming home" (0:38)

Não se fala outra em outra coisa na Inglaterra da última quinta-feira para cá: “It’s coming home. Football's coming home” (Está voltando para casa, o futebol está voltando para casa), em tradução para o português.

Com a definição de Arsenal e Chelsea como finalistas da Europa League e de Liverpool e Tottenham para decidir a Champions League, pela primeira vez na história do futebol as finais das duas principais competições entre clubes da Europa serão decididas entre clubes do mesmo país.

E o fato trouxe de volta um protagonismo do futebol inglês no continente europeu que há tempos não se via. E com ele um velho refrão ecoado em momentos de esperança para os inventores do esporte: "Football's coming home."

Mas afinal, de onde vem essa expressão que voltou a ser usada pelos ingleses e que pode se tornar ainda mais real em um período de 40 dias?

O ano é 1996. A Inglaterra vai sediar a Eurocopa, e a Federação Inglesa pediu aos comediantes David Baddiel e Frank Skinner, apresentadores do programa de comédia futebolística que fazia sucesso à época – o Fantasy Football League – que escrevessem uma música tema para o torneio.

Junto com Ian Broudie, da banda Lightning Seeds, os três criaram a canção “Three Lions” (Os três Leões), em referência ao emblema usado na camisa da seleção inglesa, que tem origem no brasão do Exército Real Britânico. (veja abaixo)

Ao contrário da maioria das canções oficiais que exaltam as glórias e buscam um clima de otimismo para a competição que está por vir, Three Lions era na verdade uma música que retratava os fracassos ingleses nos grandes torneios e queria mostrar o verdadeiro sentimento de ser um torcedor inglês, mas sem perder as esperanças, como contou David Baddiel, um dos criadores, em entrevista ao programa 5 Live Show, da rádio britânica BBC no ano passado.

A letra começa com críticas e amostras do pessimismo de comentaristas ingleses. "Eu acho que é uma má notícia para o jogo em inglês." (Alan Hansen) "Não somos criativos o suficiente; não somos positivos o suficiente". (Trevor Brooking) "Vamos continuar obtendo maus resultados." (Jimmy Hill).

Na sequência, a canção fala que “Todo mundo parece saber o placar, eles já viram tudo isso antes. Eles apenas sabem, eles têm tanta certeza. Que a Inglaterra vai jogar fora vai ferrar com tudo. ”

Mas ao mesmo tempo que traz a desesperança de torcer para a Inglaterra, diz que os torcedores nunca param de sonhar. “A Jules Rimet (em referência ao único título de Copa dos ingleses) ainda brilhando. Trinta anos de mágoa. Nunca me fizeram parar de sonhar”.

Lembranças de grandes momentos ingleses em Copas também vem à tona na letra, como o desarme de Booby Moore contra Jairzinho na Copa de 1970, o gol de Gary Lineker na semifinal contra a Alemanha na Copa de 1990 e ainda o chute de Nobby Stiles contra o México em 1996, quando os ingleses levaram a taça.

A música caiu na graça dos ingleses, e chegou a ficar na posição número um entre as mais tocadas no Reino Unido, transformando-se em tema do futebol inglês nos anos seguintes. E seu refrão mais famoso, “Football's coming home”, originalmente criado para exaltar que o país voltaria a receber uma competição em seu território desde a Copa do Mundo de 1966, se transformou em um canto popular na torcida pelo English Team.

Naquele ano, empurrados pela canção e por jogarem em casa, os ingleses chegaram até as semifinais da Euro, mas acabaram sendo eliminados nos pênaltis para a Alemanha no empate por 1 a 1. Os alemães acabariam por se tornarem campeões ao vencerem a República Tcheca na final por 2 a 1.

A seleção fracassou, mas a música era um sucesso. Dois anos depois, na Copa do Mundo de 1998 na França, voltou a ser relançada com novos elementos (veja abaixo). E novamente sucesso. Apareceu na primeira colocação entre as mais tocadas no Reino Unido, apesar da eliminação para a Argentina nas oitavas de final.

As Copas foram passando, e a música acompanhava as campanhas da seleção em Copas. Em 2002, alcançou o 16º posto. Em 2006, o nono lugar e em 2010 o 10º, sempre com a torcida cantando nos estádios. A Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi o único período em que o “hino” não pegou, com o English Team sendo eliminado logo na primeira fase.

Só que em 2018 ela voltou com força na Rússia, com uma nova versão (veja abaixo) e com um fato curioso. Gareth Southgate, técnico da seleção, foi uma das figuras do clipe criado para a Copa de 98 na França. Nele, Southgate, ainda jogador, é mostrado errando o pênalti na eliminação da semifinal contra a Alemanha na Euro de 1996.

O técnico, em coletiva durante o torneio, disse que não gostava da música justamente por relembrar seu fracasso como capitão da seleção. Só que a campanha inglesa na Rússia, que terminou com a ida à semifinal e a quarta posição foi maior que tudo, e a música novamente se tornou a mais tocada na Inglaterra.

É certo que o refrão “Football's coming home” nunca trouxe nenhuma conquista ao futebol inglês, mas esse ano de 2019 a história pode se tornar real, e o futebol pode realmente retornar para sua casa, e dessa vez com conquistas.

Isso porque em um período de 40 dias o futebol inglês pode dominar o futebol mundial como nunca aconteceu na história. De 29/05 a 07/07 os ingleses já garantiram dois troféus de relevância, mas podem conquistar mais dois, chegando a quatro.

Dia 29/05 acontece a final da Europa League no Estádio Olímpico de Baku em Baku, no Arzebaijão. Chelsea e Arsenal fazem o clássico londrino para definir quem será o campeão, e é certo que a Inglaterra levará esse troféu para casa.

Assim como já é certo o troféu da Champions League, que terá sua final no dia 01/06 no estádio Wanda Metropolitano, em Madri. Liverpool e Tottenham medem forças para a ver quem será o grande dono do continente. Os Reds buscam seu sexto título, enquanto os Spurs vão tentar ser campeões pela primeira vez.

Mas não é só com os clubes que a Inglaterra vai se dar bem. As duas seleções, masculina e feminina, também podem ser campeãs e trazerem o troféu para casa.

Isso porque a masculina está na semifinal da Nations League após se classificar em primeiro do grupo 4 da Liga A, que tinha nada menos que a vice-campeã mundial Croácia e a Espanha. Agora, disputar com a Holanda no dia 06/06 uma vaga na final que acontece dia 09/06 contra o vencedor de Portugal e Suíça.

Não é uma Copa do Mundo nem uma Eurocopa como os ingleses tanto desejam, mas pode ser uma conquista, algo que não acontece desde 1966, ano do último Mundial. Sob o comando de Harry Kane e a batuta de Gareth Southgate, o time, que deixou boa impressão com a quarta colocação na Copa da Rússia quer enfim levantar um caneco.

E para fechar com chave de ouro, dia 07/07 acontece a final da Copa do Mundo Feminina, em Lyon, na França. E as Lionesses entram forte na disputa. Se não estão no mesmo patamar de Estados Unidos e França, consideradas as grandes favoritas, as comandadas do técnico Phil Neville e da capitã Lucy Bronze são candidatíssimas a chegarem na semifinal e, por que não, serem campeãs.

O bom trabalho recente culminou com o título da SheBelieves Cup, torneio que terminou em março desse ano e que tinha na disputa Brasil, Japão e Estados Unidos. Um empate por 2 a 2 com as americanas e vitórias contra Brasil por 2 a 1 e Japão por 3 a 0 garantiram a taça. As inglesas estão no Grupo D da Copa, ao lado de Escócia, Argentina e Japão.

Além disso, o forte trabalho da Federação Inglesa desenvolvendo a Women Super League, principal campeonato entre clubes da Inglaterra, que conta com os principais times do país (City, United, Chelsea, Arsenal e Liverpool), sem dúvidas ajudou na formação de um elenco competitivo e capaz de atuar no mais alto nível.

Só o fato das duas principais competições entre clubes do planeta ficar na Inglaterra já foi o suficiente para o lema “Football's coming home” ser finalmente comemorado. Só que como diz um trecho da música Three Lions: Trinta anos de mágoa nunca me fizeram parar de sonhar.

E esse sonho pode ir mais além, com as duas seleções sendo campeãs. Se esse conto de fadas se tornar real, os ingleses poderão dizer com toda a certeza: Sim, o futebol está voltando para casa.