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Red Bull Bragantino: Marcelo Veiga lamenta demissão do Bragantino após fusão com o Red Bull Brasil

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Em anúncio oficial de parceria com a Red Bull, Bragantino apresenta camisas de 2019 (0:31)

Thiago Scuro, da Red Bull, e Marquinho Chedid, do Bragantino, mostraram uniforme da temporada (0:31)

Nesta sexta-feira, o Red Bull Bragantino faz sua primeira partida na história.

Às 19h15 (de Brasília), a equipe formada a partir da fusão entre Red Bull Brasil e Bragantino visita o Brasil-RS, em Pelotas, pela 1ª rodada da Série B.

No comando do clube alvinegro, estará Antônio Carlos Zago, eleito melhor treinador do último Campeonato Paulista pelo Red Bull Brasil. No entanto, não foi Zago quem levou o Bragantino à 2ª divisão nacional.

O técnico que fez isso, aliás, encontra-se atualmente desempregado...

Trata-se de Marcelo Veiga, 54 anos, que tem sua história pessoal extremamente ligada ao Bragantino, com diversas passagens pelo clube.

Na última, ele assumiu em agosto de 2017, quando a equipe do interior paulista estava na Série C e perigava cair para a D, o que complicaria a continuidade da vida do clube.

Veiga tinha apenas três partidas para salvar o "Massa Bruta". E, com ele, missão dada é missão cumprida.

Ao final do torneio, seu time terminou na 8ª posição do grupo B e permaneceu na Série C - Macaé e Mogi Mirim acabaram caindo.

Na temporada seguinte, Veiga colocou seu planejamento em prática e teve enorme sucesso. Após uma boa campanha na primeira fase da Terceirona, ele se classificou para enfrentar o Náutico nas quartas de final.

O "Timbu" entrou como favorito no confronto, principalmente porque decidiria em casa, com o peso de sua torcida. No entanto, o experiente treinador do Bragantino fez sua mágica, eliminou os pernambucanos e colocou os alvinegros de volta na Série B, mesmo penando com enormes dificuldades financeiras.

Há poucos dias do início da Segundona em 2019, porém, veio a notícia: o Bragantino teria o departamento de futebol assumido pela Red Bull, que queria uma equipe na Série B.

No planejamento da empresa estrangeira, que vai investir R$ 45 milhões inicialmente, o treinador ideal seria Zago. E Veiga, então, foi demitido há cerca de um mês, em 30 de março.

Além do comandante, saíram também outros membros da comissão técnica: o auxiliar Sérgio Ricardo, o preparador de goleiros Ricardo Ricardo e o preparador físico André Zaros.

No momento sem clube, Marcelo Veiga conversou com a ESPN e lamentou a maneira como as coisas acabaram.

"A gente roeu o osso e saiu na hora de comer o filé mignon, que seria essa parceria com uma condição boa", afirmou.

Leia a entrevista com o treinador:

ESPN: Quando você começou ouvir sobre a possibilidade de fusão entre Bragantino e Red Bull Brasil?
Marcelo Veiga: Os primeiros boatos começaram no começo de fevereiro deste ano. Na época, o Bragantino estava em uma condição legal no Paulista, entre os oito primeiros colocados. Aí essa conversa começou a surgir. O ambiente começou a mudar por conta disso. Algumas informações que vinham de atletas de outros times para os meus atletas e pessoas que falavam com a minha comissão técnica. A gente passou a administrar essas informações e o presidente sempre negando: 'Não, jamais terá isso' e tudo mais. Mas a gente sabia que existia essa possibilidade.

ESPN: Os boatos interferiram muito no seu trabalho?
MV: Você desenvolve seu trabalho e ocorre uma mudança de planejamento, acaba interferindo diretamente no resultado no dia-a-dia... É natural. Como você tem uma competição tão difícil como o Paulista, sabendo da responsabilidade, um time que estava brigando, tínhamos planejamento de trazer mais três ou quatro peças para fortalecer nosso elenco e isso não aconteceu. Você tem contrato e pode terminar no Paulista e perder o emprego, algo que aconteceu com a maioria, isso atrapalha, sim. Lógico que os resultados dentro de campo são responsabilidade nossa, mas a gente sabe que isso interfere diretamente no ambiente...

ESPN: E como foi o anúncio de que a fusão iria acontecer?
MV: Quando fomos fazer um jogo contra o Ituano, ainda tínhamos chances de classificação. Pedi ao Marquinho (Chedid, presidente do Bragantino) para conversar com o grupo para esclarecer a situação. Ele falou com todo mundo e disse que jamais iria fazer isso [a fusão], que não tinha nada. Ele disse que estava tentando uma parceria para a Série B de trazer alguns atletas do Red Bull Brasil, e que não faria isso [fusão] de forma nenhuma. Dali em diante, tivemos uma ideia do que iria acontecer. Não conseguimos a vaga nas quartas (do Paulista) e fomos para o Troféu do Interior, mas sempre numa negativa. Não houve em nenhum momento um papo de 'isso vai conter, temos essa possibilidade'. Até o fim da competição, não tivemos nenhuma confirmação. Somente depois começou o boato mais forte por parte da imprensa. Internamente, não tivemos acesso em nenhum momento ao que estava acontecendo. Eu fiquei sabendo [da fusão] pelas notícias que iam sendo divulgadas, e depois o Marquinho veio e falou que ia fazer a parceria. Em nenhum momento ele passou nada pra gente, porque estamos em Bragança Paulista e eles estavam em Campinas. Como o Red Bull Brasil é em Campinas e o Marquinho mora no mesmo local, as tratativas acabaram sendo por lá mesmo. Quando terminou (a primeira fase do Paulista) ficamos sabendo que o Red Bull Brasil tinha feito a parceria.

ESPN: Teria sido melhor que tudo fosse colocado de maneira mais clara para você e elenco?
MV: Eu acho que a gente não pode falar por eles [Bragantino e Red Bull Brasil]. Mas penso que, se quando surgiu a notícia, se o presidente tivesse me passado que existia a possibilidade, eu chegaria para o grupo e teria uma outra maneira de conduzir as coisas. Eu falaria: 'Gente, existe a possibilidade de uma parceria. A gente tem que fechar aqui e trabalhar bastante para estar dentro do processo. Vamos trabalhar para termos a chance de estar com quem vai iniciar se isso for ocorrer'. Isso não foi dito, e a gente ficou meio que vendido nessa situação. Mas isso é uma decisão do presidente, ele que comanda o clube e sabe que é melhor, não podemos interferir nisso. Mas, se tivesse falado, certamente teria sido bem diferente...

ESPN: Qual o seu sentimento com isso tudo?
MV: De tristeza. A gente vinha com a preocupação de que muitas pessoas poderiam perder o emprego, e foi o que aconteceu. Toda a comissão técnica, os funcionários e os atletas não ficaram. Tínhamos planejamento para a Série B e eu tinha visto vários atletas para reforçarem o elenco. Infelizmente, isso não aconteceu. Ficamos tristes por encerrar um ciclo. Eu tinha o sonho de subir o Bragantino para a Série A do Brasileiro. Infelizmente, isso não vai mais acontecer. Para a gente, que perdeu o emprego, foi muito ruim...

ESPN: Quantas pessoas foram demitidas pelo Bragantino após a fusão?
MV: Foram mandados embora cerca de 24 jogadores, só ficaram quatro. A comissão técnica, que tinha de 10 a 12 pessoas, não ficou ninguém. Incluindo departamento médico, comissão, análise de desempenho, rouparia, etc... Funcionários eu não tenho ideia. Acho que eles permaneceram, porque tínhamos poucos. Lavadeira, o rapaz que tomava conta do gramado, restaurante não é do clube, a faxineira não sei como era...

ESPN: Ironicamente, você acabou demitido justamente por colocar o Bragantino na Série B, que era a divisão que a Red Bull queria um time...
MV: Fiz ao todo 516 jogos na minha carreira pelo Bragantino. São três acessos pela mesma equipe, e um título nacional, a Série C em 2007. Quando voltei, em agosto em 2017, o clube estava lutando para não cair para a Série D. Era uma dificuldade muito grande, faltavam só três jogos e nós conseguimos salvar. A gente fez o planejamento do Paulista, reformulamos o elenco e sobraram só cinco atletas. Fizemos um bom Paulista e uma boa Copa do Brasil. E no Brasileiro, tivemos o acesso para a Série B, mesmo com muitas dificuldades na parte financeira. A gente achava que esse ano seria diferente. Todos os outros anos que disputei o Brasileiro no Bragantino nós não tínhamos receita. Foi sempre um campeonato deficitário. Esse ano, a Série B teria uma receita boa para os clubes e a gente poderia planejar o trabalho com uma condição mais segura. Eu teria isso. Infelizmente, não aconteceu...

ESPN: Ou seja: Você penou e acabou mandado embora bem na melhor hora, não é?
MV: Todo mundo fala isso. É uma verdade. A gente roeu osso e saiu na hora de comer o filé mignon, que seria a parceria com a Red Bull, uma condição boa. Ela será muito boa para o clube e para a cidade. Conheço as pessoas que estão à frente do Red Bull Brasil e conhecemos a capacidade deles e a seriedade de quem comanda. A gente sabe que é importante trazer uma empresa dessas para dentro da cidade de Bragança Paulista. Eles tiveram a felicidade de serem vencedores, será muito boa para todos. Torço muito para que dê certo. Profissionalmente, será muito bom. O Bragantino vivia muitas dificuldades e o presidente precisava colocar dinheiro do próprio bolso. Isso atrapalha e não consegui manter o mesmo nível do que uma empresa que irá investir no clube com a possibilidade de um acesso. Fico feliz, mas não tive essa possibilidade. Minha folha de pagamento neste Paulista era de R$ 200 mil. A dificuldade era bem grande. A empresa entrando agora ter uma possibilidade enorme das coisas darem certo. Pensando por esse lado, a gente roeu o osso e na hora do filé ficamos de fora... Acho que tudo isso é planejamento, a empresa tem o dela, o Bragantino tem o dele. Agora, vamos seguir em frente. Espero ter deixado as portas abertas por tudo que a gente fez. Quem sabe um dia a gente se encontra por aí?